Mostrando postagens com marcador resmungos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resmungos. Mostrar todas as postagens
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Noutro dia, eu estava dando aula de Cultura Popular e, ao comentar sobre diversidade cultural, fiz um comentário-piada sobre pastelarias e chineses. Na hora quase todo mundo riu, mas alguns alunos ficaram sérios, embora não tenham feito qualquer comentário. Isso me alertou sobre algo dissonante e ficou retumbando na minha cabeça. Pensei sobre isso com calma e na aula seguinte pedi desculpas, aproveitando o acontecido para conversar com a turma sobre o lugar do preconceito no discurso, como "ao falarmos, somos falados", segundo afirma Michel Foucault, e reproduzimos preconceitos e estigmas que nos atravessam no fluxo das ordens discursivas.
Começo meu texto por aqui para dizer que sim, todos nós podemos incorrer em erros e deslizes preconceituosos, pois os imperativos das representações hegemônicas nos perpassam. E todos podemos e devemos pedir desculpas quando nos pegamos nestes processos. Dito isso, gostaria de tecer algumas ponderações sobre o comentário preconceituoso, estereotipante e estigmatizador de William Bonner, editor e âncora do Jornal Nacional, da Globo, na edição de ontem, dia 18 de maio de 2015, sobre um personagem estadunidense (pois se trata de um personagem, uma criação noticiosa, que, por um acaso, tem uma correspondência no "real", que é o próprio sujeito que ali está sendo representado, mas em última instância estamos diante de uma representação, e das mais breves e cerceadoras da diversidade, visto se tratar de uma imagem descontextualizada que é mostrada enquanto a voz do repórter narra a acusação) de uma reportagem sobre uma tentativa de hackear aviões e mexer em seus planos de voo. Bonner comenta, após ver a imagem do suspeito: "O mundo parece que tá ficando muito complicado, né... A gente vê até pelo rosto do sujeito que não tá fácil (...)". A seguir, completa o absurdo: "Cara de maluco ele tem, né? Cá pra nós...".
Minutos depois, na passagem da previsão do tempo, Bonner aproveitou o gancho para se desculpar, dizendo que nas redes sociais foram muitos os comentários desaprovando sua fala. Mas o pedido de desculpas, a meu ver, também precisa ser problematizado: "Teve gente que me censurou porque eu disse que aquele rapaz que entra no avião com um cabo no computador do avião tinha cara de maluco. Na verdade eu fiquei pensando: "que mau humor dessas pessoas"; mas não, elas estão certas. Porque depois eu fiquei fazendo uma reflexão. Eu conheço uma porção de gente com aquele cavanhaque, com o olho meio esbugalhado, mas eles não ficam entrando em avião, não. Não tem nada a ver o rosto do rapaz com o que ele fez ou disse que fez".
Em seu pedido de desculpas tangencial, em que a palavra "Desculpe" jamais aparece, dois pontos merecem destaque: primeiro, a maneira matreira pela qual Bonner reafirma que fez uma brincadeira, tanto que estranhou a falta de humor dos espectadores; depois, a admissão do erro porque não seria justo associar o rosto do rapaz à acusação de ser "maluco" (vou pular aqui os comentários sobre a definição estética do rosto do rapaz feita por Bonner, só isso a meu ver merecia nosso repúdio, mas vamos ao mais grave).
Bem, no meu ponto de vista, aí está parte do problema, do que me incomodou profundamente ontem. Em primeiro lugar, a utilização de um sistema classificatório perverso, instância fundamental de poder (novamente Foucault nos lembra que nas interdições discursivas estão a palavra mentirosa, a palavra proibida e a palavra louca), cuja rotulação causa imenso sofrimento e desconforto a todos por esse sistema classificados como "loucos", independentemente do critério. Ou seja, há uma intensa luta no campo discursivo e político para não se classificar ninguém como "maluco", não só por critérios físicos, mas por qualquer critério. É também sobre isso que fala a importante e sempre urgente Luta Antimanicomial.
Aí vem o segundo problema do infeliz episódio de ontem. Era  dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Caramba, isso era pra ser pauta do Jornal Nacional! Pra isso serve a mídia em concessão pública, pra abarcar as diversas demandas sociais. Não, no jornal total silêncio sobre isso. Ao contrário, seu âncora principal, porta-voz oficial, faz piada sobre "maluco". Isso ultrapassa e muito um simples episódio de piada sem noção, dentro de novo padrão de jornalismo/entretenimento, e se revela um escárnio, uma afronta, um indício revelador do quanto precisamos avançar na luta pela democratização dos meios de comunicação no Brasil.
Mas vamos voltar um pouco mais a Foucault. Ainda sobre as interdições do discurso, ele fala sobre uma estratégia importante das sociedades discursivas para impor seus limites: a autoridade e legitimidade de quem fala. Weber já havia nos alertado para isso, quando abordou as formas de dominação. Lugares simbólicos instituídos são decisivos, em termos de autoridade e legitimidade, para fixar o sentido discursivo, constituir seu caráter performativo, palavra que cria mundo, faz acontecer, vira realidade.
Por isso um professor precisa ter responsabilidade com o que fala em sala para seus 50 alunos. Por isso um apresentador de telejornal de maior audiência do país tem que ter cuidado com o que fala para milhares de receptores. E por isso o pedido de desculpas não pode ser tangencial, tem que ser pra valer, tem que problematizar a questão, tem que sair do reducionismo e da simplificação. Fora isso, é performance pra plateia, é show pra manter audiência, é manutenção do preconceito com outros condicionamentos.
Não, nao é a mesma coisa fazer uma piada sobre "ser maluco" com alguém na mesa do bar ou dizer isso enquanto editor do Jornal Nacional ao vivo. Não, não é a mesma coisa pedir desculpas complexificando a questão ou dando a entender que é uma bobagem com a qual os espectadores resolveram implicar. Sim, a autoridade de quem fala faz acontecer, é discurso fundador, mito original. E sim, a classificação "maluco" (e todas afins) precisa ser banida, por qualquer critério, porque é um rótulo perverso, perigoso, aprisionador e estigmatizante, causa sofrimento e é instrumento de poder e cerceamento da diferença.
E não se importar com isso, porque não te atinge diretamente, é ser cúmplice disso. Lembrando: a roda gira, qualquer hora a boa fortuna também pode te abandonar e o estigma virar pra você. Fica a dica.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem, dia 14/11/2013, vivi a experiência de sete horas e meia de engarrafamento, das 13h até 20:30, no percurso Duque de Caxias até Icaraí/Niterói, que deveria ser feito em no máximo uma hora, em situações normais. Para não me estressar muito, ontem, no decorrer dessa maratona, aproveitando que estava em uma cia muito legal, ri, brinquei, postei no FB, ouvi música, comi pipoca do saco rosa, água da montanha sabe-se deus de onde, enfim, levei na esportiva.
Mas hoje, já fora do estresse, queria dizer que não podemos aceitar isso, não podemos naturalizar esse absurdo. O engarrafamento de ontem, véspera do feriado, não resulta só do excesso de carros saindo para viajar, mas da política inacreditável de transporte público, da especulação imobiliária, da falta de planejamento viário, de todo esse inferno a que estamos sendo submetidos por esses políticos que fazem do Estado parceiro de negócios do grande capital.
Tenho falado sobre o quanto a mobilidade urbana está sendo comprometida com a atual política de transportes e planejamento urbano. Isso tenderá a isolar muito, fisicamente, lugares mais periféricos de centros de concentração dos aparelhos culturais, políticos, sociais. Temos que nos mobilizar contra isso, denunciar, lutar. É uma forma de apartheid via trânsito, que irá cada vez mais dificultar e praticamente inviabilizar a circularidade na cidade, essencial para a democracia e para a diversidade cultural.
E olha que ontem estava de carro, que, mesmo sem ar condicionado, ainda me dá um conforto. Li relatos de pessoas que esperaram duas horas pelo ônibus e ainda encararam outras maís dentro do coletivo até chegar ao seu destino.
A pesquisa divulgada ontem nos principais jornais do país constata o que o carioca/fluminense percebe no seu dia-a-dia: "Rio tem o terceiro pior trânsito do mundo" (http://oglobo.globo.com/rio/rio-tem-terceiro-pior-transito-do-mundo-diz-pesquisa-10775611). Isso não é motivo de comemoração nem de orgulho. Isso deve nos indignar e nos fazer cobrar uma efetiva política pública para mitigar esse caos. Em nome de nossa saúde, em nome do meio ambiente, em nome da democracia, em nome da circularidade física e cultural. Na hora a gente ri pra num ter pico de pressão nem ficar doido. Mas num é coisa pra rir, não.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Santiago, capital do Chile, que conheci recentemente, tem várias características encantadoras. Os parques, em primeiro lugar. Belos, arborizados, limpos, agradáveis, aconchegantes aos passantes. Bancos pelas ruas, mobiliário urbano que nos convida a sentar e ocupar. Praças limpas, monumentos grandiosos e bem conservados. Um metrô limpo e muuuuito eficiente, uma beleza. Restaurantes e comida em geral excelentes.

Mas tem coisas bem contraditórias, também. Aquela poluição fazendo a cidade estar envolta em uma permanente nuvem que nos impede de ver o horizonte e a cordilheira. A evidente marca da distinção de classe, fazendo com que as pessoas de traços indígenas estejam praticamente destinadas aos empregos informais ou menos qualificados. Uma mistura de ar europeu na classe média com uma cafonice provinciana, fazendo com que muitas vezes os chilenos sejam discretos e indiscretos ao mesmo tempo, elegantes e rudes ao mesmo tempo, refinados e grosseiros ao mesmo tempo. E, principalmente, a ausência de cor. Fiquei pasma, realmente impressionada com a ausência das cores. Tudo muito cinza e marrom. As pessoas se vestindo basicamente de cores austeras, em especial o preto. Tudo muito preto, cinza, escuro. Aí vc chega nas lojas de comércio popular, de artesanato local, tudo colorido. Mas isso não está no dia-a-dia, na vida comum, na cara da cidade. Isso me impressionou e entristeceu muito. Imagino como deve ter sido lindo e rico em colores, misturas, culturas aquele Chile antes de ser tomado pela melancolia e pela tentativa de imitar a Europa no processo colonizador.

Durante meus dias em Santiago, reli Meu país inventado, livro de memórias da Isabel Allende (RJ, Bertrand Brasil, 2009) sobre sua terra que não é natal (nasceu em Lima), mas que é como se fosse, e de onde precisou partir após o golpe. Foi bom ter a cia da escritora nesse meu olhar sobre o Chile, ela me ajudou a decifrar algumas coisas. A busca do padrão europeu, por exemplo. Ela nos conta que a classe média/alta chilena tem obsessão pela Inglaterra, então, faz parte de um estilo apropriado parecer inglês. Isso explica muita coisa. Ao mesmo tempo, ela nos conta que a cordilheira criou um afastamento do mundo que faz do santiaguense um sujeito meio desconfiado, provinciano e muito fechado. Também fez sentido. E, principalmente, me fez bem a forma como a autora constrói suas memórias, como uma narrativa sem pretensão à verdade, a história de um "país inventado", como ela nos explica no trecho abaixo:

"Construí a ideia do meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente. Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, como múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra. Andrea, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: "Gosto da imaginação da minha avó". Perguntei-lhe a que se referia e ela explicou sem vacilar: "Você se lembra das coisas que nunca aconteceram". Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?" (ALLENDE, 2009:216).

Conhecer o Chile sempre foi um sonho, pela história que precede meu nascimento e que contei em outro post. Confesso que foi um pouco decepcionante o Chile com que me deparei, nesta experiência de uma semana em Santiago em outubro de 2013. Assim, vou seguir as dicas da Allende e inventar o meu Chile, com seus parques, as memórias de minha mãe, o Jardim de Mariscos do Mercado Central, todas as pessoas simpáticas do povo que me atenderam nos lugares mais populares, em especial o garçom Hernán, do Mercado, que declarou para meu amor, quando eu estava ausente, que queria me dizer uma coisa, me dizer que eu "tinha um coração muito grande, que era especial", depois de termos passado uma tarde de cantorias, provas gastronômicas e traduções de parte a parte. Esse é o Chile que imaginei, alegre, fraterno, aconchegante, cantante e generoso. E no meu Chile há de haver muitas cores, muitas.



Como diz a letra da linda canção "Latinoamérica", do grupo Calle 13, que meus queridos Kleber Mendonça  e Leonardo Nascimento me apresentaram na volta do Chile: "Tú no puedes comprar mis colores/ Tú no puedes comprar mi alegría/ Tu no puedes comprar mis dolores"... Quero te encontrar, Chile querido, América Latina querida, em outras vozes, que não de sua classe média europeizada, triste, com suas roupas escuras e sua ausência de cores e espontaneidade. Por isso, voltei a ler e ouvir Galeano, Neruda, Allende, Violeta Parra, Victor Jara e outros mais, para que sejam meus companheiros de imaginação. Viva meu Chile inventado e colorido!

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
No Globo Niterói de 15 de setembro de 2013, notícia pra desesperar o pobre niteroiense: na semana de "mobilidade urbana" (em Niterói? hahahahahahahhahaha), de 21 a 28 de setembro, será instalada uma ciclovia "temporária". hahahahahaha. Tão de mta sacanagem, né? Vai paraaaaaaar tudo! Essa gente é louca. Dou a maior força pra ter ciclovia, mas colocando cones nas vias já enlouquecidas de trânsito da cidade, quem acha q isso vai ser bom, gente??? Já num basta a ciclovia fake na Av. Roberto Silveira em que a faixa para os ciclistas ocupa o mesmo espaço que os pontos de ônibus, o que levaria, um ou outro, ciclistas ou ônibus, a ter q aprender a levitar pra isso dar certo??? Não, pelo visto num basta. Ou já num basta aquela ciclovia maluca em São Francisco e Charitas, que só funciona em alguns horários, no restante é estacionamento, o que faz com que nem ciclistas nem motoristas saibam bem quando podem fazer o quê? Não, pelo visto num basta. Já num basta aquela ciclovia assassina/suicida na Estrada Fróes (gente, fico pasma como tem gente que tem coragem de andar ali!)? Não, pelo visto não basta. Na matéria, alguém declarava que a ciclovia "temporária" seria um teste para ver como o trânsito reagiria. Olha, precisa fazer o teste não, pergunta pra qualquer motorista de Niter se colocar cones pra criar faixa de ciclovia nesse trecho aí do mapa abaixo vai dar certo. Eu já respondo: vai dar, não. O que daria certo era num ter incentivo pra carro zero, o que fez a taxa de veículos novos em niter subir assustadoramente nos últimos anos; o que daria certo seria não verticalizar a cidade como vem sendo feito nos últimos anos, na maior farra de especulação imobiliária irresponsável, com uma explosão de edifícios, pessoas e carros em bairros que não têm a menor condição de receber esse aumento; o que daria certo seria um projeto de reforma para o centro da cidade que não incluísse a previsão de prédios de 40 andares; o que daria certo era uma CPI pra valer nos transportes, revendo a vergonha que é a prestação do serviço de transporte coletivo na cidade; o que daria certo seria o MP de fato interpelando o poder público sobre os pontos acima; o que daria certo era um investimento pra valer em inteligência de engenharia de trânsito, e não ficar mudando mão de rua como quem tá brincando de montar cubo mágico... o resto, minha gente, é uma grande de uma palhaçada pra usar dinheiro público, fingir que tá fazendo discussão sobre mobilidade urbana, dar uma de ecologicamente correto às custas de uma cidade engarrafada e num resolver nada. Na semana da mobilidade urbana, minha dica: "Corrão pras montanhas!"


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
“Infelizmente, os vândalos não tinham youtube nem facebook...”

Tenho discutido em sala, com alunos, acerca da necessidade de se disputar os sentidos na luta pela hegemonia do significado. Por força das circunstâncias, parte da discussão acabou recaindo sobre o signo “vândalos”, muito em voga nesse contexto de mobilizações sociais. “Vândalos” foi o termo eleito pela grande mídia para classificar e, automaticamente, desclassificar a ação de parte dos manifestantes, em especial a que envolvia enfrentamento com a polícia, uso de pedras e força, destruição de patrimônio privado e público, saques etc. Mas, de forma geral, passou a ser sinônimo claro de toda ação envolvendo enfrentamento com a polícia, mesmo com as evidências indicando que a brutalidade, a violência, o atentado à vida e à ordem partiram, na maior parte das vezes, da própria polícia, o que levaria, no mínimo, a uma necessidade de relativizar-se quem, nestes casos, seriam os “verdadeiros” vândalos. Esta é uma forma de lutar pelo sentido e tem sido usada: o de associar o mesmo tom pejorativo e estigmatizante que a palavra carrega aos que ocupam o lugar da ordem e da civilização, colando o rótulo no comportamento policial e não no dos manifestantes.
Esta é a mesma estratégia que encontramos em cartazes e imagens que mostram descasos na área da saúde, educação, transportes, com hospitais e escolas deteriorados, serviços precarizados, mau uso do dinheiro público, ilustrados com frases do tipo: “quem são os verdadeiros vândalos?” e “Vandalismo é isso”. Também nesse caso, a disputa parte de um reconhecimento do significado vitorioso (“vândalos” são os que atentam contra a ordem pública e deterioram a cidade e a sociedade), e o que se desloca em termos de disputa é o sujeito em quem se colará o preconceito, e não o sentido da palavra em si.
Entendo que talvez seja importante, no entanto, lutar pela palavra em si, pelo signo enquanto significante deslizante, peça fundamental na arena de disputas pelo significado. Segundo a wikipedia, o primeiro a associar o termo com um “espírito de destruição” sabia perfeitamente disso, como podemos ver no trecho abaixo:
“O termo "vandalismo" como sinônimo de espírito de destruição foi cunhado no final do século XVIII, , em janeiro de 1794, por Henri Grégoire, bispo constitucional de Blois; ele cunhou o termo e o tornou comum através de uma série de relatórios para a Convenção, denunciando a destruição de artefatos culturais como monumentos, pinturas, livros que estavam sendo destruídos como símbolo de um ódio ao passado de “feudalismo”, "tirania da realeza" e "preconceito religioso", durante o Reino do Terror. Em seu livro Memoirs, ele escreveu: "Inventei a palavra para abolir o ato". “(linkaqui, o grifo obviamente é meu!)
“Inventei a palavra para abolir o ato”! Henri Grégoire estava por dentro: o discurso é ato, cria mundo, gera não só a interpretação da realidade, mas a própria realidade, que para além de existir materialmente, é sempre construção social. Então precisamos, penso eu, assim como Grégoire, re-inventar a palavra para instaurar o ato. Pois quem eram os tais dos vândalos? O que eles tinham, fizeram, criaram, para além da representação consagrada e hegemônica de terem sido o tal povo que saqueou Roma em 455, “destruindo muitas obras primas de arte que se perderam para sempre” (no mesmo verbete da Wikipedia que citei acima). Aliás, quem não saqueou Roma naquele contexto, não é, minha gente??? Vândalos ficaram com a fama, meio injustamente (esse argumento tá aqui nesse simpático trabalho escolar).
Mas nas duas fontes que citei até aqui, o verbete e o trabalho, não temos praticamente uma única linha sobre a cultura vândala (e nem em inúmeras outras fontes que encontramos quando digitamos no google as palavras-chave “cultura dos vândalos” e outras em torno destas). Só sobre sua suposta origem geográfica, que seria ali pela Noruega, segundo consta. Ponto engraçado esse, pois a Noruega num me parece um lugar muito atrasado hoje em dia, se quiséssemos usar os mesmos critérios do ocidente “civilizado” para desclassificar um povo/grupo/etnia como vândala, atrasada, bárbara, selvagem etc. Se fossemos por esse caminho, poderíamos perguntar: ué, então a herança vândala num seria tão perversa assim? Pois taí, mais um sentido pra disputar.... mas não é esse o caminho que escolheremos percorrer aqui.
Continuando, as fontes só falam deste aspecto e, principalmente, da invasão vândala na parte oeste da Europa, na França, Itália, Portugal, Espanha... e destruindo tudo, segundo as fontes e o senso comum e o discurso em ato do Grégoire e a mídia tradicional e as autoridades brasileiras. Ah, e parece que eles migraram para oeste forçadamente, porque foram atacados pelos hunos. Pera aí: então eles reagiram a uma agressão? Então os hunos seriam os “verdadeiros” vândalos??? Num parece semelhante com o que apontei acima, no caso recente brasileiro? Não faltam disputas significativas, pelo que podemos ver... mas também não seguiremos por essa vereda.
Pois, para concluir essa parte, quer dizer que as principais referências sobre os vândalos são construídas pelos povos que, supostamente, eles destruíram? Não se tem algo mais vândalo, por assim dizer, sobre o ser vândalo, só um olhar ocidentalizado sobre a identidade vândala? Aí fica complicado, né?  Não parece semanticamente muito justo que a representação sobre o outro seja construída na ausência do outro, só abarcando o outro visto pelos olhos do “um”, principalmente um “um” rancoroso e posteriormente vitorioso. Mais uma vez, não parece semelhante com o que faz a mídia no que tange às representações dos manifestantes como vândalos? Não fica faltando a representação que os “vândalos” teriam/têm deles mesmos?
Não sou uma especialista em História romana nem vândala etc. Tô aqui na humildade procurando referência sobre a cultura dos vândalos, no bom e velho google, por que fiquei curiosa sobre essa tal “cultura vândala”. Tá difícil. As referências são quase todas no naipe do que citei acima (origem nebulosa e saque de Roma etc.). Mas a gente pode fazer um exercício imaginativo, creio eu (claro que deve ter muito livro porreta sobre a cultura vândala, penso, mas num tá fácil de achar na internet, não. Então, vamos seguir com o que encontramos). Vamos pedir ajuda dessa fonte aqui. Nela, o autor descreve os povos “bárbaros” (vândalos dentre eles), assim:
“A maioria destes povos organizavam-se em aldeias rurais, compostas por habitações rústicas feitas de barro e galhos de árvores. Praticavam o cultivo de cereais como, por exemplo, o trigo, o feijão, a cevada e a ervilha. Criavam gado para obter o couro, a carne e o leite. Dedicavam-se também às guerras como forma de saquear riquezas e alimentos. Nos momentos de batalhas importantes, escolhiam um guerreiro valente e forte e faziam dele seu líder militar. Praticavam uma religião politeísta, pois adoravam deuses representantes das forças da natureza (...).”
Sei lá, posso imaginar um povo festeiro, com uma rica cultura rural, uma mitologia complexa e interessante, uma ética ligada a valores como honra e valentia, num sei, coisas assim. Devem ter sido muito interessantes, esses vândalos. E provavelmente deixaram uma contribuição rica para o caldeirão que formou a cultura ocidental no decorrer da Idade Média, depois que amalgaram com os povos do oeste. Nosso autor aí de cima concorda:
“A mistura da cultura germânica com a romana formou grande parte da cultura medieval, pois muitos hábitos e aspectos políticos, artísticos e econômicos permaneceram durante toda a Idade Média”.
Temos, então, um outro quadro, de difícil apreensão. Os vândalos teriam uma riqueza cultural que não conhecemos, porque a história que nos chega não foi escrita por eles. Contribuíram, assim como outros povos, para a cultura ocidental, mas seu registro na história é o de saqueadores e destruidores. Passaram a ser estigmatizados em um momento, segundo o wikipedia, de atribuição explícita de sentido, no século XVIII, pelo tal Grégoire. E é neste recorte de sentido, apresentado como verdadeiro, que a mídia hegemônica ancora a representação dos manifestantes brasileiros atuais como vândalos.

Minha proposta? Lutar pela positivação da palavra “vândalos”, e não negá-la e empurrá-la como uma praga semântica para o outro. Vamos nos apropriar do vandalismo como essa riqueza cultural que não foi contemplada e reconhecida, como essa voz que nunca foi ouvida, como esse povo que sob pressão teve que se mover e construir novos sentidos para sua vida... Vamos ser vândalos com orgulho, mas não por que quebramos tudo, mas por que somos aqueles que não puderam ter voz na história, que não tiveram sua cultura registrada e reconhecida, que são traduzidos pela hegemonia com a perversão do sentido único, fetichizados pelo olhar colonizador em um misto de desejo e repulsa. Vamos nos libertar do sentido dado, pronto, fechado, e recusar não só estigma de ser classificado como vândalo = baderneiro, mas recusar principalmente o estigma a que foram confinados os próprios vândalos, de quem sabemos tão pouco. Os vândalos também foram oprimidos pela história hegemônica e, de certa forma, também é nosso dever lutar por eles. Infelizmente, os vândalos não tinham nem youtube nem facebook e acabaram sendo relegados, pelo olhar dominante, a um lugar fixado: o da destruição e da ausência de história própria. Devemos, por eles e por nós, desconfiar disso e lutar pela flexibilidade dos sentidos. Somos todos vândalos, não somos todos vândalos, nem mesmo os vândalos, pelo visto, eram os vândalos... e é isso o que importa da cultura, como me ensinou Stuart Hall, que ela seja essa imensa “arena de disputas pelo direito de significar”.



"Enfim, ser "vândalo" é atrapalhar um projeto estabelecido de cidade, é romper com a ordem (raríssimos são os contextos onde consigo ouvir esta palavra sem sentir calafrios, se existem, no momento, eu não me recordo!), sair do lugar das exclusões e dos silêncios... Mas isso, todo bárbaro ("o outro") é, não é mesmo? Sem dúvida, mas o estigma histórico colocado aos "Vândalos" nos indica o peso, o grau da ameaça, da potência e das transformações que geraram pra "civilização"... Logo, carregar, na atualidade, os mesmos estigmas é imprimir aos manifestantes a mesma potência transformadora. Ameaçadora. E, só por sentir o medo na fala do opressor, qualquer estigma vale a pena" (este ótimo parágrafo final, escrito a partir da reflexão acima, é uma colaboração da Patricia Cormack, disputando os sentidos e propondo outras leituras. Show!)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Sobre o pronunciamento da presidente Dilma, achei previsível. Se declarou favorável às manifestações democráticas e pacíficas. Prometeu reprimir o vandalismo para restabelecer a ordem. Se mostrou aberta ao diálogo. Prometeu pacto social. Sugeriu medidas para resolver alguns problemas. Lembrou da importância de realizarmos uma copa ordeira e sem incomodar os visitantes. Enfim, falou o que um chefe de Estado deveria falar para acalmar a nação em um momento complexo e perigoso. Nesse ponto, tudo bem, tudo certo. Era isso mesmo que precisava ser feito. Ponto para o governo.
Mas queria tecer algumas considerações:
a) Acho lamentável que o governo incorpore os termos “vândalos” e “baderneiros” constituídos estrategicamente pela mídia hegemônica sem prometer investigação sobre quem seriam esses sujeitos etc. Acho isso perigoso em termos de fechamento de sentido e vergonhoso para um Partido com a história política do PT;
b) Acho lamentável falar-se em democracia etc. e não se colocar uma só palavra sobre a ação das polícias. Isso é uma omissão calculada e imperdoável, aí não só para uma presidente e um partido com a história de ambos, mas para qualquer autoridade constituída. O que as polícias estão fazendo nas ruas, como demonstram MILHARES de depoimentos e centenas de imagens, é crime. E quando uma autoridade instituída se cala sobre uma ação criminosa perpetrada pelo Estado ela é tão criminosa quanto. Já tinha falado isso antes, em episódios como Pinheirinhos etc. Para mim, sinceramente, isso é imperdoável. Não sei vocês, mas eu nunca esquecerei esse silêncio;
c) Militei muito pelo PT. Votei nele continuamente. Inclusive em todas as eleições do Lula e na da Dilma, por quem inclusive fiz campanha aqui. Então me sinto totalmente livre para falar, porque não sou anti petista, anti lula etc. Também não sou simplificadora, sei que é incomparável o quanto o país avançou em alguns pontos em relação ao governo FHC, e não tenho dúvida que o PSDB é MUITO PIOR para o país. Vejo ganhos sociais óbvios para a democracia no bolsa família, na política de cotas,  na área das políticas culturais (embora mais nos governos lula), na ascensão econômica de alguns setores da população etc. Mas isso não me torna cega e impossibilitada de criticar o que vejo de problemas no governo do PT. Acho que se trata de um governo contraditório, com alianças políticas imperdoáveis principalmente por sua história e pelo quanto elas são perniciosas ao país (Cabral, Paes, Sarney, Collor, Renan etc.), com ações totalitárias disfarçadas de democráticas (vide o que aconteceu na greve dos professores no ano passado), que tem servido fortemente ao grande capital, que beneficia banqueiros, mega empresários, grande corporações midiáticas e econômicas, que abandonou sua juventude militante, que tem sido omissa em aspectos imperdoáveis, como a violência policial, a falta de políticas públicas para resolver de fato as questões de saúde e educação, combate à corrupção e outros pontos complexos, como o crescimento da influência de setores particularistas e sectários como bancada religiosa, bancada ruralista etc. nas decisões políticas. Sim, neste sentido vejo que o PT trouxe ganhos para o país, mas também retrocessos e permanências. E quero ter o direito de poder falar sobre isso, sem maniqueísmos. E quero ter o direito de dizer que como militante deste Partido me decepcionei profundamente com ele. Mas eu era mais jovem, agora sou mais cascuda e isso também tem ganhos e perdas, sou mais cética e cínica, o que me permite análises menos apaixonadas, mas para compensar mais tristes. É isso, entendo politicamente boa parte das ações do PT, por vezes até as defendo porque entendo melhor as regras do jogo, mas considero algumas imperdoáveis (a omissão quanto à violência policial é uma delas) e me dou o direito de expressar minha tristeza com essa desilusão. Me sinto muito triste porque no poder o PT não foi o partido que alimentou meus sonhos de juventude.
d) Por fim, mesmo com o parágrafo anterior, sei que política é isso mesmo. Tem movimentos, concessões e negociações complexas e escorregadias. Assim sendo, voltarei à fala da Dilma ontem. Acho que o PT, mestre histórico pela experiência acumulada nos movimentos sociais e nessa década de poder instituído, sabe como poucos partidos faturar em cima da pauta dos movimentos sociais. Acho que o pronunciamento de ontem mostra isso claramente. Questões como pacto social, plano de mobilidade urbana, projeto dos cem por cento do petróleo para educação, proposta de trazer médicos cubanos para o país, os gastos com a copa etc. já estavam em jogo, despertando polêmicas justas porque são contraditórios, mostram muitas vezes um empenho de agradar o capital, em outras se mostram de fato projetos para melhorar condições sociais. Enfim, projetos complexos, que precisariam de maior debate social. Só para citar um exemplo: os cem por cento para a educação. Que educação? A pública, que continua sucateada apesar de discursos e programas como o REUNI? Ou a privada, que tem sido muuuuuito privilegiada nos últimos tempos? E como ficam os municípios que sofrem diretamente o impacto da exploração do petróleo? Não serão indenizados para que possam tentar mitigar esse impacto?  Então, precisamos discutir isso, como muitos têm sinalizado. Agora, quando a presidente coloca esta fala em um discurso apaziguador, em meio a uma tensão social ansiosa e aparentemente explosiva, me parece uma clara estratégia de faturar em cima dos acontecimentos, forçando uma aprovação emocional à proposta a partir do clamor popular. PT é uma raposa velha no campo político, sabe como poucos faturar em cima de episódios de forte impacto midiático. Repito: assim como na greve dos docentes universitários do ano passado, o partido silenciou primeiro, depois deslocou a pauta, contou com a expressiva fala da grande mídia fechando os sentidos e conquistando a opinião pública, prometeu diálogo, fingiu dialogar e nunca dialogou e depois aprovou o que quis. Rolo compressor sim, às custas de luta nas ruas/universidades, mídia hegemônica a favor e artimanhas políticas e discursivas. Não considero isso uma novidade nem uma surpresa, acho que faz parte do jogo político e considero que o PT é um mestre nesse tipo de jogo. Por isso disse que era previsível. Sobre essa parte nem me decepcionei nem fiquei triste, acho que é isso mesmo, faz parte da luta política faturar em cima dos episódios. E temos de reconhecer: esses caras são bons nisso.
e) Além disso, é preciso também estar atento a artimanhas que poderiam favorecer ações golpistas. Isso, obviamente, não podemos tolerar. Neste sentido, fechamos com o PT, como fecharíamos, democraticamente, com partidos eleitos dentro do jogo democrático. Mas isso também não nos impede de perceber que esse tipo de ameaça e pressão também é ambígua, porque se por um lado nos obriga a rechaçar ações e atitudes golpistas, também permitem que o partido forcem uma aprovação temerosa a suas propostas, visando fortalecer o poder instituído. Neste sentido, o medo de golpe que ameaça também permite que se fature sobre ele.

f) Enfim, agora bora cobrar as promessas etc. Mas elas não são novas, né? Já eram de campanha etc. Mas nem por isso acho que as mobilizações não têm ganhos. Sobre isso, falei no post anterior, e tá tudo no meu blog pra quem quiser acompanhar meu argumento todo.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Estamos em meio a um processo complexo e deslizante, com muitos ângulos a serem considerados, por isso tenho distribuído, partilhado e sugerido que a gente veja, leia, ouça, experiencie muitas coisas e evite fechar conclusões. Muita coisa ainda vai acontecer, mas gostaria de tecer aqui alguns pontos sobre as mobilizações sociais das últimas semanas, fruto de algumas reflexões, sem maiores pretensões à verdade e disposta ao diálogo:
1) As mobilizações colocaram as questões políticas na agenda coletiva das conversações, em meio a uma copa de futebol, que normalmente mobiliza o imaginário geral. Isso, a meu ver, é um grande ganho;
2) Também considero um ganho, ainda que em suas múltiplas discursividades e ambiguidades, que as juventudes urbanas contemporâneas possam ter visibilidade e expressão. É importante para todos nós que esses agentes possam se colocar, e é justo com essa geração, muito oprimida pela sociedade de consumo, pela hedonização da vida, pelo fardo da história que cobra dela que seja ativa e militante, pela precarização das condições de vida e de trabalho, pelas ansiedades sintomáticas da sociedade pós-moderna.
3) Outro ganho, embora muito doloroso em todos os sentidos possíveis: explicitou publicamente a truculência dessa polícia repressora e excludente, fazendo com que parte considerável da população sentisse na pele o que sofrem historicamente as classes oprimidas economicamente, em especial os moradores de periferia, favelas, subúrbios e os jovens afro-descendentes, inclusive dando visibilidade em escala mundial a imagens dessa violência bruta e vândala das polícias brasileiras de forma geral. Talvez, nesse ponto, tenhamos, a partir de agora, um esforço mais coletivo de luta em torno dessas ações opressivas contra as quais temos que continuar permanentemente denunciando e nos manifestando, independentemente de quem seja vitimado por essa truculência totalitária e autorizada pelo Estado, a qual NÃO PODEMOS ACEITAR.
4) Mais um ganho, que em parte resulta de algumas perdas: ficou claro, a meu ver, que os movimentos sociais tradicionais precisam se recolocar, compreender esse processo histórico e repensarem suas formas de atuação, pois sua ausência num manifesto desse monte e repercussão é expressivo de um esvaziamento de seu lugar na agenda coletiva. Precisam aprender a falar com as múltiplas juventudes, suas formas de expressão, com as novas tecnologias, com a lógica das redes. Precisam, urgentemente, se recolocarem no processo histórico, porque não podemos abrir mão de sua experiência e habilidades, aprendendo com os jovens, reconhecendo a necessidade de novas abordagens, rompendo com lugares confortáveis de poder;
5)  Os novos movimentos sociais, especialmente de jovens de esquerda, também precisam aprender com os recentes acontecimentos. Sua potência é fabulosa, sabem usar as novas tecnologias muito bem, manejam de maneira impressionante as lógicas de redes, mas não podem prescindir da experiência dos movimentos sociais já instituídos, como sindicatos, partidos, associações e setores ainda combativos dentro da universidade, precisam dialogar e trocar mais intensamente com eles, para efetivarem a potência em mais poder. E para não ficarem tão atônitos e perdidos quando a lógica de redes se mostrar exatamente como é: descentrada, diversa, escorregadia, complexa. Parece fácil lidar com ela, mas não é. A rua não é como o facebook, infelizmente, onde basta excluir quem te oprime, irrita, contesta, atrapalha, violenta etc. Na rua, vai ser preciso lidar com a multiplicidade, com as apropriações físicas e simbólicas, com a força bruta que a multidão facilita, com a flexibilidade... lidar com a não rigidez das ruas num é tarefa fácil, e acho que este é outro ganho deste processo, a compreensão de que é preciso aprender a lidar de outras formas com isso;
6) Também considero um ganho que parte considerável da sociedade entenda mais claramente o poder das redes sociais virtuais. Isso ajuda na luta. Mas como nos lembra a canção, “é preciso estar atento e forte”, porque a compreensão cada vez mais evidente desse aspecto também passa a ser preocupação e estratégias dos múltiplos sujeitos em cena, incluindo as direitas conservadoras, a mídia gorda, o Estado etc. Ou seja, trata-se de ferramenta ambígua, que precisa ser discutida também.
7) Considero um ganho o recuo na questão do aumento das passagens em vários locais do país. As mobilizações não eram só por vinte centavos, mas também eram. E nesse sentido é interessante perceber que os poderes instituídos se mostraram dispostos a negociar em alguma medida. Mas é preciso ficar muito atento para que este recuo não se mostre uma grande armadilha, com o repasse deste custo para outros setores de investimento social e, principalmente, para que ele não esvazie as outras pautas.
8) Pois também sabemos que não se trata só de vinte centavos. Então, é preciso que as lutas não esmoreçam. Requer mais discussão, compreensão, articulação, análise conjuntural e estrutural, enfim, não se resolve nada, sabemos todos, em um dia, uma semana, um mês. Também não podemos deixar que as instituições hegemônicas se apropriem da pauta e faturem com ela. Temos de continuar as disputas. Inclusive cobrarmos, a partir dos posicionamentos discursivos das autoridades constituídas, como a presidência da República, que de fato se institua o diálogo prometido e a ação para atender às demandas, evitando que se trate somente de pirotecnia discursiva para legitimar posições anteriores e forçar a aprovação de medidas de interesses contraditórios e escusos às custas de pessoas apanhando em seu nome nas ruas (sobre isso, falarei em outro post).
9) Neste sentido, essas disputas precisam ser pensadas em múltiplos ambientes. Nas ruas, com certeza. E nas esferas discursivas, com certeza. Mais do que nunca, precisamos ocupar as redes sociais, presenciais e virtuais. Precisamos provocar a discussão e lutar pelos sentidos nas grandes e pequenas mídias, nas escolas e universidades, na internet e em todos os lugares em que o discurso polifônico e dialógico está em disputa, porque mais do que nunca isso ficou claro: a luta é também discursiva, eu diria que fundamentalmente. E a percepção disso é, a meu ver, o mais significativo dos ganhos, dentre os que listei (embora caibam muitos outros), dos recentes episódios de mobilização social;
10) Ainda estamos em processo, por isso arriscamos algumas interpretações, mas sabemos que estamos em meio a algo complexo, confuso, múltiplo e deslizante, por vezes incontrolável. Bem, bem-vindos à vida, meus amigos. Ela é isso mesmo. Essa torrente, essa espuma, essa multidão. O sonho iluminista acreditou um dia que seria possível fechar o sentido e ordená-lo, mas sabemos que isso só é possível em práticas totalitárias. Os sentidos estão abertos e em disputa, não é fácil lidar com isso, mas volto a dizer: eis a vida. Por isso, não vejo fracassos nem vitórias, vejo movimentos e deslocamentos do sentido, perdas e ganhos, alguns empates, disputas permanentes. Portanto, sigamos na luta. Isso não é exatamente uma escolha, é o viver mesmo. Viver é lutar. Paramos de lutar, morremos.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem um amigo querido me escreveu dizendo que conheceu meu blog. Aí comentei com amiga amada que estava com saudade de escrever aqui no Baiúca. Aí hoje acordei com vontade de fazer uma série nova, com cenas passadas nessa nova Niterói. Porque Niterói mudou, assim como o mundo. E está repleta de pessoas neurotizadas, predadoras e capazes de atitudes surreais. Presenciei algumas, em diversas ocasiões. Vou repartir aqui.

Cena I

estou cruzando, com meu carro, a Av. Francisco da Cruz Nunes, na Região Oceânica, para entrar na rua do Hortifruti. Sinal aberto pra mim. Idiota avança o sinal. Quase bato. Tenho que dar aquela freada em cima. Enfio a mão na buzina. Idiota pára, abre o vidro, é um cinquentão esportivo numa picape. Olha pra mim e... a) pede desculpas?; b) me xinga?; c) acelera envergonhado?. Não. Faz uma careta pra mim e fica parado, até o sinal abrir pra ele e eu ficar no meio da pista, levando buzina de tudo quanto é lado. Passo entre os carros e balanço a cabeça, sem acreditar.

Cena II

estou caminhando matinalmente na Praia de Piratininga. É cedo ainda, o calçadão (força de expressão, porque depois das ressacas caminho pelos escombros) está vazio, só os caminhantes/corredores de sempre. A maioria de idosos, praticamente conheço todos. Passo por eles e dou bom dia, como faço sempre que caminho rotineiramente pelo mesmo lugar. Todos respondem, alguns sorriem, se sentem reconhecidos e cumprimentados. Passo por uma cinquentona. Digo bom dia. Ela me olha e responde agressiva: "Por quê? Não te conheço". Digo "ok, desculpe". Ela levanta a cabeça altiva e segue vitoriosa. Balanço a cabeça e penso: "ai, hoje vai ser um dia complexo". Sigo a caminhada, distribuo outros bons dias, e respondo a outros acenos. 

Cena III

nesse mesmo dia, mais tarde. Eu adivinhei que seria complexo, né? Estou no Hortifruti do centro. Na fila do caixa. Na minha frente, senhora com carrinho cheio vai descarregando seus produtos pra pagar. Eu com carrinho cheio. Atrás cinquentona com carrinho cheio. Vem um velhinho, bem velhinho, meio confuso com uma cestinha e quatro itens pingados na mesma. Olha pra mim e pergunta se eu me incomodo de deixar que ele passe antes de mim. Eu digo: "claro, o senhor pode passar sem problemas". Sinto uma mão no meu ombro. Cinquentona berra: "você me perguntou se eu concordo? Eu não concordo!". Volta seu ódio vespertino pro pobre senhor e aponta pra uma fila enorme no canto direito, a do caixa rápido, e diz: "vai pra lá, é pra lá que vc tem que ir". Ele pede desculpas, eu tento argumentar, ele me olha com ternura e me diz: "deixa, minha filha, prefiro assim, menos confusão. Mas muito obrigado, viu?". Segue então pro caixa rápido que vai demorar horrores. Olho com ódio para a mulher, mas deixo quieto.

Torno a me concentrar na caixa e na mulher da frente. Vejo que ela está com dificuldades físicas pra pegar os produtos no carrinho e colocar na esteira do caixa. Falo: "você quer ajuda?". A mulher da frente diz: "ah, quero sim, se vc não se incomodar. Fiz uma operação recentemente, ainda estou em fase de recuperação, então tá dificil fazer muito movimento". Começo a ajudar a mulher a tirar as coisas do carrinho. Ela passa tudo, paga, agradece e vai embora.

Começo a tirar as coisas do carrinho. Eu e a caixa comentamos sobre a situação da mulher, coitada, tendo que fazer compras sem condições físicas pra isso. Nisso uma voz me interrompe. É a cinquentona neurótica e histérica. Ela pergunta: 
- Escuta aqui, vc está com algum problema de karma?
Eu:
- Oi?
Ela:
- Só pode estar, pra querer estar ajudando todo mundo assim na rua. Só pode ser karma mal resolvido, tá precisando pagar alguma coisa, pra querer ficar ajudando assim.
Eu olho pra caixa, pasma. A caixa abre olhos estupefatos. Eu ignoro a histérica e digo pra caixa:
- É mole?
A caixa e eu começamos a rir muito. A caixa fala:
- Gente, é cada coisa.
Continuamos a rir. Cinquentona fica puta, mas num fala mais nada.
Termino de fazer o pagamento, agradeço à caixa, rimos novamente. Ignoro totalmente a louca e vou embora.
Eu disse que ia ser um dia complexo, né?

Cena IV

Estou indo para dar aula na faculdade, de manhã cedo. Ruas Mário Vianna e Santa Rosa totalmente paradas. Resolvo cortar pela João Pessoa, quando ainda dava mão sentido Paulo Cesar. A cada cruzamento da João Pessoa, então sem sinais de trânsito, paro para dar passagem para crianças escolares e seus responsáveis, muitas vezes avós. No terceiro cruzamento em que isso acontece, na esquina com Domingues de Sá, sinto um empurrão no meu carro por trás. É uma picape tentando passar por cima do meu pobre uno. Salto pra ver que diabos está acontecendo.
No carro, um cinquentão enlouquecido começa a berrar e me xingar, dizendo pra eu sair da frente, vaca!, ele vai perder a hora, piranha!, tirar a merda do meu carro da frente, vaca!. No banco do carona, a mulher me olha envergonhada. Os dois filhos no banco de trás estão boquiabertos. Trata-se de um dos "pais do Abel", que diariamente fazem misérias no trânsito com suas picapes pra deixar seus filhos na escola, e que se foda o resto do trânsito e da cidade! 
Enquanto ele xinga e berra, eu olho para a mulher no banco do lado, bem no olho e falo, baixo, mas ela escuta: "Tenho pena de você, amiga, por ter que aguentar esse idiota. Mas tem certeza de que vai deixar esse cara (friso bem esse trecho pra ela entender) educar seus filhos?". Ela me olha resignada. Ele me xinga mais. Saio, entro no meu carro, dou passagem e ele acelera feito louco, ainda me xingando. Pessoas na rua me olham pasmas e balançam a cabeça em solidariedade. Sigo adiante, com calma, parando nos cruzamentos. Pessoas agradecem. Chego na hora pra dar aula.

Por enquanto é só. Mas tem mais! Ah, nossa Niterói, que beleza, né? E os cinquentões, que estão terríveis???!!! ;)


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
adoro coments no blog, negativos ou positivos. Mas só permito os identificados. Anonimato pra comentar opinião alheia é covardia. Aqui só rola quem se posiciona, regras da casa. E quem coloca nome sem link, sem ser conhecido previamente, pra mim é anônimo tb. E num aceito grosseria gratuita em coment. Como disse, regras da casa. Apaguei muitos hoje. Gente chata! vai fazer um blog pra encher a paciência dos outros, peloamor!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hj assisti, finalmente, à animação Rio. Olha, por que o diretor/autor/roteirista, enfim, por que os responsáveis por uma animação tecnicamente impecável, com personagens simpáticos, com paisagens cariocas fabulosas, dão uma de "babaca mor" ao colocarem os micos (todos pardos/morenos) como ladrões e funkeiros? Qual a necessidade de ser tão escroto, meu pai?

Por que alguém se dá ao trabalho, depois de fazer a analogia óbvia acima, de colocar na boca/bico de um pássaro BRANCO a inacreditável frase "isso que dá mandar macaco fazer trabalho de ave" (não estou citando literalmente, mas é isso aí, mais ou menos).

Cara, num consegui mais curtir o filme. Aí a gente fala e o povo reclama do politicamente correto. Gente, qual a necessidade de ser tão preconceituoso, tão gratuitamente preconceituoso, tão gratuitamente babaca? Num consigo entender.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hj tive o desprazer de assistir ao inacreditável discurso da dep. estadual Myriam Rios (sim, ela foi eleita! Sim, me recuso a postar aq e ofender ao meu blog querido!) sobre suas posições acerca das leis anti-homofobia (ela está se opondo ao PEC 23/2007, que na surdina foi votado e derrubado no dia 21/06/2011. Saiba mais aqui e vejam no que dá ter tolerância com quem é intolerante. Mais uma regressão no campo legal, que lamentável!). Não deveria mais perder tempo com essa gente que não se sabe se age assim por má fé (que ironia, né?), ignorância, medo, obscurantismo, vontade de aparecer, ah, nem sei mais como classificar essa profusão de falas homofóbicas, preconceituosas e discriminatórias que são emitidas em público com um suposto aval da democracia, do livre pensamento religioso, do sei lá mais o quê. Para mim, são discursos ofensivos e empobrecedores do debate, mas, principalmente, extrapolam o campo dos argumentos e geram ações como a derrubada do PEC 23. Portanto, resolvi que num dá para me omitir e não comentar a surreal fala acima citada.

Vamos aos pontos:

1) ela afirma, no discurso, que se o PEC 23/2006 for aprovado ela ficará impedida de demitir um empregado se ele for pedófilo. Oi? gente, pelo amor de Deus, avisa pra essa senhora que pedofilia é crime, então ela pode sim não só demitir como principalmente denunciar um pedófilo! O que ela não pode é fingir que num sabe (porque num é possível, eu sei que ela sabe) que pedofilia não é sinônimo de ser gay, e que existem pedófilos homossexuais, infelizmente, mas também infelizmente pedófilos heterossexuais (e muitos, minha senhora, muitos!). Portanto, se seu empregado, hetero ou homossexual, for um pedófilo, a senhora deve mesmo demiti-lo, denunciá-lo, fazer de tudo para que ele não possa agir nem perto de seus filhos nem dos filhos de ninguém (estratégia melodramática muito usual e eficiente, a de chamar a comoção do público para seus argumentos usando da seguinte frase: "sou mãe de dois filhos", usada não só por Myriam Rios, mas por tantos outros "defensores da família" e, em nome disso, defensor dos preconceitos também, vide a fala de Leilane Neubarth que já comentei nesse post). Mas o que a senhora não deveria (e se tudo correr bem, se o mundo for justo, com aprovação posterior dessa Lei - ela ainda terá que ser objeto de apreciação mais uma vez - ou de outras, como a PL-122, o que a senhora NÃO PODERÁ) é imputar a uma pessoa um rótulo criminalizável, como associar a um homossexual a acusação de pedofilia, a priori, porque isso é discriminação e também calúnia e difamação.

2) Vamos entrar agora nesse surreal argumento "Quero dizer que não tenho preconceitos, que não estou discriminando ninguém", pra depois sair discriminando a torto e a direito, povoando o mundo de
preconceitos e estigmas aviltantes. Vou repetir: NÃO PODEMOS TOLERAR QUE OS DEFENSORES DO PRECONCEITO, ESSES ARAUTOS TOTALITÁRIOS QUE QUEREM IMPOR SUAS VISÕES DE MUNDO SOBRE OS DIREITOS DOS OUTROS, ADVOGUEM DIREITO DE IGUALDADE DE OPINIÃO, DIREITO DE EXPRESSAR SEU PRECONCEITO PORQUE ISSO É DEMOCRÁTICO. Não, não é. É totalitário, já escrevi sobre isso nesse post e não vou me repetir. Mas não aceitamos mais esse argumento. Bata no peito e assuma: sou totalitário, quero despedaçar você, por ser diferente de mim, não quero que você tenha o mesmo direito que eu, e aí a gente conversa. Fora isso, para mim você está se portando duplamente como um cínico e um preconceituoso.

3) Ela repete várias vezes: "imagina vc contratar um empregado para cuidar de seus filhos e depois descobrir que ele é homossexual". Essa dimensão do "descobrir" me lembra muito a sempre atual obra de E. Goffman, Estigma (senhora deputada, vença seu medo do conhecimento, procure ler esse livro, venha para a luz, Caroline!). Nele, Goffman distingue os desacreditados (aqueles que portam estigmas visíveis, marcas corporais, e serão discriminados por isso) e os desacreditáveis (aqueles cujos estigmas são passíveis de disfarce e manipulação, por não serem marcados pelo traço físico objetivo, mas que se forem descobertos serão discriminados). Para os primeiros, os estigmatizados/desacreditados, o problema está no contato, pois este é marcado sempre por uma situação tensa em que a materialidade do estigma evoca o preconceito e a discriminação. Para os segundos, os estigmatizáveis/desacreditáveis, o problema é a informação, o controle sobre ela, quem pode saber, quando, onde... trata-se de uma situação de absoluta tensão e neurose, já que sobre o desacreditável paira a sombra do medo de ser descoberto.
E a deputada Myriam Rios, que acha mesmo (será que acha?) que não está discriminando ninguém, quer perpetuar exatamente esse medo, essa tensão, essa neurose. Ela quer que seu empregado (olha, me recuso a comentar o quanto esse exemplo sobre contratar empregados como único meio de contato com homossexuais é chocante, nem o caráter classista dessa exemplificação) continue se escondendo, mentindo para se proteger, controlando as informações acerca de sua vida privada para não ser descoberto, porque se for, segundo o que sugere a deputada, o levaria a perder o emprego. E ELA VEM DIZER QUE ISSO NUM É DISCRIMINAÇÃO!!!! Ah, num tem como ter paciência com esses argumentos.

4) Podia falar aqui do estado laico, da necessidade de contermos, com urgência, esse avanço das posições religiosas sobre questões de direitos individuais, mas isso já vem sendo pauta de inúmeros artigos e falas (recomendo, por exemplo, essa entrevista com o deputado federal Jean Wyllys). Prefiro abordar aqui a importante questão levantada por H. Bhabha a respeito das relações ambíguas entre colonizadores e colonizados. Segundo ele, os colonizadores, buscando situações de controle e dominação, esmagavam os direitos dos colonizados, oprimindo-os. Para isso, deslegitimavam qualquer fala destes, acusando-os de uma não humanidade, de inferioridade, de representarem o perigo da anomia, o primitivismo. No entanto, mostra Bhabha, ao mesmo tempo que oprimem e desqualificam os colonizados, os colonizadores os fetichizam, transformando-os em objeto ambivalente, significante de um misto de temor/medo com fascínio/desejo. A ação de sujeitar o outro, antes de significar somente um atestado de poder, demonstra Bhabha, é uma alegoria de uma ambiguidade constitutiva da relação colonizado/colonizador: lugar de temor e também de desejo, o colonizado precisa não só ser domesticado, mas principalmente fetichizado, para que o opressor possa lidar com seus medos e seus desejos, como o medo/desejo de, de alguma forma, ser dominado por aquele a quem domina ou, em última instância, tornar-se um deles, e o pior, gostar de tornar-se, desejar tornar-se aquilo que em tese se abomina.

Acho essa uma excelente forma de pensarmos a relação da hegemonia heterossexual em relação ao homossexual. Claro que não estou propondo aqui uma aplicação colonizador e colonizado ao pé da letra, mas pegar por empréstimo o que Bhabha aponta existir, no jogo perverso do fetiche, de medo e desejo nas relações de dominação.

Porque venhamos e convenhamos, essa fixação de uma parcela de religiosos brasileiros com a questão dos direitos homossexuais pode ser pensada claramente nesses termos do fetiche. Aliás, frente aos últimos acontecimentos, já estamos no campo da obsessão.

Portanto, acho que esse bando de preconceituosos travestidos de bons samaritanos está precisando mesmo é de uma bela de uma ... terapia gigante! Ou, pelo menos, de dar uns bons beijos na boca. Talvez parassem com essa encheção.


Terminarei com um "Você dedide" particular. No filme "O grande debate", o orador negro, que vencerá ao final o desafio dos debates que perpassa o filme, termina seu consagrador discurso sobre a segregação racial norte-americana com a seguinte observação (não lembro ao pé da letra, então é mais ou menos isso): "frente ao que vocês nos fizeram, só nos restava escolher entre a desobediência civil e a violência. Vocês têm sorte por termos escolhido a desobediência civil". Ora, não precisamos chegar a tanto por aqui. Não precisamos nem de um nem de outro caminho. Escolhemos o de lutar no campo das leis.

Mas deixo aos discriminadores, esses falsos cristãos, que fingem que pregam o amor ao próximo mas só tem, como narciso, amor a si mesmo, o seguinte direito de escolha: abaixo endereço duas mensagens a vocês. Dependendo do seu comportamento em relação a mim, te ofertarei uma delas. Agora é com você!




Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

O recente episódio envolvendo a repórter Leilane Neubarth e a entrevistada Gilberta Acselrad, professora e coordenadora do Núcleo de Estudos, Drogas, AIDS e Direitos Humanos da UFRJ, em entrevista sobre drogas na GloboNews, que acabou virando coqueluche nas redes sociais, me lembrou piada antiga e esclarecedora que conto em sala para os alunos de Sociologia.

Lá vai a piada (no final, o vídeo com a já histórica entrevista, para quem quiser ver e rever):

Cena 1 - Dois homens estão passando por uma rua e encontram um prédio cheio de rachaduras. Um deles diz:
- Ih, já era, esse prédio vai cair...
O outro responde:
- Não, tem salvação, depende da intervenção, hj em dia tem técnicas modernas de reparo, com tecnologia de último tipo etc.
O outro retruca:
- Que nada! Olha o tamanho das rachaduras. Vai pro chão!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou engenheiro civil, estudei cinco anos disso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Ah, bem! Se vc é engenheiro, nem vou discutir. O especialista é você...

Cena 2 - Dois homens estão passando por uma rua e assistem a um acidente de automóveis, com feridos. Um deles diz:
- Ih, já era, a mulher já vai morrer...
O outro responde:
- Não, tem salvação, depende do socorro rápido, hj em dia tem técnicas modernas de sutura, com laser etc.
O outro retruca:
- Que nada! Olha os miolos dela no chão. Tá morta!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou médico, estudei seis anos disso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Ah, bem! Se vc é médico, nem vou discutir. O especialista é você...

Cena 3 - Dois homens estão passando por uma rua e assistem a uma intervenção da polícia numa favela, com tiroteio. Um deles diz:
- Ih, num tem jeito não, aí só tem marginal, tem que explodir tudo...
O outro responde:
- Não, tem jeito sim, depende de intervenção correta, que leve em consideração a desigualdade econômica e política historicamente construída, buscando uma política de respeito e tolerância, que promova a cidadania, a inclusão social etc.
O outro retruca:
- Que nada! Isso é resultado da miscigenação, povo preguiçoso, essa gente tem que morrer!
- Tô te dizendo, rapaz. Tem jeito, sim. Eu sou cientista social, estudei a minha vida inteira isso, sou especialista nessa área, te garanto q tem solução.
Ao que o outro responde:
- Essa é a sua opinião... num concordo. A minha é a seguinte etc.

Aqui vai o link para a entrevista citada acima.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

A outra relíquia é essa matéria, de 22 de março de 1992, sobre o descaso com a memória da cidade e a demolição de casarões antigos para dar lugar a prédios. Olha que naquele momento a preocupação era só cultural, porque nem poderíamos imaginar o que aconteceria com o trânsito e a qualidade de vida de Niterói depois da explosão imobiliária (esse será o tema de um post caprichado, dentro da série "Acorda Niterói". Mas, por agora, recomendo a leitura do ótimo blog DesabafosNiteroienses).

O começo da matéria é realmente um pequeno indício do que ainda estava por vir: "A memória de Niterói vem sendo demolida a golpes de pás e picaretas". Hoje, eu escreveria o mesmo, mas substituiria "a memória" por " a vida". Que triste!
Posted by Picasa
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Fuxicando aqui no meu escritório, ainda na arrumação da década, quiçá do século, achei mais duas relíquias, ambas matérias que fiz quando era repórter do Globo Niterói, nos inícios dos 1990.
Posto aqui a primeira delas, sobre o desaparecimento de bares tradicionais da boêmia niteroiense, em uma espécie de premonição do que viria acontecer depois, com a extinção de praticamente todos os velhos e bons redutos da noite de Niter (que já rendeu esse post aqui no Baiúca). A data? 30 de julho de 1989.
Posted by Picasa
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Nesse post aqui, contei a história do mito de origem desse blog: a vontade de resmungar sobre uma notinha surreal que tinha lido, há muitos anos, num jornal local de Niterói. Mas lamentavelmente, eu dizia no post, tinha perdido o jornal com a tal nota.

E eis que agora, arrumando meu escritório finalmente, achei o tal jornal perdido em uma gaveta. Trata-se de uma edição de março de 2004 do Correio Oceânico, que nem sei se existe mais.

Pois lá na penúltima página, esperando por mim, está a tal nota (num vou dizer quem assina porque já passou mt tempo e pode num ser justo). Mas vou reproduzir aqui, como uma homenagem a meu mito de origem fundador do Baiúca, isso lá nos idos de 2004. :)))

E vai a pérola (e vou até me abster de coments mais profundos, pq nem precisa. Mas só uma pequena dica: reparem no título):

"Reflexão.
A quem diga que não é certo o racismo, preconceitos e tentativas de subornos. Pois são os próprios que praticam tais atos é que os pregam em forma diferente. O pior é que essas pessoas andam coladinhas na gente, que vergonha!".

Só tenho uma coisa a dizer: hahahahahahahaahahahahahahahahaha!

Adorei ter achado essa relíquia. :) Agora sim, o Baiúca do Baudelaire está oficialmente fundado!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Em homenagem à minha amiga querida Xu, que se indignou com o post com q inauguro esta série (hahaha, a dos cabelos brancos), mais uma sobre as descobertas da meia-idade e nossa indignação diária com o tal do passar do tempo. Episódio de hoje:

VISTA CANSADA
!

Vou te falar, tanto ou mais ódio do que os cabelos brancos. Esse negócio de num conseguir ler as letrinhas, num ler mais bula, num ler mais de perto, ter que ficar trocando de óculos, tirando óculos, cara, mas que inferno! E é de repente. No dia anterior, vc enxerga q é uma beleza. Um dia vc acorda, e sua vista já te transformou simbolicamente num velhinho do século passado.

Bem, pelo menos essa mudança física é uma unanimidade. Todos os meus amigos quarentões ou perto disso ou um pouco acima disso reclamam muito dessa tal praga de vista cansada. Outro dia, num restaurante, vários de nós tentamos resolutamente ler o cardápio, passando de mão em mão, de vista em vista, até que resolvemos jogar a toalha e pedir a ajuda de uma amiga mais nova, nos seus trinta anos felizes. Ela leu, mas foi envolta num ódio coletivo, que vou te contar, hahahaha.

Bem, tem o tal do multifocal. Mas dá um trabalho... Tem gente que usa lupa. Mas derruba tanto a auto-estima... por agora, sigo no troca-troca dos óculos pra perto e pra longe, como vi minha avó e pais tantas vezes fazerem. É a tal da vida, num é isso? mas alguém lá em cima tinha que ver isso aeh!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Acabo de assistir ao discurso de despedida de Ronaldo, o "fenômeno". Vou começar por esse ponto: a mídia/os empresários/os publicitários, alguém bem criativo e malandro, criou esse termo de referência para ele, como justificativa de seus feitos (talento nato, selecionável muito jovem, gols de placa, títulos, ida precoce para o estrangeiro etc.). Pronto, a partir daí, a cobrança em cima do cara passou a ser "fenomenal" também.

Olha, como atleta Ronaldo me deu muitas alegrias. Torci por ele, lamentei suas contusões, senti pelo seu drama. E ponto. Nunca tive envolvimento emocional com essa história para além do de uma torcedora.

Acho sim, como muita gente boa, que nos últimos anos ele num tava jogando nada, que era muita grana em jogo pra pouco futebol, que o esporte está contaminado cada vez mais pela lógica do consumo e do mercado (razão, inclusive, por um desencantamento pessoal com todas as modalidades esportivas, mas isso deixo para outro post e é problema meu). Acho, inclusive, que seria bom que isso fosse mais discutido. Mas neguinho acho isso normalzão. Acha super tranquilo empresário faturar com a imagem de atleta e artista; publicitário ficar milionário às custas desse mercado imagético; cartolas enriquecerem explorando e sugando seus atletas; a mídia confeccionar um império de mercado e espetáculo para faturar em cima dos caras... isso, tá tudo mt bem, tá td mt bom, quem num quer, né não? (esse é o tal do senso comum, mas eu respondo candidamente: tem gente que num quer não, preferia o velho esporte amador, ó euzinha com a mão levantada).

Mas nesse mundão de gente faturando mt e alto às custas da imagem do atleta, tem alguém q num merece perdão: o próprio. Se estiver em baixa na carreira (problemas com drogas, crise familiar, doença pessoal ou na família etc., tudo isso pouco importa), vai ser massacrado; é gordo? vixe, massacre com requintes (mesmo o cara tendo doença cardíaca e precisando parar, ou hipotiroidismo de hashimoto, doença hormonal q impede mesmo o cara de emagrecer). Afinal, nada melhor do que um gordo pra sanha preconceituosa das piadas e dos constrangimentos ser acionada. e ai do gordo se reclamar: não tem bom humor e merece ser massacrado ainda mais; mas tem pior: e se o cara for gay ou tiver escolhas pessoais complexas? tipo amigos na favela ou ir pra um motel com travesti? VIXE, AÍ QUE O MASSACRE É SÁDICO. Num tem perdão. Todo o estoque de moralismo, hipocrisia, ignorância, intolerância vem à tona, e consagrado pela máxima: é só piada.

Mas tem algo ainda pior, eu juro: se o cara for pobre e tiver vencido na vida com aquele talento, tendo ganho muito dinheiro com aquilo. Aí, num tem perdão: a matilha baba pela derrocada, se deleita com o momento da queda, com a possibilidade de pisar, massacrar, destruir. Olha, sei q é complexo, é muita desigualdade social, que é triste um cara ganhar um milhão e cacetada por mês e professor, médico, policial estar ganhando 700 paus. Sem falar no salário mínimo. Mas por favor, não venham me dizer q a solução pra isso é cair de pau na ponta do iceberg, que é o cara q tá lá jogando seu futebol e ganhando essa grana toda. Porque vamos deixar de ser otários: se ele tá ganhando isso, o sistema que o mantém e alimenta está ganhando MUITO, MAS MUITO MAIS.

Mas as pessoas preferem sempre o mais simples, o óbvio, o mais rasteiro. E me choca isso lá na minha TL do twitter, porque é povo que supostamente tem posição de esquerda, protesta, tá na batalha da vida por um mundo digno. Vou lembrar: num existe mundo digno com preconceito contra gordo, massacre contra o pobre que ascende, tolerância com os exploradores de colarinho branco que não aparecem, hipocrisia contra travestis... e, principalmente, mas principalmente mesmo, não existe mundo digno quando se faz QUALQUER PIADA com doença, seja ela possivelmente verdade ou não. Isso é muito triste, não tem graça, devia envergonhar quem faz.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Resolvi inaugurar uma nova série, "Acorda Niterói". Porque dia sim, dia também, algo na cidade, em franca decadência, morrendo diariamente, tomada por ações inescrupulosas, me desilude, desanima, irrita, revolta... então vamos falar, vamos pensar juntos, vamos resmungar, vamos ver se agimos, porque está ficando realmente difícil.

Hj quero falar do recente episódio Wolney Trindade, até então Secretário de Segurança e controle urbano. Pois então: Wolney resolveu, a revelia da população, fechar as praças da cidade por "medidas de segurança".

Começou com o Campo de S. Bento, principal área verde e de recreação da cidade, de grande circulação, principamente usada por crianças e idosos. Seus portões estão sendo fechados às 19h (em pleno horário de verão) e durante a semana os portões laterais (da Domingos de Sá e e da Lopes Trovão) permanecem fechados o dia inteiro. O vereador Renatinho, do PSOL, solicitou ao Secretário a reabertura, em nome dos idosos, dos deficientes físicos, das mães com carrinhos de bebê etc., que diariamente fazem enorme uso dessas entradas.

A resposta já é de conhecimento público, mas não custa lembrar: é inacreditável. Wolney manda os idosos andarem mais, porque é bom pra saúde; diz que os portões vão ficar fechados até ele morrer; que os incomodados devem procurar outro lugar para visitar; dentre outras falas, mais apropriadas para um xerife do velho oeste do que para um FUNCIONÁRIO PÚBLICO pago com o dinheiro do contribuinte. Veja aqui a íntegra da resposta de Wolney, para conferir com seus próprios olhos o teor da resposta.

A população berrou. Está organizando hoje, dia 6 de fevereiro, domingo, ato público na entrada da Gavião Peixoto, com abaixo-assinado e manifestação exigindo a reabertura dos portões e a saída do Secretário. Além disso, muitos moradores, em seus prédios e estabelecimentos comerciais próximos ao CSB, estão recolhendo assinaturas para o abaixo-assinado. Finalmente, Niterói volta a se mexer um pouco contra os desmandos na cidade, sempre contra os desejos populacionais. Veja a cobertura do Globo sobre os protestos aqui.

Mas a sanha do Secretário contra os espaços públicos, de lazer e de socialização popular não termina aí. Ele também anunciou que pretende gradear e fechar a praça Leoni Ramos, conhecida como Praça da Cantareira. Fiquei pasma!!! Em primeiro lugar, pela desfaçatez dessa notícia. Gente, olha o tamanho daquela praça, que medida é essa - e com dinheiro público para custear as grades? Ele alega falta de segurança e problemas com o tráfico de drogas. Numa praça daquele tamanho qual seria o problema em fazer um policiamento, um sistema mínimo de segurança?

Mas a questão é bem mais grave e complexa do que isso. A praça da Cantareira é hoje o ÚNICO espaço realmente democrático para os jovens da Niterói se divertirem. Ponto de aglutinação de estudantes das universidades da cidade, tanto da UFF quanto das particulares que se distribuem no Ingá e no Centro, como a Maria Thereza, a Estácio e a Universo, é um reduto boêmio e festivo, com bares com pizza a dez reais, cerveja barata, shows, apresentação de dança, poesia, funk, samba, protestos políticos, eventos estudantis etc. Os que preferem ou estão mais sem grana, não ficam nos bares no entorno da praça, mas sentam em seus bancos e murinhos, consumindo uns comes e bebes dos ambulantes que já se consolidaram há anos ali. Portanto, é um espaço vivo, já consagrado, importante para a socializaçao da comunidade acadêmica de Niterói, especialmente para as muitas repúblicas estudantis do Ingá e de S. Domingos, que não teriam NENHUM outro lugar de diversão e socialização se não fosse a Cantareira.

Já tive meus vinte anos há vinte anos em Niterói. Tínhamos tantos espaços de socialização, tantas opções culturais, bares alternativos, teatros, cinemas etc. Foram matando tudo aos poucos, os cinemas e teatros sendo fechados, os bares sendo substituídos por esses fakes de classe média, careiros, todos com essa cara feliz da burguesia estúpida que de certa forma passou a dominar a cidade. Isso tudo acabou, Niterói passou a ser um nada cultural, repito: UM NADA CULTURAL. A Cantareira é, neste sentido, uma sobrevivente. Debilitada, é certo, depois que a própria sede da Cantareira, que funcionava como uma lona cultural, com shows, eventos, feiras artesanais e de alimentos, foi fechada e transformada em mais uma boate mauricinha, em uma vergonha que tivemos que engolir, sem quem nenhuma autoridade pública intervisse. Mas ainda assim, a Cantareira resistiu. E agora assistimos à tentativa de matá-la definitivamente.

Muitos perguntam: será coincidência que o fechamento da praça da Cantareira seja proposto quase concomitantemente à construção de blocos de prédios de classe média na área do Clube Gragoatá? A quem parece interessar a transformação de um espaço vivo, alegre, vibrante e noturno em mais uma pracinha passiva e morta para consumo visual da classe média? Acho que precisamos pensar nisso.

Os moradores e usuários das praças estão reagindo. O ato do Campo de São Bento é exemplo disso. Também na Cantareira já se realizou ato público de protesto, na quinta-feira, dia 3 de fevereiro. Precisamos "estar atentos e fortes", como aprendemos com os tropicalistas, não esmorecer nessa luta, impedir esses desmandos.

Estão tentando matar Niterói. Isso é visível e será tema de outros posts futuros nesta série que inauguro agora. As praças são o pulmão e o coração das cidades, espaços de circulação e de encontros da população. Aprendemos com Bakhtin que as praças são locais privilegiados da cultura popular, elas pulsam, são essenciais para que a população respire, se encontre, interaja, resista. Por duas vezes, tentaram já atingi-las (quando quiseram fazer garagens subterrâneas na Getúlio Vargas e no próprio Campo de São Bento), mas a população reagiu e impediu essas ações. Ou seja, até agora, foram nas praças e sobre elas que os moradores de Niterói se solidarizaram e agiram. Isso indica claramente seu potencial de ação pública e de resistência.

Não à toa, estão tentando matá-las. Também por isso, precisamos impedir suas mortes. Acorda Niterói!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Como estou de castigo e meio dopada neste verão, sobram alguns horários em que consigo ler meus livros de férias. Assim, sigo num ritmo meio lento. Mas nesse janeirão já mastiguei três livros interessantes, que comentarei brevemente aqui.

1) Naquele dia, de Dennis Lehane (Companhia das Letras, 2010). Show! Como sempre, Lehane dá um banho de escrita, como escreve bem, o danado. Sou fã, em especial de Gone, baby, Gone e Paciente 67 (que deu origem ao roteiro de A ilha do medo, dirigido pelo Scorcese). Nesse calhamaço de quase 600 páginas, Lehane cruza a história de fascinantes personagens nos EUA na década de 1910. Aprende-se muito, mas muito, sobre a formação norte-americana neste romance. Em especial, sobre um acontecimento que eu até então desconhecia, que foi a greve da polícia de Boston em 1919 e suas consequências. Sinceramente, um romance à moda antiga, fascinante mesmo. Como estou acordando de madrugada (efeito medicamentoso chato), em vez de me preocupar com coisas chatas e ansiosas de minha própria vida, preferi me ocupar com a vida dos personagens do Lehane por várias madrugas. Valeu a pena! Adoro personagens interessantes. Mestre na escrita! (agradeço mt ao meu aluno querido Josué que me lembrou, na véspera do natal, do livro novo do Lehane, e à minha irmã amada Deb que foi no Plaza comprar o livro de presente pra mim!).

2) Todos os homens são mentirosos, de Alberto Manguel (Companhia das Letras, 2010). Também adoro o Manguel. Seu livro sobre a história da leitura é fascinante e amoroso. Mas fiquei meio assim assim com esse romance/documento jornalístico a la Rashomon. A cada capítulo, um ponto de vista acerca do personagem Alejandro Bevilacqua vai se formando, como um mosaico, em que mentira e verdade, ficção e realidade, jornalismo e romance, vão sendo colocados em jogo e em xeque. Como sempre, bem escrito. Historicamente, um excelente panorama sobre Buenos Aires em meados do século XX e a vida dos artistas exilados na Europa por ação das ditaduras militares. Mas achei desequilibrado o tom da narrativa. Os dois últimos depoimentos, principalmente, são estilísticos e chatos. Poderia ser genial, ficou meia bomba. Mas, valeu!

3) João do Rio. Vida, paixão e obra, de João Carlos Rodrigues (Civilização Bra
sileira, 2010). Olha, amo João do Rio. A alma encantadora das ruas e A vida vertiginosa são clássicos para entender o Rio de Janeiro e o Brasil, na minha opinião. Sua biografia demonstra, mais uma vez, sua personalidade complexa e fascinante. O texto é bom, o biografado figura interessantíssima. Mas tudo isso, vira e mexe, é meio que estragado pela necessidade de aparecer do autor da biografia, que coisa mais triste. Poderia comentar vários trechos, mas vou citar só um, na pag. 242, que aparece do nada:

"Esperando não ofender nenhum idiota da objetividade, como autor desta biografia me permito agora divagar um pouco, baseado em possibilidades reais." [na sequência, o autor imagina um encontro entre João do Rio e Proust em Paris, para depois concluir:] "Teriam os dois escritores, o mulato carioca e meio-judeu aristocrático, cruzado olhares curiosos e fugidios durante uma mera fração de segundo? E teriam identificado um no outro a marca indelével dos filhos de Sodoma, reconhecível de imediato por qualquer semelhante?".

Preciso dizer mais alguma coisa? ai, ai... a bem da verdade, era pra colocar os coments sb esse livro sob a rubrica "Muita vergonha alheia", mas me deu até preguiça.