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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
“Infelizmente, os vândalos não tinham youtube nem facebook...”

Tenho discutido em sala, com alunos, acerca da necessidade de se disputar os sentidos na luta pela hegemonia do significado. Por força das circunstâncias, parte da discussão acabou recaindo sobre o signo “vândalos”, muito em voga nesse contexto de mobilizações sociais. “Vândalos” foi o termo eleito pela grande mídia para classificar e, automaticamente, desclassificar a ação de parte dos manifestantes, em especial a que envolvia enfrentamento com a polícia, uso de pedras e força, destruição de patrimônio privado e público, saques etc. Mas, de forma geral, passou a ser sinônimo claro de toda ação envolvendo enfrentamento com a polícia, mesmo com as evidências indicando que a brutalidade, a violência, o atentado à vida e à ordem partiram, na maior parte das vezes, da própria polícia, o que levaria, no mínimo, a uma necessidade de relativizar-se quem, nestes casos, seriam os “verdadeiros” vândalos. Esta é uma forma de lutar pelo sentido e tem sido usada: o de associar o mesmo tom pejorativo e estigmatizante que a palavra carrega aos que ocupam o lugar da ordem e da civilização, colando o rótulo no comportamento policial e não no dos manifestantes.
Esta é a mesma estratégia que encontramos em cartazes e imagens que mostram descasos na área da saúde, educação, transportes, com hospitais e escolas deteriorados, serviços precarizados, mau uso do dinheiro público, ilustrados com frases do tipo: “quem são os verdadeiros vândalos?” e “Vandalismo é isso”. Também nesse caso, a disputa parte de um reconhecimento do significado vitorioso (“vândalos” são os que atentam contra a ordem pública e deterioram a cidade e a sociedade), e o que se desloca em termos de disputa é o sujeito em quem se colará o preconceito, e não o sentido da palavra em si.
Entendo que talvez seja importante, no entanto, lutar pela palavra em si, pelo signo enquanto significante deslizante, peça fundamental na arena de disputas pelo significado. Segundo a wikipedia, o primeiro a associar o termo com um “espírito de destruição” sabia perfeitamente disso, como podemos ver no trecho abaixo:
“O termo "vandalismo" como sinônimo de espírito de destruição foi cunhado no final do século XVIII, , em janeiro de 1794, por Henri Grégoire, bispo constitucional de Blois; ele cunhou o termo e o tornou comum através de uma série de relatórios para a Convenção, denunciando a destruição de artefatos culturais como monumentos, pinturas, livros que estavam sendo destruídos como símbolo de um ódio ao passado de “feudalismo”, "tirania da realeza" e "preconceito religioso", durante o Reino do Terror. Em seu livro Memoirs, ele escreveu: "Inventei a palavra para abolir o ato". “(linkaqui, o grifo obviamente é meu!)
“Inventei a palavra para abolir o ato”! Henri Grégoire estava por dentro: o discurso é ato, cria mundo, gera não só a interpretação da realidade, mas a própria realidade, que para além de existir materialmente, é sempre construção social. Então precisamos, penso eu, assim como Grégoire, re-inventar a palavra para instaurar o ato. Pois quem eram os tais dos vândalos? O que eles tinham, fizeram, criaram, para além da representação consagrada e hegemônica de terem sido o tal povo que saqueou Roma em 455, “destruindo muitas obras primas de arte que se perderam para sempre” (no mesmo verbete da Wikipedia que citei acima). Aliás, quem não saqueou Roma naquele contexto, não é, minha gente??? Vândalos ficaram com a fama, meio injustamente (esse argumento tá aqui nesse simpático trabalho escolar).
Mas nas duas fontes que citei até aqui, o verbete e o trabalho, não temos praticamente uma única linha sobre a cultura vândala (e nem em inúmeras outras fontes que encontramos quando digitamos no google as palavras-chave “cultura dos vândalos” e outras em torno destas). Só sobre sua suposta origem geográfica, que seria ali pela Noruega, segundo consta. Ponto engraçado esse, pois a Noruega num me parece um lugar muito atrasado hoje em dia, se quiséssemos usar os mesmos critérios do ocidente “civilizado” para desclassificar um povo/grupo/etnia como vândala, atrasada, bárbara, selvagem etc. Se fossemos por esse caminho, poderíamos perguntar: ué, então a herança vândala num seria tão perversa assim? Pois taí, mais um sentido pra disputar.... mas não é esse o caminho que escolheremos percorrer aqui.
Continuando, as fontes só falam deste aspecto e, principalmente, da invasão vândala na parte oeste da Europa, na França, Itália, Portugal, Espanha... e destruindo tudo, segundo as fontes e o senso comum e o discurso em ato do Grégoire e a mídia tradicional e as autoridades brasileiras. Ah, e parece que eles migraram para oeste forçadamente, porque foram atacados pelos hunos. Pera aí: então eles reagiram a uma agressão? Então os hunos seriam os “verdadeiros” vândalos??? Num parece semelhante com o que apontei acima, no caso recente brasileiro? Não faltam disputas significativas, pelo que podemos ver... mas também não seguiremos por essa vereda.
Pois, para concluir essa parte, quer dizer que as principais referências sobre os vândalos são construídas pelos povos que, supostamente, eles destruíram? Não se tem algo mais vândalo, por assim dizer, sobre o ser vândalo, só um olhar ocidentalizado sobre a identidade vândala? Aí fica complicado, né?  Não parece semanticamente muito justo que a representação sobre o outro seja construída na ausência do outro, só abarcando o outro visto pelos olhos do “um”, principalmente um “um” rancoroso e posteriormente vitorioso. Mais uma vez, não parece semelhante com o que faz a mídia no que tange às representações dos manifestantes como vândalos? Não fica faltando a representação que os “vândalos” teriam/têm deles mesmos?
Não sou uma especialista em História romana nem vândala etc. Tô aqui na humildade procurando referência sobre a cultura dos vândalos, no bom e velho google, por que fiquei curiosa sobre essa tal “cultura vândala”. Tá difícil. As referências são quase todas no naipe do que citei acima (origem nebulosa e saque de Roma etc.). Mas a gente pode fazer um exercício imaginativo, creio eu (claro que deve ter muito livro porreta sobre a cultura vândala, penso, mas num tá fácil de achar na internet, não. Então, vamos seguir com o que encontramos). Vamos pedir ajuda dessa fonte aqui. Nela, o autor descreve os povos “bárbaros” (vândalos dentre eles), assim:
“A maioria destes povos organizavam-se em aldeias rurais, compostas por habitações rústicas feitas de barro e galhos de árvores. Praticavam o cultivo de cereais como, por exemplo, o trigo, o feijão, a cevada e a ervilha. Criavam gado para obter o couro, a carne e o leite. Dedicavam-se também às guerras como forma de saquear riquezas e alimentos. Nos momentos de batalhas importantes, escolhiam um guerreiro valente e forte e faziam dele seu líder militar. Praticavam uma religião politeísta, pois adoravam deuses representantes das forças da natureza (...).”
Sei lá, posso imaginar um povo festeiro, com uma rica cultura rural, uma mitologia complexa e interessante, uma ética ligada a valores como honra e valentia, num sei, coisas assim. Devem ter sido muito interessantes, esses vândalos. E provavelmente deixaram uma contribuição rica para o caldeirão que formou a cultura ocidental no decorrer da Idade Média, depois que amalgaram com os povos do oeste. Nosso autor aí de cima concorda:
“A mistura da cultura germânica com a romana formou grande parte da cultura medieval, pois muitos hábitos e aspectos políticos, artísticos e econômicos permaneceram durante toda a Idade Média”.
Temos, então, um outro quadro, de difícil apreensão. Os vândalos teriam uma riqueza cultural que não conhecemos, porque a história que nos chega não foi escrita por eles. Contribuíram, assim como outros povos, para a cultura ocidental, mas seu registro na história é o de saqueadores e destruidores. Passaram a ser estigmatizados em um momento, segundo o wikipedia, de atribuição explícita de sentido, no século XVIII, pelo tal Grégoire. E é neste recorte de sentido, apresentado como verdadeiro, que a mídia hegemônica ancora a representação dos manifestantes brasileiros atuais como vândalos.

Minha proposta? Lutar pela positivação da palavra “vândalos”, e não negá-la e empurrá-la como uma praga semântica para o outro. Vamos nos apropriar do vandalismo como essa riqueza cultural que não foi contemplada e reconhecida, como essa voz que nunca foi ouvida, como esse povo que sob pressão teve que se mover e construir novos sentidos para sua vida... Vamos ser vândalos com orgulho, mas não por que quebramos tudo, mas por que somos aqueles que não puderam ter voz na história, que não tiveram sua cultura registrada e reconhecida, que são traduzidos pela hegemonia com a perversão do sentido único, fetichizados pelo olhar colonizador em um misto de desejo e repulsa. Vamos nos libertar do sentido dado, pronto, fechado, e recusar não só estigma de ser classificado como vândalo = baderneiro, mas recusar principalmente o estigma a que foram confinados os próprios vândalos, de quem sabemos tão pouco. Os vândalos também foram oprimidos pela história hegemônica e, de certa forma, também é nosso dever lutar por eles. Infelizmente, os vândalos não tinham nem youtube nem facebook e acabaram sendo relegados, pelo olhar dominante, a um lugar fixado: o da destruição e da ausência de história própria. Devemos, por eles e por nós, desconfiar disso e lutar pela flexibilidade dos sentidos. Somos todos vândalos, não somos todos vândalos, nem mesmo os vândalos, pelo visto, eram os vândalos... e é isso o que importa da cultura, como me ensinou Stuart Hall, que ela seja essa imensa “arena de disputas pelo direito de significar”.



"Enfim, ser "vândalo" é atrapalhar um projeto estabelecido de cidade, é romper com a ordem (raríssimos são os contextos onde consigo ouvir esta palavra sem sentir calafrios, se existem, no momento, eu não me recordo!), sair do lugar das exclusões e dos silêncios... Mas isso, todo bárbaro ("o outro") é, não é mesmo? Sem dúvida, mas o estigma histórico colocado aos "Vândalos" nos indica o peso, o grau da ameaça, da potência e das transformações que geraram pra "civilização"... Logo, carregar, na atualidade, os mesmos estigmas é imprimir aos manifestantes a mesma potência transformadora. Ameaçadora. E, só por sentir o medo na fala do opressor, qualquer estigma vale a pena" (este ótimo parágrafo final, escrito a partir da reflexão acima, é uma colaboração da Patricia Cormack, disputando os sentidos e propondo outras leituras. Show!)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Sobre o pronunciamento da presidente Dilma, achei previsível. Se declarou favorável às manifestações democráticas e pacíficas. Prometeu reprimir o vandalismo para restabelecer a ordem. Se mostrou aberta ao diálogo. Prometeu pacto social. Sugeriu medidas para resolver alguns problemas. Lembrou da importância de realizarmos uma copa ordeira e sem incomodar os visitantes. Enfim, falou o que um chefe de Estado deveria falar para acalmar a nação em um momento complexo e perigoso. Nesse ponto, tudo bem, tudo certo. Era isso mesmo que precisava ser feito. Ponto para o governo.
Mas queria tecer algumas considerações:
a) Acho lamentável que o governo incorpore os termos “vândalos” e “baderneiros” constituídos estrategicamente pela mídia hegemônica sem prometer investigação sobre quem seriam esses sujeitos etc. Acho isso perigoso em termos de fechamento de sentido e vergonhoso para um Partido com a história política do PT;
b) Acho lamentável falar-se em democracia etc. e não se colocar uma só palavra sobre a ação das polícias. Isso é uma omissão calculada e imperdoável, aí não só para uma presidente e um partido com a história de ambos, mas para qualquer autoridade constituída. O que as polícias estão fazendo nas ruas, como demonstram MILHARES de depoimentos e centenas de imagens, é crime. E quando uma autoridade instituída se cala sobre uma ação criminosa perpetrada pelo Estado ela é tão criminosa quanto. Já tinha falado isso antes, em episódios como Pinheirinhos etc. Para mim, sinceramente, isso é imperdoável. Não sei vocês, mas eu nunca esquecerei esse silêncio;
c) Militei muito pelo PT. Votei nele continuamente. Inclusive em todas as eleições do Lula e na da Dilma, por quem inclusive fiz campanha aqui. Então me sinto totalmente livre para falar, porque não sou anti petista, anti lula etc. Também não sou simplificadora, sei que é incomparável o quanto o país avançou em alguns pontos em relação ao governo FHC, e não tenho dúvida que o PSDB é MUITO PIOR para o país. Vejo ganhos sociais óbvios para a democracia no bolsa família, na política de cotas,  na área das políticas culturais (embora mais nos governos lula), na ascensão econômica de alguns setores da população etc. Mas isso não me torna cega e impossibilitada de criticar o que vejo de problemas no governo do PT. Acho que se trata de um governo contraditório, com alianças políticas imperdoáveis principalmente por sua história e pelo quanto elas são perniciosas ao país (Cabral, Paes, Sarney, Collor, Renan etc.), com ações totalitárias disfarçadas de democráticas (vide o que aconteceu na greve dos professores no ano passado), que tem servido fortemente ao grande capital, que beneficia banqueiros, mega empresários, grande corporações midiáticas e econômicas, que abandonou sua juventude militante, que tem sido omissa em aspectos imperdoáveis, como a violência policial, a falta de políticas públicas para resolver de fato as questões de saúde e educação, combate à corrupção e outros pontos complexos, como o crescimento da influência de setores particularistas e sectários como bancada religiosa, bancada ruralista etc. nas decisões políticas. Sim, neste sentido vejo que o PT trouxe ganhos para o país, mas também retrocessos e permanências. E quero ter o direito de poder falar sobre isso, sem maniqueísmos. E quero ter o direito de dizer que como militante deste Partido me decepcionei profundamente com ele. Mas eu era mais jovem, agora sou mais cascuda e isso também tem ganhos e perdas, sou mais cética e cínica, o que me permite análises menos apaixonadas, mas para compensar mais tristes. É isso, entendo politicamente boa parte das ações do PT, por vezes até as defendo porque entendo melhor as regras do jogo, mas considero algumas imperdoáveis (a omissão quanto à violência policial é uma delas) e me dou o direito de expressar minha tristeza com essa desilusão. Me sinto muito triste porque no poder o PT não foi o partido que alimentou meus sonhos de juventude.
d) Por fim, mesmo com o parágrafo anterior, sei que política é isso mesmo. Tem movimentos, concessões e negociações complexas e escorregadias. Assim sendo, voltarei à fala da Dilma ontem. Acho que o PT, mestre histórico pela experiência acumulada nos movimentos sociais e nessa década de poder instituído, sabe como poucos partidos faturar em cima da pauta dos movimentos sociais. Acho que o pronunciamento de ontem mostra isso claramente. Questões como pacto social, plano de mobilidade urbana, projeto dos cem por cento do petróleo para educação, proposta de trazer médicos cubanos para o país, os gastos com a copa etc. já estavam em jogo, despertando polêmicas justas porque são contraditórios, mostram muitas vezes um empenho de agradar o capital, em outras se mostram de fato projetos para melhorar condições sociais. Enfim, projetos complexos, que precisariam de maior debate social. Só para citar um exemplo: os cem por cento para a educação. Que educação? A pública, que continua sucateada apesar de discursos e programas como o REUNI? Ou a privada, que tem sido muuuuuito privilegiada nos últimos tempos? E como ficam os municípios que sofrem diretamente o impacto da exploração do petróleo? Não serão indenizados para que possam tentar mitigar esse impacto?  Então, precisamos discutir isso, como muitos têm sinalizado. Agora, quando a presidente coloca esta fala em um discurso apaziguador, em meio a uma tensão social ansiosa e aparentemente explosiva, me parece uma clara estratégia de faturar em cima dos acontecimentos, forçando uma aprovação emocional à proposta a partir do clamor popular. PT é uma raposa velha no campo político, sabe como poucos faturar em cima de episódios de forte impacto midiático. Repito: assim como na greve dos docentes universitários do ano passado, o partido silenciou primeiro, depois deslocou a pauta, contou com a expressiva fala da grande mídia fechando os sentidos e conquistando a opinião pública, prometeu diálogo, fingiu dialogar e nunca dialogou e depois aprovou o que quis. Rolo compressor sim, às custas de luta nas ruas/universidades, mídia hegemônica a favor e artimanhas políticas e discursivas. Não considero isso uma novidade nem uma surpresa, acho que faz parte do jogo político e considero que o PT é um mestre nesse tipo de jogo. Por isso disse que era previsível. Sobre essa parte nem me decepcionei nem fiquei triste, acho que é isso mesmo, faz parte da luta política faturar em cima dos episódios. E temos de reconhecer: esses caras são bons nisso.
e) Além disso, é preciso também estar atento a artimanhas que poderiam favorecer ações golpistas. Isso, obviamente, não podemos tolerar. Neste sentido, fechamos com o PT, como fecharíamos, democraticamente, com partidos eleitos dentro do jogo democrático. Mas isso também não nos impede de perceber que esse tipo de ameaça e pressão também é ambígua, porque se por um lado nos obriga a rechaçar ações e atitudes golpistas, também permitem que o partido forcem uma aprovação temerosa a suas propostas, visando fortalecer o poder instituído. Neste sentido, o medo de golpe que ameaça também permite que se fature sobre ele.

f) Enfim, agora bora cobrar as promessas etc. Mas elas não são novas, né? Já eram de campanha etc. Mas nem por isso acho que as mobilizações não têm ganhos. Sobre isso, falei no post anterior, e tá tudo no meu blog pra quem quiser acompanhar meu argumento todo.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Estamos em meio a um processo complexo e deslizante, com muitos ângulos a serem considerados, por isso tenho distribuído, partilhado e sugerido que a gente veja, leia, ouça, experiencie muitas coisas e evite fechar conclusões. Muita coisa ainda vai acontecer, mas gostaria de tecer aqui alguns pontos sobre as mobilizações sociais das últimas semanas, fruto de algumas reflexões, sem maiores pretensões à verdade e disposta ao diálogo:
1) As mobilizações colocaram as questões políticas na agenda coletiva das conversações, em meio a uma copa de futebol, que normalmente mobiliza o imaginário geral. Isso, a meu ver, é um grande ganho;
2) Também considero um ganho, ainda que em suas múltiplas discursividades e ambiguidades, que as juventudes urbanas contemporâneas possam ter visibilidade e expressão. É importante para todos nós que esses agentes possam se colocar, e é justo com essa geração, muito oprimida pela sociedade de consumo, pela hedonização da vida, pelo fardo da história que cobra dela que seja ativa e militante, pela precarização das condições de vida e de trabalho, pelas ansiedades sintomáticas da sociedade pós-moderna.
3) Outro ganho, embora muito doloroso em todos os sentidos possíveis: explicitou publicamente a truculência dessa polícia repressora e excludente, fazendo com que parte considerável da população sentisse na pele o que sofrem historicamente as classes oprimidas economicamente, em especial os moradores de periferia, favelas, subúrbios e os jovens afro-descendentes, inclusive dando visibilidade em escala mundial a imagens dessa violência bruta e vândala das polícias brasileiras de forma geral. Talvez, nesse ponto, tenhamos, a partir de agora, um esforço mais coletivo de luta em torno dessas ações opressivas contra as quais temos que continuar permanentemente denunciando e nos manifestando, independentemente de quem seja vitimado por essa truculência totalitária e autorizada pelo Estado, a qual NÃO PODEMOS ACEITAR.
4) Mais um ganho, que em parte resulta de algumas perdas: ficou claro, a meu ver, que os movimentos sociais tradicionais precisam se recolocar, compreender esse processo histórico e repensarem suas formas de atuação, pois sua ausência num manifesto desse monte e repercussão é expressivo de um esvaziamento de seu lugar na agenda coletiva. Precisam aprender a falar com as múltiplas juventudes, suas formas de expressão, com as novas tecnologias, com a lógica das redes. Precisam, urgentemente, se recolocarem no processo histórico, porque não podemos abrir mão de sua experiência e habilidades, aprendendo com os jovens, reconhecendo a necessidade de novas abordagens, rompendo com lugares confortáveis de poder;
5)  Os novos movimentos sociais, especialmente de jovens de esquerda, também precisam aprender com os recentes acontecimentos. Sua potência é fabulosa, sabem usar as novas tecnologias muito bem, manejam de maneira impressionante as lógicas de redes, mas não podem prescindir da experiência dos movimentos sociais já instituídos, como sindicatos, partidos, associações e setores ainda combativos dentro da universidade, precisam dialogar e trocar mais intensamente com eles, para efetivarem a potência em mais poder. E para não ficarem tão atônitos e perdidos quando a lógica de redes se mostrar exatamente como é: descentrada, diversa, escorregadia, complexa. Parece fácil lidar com ela, mas não é. A rua não é como o facebook, infelizmente, onde basta excluir quem te oprime, irrita, contesta, atrapalha, violenta etc. Na rua, vai ser preciso lidar com a multiplicidade, com as apropriações físicas e simbólicas, com a força bruta que a multidão facilita, com a flexibilidade... lidar com a não rigidez das ruas num é tarefa fácil, e acho que este é outro ganho deste processo, a compreensão de que é preciso aprender a lidar de outras formas com isso;
6) Também considero um ganho que parte considerável da sociedade entenda mais claramente o poder das redes sociais virtuais. Isso ajuda na luta. Mas como nos lembra a canção, “é preciso estar atento e forte”, porque a compreensão cada vez mais evidente desse aspecto também passa a ser preocupação e estratégias dos múltiplos sujeitos em cena, incluindo as direitas conservadoras, a mídia gorda, o Estado etc. Ou seja, trata-se de ferramenta ambígua, que precisa ser discutida também.
7) Considero um ganho o recuo na questão do aumento das passagens em vários locais do país. As mobilizações não eram só por vinte centavos, mas também eram. E nesse sentido é interessante perceber que os poderes instituídos se mostraram dispostos a negociar em alguma medida. Mas é preciso ficar muito atento para que este recuo não se mostre uma grande armadilha, com o repasse deste custo para outros setores de investimento social e, principalmente, para que ele não esvazie as outras pautas.
8) Pois também sabemos que não se trata só de vinte centavos. Então, é preciso que as lutas não esmoreçam. Requer mais discussão, compreensão, articulação, análise conjuntural e estrutural, enfim, não se resolve nada, sabemos todos, em um dia, uma semana, um mês. Também não podemos deixar que as instituições hegemônicas se apropriem da pauta e faturem com ela. Temos de continuar as disputas. Inclusive cobrarmos, a partir dos posicionamentos discursivos das autoridades constituídas, como a presidência da República, que de fato se institua o diálogo prometido e a ação para atender às demandas, evitando que se trate somente de pirotecnia discursiva para legitimar posições anteriores e forçar a aprovação de medidas de interesses contraditórios e escusos às custas de pessoas apanhando em seu nome nas ruas (sobre isso, falarei em outro post).
9) Neste sentido, essas disputas precisam ser pensadas em múltiplos ambientes. Nas ruas, com certeza. E nas esferas discursivas, com certeza. Mais do que nunca, precisamos ocupar as redes sociais, presenciais e virtuais. Precisamos provocar a discussão e lutar pelos sentidos nas grandes e pequenas mídias, nas escolas e universidades, na internet e em todos os lugares em que o discurso polifônico e dialógico está em disputa, porque mais do que nunca isso ficou claro: a luta é também discursiva, eu diria que fundamentalmente. E a percepção disso é, a meu ver, o mais significativo dos ganhos, dentre os que listei (embora caibam muitos outros), dos recentes episódios de mobilização social;
10) Ainda estamos em processo, por isso arriscamos algumas interpretações, mas sabemos que estamos em meio a algo complexo, confuso, múltiplo e deslizante, por vezes incontrolável. Bem, bem-vindos à vida, meus amigos. Ela é isso mesmo. Essa torrente, essa espuma, essa multidão. O sonho iluminista acreditou um dia que seria possível fechar o sentido e ordená-lo, mas sabemos que isso só é possível em práticas totalitárias. Os sentidos estão abertos e em disputa, não é fácil lidar com isso, mas volto a dizer: eis a vida. Por isso, não vejo fracassos nem vitórias, vejo movimentos e deslocamentos do sentido, perdas e ganhos, alguns empates, disputas permanentes. Portanto, sigamos na luta. Isso não é exatamente uma escolha, é o viver mesmo. Viver é lutar. Paramos de lutar, morremos.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Algumas observações pós o histórico dia 17 de junho e a manifestação dos mais de cem mil no Rio de Janeiro na "revolta do vinagre" ou dos vinte centavos:




Hoje, com mais tranquilidade e com ajuda do teclado do computador, pois ontem estava postando do tablet e do celular, posso escrever com mais calma. 

Quando recomendo que as pessoas tenham calma e não tirem conclusões levianas a partir de imagens e informações divulgadas pela mídia tradicional, desde muito alinhada aos poderes do Estado opressor e do Capital soberano, não estou dizendo, EVIDENTEMENTE, que aquelas imagens não existiram. Quando digo que as pessoas devem ouvir e ver outras fontes, imagens, depoimentos etc. porque a mídia gorda, como a globo e outras grandes emissoras, mente, não estou dizendo EVIDENTEMENTE que tudo o que passa na tevê é mentira. 

Mas só estou chamando a atenção para alguns aspectos importantes: 

1) narrativa envolve enquadramento, posição de sentidos, escolhas de ângulos e de estratégias enunciativas. Pô, sabemos disso perfeitamente quando vamos contar pra um namorado/a algo que sabemos que pode provocar uma briga que não queremos. Escolhemos o ângulo, a ordem dos fatos, engolimos algumas partes, enaltecemos outras etc. São estratégias da produção discursiva. Sabemos disso perfeitamente em casos pessoais. POR QUE ENTÃO AS PESSOAS INSISTEM EM DESCONHECER QUE ISSO É CONSTITUTIVO DE TODA NARRATIVA? Por que diabos pessoas capazes e críticas da minha TL se transformam em obtusas e teimosas defendendo que as imagens que assistem na tevê são VERDADEIRAS? Pô, não entenderam ainda que é narrativa, que revela posições e interesses, que inclui trabalhos de construção de memória, projeto e identidade? Assim fica difícil um mínimo de diálogo porque parece que vc está conversando com um cientificista do século XIX que fica berrando "A VERDADE, A VERDADE", "A NEUTRALIDADE, A NEUTRALIDADE", "A OBJETIVIDADE, A OBJETIVIDADE"... AH, PARA!!!! isso no século XXI, com todas as teorias do discurso, desconstrução dessas ideias tendo bombado, redes múltiplas de discurso nos mostrando o quão frágil é a ideia de verdade... Na boa, pára! Fica feião ; 

2) todo sentido é construído e disputado. Quanto mais se tem posição e interesses definidos na luta, mais há um esforço pra fechar o sentido. É isso que a mídia tradicional faz, mais ainda. Ela fecha o sentido, pra ganhar a disputa e impedir a multivocalidade. Assim, ela apresenta um ângulo só, uma versão transformada em verdade, e não dá voz aos movimentos polifônicos e dialógicos que compõem o discurso. Exemplificando, pra todo mundo entender: tá lá o povo tacando fogo na ALERJ. Ok, vandalismo de patrimônio público, segundo a mídia. Mas deveriam caber uma série de perguntas antes de fechar o sentido, se é que dá pra fechar: Mas quem começou? Quem são aquelas pessoas tacando fogo? Qual o seu lugar na manifestação? Eram manifestantes? Eram infiltrados? Qual o papel da policia? Por que ela estava acuada? Onde estava a policia? Escondida? Como a mídia gorda, rede globo, por exemplo, pode ter chegado a tantas conclusões verdadeiras e definitivas de cima de um helicóptero? O q significa a globo tirar a identificação do seu microfone, equipamentos, repórteres? Vc falaria com a globo se soubesse que era ela? Vc falaria a mesma coisa q falou achando que era para uma mídia alternativa? Quem a grande mídia ouviu? Ouviu pessoas envolvidas, manifestantes, policiais, transeuntes? A quem interessa as imagens de vandalismo no fim de uma mega passeata com 100 mil pessoas? O q vale mais: o patrimônio ou a vida humana? O que significa vandalismo? Qual o sentido moral da palavra vândalos na história da conquista ocidental? Por que se optou por essa palavra para classificar as ações mais violentas nas passeatas? Quem foi baleado? Quem atirou? Eram balas de q tipo? Quem de fato quebrou as janelas do Paço, as pessoas ou as balas? Quem foi preso? Por que um fotografo e estudante de jornalismo foi preso e autuado por formação de quadrilha? Por que a mídia gorda parou de mostrar a multidão pacifica que ainda protestava na Cinelândia e só focou no tumulto? A quem interessa a imagem de uma passeata "pacifista"? A quem interessa a imagem de uma passeata de "vândalos"? Qual o contexto de opressões cotidianas que podem levar alguém a um ato violento? Qual o papel da violência? Quais os jogos e interesses políticos em torno de uma mobilização social como a de ontem? Não seria importante ver outras visões, ângulos, fontes, imagens, testemunhos antes de chegar a qualquer conclusão? Olha só quantas perguntas, dentre muitas outras que poderiam ser feitas, só listei as que me vieram mais imediatamente aqui. 

Pô, frente a essa multidão de perguntas, como alguém pode abraçar e se conformar com um ponto de vista só, construído a partir de interesses, sabendo que a narrativa é sempre uma disputa? Desculpe, vc se passa de indignado e dono da verdade, mas vc só é bobo e enganado. Abra sua cabeça, pense melhor, veja o mundo! Ele é complexo, num cabe em simplificações, ele requer que a gente escute, veja, pondere, sinta, reflita para balizar nossas posições críticas. E muitas vezes mudar de lado, relativizar, ter dúvidas. Assim crescemos todos.




Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Acompanho com ardor e admiração o empenho com que meus jovens e amados alunos e ex-alunos militam pelos sonhos, pelas causas justas, por um mundo melhor. Neste momento, eles, assim como milhares de outros jovens e também pessoas das mais diversas faixas etárias e sociais, nos mais diversos pontos do Brasil e do mundo, estão saindo às ruas para protestar contra o  aumento das passagens no transporte público (cada vez menos público e cada vez mais excludente, sectário, aviltante, fora de qualquer condição de humanidade e serviço público aceitável), e também por seus direitos e muitas outras causas, inclusive de se manifestar, vide que a polícia vem reprimindo de forma inconstitucional, violenta e INACEITÁVEL os protestos pacíficos e garantidos por lei, como demonstram os inúmeros vídeos que circularam pela internet nas últimas semanas, bem como depoimentos contundentes e emocionantes.

Gostaria muitíssimo de me juntar a eles, como já o fiz em diversas manifestações públicas quando era mais jovem. Mas, infelizmente, a vida me deu uma pernada e me premiou com problemas de hipertensão que me fogem ao controle. Não vem ao caso, e pensei muito antes de escrever sobre isso, pois trata-se de questão íntima, mas minha pressão, quando minha adrenalina sobe, dá picos de inacreditáveis 22 x 12, 24 x 13. Enfim, num posso mesmo, mesmo querendo muito, me segurando muito aqui, participar de qualquer ato ou manifestação pública que gere riscos de adrenalina em alta...

To explicando isso aqui porque achei importante me posicionar. Estaria na luta com todos nas ruas, SEM DÚVIDA ALGUMA, se eu pudesse. Mas num posso, infelizmente. Mas isso não me faz não apoiar nem acreditar na luta de todos nós, ao contrário. Agradeço muitas vezes, diariamente, por vocês me representarem nessa luta, peço que os deuses todos protejam a todos os corajosos e tenazes que vão para as ruas, protestam, portam cartazes, cantam, dançam, gritam, encaram a polícia, não se calam... e me sinto muito recompensada, particularmente, por conviver diariamente, em sala de aula, com pessoas lindas que não se conformaram com as regras convenientes e limitadoras do mercado e da mediocridade. Por vocês, minha mais profunda admiração e gratidão.

Mas também agradeço muito pela emergência, vias novas tecnologias, das novas ferramentas de redes e comunicação social. Porque através delas, de alguma forma, usando também as minhas armas, que é meu poder com as palavras, minha capacidade de articulá-las e me fazer ouvir, eu posso também participar da luta. Posso também me expressar, falar de minha indignação e dor, me comover e denunciar as dores que são impetradas aos outros. Através dessa outra forma de lutar, posso também participar, reconhecendo meus limites, aplaudindo os que botam a cara a tapa para lutar por mim nas ruas, mas dando aqui o meu apoio, minha contribuição, meu esforço por um mundo melhor.

É isso. Queria explicar e me colocar. Luta linda e justa, em frente. Tamo junto! Viva a voz das ruas, viva o movimento da vida, viva a juventude e seus sonhos!


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Sábado estava almoçando, com mi amore, no Varandão, restaurante que adoro no centro de Friburgo. Presenciamos uma cena deliciosa, que agora quero compartilhar com vcs. Na mesa atrás de nós, duas moças pediram um petit gateau. Quando a garçonete trouxe o prato, sucedeu o seguinte e maravilhoso diálogo:

Garçonete 1 (ao colocar a sobremesa para a cliente):  
- vem cá, você comeu um Petit Gateau outro dia, num foi?
Cliente (meio pasma):
- hum, acho q sim, ehhhh....
Garçonete 1:
- Comeu sim, eu vi a foto, você colocou no facebook.
Cliente (rindo, meio sem graça):
- Ah, foi mesmo, é mesmo...
Garçonete 1 (com ar inquisidor):
- Mas num foi aqui, não, foi no lugar Fulano de tal [não entendi o nome, hahahaha, tava ligada na fofoca mas   marquei bobeira], num foi?
Cliente (mais sem graça ainda):
- Foi, foi sim (voz sumindo).
Garçonete 1:
- O de lá num presta, não. É maçaroca. O daqui é calda mesmo. Olha a diferença, vc vai ver, outra coisa.
E sai feliz com a reprimenda.
Cliente (para a amiga):
- hahahahaha, que engraçado!
Nós na mesa do lado:
- hahahahaha (baixo, pra num perceberem que estávamos ligadas).

Passa um tempo. Garçonete 1 some. Vem a Garçonete 2. Vê a cliente comendo o bendito Petit Gateau. Pára e comenta:
- Tá gostoso? Já comeu o do Girafa's? Num presta, não. O daqui é bem melhor, o de lá é massudo.

hahahahahahaha. Adorei esse momento palpiteiro das garçonetes e, principalmente, adorei ver o risco que se corre ao se postar coisas no FB em uma cidade de menor densidade populacional, onde as pessoas tendem a se conhecer. ::)))
Fica a dica: petit gateau é no Varandão. O resto é maçaroca massuda. Eu, de qualquer forma, pedi um pudim de leite, achei menos polêmico.:)

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
adoro coments no blog, negativos ou positivos. Mas só permito os identificados. Anonimato pra comentar opinião alheia é covardia. Aqui só rola quem se posiciona, regras da casa. E quem coloca nome sem link, sem ser conhecido previamente, pra mim é anônimo tb. E num aceito grosseria gratuita em coment. Como disse, regras da casa. Apaguei muitos hoje. Gente chata! vai fazer um blog pra encher a paciência dos outros, peloamor!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Se isso num é ideologia ... não sei o que mais pode ser!

Mauro Ventura, em trecho de livro SOBRE INCÊNDIO no circo EM NITERÓI EM 1961 (ou seja, sobre um acontecimento que nada tem a ver com o contexto referente ao trecho abaixo, que aparece como quem não quer nada no meio do livro):

"Se não tivesse escapado do incêndio com a ajuda do pai, o comandante-geral da Polícia Militar (...) não teria se tornado um dos principais nomes da maior vitória das forças de segurança sobre o crime da história do estado do Rio, com a tomada da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, em novembro de 2010" (p. 29).

???? Pode??????


E pra fechar meu coment sobre esse livro: como uma boa ideia e um bom material de pesquisa podem ser desperdiçados, vou te contar!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hj assisti, finalmente, à animação Rio. Olha, por que o diretor/autor/roteirista, enfim, por que os responsáveis por uma animação tecnicamente impecável, com personagens simpáticos, com paisagens cariocas fabulosas, dão uma de "babaca mor" ao colocarem os micos (todos pardos/morenos) como ladrões e funkeiros? Qual a necessidade de ser tão escroto, meu pai?

Por que alguém se dá ao trabalho, depois de fazer a analogia óbvia acima, de colocar na boca/bico de um pássaro BRANCO a inacreditável frase "isso que dá mandar macaco fazer trabalho de ave" (não estou citando literalmente, mas é isso aí, mais ou menos).

Cara, num consegui mais curtir o filme. Aí a gente fala e o povo reclama do politicamente correto. Gente, qual a necessidade de ser tão preconceituoso, tão gratuitamente preconceituoso, tão gratuitamente babaca? Num consigo entender.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hj tive o desprazer de assistir ao inacreditável discurso da dep. estadual Myriam Rios (sim, ela foi eleita! Sim, me recuso a postar aq e ofender ao meu blog querido!) sobre suas posições acerca das leis anti-homofobia (ela está se opondo ao PEC 23/2007, que na surdina foi votado e derrubado no dia 21/06/2011. Saiba mais aqui e vejam no que dá ter tolerância com quem é intolerante. Mais uma regressão no campo legal, que lamentável!). Não deveria mais perder tempo com essa gente que não se sabe se age assim por má fé (que ironia, né?), ignorância, medo, obscurantismo, vontade de aparecer, ah, nem sei mais como classificar essa profusão de falas homofóbicas, preconceituosas e discriminatórias que são emitidas em público com um suposto aval da democracia, do livre pensamento religioso, do sei lá mais o quê. Para mim, são discursos ofensivos e empobrecedores do debate, mas, principalmente, extrapolam o campo dos argumentos e geram ações como a derrubada do PEC 23. Portanto, resolvi que num dá para me omitir e não comentar a surreal fala acima citada.

Vamos aos pontos:

1) ela afirma, no discurso, que se o PEC 23/2006 for aprovado ela ficará impedida de demitir um empregado se ele for pedófilo. Oi? gente, pelo amor de Deus, avisa pra essa senhora que pedofilia é crime, então ela pode sim não só demitir como principalmente denunciar um pedófilo! O que ela não pode é fingir que num sabe (porque num é possível, eu sei que ela sabe) que pedofilia não é sinônimo de ser gay, e que existem pedófilos homossexuais, infelizmente, mas também infelizmente pedófilos heterossexuais (e muitos, minha senhora, muitos!). Portanto, se seu empregado, hetero ou homossexual, for um pedófilo, a senhora deve mesmo demiti-lo, denunciá-lo, fazer de tudo para que ele não possa agir nem perto de seus filhos nem dos filhos de ninguém (estratégia melodramática muito usual e eficiente, a de chamar a comoção do público para seus argumentos usando da seguinte frase: "sou mãe de dois filhos", usada não só por Myriam Rios, mas por tantos outros "defensores da família" e, em nome disso, defensor dos preconceitos também, vide a fala de Leilane Neubarth que já comentei nesse post). Mas o que a senhora não deveria (e se tudo correr bem, se o mundo for justo, com aprovação posterior dessa Lei - ela ainda terá que ser objeto de apreciação mais uma vez - ou de outras, como a PL-122, o que a senhora NÃO PODERÁ) é imputar a uma pessoa um rótulo criminalizável, como associar a um homossexual a acusação de pedofilia, a priori, porque isso é discriminação e também calúnia e difamação.

2) Vamos entrar agora nesse surreal argumento "Quero dizer que não tenho preconceitos, que não estou discriminando ninguém", pra depois sair discriminando a torto e a direito, povoando o mundo de
preconceitos e estigmas aviltantes. Vou repetir: NÃO PODEMOS TOLERAR QUE OS DEFENSORES DO PRECONCEITO, ESSES ARAUTOS TOTALITÁRIOS QUE QUEREM IMPOR SUAS VISÕES DE MUNDO SOBRE OS DIREITOS DOS OUTROS, ADVOGUEM DIREITO DE IGUALDADE DE OPINIÃO, DIREITO DE EXPRESSAR SEU PRECONCEITO PORQUE ISSO É DEMOCRÁTICO. Não, não é. É totalitário, já escrevi sobre isso nesse post e não vou me repetir. Mas não aceitamos mais esse argumento. Bata no peito e assuma: sou totalitário, quero despedaçar você, por ser diferente de mim, não quero que você tenha o mesmo direito que eu, e aí a gente conversa. Fora isso, para mim você está se portando duplamente como um cínico e um preconceituoso.

3) Ela repete várias vezes: "imagina vc contratar um empregado para cuidar de seus filhos e depois descobrir que ele é homossexual". Essa dimensão do "descobrir" me lembra muito a sempre atual obra de E. Goffman, Estigma (senhora deputada, vença seu medo do conhecimento, procure ler esse livro, venha para a luz, Caroline!). Nele, Goffman distingue os desacreditados (aqueles que portam estigmas visíveis, marcas corporais, e serão discriminados por isso) e os desacreditáveis (aqueles cujos estigmas são passíveis de disfarce e manipulação, por não serem marcados pelo traço físico objetivo, mas que se forem descobertos serão discriminados). Para os primeiros, os estigmatizados/desacreditados, o problema está no contato, pois este é marcado sempre por uma situação tensa em que a materialidade do estigma evoca o preconceito e a discriminação. Para os segundos, os estigmatizáveis/desacreditáveis, o problema é a informação, o controle sobre ela, quem pode saber, quando, onde... trata-se de uma situação de absoluta tensão e neurose, já que sobre o desacreditável paira a sombra do medo de ser descoberto.
E a deputada Myriam Rios, que acha mesmo (será que acha?) que não está discriminando ninguém, quer perpetuar exatamente esse medo, essa tensão, essa neurose. Ela quer que seu empregado (olha, me recuso a comentar o quanto esse exemplo sobre contratar empregados como único meio de contato com homossexuais é chocante, nem o caráter classista dessa exemplificação) continue se escondendo, mentindo para se proteger, controlando as informações acerca de sua vida privada para não ser descoberto, porque se for, segundo o que sugere a deputada, o levaria a perder o emprego. E ELA VEM DIZER QUE ISSO NUM É DISCRIMINAÇÃO!!!! Ah, num tem como ter paciência com esses argumentos.

4) Podia falar aqui do estado laico, da necessidade de contermos, com urgência, esse avanço das posições religiosas sobre questões de direitos individuais, mas isso já vem sendo pauta de inúmeros artigos e falas (recomendo, por exemplo, essa entrevista com o deputado federal Jean Wyllys). Prefiro abordar aqui a importante questão levantada por H. Bhabha a respeito das relações ambíguas entre colonizadores e colonizados. Segundo ele, os colonizadores, buscando situações de controle e dominação, esmagavam os direitos dos colonizados, oprimindo-os. Para isso, deslegitimavam qualquer fala destes, acusando-os de uma não humanidade, de inferioridade, de representarem o perigo da anomia, o primitivismo. No entanto, mostra Bhabha, ao mesmo tempo que oprimem e desqualificam os colonizados, os colonizadores os fetichizam, transformando-os em objeto ambivalente, significante de um misto de temor/medo com fascínio/desejo. A ação de sujeitar o outro, antes de significar somente um atestado de poder, demonstra Bhabha, é uma alegoria de uma ambiguidade constitutiva da relação colonizado/colonizador: lugar de temor e também de desejo, o colonizado precisa não só ser domesticado, mas principalmente fetichizado, para que o opressor possa lidar com seus medos e seus desejos, como o medo/desejo de, de alguma forma, ser dominado por aquele a quem domina ou, em última instância, tornar-se um deles, e o pior, gostar de tornar-se, desejar tornar-se aquilo que em tese se abomina.

Acho essa uma excelente forma de pensarmos a relação da hegemonia heterossexual em relação ao homossexual. Claro que não estou propondo aqui uma aplicação colonizador e colonizado ao pé da letra, mas pegar por empréstimo o que Bhabha aponta existir, no jogo perverso do fetiche, de medo e desejo nas relações de dominação.

Porque venhamos e convenhamos, essa fixação de uma parcela de religiosos brasileiros com a questão dos direitos homossexuais pode ser pensada claramente nesses termos do fetiche. Aliás, frente aos últimos acontecimentos, já estamos no campo da obsessão.

Portanto, acho que esse bando de preconceituosos travestidos de bons samaritanos está precisando mesmo é de uma bela de uma ... terapia gigante! Ou, pelo menos, de dar uns bons beijos na boca. Talvez parassem com essa encheção.


Terminarei com um "Você dedide" particular. No filme "O grande debate", o orador negro, que vencerá ao final o desafio dos debates que perpassa o filme, termina seu consagrador discurso sobre a segregação racial norte-americana com a seguinte observação (não lembro ao pé da letra, então é mais ou menos isso): "frente ao que vocês nos fizeram, só nos restava escolher entre a desobediência civil e a violência. Vocês têm sorte por termos escolhido a desobediência civil". Ora, não precisamos chegar a tanto por aqui. Não precisamos nem de um nem de outro caminho. Escolhemos o de lutar no campo das leis.

Mas deixo aos discriminadores, esses falsos cristãos, que fingem que pregam o amor ao próximo mas só tem, como narciso, amor a si mesmo, o seguinte direito de escolha: abaixo endereço duas mensagens a vocês. Dependendo do seu comportamento em relação a mim, te ofertarei uma delas. Agora é com você!




Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Minha gente, decidi q sempre que der tempo vou partilhar algumas descobertas/receitas/macetes simples da minha vida cozinheira. Pra quem se interessar, principalmente meus alunos que moram sozinhos e/ou recém-casaram. :) Aproveito pra deixar de registro, como um livro de receitas blogado. Vou começar com meu arroz consagrado.

1) Como fazer um arroz branquinho, soltinho e delicinha

- Lave bem o arroz (tipo 1, eu uso Tio João), deixando escorrer por um tempo. A quantidade varia de acordo c/ o número de pessoas e/ou dias q vc pretende comer o mesmo arroz (coisa de quem mora sozinho. Não esqueça de guardar o arroz fechado dentro de um recipiente, arroz é danado pra dar bicho). Um copo dá bem pro dia-a-dia de um casal.

- Coloque uma leiteira com água pra ferver (meia leiteira p/ 1 copo).

- Prepare numa panela um refogado com cebola (1/2 pra um copo), alho (3 dentes amassados p/ 1 copo), óleo (eu uso de canela, q é mais saudável. E boto bem pouquinho, pq é p/ refogar, não fritar, e a saúde agradece) e sal a gosto (eu coloco sempre pouco primeiro, depois vou provando a medida em q o arroz vai cozinhando, pra evitar salgar. Mas no total dá uma colher cheia de sobremesa).

- Quando a água da leiteira tiver fervido, é hora de colocar o refogado no fogo. Coloque no fogo médio. Não deixe pegar o fundo, fique mexendo com colher de pau (arroz q pega no fundo fica com gosto de queimado, imperdoável)

- Coloque o arroz sequinho e refogue um pouco tb, misturando bem com o refogado já quentinho. Depois pegue a água da leiteira e coloque na panela do arroz, cobrindo o mesmo em cerca de um dedo. Dê uma mexida com a colher de pau pra desgrudar os grãos mais teimosos.:))) Deixe o arroz destampado.

- Ponha uma música na cozinha, fique dançando, faça outras coisas (eu sempre lavo louça, quando não tenho outro prato pra preparar)... MAS NÃO SE AFASTE DO ARROZ, tipo pra ir no computador, falar no cel, ver tevê. É CERTO QUE ELE IRÁ QUEIMAR, é uma lei! Fique por perto, de olho vivo. Quando a água do arroz baixar e o topo dele aparecer, coloque água novamente, cobrindo um dedo. Dê uma provada pra ver a quantas está o sal. Se sentir que tá faltando, ponha mais um pouco, mas com cuidado.

- Repita essa operação mais uma vez. Nesta última, prove e veja se o arroz já está com aquela textura de cozidinho (ele já vai estar). Aí tampe a panela e deixe o arroz secar. MAS ATENÇÃO: essa é a hora decisiva. De vez em quando, coloque uma colher pra ver como está a água, se está secando etc. E, principalmente, fique ligado no barulho da secagem, pq qdo o arroz começa a pegar o barulho muda. Quando tiver secado, desligue (na dúvida, eu sempre desligo. Melhor arroz um pouco molhado do que queimado).

Bem, é assim que eu faço. Fica bem gostoso. E com a prática vc fica mais ligado em tudo, portanto, não se preocupe se das primeiras vezes não der muito certo. Tamo junto!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Essa postagem tem esse título porque quando comentei com a árabe invejosa que finalmente tinha assistido Tropa de Elite II e que iria fazer post sobre o filme, ela, invejosa como sempre, debochou e disse que o título deveria ser "Em tempo" porque o assunto já estava velho. Como graças aos céus me livrei dessa algema jornalística de que existe um tempo quente para falar de assuntos quentes, cá estou eu, a despeito da maledicência da árabe invejosa e outras que tais.

Pois bem, vi o filme. Gostei bastante. Mas fiquei com uma pulga: terá sido um roteiro previamente pensado, antes de rodar os dois? Ou terá sido uma reação na base do mea culpa à saraivada de críticas que o primeiro tomou?

Eu, que meti o pau no primeiro (poucos filmes me irritaram tanto), teria que dar a mão à palmatória
se o roteiro dos dois foi previamente pensado. Porque o segundo rearruma de maneira fabulosa a razão de ser do primeiro. Pois a la Clint Eastwood em Gran Torino (poucos filmes me emocionaram tanto), o xerifão Nascimento percebe que sua truculência não resolve porra nenhuma, que o buraco é bem mais embaixo, que num vai ser fácil lutar contra o que está entranhado neste mundo perverso, e que armas, caveirão, ser durão e esses lugares comuns do masculino, dos aparelhos repressivos e dos xerifes do cinema não conseguem dar conta da complexidade da vida real. E aí o sujeito repensa, muda de lado, finalmente vê. Vi muitas semelhanças entre as caídas em si do personagem de Clint em Gran Torino e o de Wagner Moura (aliás, que atores formidáveis!) em Tropa II. Pasmos e convencidos, eles percebem que terão que sacrificar seus ideais e suas antigas práticas se de fato quiserem ajudar a mudar o estado das coisas.

Caso tenhamos no roteiro de Tropa II não a execução de um roteiro original, mas uma mudança de rumos a partir das críticas, teríamos aí uma conversão não só dos personagens, mas também dos roteiristas? Pergunto: será esse o sentido da cena em que o capitão Nascimento é aplaudido dentro do restaurante pelos frequentadores após ter sido responsável/responsabilizado pelo massacre dos presos? Porque na imagem difusa, meio que apagada, mas perceptível, quem aparece aplaudindo é Rodrigo Pimentel, ex-policial do Bope e um dos roteiristas, de certa forma inspiração para o personagem de Nascimento. Há um forte contraste entre a imagem difusa de Rodrigo e a explícita referência a Marcelo Freixo, inspiração para o personagem Fraga, que aparece assistindo, na platéia, de forma bem nítida, a palestra dada por Fraga no início do filme. Será aquela imagem difusa de Rodrigo Pimentel uma ponte para entendermos que também ele, assim como Padilha, repensou suas visões de mundo? Caso sim, temos aí um sensacional case de como a resposta, as mediações e apropriações do público interferem na produção do enunciado. Mas confesso que tenho algumas dúvidas, principalmente quando penso no próprio Rodrigo Pimentel pós produção de Tropa II, recorrentemente sendo convocado pelas emissoras televisivas, em especial a Globo, para comentar as intervenções de segurança no Rio de Janeiro e as UPPs. Esse Rodrigo num fala como o Nascimento II, mas como o I. Fiquei bem confusa.

Bem, esses são meus comentários a posteriori ao lançamento e à onda em torno do filme. Achei que ainda estava, de fato, em tempo. Árabe invejosa num acha. Coitadinha, nunca vai poder escrever, por exemplo, sobre "As mil e uma noites"... ;-p
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Vendo a comoção dos meus alunos queridos para comprar ingressos para o Rock in Rio 2011 e lendo parte da monografia de minha querida orientanda Elaine sobre o festival, lembrei muito de minha vida em janeiro de 1985, quando o primeiro Rock'n Rio aconteceu.

Como todos os meus amigos, eu planejava muito, queria muuuito, ir a pelo menos um dia dos shows, mais especificamente o do James Taylor. Minha mãe achava perigoso, coisa de mãe niteroiense, e ainda precisava convencê-la, mas eu sabia q iria. Cheguei a comprar o ingresso. Mas quebrei o pé no fim de dezembro. Assim que tive notícia de que tinha passado no vestibular pra Comunicação na PUC. Peguei a bicicleta pra passar na casa dos amigos e contar a novidade, afobada, ariana como sempre, caí na entrada da casa de meus pais, hehe. Pronto! 21 dias de gesso. Fim do sonho. Adeus Rock in Rio.

Acabei indo pra Conceição de Macabu com minha família. Para nossas férias usuais de verão na velha casa do interior. Lembro claramente do dia em que me enchi daquele gesso maldito, coçando no verão, e coloquei o pé dentro do tanque da varanda de trás para derretê-lo, antes mesmo de completar as três semanas recomendadas. Resultado prático: o resto da vida tive problema nesse tornozelo. Mas pelo menos fiquei livre naquelas férias daquele trombolho (não, ainda não existiam essas botas com velcro, essas maravilhas q vc põe e despõe pra dormir, tomar banho etc.). Só que não a tempo de ir ao festival. Já era.

Lembro que naquele tanque eu só pensava, com muita raiva, que eu queria muito não estar lá e que trocaria tudo para estar no Rock in Rio, com os meus amigos.

Engraçada a vida: hoje eu trocaria tudo, tudo, tudo, para estar novamente com o pé dentro daquele tanque.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler o belíssimo e comovente O arroz de Palma, romance de Francisco Azevedo sobre memórias familiares (Rio de Janeiro, Record, 2008). Chorei em vários trechos. Muito, muito sensível mesmo.

Como já disse antes, ando interessada em livros de memória, para o curso que eu e Marildo daremos na pós no segundo semestre de 2011. Tenho lido muitos, e cada um tem sua especificidade. Mas tenho me dedicado em especial a memórias familiares. Nesses, alguns eixos acabam tendo importância, me lembrando muito Michel de Certeau. São modos de falar, de cozinhar, de dispor dos objetos, de ocupar os espaços... fazendo uma certeira mistura de casos particulares com narrativas universalistas. Cada família é uma, mas ao mesmo tempo encerra arquetipicamente a todas.

Em Arroz de Palma, estão lá todos esses modos de fazer com... Em especial, maneiras de cozinhar, que funcionam como metáforas para o próprio viver. Totalmente atravessado por pistas culinárias, o livro indica que o guardião da arte de preparar os pratos tradicionais da família é também o guardião das memórias da mesma, o que tempera, o que deve buscar os sabores e preparar a família "a moda da casa".

O livro mexeu comigo não só pelas memórias familiares, mas exatamente por esse atravessamento da arte culinária. Tenho descoberto, nos últimos tempos, que gosto de cozinhar tanto quanto gosto de dar aulas. Ou seja, é misto de paixão e vocação. Tenho aprendido e me desafiado com coisas novas na cozinha, estou testando receitas, buscando novos pratos, aprendendo e me recriando. Adorando, sempre. Nem sinto o tempo passar. Mas no fim de tudo, o povo prova os pratos todos, elogia, incentiva, mas vibra mesmo, sempre, desde vinte anos atrás, com meu arroz. Sim, meu arroz, esse prato simplicíssimo, é o meu maior sucesso em termos culinários. Não tem quem não elogie, todo mundo baba por ele...

Sei não, mas me lembra muito minha relação com o ensinar. Posso variar as matérias, buscar coisas novas, estudar, aprender, me aprimorar. Mas o povo gosta mesmo é do meu arroz, qdo dou os clássicos, ensino o básico, vou lá na raiz, dou o melhor de mim no partilhar do aprendizado, dou a melhor de minhas aulas. Aí, num tem quem não elogie, todo mundo baba por ela... :)))))

Pra terminar, trecho muito legal do livro, que já me servia de mantra pra vida de forma instintiva, mesmo antes de ser verbalizado e sintetizado no parágrafo que se segue:

"Cedo descobri que o que mais queria na vida era o poder. O poder estar sempre com as pessoas que eu amo, o poder andar despreocupado pelas ruas, apreciar cenários, paisagens, bichos, gente que passa. O poder tomar outro caminho só porque naquela direção um verde me despertou a curiosidade. O poder trabalhar no que me alegra. O poder ser dono do meu tempo e fazer o que quiser sem precisar me aposentar. O poder estar disponível para quem está perto e precisa. O poder ter certeza de que o abraço recebido é de afeto e não de interesse. O poder ser eu mesmo e envelhecer saudável. Céus, como ambiciono todo esse poder" (p. 235).
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

O recente episódio envolvendo a repórter Leilane Neubarth e a entrevistada Gilberta Acselrad, professora e coordenadora do Núcleo de Estudos, Drogas, AIDS e Direitos Humanos da UFRJ, em entrevista sobre drogas na GloboNews, que acabou virando coqueluche nas redes sociais, me lembrou piada antiga e esclarecedora que conto em sala para os alunos de Sociologia.

Lá vai a piada (no final, o vídeo com a já histórica entrevista, para quem quiser ver e rever):

Cena 1 - Dois homens estão passando por uma rua e encontram um prédio cheio de rachaduras. Um deles diz:
- Ih, já era, esse prédio vai cair...
O outro responde:
- Não, tem salvação, depende da intervenção, hj em dia tem técnicas modernas de reparo, com tecnologia de último tipo etc.
O outro retruca:
- Que nada! Olha o tamanho das rachaduras. Vai pro chão!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou engenheiro civil, estudei cinco anos disso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Ah, bem! Se vc é engenheiro, nem vou discutir. O especialista é você...

Cena 2 - Dois homens estão passando por uma rua e assistem a um acidente de automóveis, com feridos. Um deles diz:
- Ih, já era, a mulher já vai morrer...
O outro responde:
- Não, tem salvação, depende do socorro rápido, hj em dia tem técnicas modernas de sutura, com laser etc.
O outro retruca:
- Que nada! Olha os miolos dela no chão. Tá morta!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou médico, estudei seis anos disso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Ah, bem! Se vc é médico, nem vou discutir. O especialista é você...

Cena 3 - Dois homens estão passando por uma rua e assistem a uma intervenção da polícia numa favela, com tiroteio. Um deles diz:
- Ih, num tem jeito não, aí só tem marginal, tem que explodir tudo...
O outro responde:
- Não, tem jeito sim, depende de intervenção correta, que leve em consideração a desigualdade econômica e política historicamente construída, buscando uma política de respeito e tolerância, que promova a cidadania, a inclusão social etc.
O outro retruca:
- Que nada! Isso é resultado da miscigenação, povo preguiçoso, essa gente tem que morrer!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou cientista social, estudei a minha vida inteira isso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Essa é a sua opinião... num concordo. A minha é a seguinte etc.

Aqui vai o link para a entrevista citada acima.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Toda vez que estou em algum congresso com alguém apresentando trabalho sobre jornalismo e representação, discurso etc., vira e mexe vem um santinho querendo novamente discutir se existe a tal da objetividade jornalística ou não. Isso depois de uma penca de estudos, todos de altíssimo nível, que já destruíram essa construção retórica e conveniente. Definitivamente: a questão do olhar subjetivo no jornalismo não é mais hipótese, é premissa. E fim de papo. Se não, a gente não avança nas discussões e fica o tempo todo desconsiderando esforços importantes no campo da pesquisa sobre o tema.

Tudo isso pra dizer o seguinte: defender posições preconceituosas, racistas, homofóbicas, sexualistas, classistas, discriminatórias etc. não é direito de opinião. É crime. E é crime porque já avançamos no campo das conquistas dos direitos ao criminalizar práticas que agridam, desrespeitem o princípio da igualdade, criem dor e ódio. O caso recente do Bolsonaro é exemplar neste sentido (para saber mais e para ler uma resposta digna e indignada, leia esta carta aberta). Não é possível tolerarmos mais essas falas. Não são polêmicas, são criminosas. Definitivamente, é premissa: NÃO É JUSTO REIVINDICAR DIREITO LIBERAL DA LIVRE EXPRESSÃO PARA PRÁTICAS TOTALITÁRIAS E DISCRIMINATÓRIAS. Isso não é democrático, é retrocesso e deveria ser combatido, não tolerado em nome de um princípio liberal conveniente e muito menos incentivado.

Acabei de ler Entre os vândalos - a multidão e a sedução da violência, magistral trabalho jornalístico/antropológico do norte-americano Bill Bulford (Companhia das Letras) . Nele, o autor faz uma imersão entre grupos de torcedores ingleses, para alguns simplesmente "os hoolingans", mas como demonstra o livro, algo muito mais complexo. É um livro petrificante. Choca do início ao fim. E mostra claramente no que dá a tolerância com discursos totalitários e preconceituosos. Quando se convertem em prática, linguagem em ato, eles são revestidos de uma violência incontrolável. Abre o olho, minha gente. Os Bolsonaros criam esse mundo assustador.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Nesse post aqui, contei a história do mito de origem desse blog: a vontade de resmungar sobre uma notinha surreal que tinha lido, há muitos anos, num jornal local de Niterói. Mas lamentavelmente, eu dizia no post, tinha perdido o jornal com a tal nota.

E eis que agora, arrumando meu escritório finalmente, achei o tal jornal perdido em uma gaveta. Trata-se de uma edição de março de 2004 do Correio Oceânico, que nem sei se existe mais.

Pois lá na penúltima página, esperando por mim, está a tal nota (num vou dizer quem assina porque já passou mt tempo e pode num ser justo). Mas vou reproduzir aqui, como uma homenagem a meu mito de origem fundador do Baiúca, isso lá nos idos de 2004. :)))

E vai a pérola (e vou até me abster de coments mais profundos, pq nem precisa. Mas só uma pequena dica: reparem no título):

"Reflexão.
A quem diga que não é certo o racismo, preconceitos e tentativas de subornos. Pois são os próprios que praticam tais atos é que os pregam em forma diferente. O pior é que essas pessoas andam coladinhas na gente, que vergonha!".

Só tenho uma coisa a dizer: hahahahahahahaahahahahahahahahaha!

Adorei ter achado essa relíquia. :) Agora sim, o Baiúca do Baudelaire está oficialmente fundado!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler a biografia de Lobão, Cinquenta anos a mil, escrita por Lobão com Claudio Tognolli, com edição de 2010 da Nova Fronteira (aliás, que edição mais descuidada, vou te falar! Tem erro de impressão, coisas mal corrigidas, enfim, livro caro q merecia mais esmero editorial). Ganhei de presente de minha amada amiga Xu nessa fase complexa e me distraiu horrores.

Primeiro coment: li no FB coment de alguém (é público, né?) dizendo que alguém tinha lido essa biografia e concluído que Lobão não tinha nada para contar. Oi?

Bem, nem preciso dizer q acho de uma arrogância super vc ler a vida de alguém e achar q a pessoa num tem nada pra contar. Eu tenho realmente muito espírito de antropóloga, tenho q confessar. ;) Toda vida humana me interessa, sempre.

Mas nesse caso a afirmação é bem esquisita. O cara tem uma vida cheia de peripécias, é um sujeito complexo, tem uma relação familiar bem confusa, a mãe se suicida, ele tem experiências fortes com doença, remédios, coisas mágicas, drogas, criação etc. e a pessoa conclui que ele num tem nada pra contar??? Vou te falar, num entendo esse povo, não.

Mas vamos aos coments sb o livro em si: gostei bem. Num é uma brastemp de bem escrito (e a edição porquinha num ajuda mt). Mas que personagem! Bem fascinante mesmo. Realmente, cinquenta anos a mil, eis um título!

O que mais me impressionou, no entanto, não foram as peripécias de Lobão, e olha que não são poucas! Mas ter no livro mais um exemplo, e um dos mais eloquentes, de como o Estado pode agir, através de seus mais diversos tentáculos institucionais, e marcar sujeitos sociais não convencionais com seus ferros mais duros. A passagem acerca da prisão de Lobão, os processos posteriores, a ação da polícia em seus shows, a cobertura da mídia acerca de suas falas e ações mostram claramente um contínuo de arbitrariedades e clima inquisitório, que faria um sujeito mais ajustado balançar, imagina um que já vinha de um histórico familiar e de vida meio desequilibrado...

Na passagem em que narra sua condenação por porte de drogas, mesmo sendo réu primário e ter sido preso com uma quantidade pequena de entorpecentes, vale destacar a fala do juiz que o condenou"(...) o acusado, mesmo sendo tecnicamente primário, já registra antecedentes, não tem boa personalidade, nem conduta social" (p. 333). Ou seja, sua condenação deve-se, como se vê, principalmente a seu comportamento "não ajustado", embora não criminalizável.

Gostaria de destacar especialmente esse trecho: "E tudo isso iria pesar sobremaneira na apelação da sentença, que receberia um parecer contrário, pois o procurador (...) alegou em seu parecer ter lido uma entrevista minha concedida ao Jornal do Brasil, na qual dizia ter mantido uma relação incestuosa com minha mãe e ter dado a maior força para ela se suicidar. Simples, né? Para o emérito procurador, eu seria um "portador de uma conduta social desajustada e de personalidade deformada", e ele ainda elogiou a sentença do juiz (...), definindo-a como "correta e minuciosa", graças aos meus maus antecedentes e péssima conduta"."(p. 350).

Sabe o que me lembrou? O Estrangeiro, do Camus. Principalmente porque, neste livro, pesa sobre o acusado, tanto ou mais do que a história do crime em si, suas atitudes "estranhas", como não chorar no enterro da mãe, sair toda hora para fumar, ir numa piscina pública no dia seguinte ao enterro... Me lembrou também Pureza e perigo, de Mary Douglas, e as reflexões de Bauman sobre os impuros e indesejáveis. Num sei, se rolar paciência transformo esse post num artigo acadêmico. Mas já deixo plantadinha aqui a semente da reflexão.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Acabo de assistir ao discurso de despedida de Ronaldo, o "fenômeno". Vou começar por esse ponto: a mídia/os empresários/os publicitários, alguém bem criativo e malandro, criou esse termo de referência para ele, como justificativa de seus feitos (talento nato, selecionável muito jovem, gols de placa, títulos, ida precoce para o estrangeiro etc.). Pronto, a partir daí, a cobrança em cima do cara passou a ser "fenomenal" também.

Olha, como atleta Ronaldo me deu muitas alegrias. Torci por ele, lamentei suas contusões, senti pelo seu drama. E ponto. Nunca tive envolvimento emocional com essa história para além do de uma torcedora.

Acho sim, como muita gente boa, que nos últimos anos ele num tava jogando nada, que era muita grana em jogo pra pouco futebol, que o esporte está contaminado cada vez mais pela lógica do consumo e do mercado (razão, inclusive, por um desencantamento pessoal com todas as modalidades esportivas, mas isso deixo para outro post e é problema meu). Acho, inclusive, que seria bom que isso fosse mais discutido. Mas neguinho acho isso normalzão. Acha super tranquilo empresário faturar com a imagem de atleta e artista; publicitário ficar milionário às custas desse mercado imagético; cartolas enriquecerem explorando e sugando seus atletas; a mídia confeccionar um império de mercado e espetáculo para faturar em cima dos caras... isso, tá tudo mt bem, tá td mt bom, quem num quer, né não? (esse é o tal do senso comum, mas eu respondo candidamente: tem gente que num quer não, preferia o velho esporte amador, ó euzinha com a mão levantada).

Mas nesse mundão de gente faturando mt e alto às custas da imagem do atleta, tem alguém q num merece perdão: o próprio. Se estiver em baixa na carreira (problemas com drogas, crise familiar, doença pessoal ou na família etc., tudo isso pouco importa), vai ser massacrado; é gordo? vixe, massacre com requintes (mesmo o cara tendo doença cardíaca e precisando parar, ou hipotiroidismo de hashimoto, doença hormonal q impede mesmo o cara de emagrecer). Afinal, nada melhor do que um gordo pra sanha preconceituosa das piadas e dos constrangimentos ser acionada. e ai do gordo se reclamar: não tem bom humor e merece ser massacrado ainda mais; mas tem pior: e se o cara for gay ou tiver escolhas pessoais complexas? tipo amigos na favela ou ir pra um motel com travesti? VIXE, AÍ QUE O MASSACRE É SÁDICO. Num tem perdão. Todo o estoque de moralismo, hipocrisia, ignorância, intolerância vem à tona, e consagrado pela máxima: é só piada.

Mas tem algo ainda pior, eu juro: se o cara for pobre e tiver vencido na vida com aquele talento, tendo ganho muito dinheiro com aquilo. Aí, num tem perdão: a matilha baba pela derrocada, se deleita com o momento da queda, com a possibilidade de pisar, massacrar, destruir. Olha, sei q é complexo, é muita desigualdade social, que é triste um cara ganhar um milhão e cacetada por mês e professor, médico, policial estar ganhando 700 paus. Sem falar no salário mínimo. Mas por favor, não venham me dizer q a solução pra isso é cair de pau na ponta do iceberg, que é o cara q tá lá jogando seu futebol e ganhando essa grana toda. Porque vamos deixar de ser otários: se ele tá ganhando isso, o sistema que o mantém e alimenta está ganhando MUITO, MAS MUITO MAIS.

Mas as pessoas preferem sempre o mais simples, o óbvio, o mais rasteiro. E me choca isso lá na minha TL do twitter, porque é povo que supostamente tem posição de esquerda, protesta, tá na batalha da vida por um mundo digno. Vou lembrar: num existe mundo digno com preconceito contra gordo, massacre contra o pobre que ascende, tolerância com os exploradores de colarinho branco que não aparecem, hipocrisia contra travestis... e, principalmente, mas principalmente mesmo, não existe mundo digno quando se faz QUALQUER PIADA com doença, seja ela possivelmente verdade ou não. Isso é muito triste, não tem graça, devia envergonhar quem faz.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Resolvi inaugurar uma nova série, "Acorda Niterói". Porque dia sim, dia também, algo na cidade, em franca decadência, morrendo diariamente, tomada por ações inescrupulosas, me desilude, desanima, irrita, revolta... então vamos falar, vamos pensar juntos, vamos resmungar, vamos ver se agimos, porque está ficando realmente difícil.

Hj quero falar do recente episódio Wolney Trindade, até então Secretário de Segurança e controle urbano. Pois então: Wolney resolveu, a revelia da população, fechar as praças da cidade por "medidas de segurança".

Começou com o Campo de S. Bento, principal área verde e de recreação da cidade, de grande circulação, principamente usada por crianças e idosos. Seus portões estão sendo fechados às 19h (em pleno horário de verão) e durante a semana os portões laterais (da Domingos de Sá e e da Lopes Trovão) permanecem fechados o dia inteiro. O vereador Renatinho, do PSOL, solicitou ao Secretário a reabertura, em nome dos idosos, dos deficientes físicos, das mães com carrinhos de bebê etc., que diariamente fazem enorme uso dessas entradas.

A resposta já é de conhecimento público, mas não custa lembrar: é inacreditável. Wolney manda os idosos andarem mais, porque é bom pra saúde; diz que os portões vão ficar fechados até ele morrer; que os incomodados devem procurar outro lugar para visitar; dentre outras falas, mais apropriadas para um xerife do velho oeste do que para um FUNCIONÁRIO PÚBLICO pago com o dinheiro do contribuinte. Veja aqui a íntegra da resposta de Wolney, para conferir com seus próprios olhos o teor da resposta.

A população berrou. Está organizando hoje, dia 6 de fevereiro, domingo, ato público na entrada da Gavião Peixoto, com abaixo-assinado e manifestação exigindo a reabertura dos portões e a saída do Secretário. Além disso, muitos moradores, em seus prédios e estabelecimentos comerciais próximos ao CSB, estão recolhendo assinaturas para o abaixo-assinado. Finalmente, Niterói volta a se mexer um pouco contra os desmandos na cidade, sempre contra os desejos populacionais. Veja a cobertura do Globo sobre os protestos aqui.

Mas a sanha do Secretário contra os espaços públicos, de lazer e de socialização popular não termina aí. Ele também anunciou que pretende gradear e fechar a praça Leoni Ramos, conhecida como Praça da Cantareira. Fiquei pasma!!! Em primeiro lugar, pela desfaçatez dessa notícia. Gente, olha o tamanho daquela praça, que medida é essa - e com dinheiro público para custear as grades? Ele alega falta de segurança e problemas com o tráfico de drogas. Numa praça daquele tamanho qual seria o problema em fazer um policiamento, um sistema mínimo de segurança?

Mas a questão é bem mais grave e complexa do que isso. A praça da Cantareira é hoje o ÚNICO espaço realmente democrático para os jovens da Niterói se divertirem. Ponto de aglutinação de estudantes das universidades da cidade, tanto da UFF quanto das particulares que se distribuem no Ingá e no Centro, como a Maria Thereza, a Estácio e a Universo, é um reduto boêmio e festivo, com bares com pizza a dez reais, cerveja barata, shows, apresentação de dança, poesia, funk, samba, protestos políticos, eventos estudantis etc. Os que preferem ou estão mais sem grana, não ficam nos bares no entorno da praça, mas sentam em seus bancos e murinhos, consumindo uns comes e bebes dos ambulantes que já se consolidaram há anos ali. Portanto, é um espaço vivo, já consagrado, importante para a socializaçao da comunidade acadêmica de Niterói, especialmente para as muitas repúblicas estudantis do Ingá e de S. Domingos, que não teriam NENHUM outro lugar de diversão e socialização se não fosse a Cantareira.

Já tive meus vinte anos há vinte anos em Niterói. Tínhamos tantos espaços de socialização, tantas opções culturais, bares alternativos, teatros, cinemas etc. Foram matando tudo aos poucos, os cinemas e teatros sendo fechados, os bares sendo substituídos por esses fakes de classe média, careiros, todos com essa cara feliz da burguesia estúpida que de certa forma passou a dominar a cidade. Isso tudo acabou, Niterói passou a ser um nada cultural, repito: UM NADA CULTURAL. A Cantareira é, neste sentido, uma sobrevivente. Debilitada, é certo, depois que a própria sede da Cantareira, que funcionava como uma lona cultural, com shows, eventos, feiras artesanais e de alimentos, foi fechada e transformada em mais uma boate mauricinha, em uma vergonha que tivemos que engolir, sem quem nenhuma autoridade pública intervisse. Mas ainda assim, a Cantareira resistiu. E agora assistimos à tentativa de matá-la definitivamente.

Muitos perguntam: será coincidência que o fechamento da praça da Cantareira seja proposto quase concomitantemente à construção de blocos de prédios de classe média na área do Clube Gragoatá? A quem parece interessar a transformação de um espaço vivo, alegre, vibrante e noturno em mais uma pracinha passiva e morta para consumo visual da classe média? Acho que precisamos pensar nisso.

Os moradores e usuários das praças estão reagindo. O ato do Campo de São Bento é exemplo disso. Também na Cantareira já se realizou ato público de protesto, na quinta-feira, dia 3 de fevereiro. Precisamos "estar atentos e fortes", como aprendemos com os tropicalistas, não esmorecer nessa luta, impedir esses desmandos.

Estão tentando matar Niterói. Isso é visível e será tema de outros posts futuros nesta série que inauguro agora. As praças são o pulmão e o coração das cidades, espaços de circulação e de encontros da população. Aprendemos com Bakhtin que as praças são locais privilegiados da cultura popular, elas pulsam, são essenciais para que a população respire, se encontre, interaja, resista. Por duas vezes, tentaram já atingi-las (quando quiseram fazer garagens subterrâneas na Getúlio Vargas e no próprio Campo de São Bento), mas a população reagiu e impediu essas ações. Ou seja, até agora, foram nas praças e sobre elas que os moradores de Niterói se solidarizaram e agiram. Isso indica claramente seu potencial de ação pública e de resistência.

Não à toa, estão tentando matá-las. Também por isso, precisamos impedir suas mortes. Acorda Niterói!