Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Nesse post aqui, contei a história do mito de origem desse blog: a vontade de resmungar sobre uma notinha surreal que tinha lido, há muitos anos, num jornal local de Niterói. Mas lamentavelmente, eu dizia no post, tinha perdido o jornal com a tal nota.

E eis que agora, arrumando meu escritório finalmente, achei o tal jornal perdido em uma gaveta. Trata-se de uma edição de março de 2004 do Correio Oceânico, que nem sei se existe mais.

Pois lá na penúltima página, esperando por mim, está a tal nota (num vou dizer quem assina porque já passou mt tempo e pode num ser justo). Mas vou reproduzir aqui, como uma homenagem a meu mito de origem fundador do Baiúca, isso lá nos idos de 2004. :)))

E vai a pérola (e vou até me abster de coments mais profundos, pq nem precisa. Mas só uma pequena dica: reparem no título):

"Reflexão.
A quem diga que não é certo o racismo, preconceitos e tentativas de subornos. Pois são os próprios que praticam tais atos é que os pregam em forma diferente. O pior é que essas pessoas andam coladinhas na gente, que vergonha!".

Só tenho uma coisa a dizer: hahahahahahahaahahahahahahahahaha!

Adorei ter achado essa relíquia. :) Agora sim, o Baiúca do Baudelaire está oficialmente fundado!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Em homenagem à minha amiga querida Xu, que se indignou com o post com q inauguro esta série (hahaha, a dos cabelos brancos), mais uma sobre as descobertas da meia-idade e nossa indignação diária com o tal do passar do tempo. Episódio de hoje:

VISTA CANSADA
!

Vou te falar, tanto ou mais ódio do que os cabelos brancos. Esse negócio de num conseguir ler as letrinhas, num ler mais bula, num ler mais de perto, ter que ficar trocando de óculos, tirando óculos, cara, mas que inferno! E é de repente. No dia anterior, vc enxerga q é uma beleza. Um dia vc acorda, e sua vista já te transformou simbolicamente num velhinho do século passado.

Bem, pelo menos essa mudança física é uma unanimidade. Todos os meus amigos quarentões ou perto disso ou um pouco acima disso reclamam muito dessa tal praga de vista cansada. Outro dia, num restaurante, vários de nós tentamos resolutamente ler o cardápio, passando de mão em mão, de vista em vista, até que resolvemos jogar a toalha e pedir a ajuda de uma amiga mais nova, nos seus trinta anos felizes. Ela leu, mas foi envolta num ódio coletivo, que vou te contar, hahahaha.

Bem, tem o tal do multifocal. Mas dá um trabalho... Tem gente que usa lupa. Mas derruba tanto a auto-estima... por agora, sigo no troca-troca dos óculos pra perto e pra longe, como vi minha avó e pais tantas vezes fazerem. É a tal da vida, num é isso? mas alguém lá em cima tinha que ver isso aeh!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler a biografia de Lobão, Cinquenta anos a mil, escrita por Lobão com Claudio Tognolli, com edição de 2010 da Nova Fronteira (aliás, que edição mais descuidada, vou te falar! Tem erro de impressão, coisas mal corrigidas, enfim, livro caro q merecia mais esmero editorial). Ganhei de presente de minha amada amiga Xu nessa fase complexa e me distraiu horrores.

Primeiro coment: li no FB coment de alguém (é público, né?) dizendo que alguém tinha lido essa biografia e concluído que Lobão não tinha nada para contar. Oi?

Bem, nem preciso dizer q acho de uma arrogância super vc ler a vida de alguém e achar q a pessoa num tem nada pra contar. Eu tenho realmente muito espírito de antropóloga, tenho q confessar. ;) Toda vida humana me interessa, sempre.

Mas nesse caso a afirmação é bem esquisita. O cara tem uma vida cheia de peripécias, é um sujeito complexo, tem uma relação familiar bem confusa, a mãe se suicida, ele tem experiências fortes com doença, remédios, coisas mágicas, drogas, criação etc. e a pessoa conclui que ele num tem nada pra contar??? Vou te falar, num entendo esse povo, não.

Mas vamos aos coments sb o livro em si: gostei bem. Num é uma brastemp de bem escrito (e a edição porquinha num ajuda mt). Mas que personagem! Bem fascinante mesmo. Realmente, cinquenta anos a mil, eis um título!

O que mais me impressionou, no entanto, não foram as peripécias de Lobão, e olha que não são poucas! Mas ter no livro mais um exemplo, e um dos mais eloquentes, de como o Estado pode agir, através de seus mais diversos tentáculos institucionais, e marcar sujeitos sociais não convencionais com seus ferros mais duros. A passagem acerca da prisão de Lobão, os processos posteriores, a ação da polícia em seus shows, a cobertura da mídia acerca de suas falas e ações mostram claramente um contínuo de arbitrariedades e clima inquisitório, que faria um sujeito mais ajustado balançar, imagina um que já vinha de um histórico familiar e de vida meio desequilibrado...

Na passagem em que narra sua condenação por porte de drogas, mesmo sendo réu primário e ter sido preso com uma quantidade pequena de entorpecentes, vale destacar a fala do juiz que o condenou"(...) o acusado, mesmo sendo tecnicamente primário, já registra antecedentes, não tem boa personalidade, nem conduta social" (p. 333). Ou seja, sua condenação deve-se, como se vê, principalmente a seu comportamento "não ajustado", embora não criminalizável.

Gostaria de destacar especialmente esse trecho: "E tudo isso iria pesar sobremaneira na apelação da sentença, que receberia um parecer contrário, pois o procurador (...) alegou em seu parecer ter lido uma entrevista minha concedida ao Jornal do Brasil, na qual dizia ter mantido uma relação incestuosa com minha mãe e ter dado a maior força para ela se suicidar. Simples, né? Para o emérito procurador, eu seria um "portador de uma conduta social desajustada e de personalidade deformada", e ele ainda elogiou a sentença do juiz (...), definindo-a como "correta e minuciosa", graças aos meus maus antecedentes e péssima conduta"."(p. 350).

Sabe o que me lembrou? O Estrangeiro, do Camus. Principalmente porque, neste livro, pesa sobre o acusado, tanto ou mais do que a história do crime em si, suas atitudes "estranhas", como não chorar no enterro da mãe, sair toda hora para fumar, ir numa piscina pública no dia seguinte ao enterro... Me lembrou também Pureza e perigo, de Mary Douglas, e as reflexões de Bauman sobre os impuros e indesejáveis. Num sei, se rolar paciência transformo esse post num artigo acadêmico. Mas já deixo plantadinha aqui a semente da reflexão.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Acabo de assistir ao discurso de despedida de Ronaldo, o "fenômeno". Vou começar por esse ponto: a mídia/os empresários/os publicitários, alguém bem criativo e malandro, criou esse termo de referência para ele, como justificativa de seus feitos (talento nato, selecionável muito jovem, gols de placa, títulos, ida precoce para o estrangeiro etc.). Pronto, a partir daí, a cobrança em cima do cara passou a ser "fenomenal" também.

Olha, como atleta Ronaldo me deu muitas alegrias. Torci por ele, lamentei suas contusões, senti pelo seu drama. E ponto. Nunca tive envolvimento emocional com essa história para além do de uma torcedora.

Acho sim, como muita gente boa, que nos últimos anos ele num tava jogando nada, que era muita grana em jogo pra pouco futebol, que o esporte está contaminado cada vez mais pela lógica do consumo e do mercado (razão, inclusive, por um desencantamento pessoal com todas as modalidades esportivas, mas isso deixo para outro post e é problema meu). Acho, inclusive, que seria bom que isso fosse mais discutido. Mas neguinho acho isso normalzão. Acha super tranquilo empresário faturar com a imagem de atleta e artista; publicitário ficar milionário às custas desse mercado imagético; cartolas enriquecerem explorando e sugando seus atletas; a mídia confeccionar um império de mercado e espetáculo para faturar em cima dos caras... isso, tá tudo mt bem, tá td mt bom, quem num quer, né não? (esse é o tal do senso comum, mas eu respondo candidamente: tem gente que num quer não, preferia o velho esporte amador, ó euzinha com a mão levantada).

Mas nesse mundão de gente faturando mt e alto às custas da imagem do atleta, tem alguém q num merece perdão: o próprio. Se estiver em baixa na carreira (problemas com drogas, crise familiar, doença pessoal ou na família etc., tudo isso pouco importa), vai ser massacrado; é gordo? vixe, massacre com requintes (mesmo o cara tendo doença cardíaca e precisando parar, ou hipotiroidismo de hashimoto, doença hormonal q impede mesmo o cara de emagrecer). Afinal, nada melhor do que um gordo pra sanha preconceituosa das piadas e dos constrangimentos ser acionada. e ai do gordo se reclamar: não tem bom humor e merece ser massacrado ainda mais; mas tem pior: e se o cara for gay ou tiver escolhas pessoais complexas? tipo amigos na favela ou ir pra um motel com travesti? VIXE, AÍ QUE O MASSACRE É SÁDICO. Num tem perdão. Todo o estoque de moralismo, hipocrisia, ignorância, intolerância vem à tona, e consagrado pela máxima: é só piada.

Mas tem algo ainda pior, eu juro: se o cara for pobre e tiver vencido na vida com aquele talento, tendo ganho muito dinheiro com aquilo. Aí, num tem perdão: a matilha baba pela derrocada, se deleita com o momento da queda, com a possibilidade de pisar, massacrar, destruir. Olha, sei q é complexo, é muita desigualdade social, que é triste um cara ganhar um milhão e cacetada por mês e professor, médico, policial estar ganhando 700 paus. Sem falar no salário mínimo. Mas por favor, não venham me dizer q a solução pra isso é cair de pau na ponta do iceberg, que é o cara q tá lá jogando seu futebol e ganhando essa grana toda. Porque vamos deixar de ser otários: se ele tá ganhando isso, o sistema que o mantém e alimenta está ganhando MUITO, MAS MUITO MAIS.

Mas as pessoas preferem sempre o mais simples, o óbvio, o mais rasteiro. E me choca isso lá na minha TL do twitter, porque é povo que supostamente tem posição de esquerda, protesta, tá na batalha da vida por um mundo digno. Vou lembrar: num existe mundo digno com preconceito contra gordo, massacre contra o pobre que ascende, tolerância com os exploradores de colarinho branco que não aparecem, hipocrisia contra travestis... e, principalmente, mas principalmente mesmo, não existe mundo digno quando se faz QUALQUER PIADA com doença, seja ela possivelmente verdade ou não. Isso é muito triste, não tem graça, devia envergonhar quem faz.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Resolvi inaugurar uma nova série, "Acorda Niterói". Porque dia sim, dia também, algo na cidade, em franca decadência, morrendo diariamente, tomada por ações inescrupulosas, me desilude, desanima, irrita, revolta... então vamos falar, vamos pensar juntos, vamos resmungar, vamos ver se agimos, porque está ficando realmente difícil.

Hj quero falar do recente episódio Wolney Trindade, até então Secretário de Segurança e controle urbano. Pois então: Wolney resolveu, a revelia da população, fechar as praças da cidade por "medidas de segurança".

Começou com o Campo de S. Bento, principal área verde e de recreação da cidade, de grande circulação, principamente usada por crianças e idosos. Seus portões estão sendo fechados às 19h (em pleno horário de verão) e durante a semana os portões laterais (da Domingos de Sá e e da Lopes Trovão) permanecem fechados o dia inteiro. O vereador Renatinho, do PSOL, solicitou ao Secretário a reabertura, em nome dos idosos, dos deficientes físicos, das mães com carrinhos de bebê etc., que diariamente fazem enorme uso dessas entradas.

A resposta já é de conhecimento público, mas não custa lembrar: é inacreditável. Wolney manda os idosos andarem mais, porque é bom pra saúde; diz que os portões vão ficar fechados até ele morrer; que os incomodados devem procurar outro lugar para visitar; dentre outras falas, mais apropriadas para um xerife do velho oeste do que para um FUNCIONÁRIO PÚBLICO pago com o dinheiro do contribuinte. Veja aqui a íntegra da resposta de Wolney, para conferir com seus próprios olhos o teor da resposta.

A população berrou. Está organizando hoje, dia 6 de fevereiro, domingo, ato público na entrada da Gavião Peixoto, com abaixo-assinado e manifestação exigindo a reabertura dos portões e a saída do Secretário. Além disso, muitos moradores, em seus prédios e estabelecimentos comerciais próximos ao CSB, estão recolhendo assinaturas para o abaixo-assinado. Finalmente, Niterói volta a se mexer um pouco contra os desmandos na cidade, sempre contra os desejos populacionais. Veja a cobertura do Globo sobre os protestos aqui.

Mas a sanha do Secretário contra os espaços públicos, de lazer e de socialização popular não termina aí. Ele também anunciou que pretende gradear e fechar a praça Leoni Ramos, conhecida como Praça da Cantareira. Fiquei pasma!!! Em primeiro lugar, pela desfaçatez dessa notícia. Gente, olha o tamanho daquela praça, que medida é essa - e com dinheiro público para custear as grades? Ele alega falta de segurança e problemas com o tráfico de drogas. Numa praça daquele tamanho qual seria o problema em fazer um policiamento, um sistema mínimo de segurança?

Mas a questão é bem mais grave e complexa do que isso. A praça da Cantareira é hoje o ÚNICO espaço realmente democrático para os jovens da Niterói se divertirem. Ponto de aglutinação de estudantes das universidades da cidade, tanto da UFF quanto das particulares que se distribuem no Ingá e no Centro, como a Maria Thereza, a Estácio e a Universo, é um reduto boêmio e festivo, com bares com pizza a dez reais, cerveja barata, shows, apresentação de dança, poesia, funk, samba, protestos políticos, eventos estudantis etc. Os que preferem ou estão mais sem grana, não ficam nos bares no entorno da praça, mas sentam em seus bancos e murinhos, consumindo uns comes e bebes dos ambulantes que já se consolidaram há anos ali. Portanto, é um espaço vivo, já consagrado, importante para a socializaçao da comunidade acadêmica de Niterói, especialmente para as muitas repúblicas estudantis do Ingá e de S. Domingos, que não teriam NENHUM outro lugar de diversão e socialização se não fosse a Cantareira.

Já tive meus vinte anos há vinte anos em Niterói. Tínhamos tantos espaços de socialização, tantas opções culturais, bares alternativos, teatros, cinemas etc. Foram matando tudo aos poucos, os cinemas e teatros sendo fechados, os bares sendo substituídos por esses fakes de classe média, careiros, todos com essa cara feliz da burguesia estúpida que de certa forma passou a dominar a cidade. Isso tudo acabou, Niterói passou a ser um nada cultural, repito: UM NADA CULTURAL. A Cantareira é, neste sentido, uma sobrevivente. Debilitada, é certo, depois que a própria sede da Cantareira, que funcionava como uma lona cultural, com shows, eventos, feiras artesanais e de alimentos, foi fechada e transformada em mais uma boate mauricinha, em uma vergonha que tivemos que engolir, sem quem nenhuma autoridade pública intervisse. Mas ainda assim, a Cantareira resistiu. E agora assistimos à tentativa de matá-la definitivamente.

Muitos perguntam: será coincidência que o fechamento da praça da Cantareira seja proposto quase concomitantemente à construção de blocos de prédios de classe média na área do Clube Gragoatá? A quem parece interessar a transformação de um espaço vivo, alegre, vibrante e noturno em mais uma pracinha passiva e morta para consumo visual da classe média? Acho que precisamos pensar nisso.

Os moradores e usuários das praças estão reagindo. O ato do Campo de São Bento é exemplo disso. Também na Cantareira já se realizou ato público de protesto, na quinta-feira, dia 3 de fevereiro. Precisamos "estar atentos e fortes", como aprendemos com os tropicalistas, não esmorecer nessa luta, impedir esses desmandos.

Estão tentando matar Niterói. Isso é visível e será tema de outros posts futuros nesta série que inauguro agora. As praças são o pulmão e o coração das cidades, espaços de circulação e de encontros da população. Aprendemos com Bakhtin que as praças são locais privilegiados da cultura popular, elas pulsam, são essenciais para que a população respire, se encontre, interaja, resista. Por duas vezes, tentaram já atingi-las (quando quiseram fazer garagens subterrâneas na Getúlio Vargas e no próprio Campo de São Bento), mas a população reagiu e impediu essas ações. Ou seja, até agora, foram nas praças e sobre elas que os moradores de Niterói se solidarizaram e agiram. Isso indica claramente seu potencial de ação pública e de resistência.

Não à toa, estão tentando matá-las. Também por isso, precisamos impedir suas mortes. Acorda Niterói!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Como estou de castigo e meio dopada neste verão, sobram alguns horários em que consigo ler meus livros de férias. Assim, sigo num ritmo meio lento. Mas nesse janeirão já mastiguei três livros interessantes, que comentarei brevemente aqui.

1) Naquele dia, de Dennis Lehane (Companhia das Letras, 2010). Show! Como sempre, Lehane dá um banho de escrita, como escreve bem, o danado. Sou fã, em especial de Gone, baby, Gone e Paciente 67 (que deu origem ao roteiro de A ilha do medo, dirigido pelo Scorcese). Nesse calhamaço de quase 600 páginas, Lehane cruza a história de fascinantes personagens nos EUA na década de 1910. Aprende-se muito, mas muito, sobre a formação norte-americana neste romance. Em especial, sobre um acontecimento que eu até então desconhecia, que foi a greve da polícia de Boston em 1919 e suas consequências. Sinceramente, um romance à moda antiga, fascinante mesmo. Como estou acordando de madrugada (efeito medicamentoso chato), em vez de me preocupar com coisas chatas e ansiosas de minha própria vida, preferi me ocupar com a vida dos personagens do Lehane por várias madrugas. Valeu a pena! Adoro personagens interessantes. Mestre na escrita! (agradeço mt ao meu aluno querido Josué que me lembrou, na véspera do natal, do livro novo do Lehane, e à minha irmã amada Deb que foi no Plaza comprar o livro de presente pra mim!).

2) Todos os homens são mentirosos, de Alberto Manguel (Companhia das Letras, 2010). Também adoro o Manguel. Seu livro sobre a história da leitura é fascinante e amoroso. Mas fiquei meio assim assim com esse romance/documento jornalístico a la Rashomon. A cada capítulo, um ponto de vista acerca do personagem Alejandro Bevilacqua vai se formando, como um mosaico, em que mentira e verdade, ficção e realidade, jornalismo e romance, vão sendo colocados em jogo e em xeque. Como sempre, bem escrito. Historicamente, um excelente panorama sobre Buenos Aires em meados do século XX e a vida dos artistas exilados na Europa por ação das ditaduras militares. Mas achei desequilibrado o tom da narrativa. Os dois últimos depoimentos, principalmente, são estilísticos e chatos. Poderia ser genial, ficou meia bomba. Mas, valeu!

3) João do Rio. Vida, paixão e obra, de João Carlos Rodrigues (Civilização Bra
sileira, 2010). Olha, amo João do Rio. A alma encantadora das ruas e A vida vertiginosa são clássicos para entender o Rio de Janeiro e o Brasil, na minha opinião. Sua biografia demonstra, mais uma vez, sua personalidade complexa e fascinante. O texto é bom, o biografado figura interessantíssima. Mas tudo isso, vira e mexe, é meio que estragado pela necessidade de aparecer do autor da biografia, que coisa mais triste. Poderia comentar vários trechos, mas vou citar só um, na pag. 242, que aparece do nada:

"Esperando não ofender nenhum idiota da objetividade, como autor desta biografia me permito agora divagar um pouco, baseado em possibilidades reais." [na sequência, o autor imagina um encontro entre João do Rio e Proust em Paris, para depois concluir:] "Teriam os dois escritores, o mulato carioca e meio-judeu aristocrático, cruzado olhares curiosos e fugidios durante uma mera fração de segundo? E teriam identificado um no outro a marca indelével dos filhos de Sodoma, reconhecível de imediato por qualquer semelhante?".

Preciso dizer mais alguma coisa? ai, ai... a bem da verdade, era pra colocar os coments sb esse livro sob a rubrica "Muita vergonha alheia", mas me deu até preguiça.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Esse post é bem pequenino. Só pra avisar que limpei o meu arquivo de filmes, livros, shows etc. de 2010, começando a listar com os de 2011 (ou da viradinha 10 pra 11).

E que tb apaguei alguns blogs/sites sugeridos e acrescentei outros.

Começando de novo!
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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Ontem, no primeiro dia deste novo ano, no mítico 1/1/11, revi com minha madrecita o filme As horas (EUA, 2002, dir. Stephen Daldry, que amo. Lembro quando assisti pela primeira vez, incentivada pelo meu aluno querido João Marcelo, na Estácio, que me disse em sala: "ontem vi um filme na UFF que só lembrei de você. Chorei sem parar. Hoje tem sessão, num deixa de ver". Obediente, fui conferir. E ele tinha razão: eu amei e chorei sem parar.

Depois, para completar, li o Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf, um dos livros mais bonitos e impressionantes da minha vida, e li o romance As horas, de Michael Cunningham, que serviu de inspiração para o filme (que embora seja genial como estratégia narrativa - unir as histórias de três mulheres em décadas diferentes a partir da referência ao livro - é, na minha opinião - coisa rara -, inferior ao filme, embora seja muito legal também).

Mas voltando ao filme em si, acho o desempenho de todos os atores espetacular. Mas minha preferência vai para Julianne Moore e aquela dona de casa norte-americana implodindo por dentro na família perfeita dos anos 50. Adoro! Me lembra a angústia de outra grande atriz, kate Winslet, em desempenho comovente dentro de contexto semelhante em Foi apenas um sonho, de Sam Mendes (EUA, 2009).

E o que isso tem a ver com 2011? Bem, tem uma cena mto tocante no filme em que a personagem de Meryl Streep conversa com sua filha sobre um momento de sua juventude, em que ela experimentara pela primeira vez uma sensação de felicidade muito grande e pensara, confiante, que a felicidade estava começando ali. E que depois ela percebeu que, na verdade, aquele momento era a felicidade em si. Essa cena me toca e me comove toda vez que vejo o filme.

Tudo bem, tem realmente uma certa felicidade que se tem aos 20 anos que não volta mais, é a tal da felicidade a que se refere a personagem (e tão presente no livro da Patti Smith, a que me referi em post anterior). E acho que a gente tem que viver com isso, sabe? Num volta e pronto.

Mas tem tantas pequenas conquistas que podem nos dar outras formas de felicidade, não tão plenas e completas, mas gostosas ainda que fugidias. Estar bem de saúde quando se enfrenta uma crise, por exemplo; curtir um grande amor, mesmo com as incompletudes de qualquer relação; entrar em sala de aula sem perder, ano a ano, o encantamento inicial; rir com os amigos amados, mesmo querendo matá-los vez por outra; ter o prazer de estar ao lado de seus pais, madrinha, irmãos e sobrinhos; descobrir um livro, um autor, um filme, uma arte, um afazer, uma vontade (aprender mecânica de automóveis ou dança de salão, dois sonhos antigos); perder países, como diz Fernando Pessoa a respeito de viajar; planejar mudanças (de emagrecer à casa nova); enfim, uma lista de coisas e pessoas e desejos e sonhos que vão girando a roda e nos fazendo fruir pequenas felicidades.

Assim, faço do parágrafo acima meus compromissos para 2011. Os mesmos de 2010 e 2012, provavelmente. Sem ilusões sobre a grande felicidade. Mas perseverando nas pequenas, elas escorregam, mas com jeitinho a gente dá uma fungadinha nelas...

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Diz o velho Aristóteles em Ética a Nicômaco: "A vida de atividade é conforme à virtude aprazível por si mesma, pois o prazer é um estado da alma, e para cada homem é agradável aquilo que ele ama; e não apenas o cavalo dá prazer ao amigo de cavalos e um espetáculo ao amador de espetáculos, como também os atos justos aos amantes da justiça e, em geral, os atos virtuosos aos amantes da virtude".

Isso tudo pra falar da busca pela felicidade, fim finalíssimo, sumo bem, que se busca a partir de escolhas morais e das formas de vida que se escolhe. Para ele, a mais nobre seria a vida contemplativa, em que se buscam as virtudes. Mas, no entanto, d
iz Ari, por vezes, tópicas, a felicidade se encontra na resolução de conquistas mais mundanas, almejadas na vida vulgar. Riqueza, quando se é pobre; o ser amado, quando se está apaixonado; saúde, quando se está doente; etc.

Quero seguir nas lutas justas, ah, mas como entendo meu querido Aristóteles. Venho passando por tantos problemas chatos de saúde, que estão requerendo imensa paciência e cuidados dos que me amam, me levando a travar pequenas mas intensas lutas diárias, para me estabilizar novamente.
..

Concordo com Ari que a felicidade, a grande, só mesmo na vida política e na vida contemplativa, em que as conquistas são para todos e, como estão apoiadas nas virtudes, nada, nenhum revés ou intempérie do destino, pode retirá-las de você.

Mas, em algumas momentos da vida, sem dúvida, como sábio Ari já nos diz
ia, a felicidade está nesse pequeno bem, o cavalo para os que amam os cavalos, a saúde para quem está doente... sem esquecer que existem outros bens mais justos e nobres, que sejam para todos e nao para si. Mas também sonhando com esse momento de libertação daquilo que oprime, desanima, impede, cansa, aquela pequena mas tão grande conquista, ficar bem, sentir-se bem, respirar em paz.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
tinha esquecido desse vídeo, mas meu querido aluno Alexandre me lembrou. Uma das maiores vergonhas alheias do mundo. A cara de espanto e constrangimento dos índios; a roupa dela imitando uma veste índigena norte-americana; a hora em que ela solta a cabeleira loura; a dança final... que vergonha alheia!!!!

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Acabei de ler o livro Só garotos (São Paulo, Companhia das Letras, 2010), misto de memórias e biografia parcial da artista norte-americana Patti Smith, englobando principalmente a parte de sua vida em que ela conheceu e conviveu com o tb artista dos EUA Robert Mapplethorpe.

Que livro lindo! Valeu, a meu ver, por cada centímetro o National Book Award que recebeu em 2010. Num ligo mt pra essa coisa de prêmio etc., mas eis um caso de meritocracia. O livro merece, é um desfile de esperança, sonhos, delicadezas, fases lindas e inocentes da vida, amizade, amor, abertura de visão de mundo... enfim, um belo livro.

Não conhecia nenhum dos dois, nem Robert nem Patti, e já me sinto íntima. Bom quando um livro traz pra nossa vida aquelas pessoas, suas histórias, seus pequenos segredos, suas epifanias... peguei o livro na livraria sem saber quem eram os personagens, nem de prêmio nem de nada, meio que influenciada pelo curso que pretendo dar com Marildão na pós em 2011 sb memória. Que maravilhosa surpresa!

Me emocionei em vários trechos, levitei em outros, sorri condescentende em alguns, adorei todos. Por motivo particular (a casa de meu tio amado, em que me hospedo qdo vou pra NY, fica exatamente em frente ao hotel Chelsea, onde se passa boa parte da história narrada), ainda me senti mais ligada àquela história. Mas gostei mesmo foi da parte humana, que dupla!

Num quero contar nada pra num cortar a viagem do leitor, mas vou cometer uma pequena heresia e contar o porquê do título, que sintetiza o espírito do livro e da fase da vida dos dois personagens a que ele se refere. Em uma passagem do livro, nos conta Patti, eles passeavam, em fins dos 60, pela Union Square, em NY, entre hippies, artistas, ativistas políticos, vestidos exoticamente e totalmente integrados naquele lugar, sonhando em serem parte definitiva dele, começando suas carreiras, ainda tateando sobre seus talentos, passando perrengue e enfrentando tudo em nome da liberdade e do sonho... Nisso, uma mulher, provavelmente turista, os vê e diz para o marido: "olha, dois artistas, fotografa eles" (algo assim, estou narrando de memória, portanto, pode não ser literal). E o marido responde: "ora, são só garotos". Nada mais sintético do espírito do livro: uma ode ao tempo da juventude e da delicadeza, só garotos e seu sonhos. Que lindo, que sensível! esse é o tom do livro, amei!

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
vira e mexe me deparo com essa interpretação magistral da Gal Costa, perdida em meu mp3. Sempre me emociono e aumento o som. Lindão!
De quebra, vídeo divertido do Fantástico e mais os figurinos da época. !977. hehe.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Pequeno manual de formação em Teoria e Prática da Hipocrisia:

1) fume maconha com seus amigos da universidade e depois diga, nos fóruns públicos e em situação de crise, que é contra o tráfico e contra quem financia o tráfico comprando drogas;

2) encha o saco como militante de esquerda, denunciando sem parar o preconceito e a discriminação, e no primeiro momento em que isso não te diz respeito, e sim diz respeito ao direito dos outros, assuma postura fascista e generalize o preconceito contra o outro, em especial o de classes economicamente oprimidas, sugerindo, inclusive, o extermínio como solução. E se orgulhe disse, não escutando nenhum de seus antigos aliados quando eles alertam você acerca da contradição e do preconceito de sua atitude, reagindo, inclusive, com agressividade.

3) puxe bastante, mas bastante mesmo, o saco de sua professora de sociologia e outras matérias afins, em diversos emails, DMs, conversas privadas, dizendo que ela é o máximo, que vc queria ser como ela, que a opinião dela é fundamental nas lutas q vc trava, que precisa do apoio dela quando quer denunciar alguma coisa porque o discurso dela tem legitimidade entre os demais etc.
E quando ela, num fórum público, externalizar opinião diferente da sua, permita que seus "amigos" enxovalhem, ridicularizem, ataquem, escrotizem a fala de sua professora sem em nenhum momento sair em defesa dela, sem em momento algum lembrar uma única das suas frases puxasaquentas de antes. Ao contrário, não só se omita, qdo um "amigo" pergunta/fala para vc "quem é esse ser? de onde saiu essa pessoa?", "nunca vi alguém tão radical, tão preconceituoso" etc. , além de se omitir, não dizer nem uma só vez "é minha professora querida, queria ser como ela quando crescer, me ajudou e me apoiou muitas vezes, está sempre lutando pelo justo etc.", não só não diga nada disso, como forme pequenas matilhinhas contra ela.

Parabéns, vc já está na fase master de ser um hipócrita! Na sua formatura, só estarão o creme de la creme em termos de humanidade, afeto, justiça, amizade, não é? NOT.

Vou ter que chamar aqui, novamente, antiga foto que já usei no blog, em outro post dessa triste série. Mas nenhuma imagem seria mais perfeita para traduzir o que penso sobre esse pós-graduado em hipocrisia:

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
pois é, disciplinas + GRECOS + congressos + artigos geram uma demanda por leitura mais durona que praticamente vai me tirando o folêgo pros romances, biografias, contos, crônicas etc. E fico só sonhando com as férias. Mas vez por outra consigo dar uma soluçada e dar uma boa lida em alguma coisa aprazível, mesmo nesses meses atolados de outras leituras.

No início do semestre, tive o prazer de ler, apresentada pelo querido Lucas Waltenberg, a série policial sueca Millennium, de Stieg Larsson (Companhia das Letras). Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar são os três volumes que compõem a trama de tirar o fôlego, que gira em torno mais especificamente de dois personagens sensacionais - o jornalista Mikael Blomkvist e a racker Lisbeth Salander. Sinceramente, num consegui parar de ler. E fazia tempo que um personagem jornalista num me parecia tão bacana, sem parecer cabotino ou cínico. Quase que deu pra eu me apaixonar pela profissão de novo. ;) O único problema, pelo menos pra mim, foi me acostumar com os nomes suecos, que me causam muito estranhamento (tanto os dos personagens quanto os dos lugares e instituições). Mas isso foi bem no comecinho, depois fluiu que foi uma beleza.

Li outros da série da ed. Contexto sobre nacionalidades: Os americanos, de Antonio Pedro Tota (legal) e Os espanhóis, de Josep Buades (chatinho). Sempre dá pra aprender alguma coisa, mas que diferença para o dos chineses, escrito pela Claudia Trevisan, sobre o qual já comentei aqui! Enquanto esse último era agradável, cheio de detalhes históricos, antropológicos, sociológicos, mas com texto leve e gostoso de ler, os outros dois que citei, talvez por serem escritos por historiadores de formação, são bem mais pesados, mais rasos em riqueza cultural, cansando mais o leitor com datas, nomes, feitos (de qualquer forma, o do Tota é mais agradável do que o do Buades, que ainda por cima, por ser espanhol, por vezes fica meio ufanista). Com mtas exceções, evidentemente, como vez por outra os textos produzidos por historiadores sobre temas interessantes acabam sendo malésimos de ler, né, não? Uma pena. Aí desanimei de ler sobre os japoneses e os italianos, que também comprei. Mas nas férias me motivo, prometo. PS minúsculo no fim do contrato: só se não forem chatos, se não quebro a promessa, hehe.

Semana passada, já meio no desespero, li as crônicas repletas de memórias da cantora Joyce, reunidas no livro Fotografei você na minha rolleyflex (RJ, Multiletra, 1997). Tava perdido aqui em casa, provavelmente comprado pela minha mãe, mas eu sempre tenho um pouco de preguiça com esse povo da bossa nova, aí nunca tinha lido. Olha, é legal, num é uma brastemp, mas diverte, é pitoresco, Joyce parece ser uma pessoa bacana etc. Gostei muito do capítulo sobre as "eras" de Vinícius de Moraes, que era como os amigos se referiam às diversas fases pelas quais ele passava na vida de acordo com a mulher com quem estivesse casado (e foram muitas!). Até fiquei interessada em reler os poemas dele a partir do contexto histórico das eras (para quem ele escreveu o quê?), quem sabe eu arranje um tempinho pra pesquisar isso? E me chamou a atenção no livro, talvez porque eu esteja centrada na temática da juventude, a saudade da Joyce dos seus vinte anos e da vida que se levava no Rio de Janeiro nas décadas de 60 e 70. Claro que ela não é a única, esse é um topos comum nas memórias e biografias que voltam-se para o período. Mas é interessante como a nostalgia encerra naqueles tempos toda a possibilidade de se viver bem, fazendo com que os períodos posteriores sejam um nada.

Maria Rita Kehl, em ótimo artigo sobre juventude (em que ela afirma que a mesma é um sintoma da modernidade), chama a atenção sobre o quanto as pessoas tendem a se referir a esse período mágico - em que se tem vinte anos de idade - quando utilizam a expressão "no meu tempo". O tempo da nostalgia, aquele que serve como referência, o tempo que figura como marco, é o dos 20 anos. Os demais são, de forma geral, um fora do tempo. Lembro disso quando penso na Beatriz Sarlo, em Cenas da vida pós-moderna, dizendo que o rock foi possivelmente o último desafio juvenil, lá na p. 35, desconsiderando todos movimentos juvenis de contestação posteriores (num será um "no meu tempo" que escapuliu? Talvez sim, considerando que ela nasceu em 1942 e o momento de efervescência do rock combina com os seus vinte anos).
E penso muito nisso também quando quando leio, no livro da Joyce, trechos como o da p. 127, quando ela diz estar se "referindo a coisas um pouco estranhas para este final de século [leia-se virada para 2000], como arte, criação e outras inutilidades". Ou, mais ainda, quando afirma que "talvez seja mais feliz quem ficou pelo caminho, sem presenciar o fim do sonho", na bela crônica "Experiências". O fim do "no meu tempo" não mata só a juventude da autora, mas o próprio sonho. E, se como afirma Norbert Elias, morrer é não sonhar, o fim da juventude, na contemplação nostálgica de Joyce e de tantos de nós, seria o fim da vida, embora ela siga, com suas outras fases e eras. Sei lá, prefiro a lição do poetinha, de que a gente vai recomeçando sempre, cada era com suas estrelas e sonhos.
Pra terminar, e sendo justa com a autora, vamos curtir o momento nostalgia de Joyce em uma música deliciosa, "Monsieur Binot":

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Série nova. Chega de só falar bem do que leio, vejo etc. aqui nesse blog.

Pois bem, cheia de vontade fui ler a biografia do Antonio Maria, "Um homem chamado Maria", escrito pelo Joaquim Ferreira dos Santos (cujo estilo meio engraçadinho de escrever já tinha me dado uns engasgos em crônicas e no livro "1958", mas nada muito grave).

Mas agora ele se superou. Prefiro só reproduzir alguns trechos abaixo, sobre o bairro de Copacabana nos anos 50, me abster dos coments e deixar esse deleite pra vcs:

"Costuma-se dizer que o bairro naquela época era uma imensa vila habitada exclusivamente pela classe média. Os paraíbas e os suburbanos, nossos visigodos étnicos, já estavam por lá. Mas eram poucos, serviam apenas, como se fosse num filme da Metro, para dar cor exótica, tropical. O Rio perigoso estava bem definido: Lapa, Mangue, praça Mauá. Em Copacabana, podia-se andar de bonde com os destituídos e estes não se achavam agredidos nem com direito a qualquer rapinagem". (p.65).

Pensa que acabou???

"A classe média e os ricos, como se vê, eram maioria, mandavam. Havia espaço para curtir civilizadamente a solidão. (...) Escolhia-se: amar, sofrer, esquecer, se divertir. Mas tudo em paz. Sérgio Dourado e o Julio Bogoricin ainda não tinham enchido aquilo de quitinetes baratas, trazendo atrás o barulho dos carros, a poluição e o séquito de miseráveis despejados da sorte. A imprensa, por sua vez, ainda não havia ensinado o brasileiro a sonhar com o dia em que, conseguida a ascensão social, moraria ali" (p.65)

Já tava de bom, num tava? Mas não, a pessoa sempre pode se superar. Vamos adiante:

"O clima era de que todos se conheciam, se reconheciam, como privilegiados, e assim caminhavam, juntos e felizes, para as sessões do cinema Rian. Na bilheteria, acreditem, ainda não havia aquela criancinha remelenta te olhando comprar o ingresso e suspirosa de uma migalha qualquer de troco."(p.66).

Óbvio que parei de ler o livro nesse momento. Como pode isso, gente? Muita, mas muita vergonha alheia.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:






Li tanta coisa boa nestas férias que não resisto de comentar aqui, já que no twt num teria como dar conta do que quero dizer nos míseros 140 caracteres.

Pra começar, li três livros que de alguma forma estavam ligados ao tema da família. Em dois, esta era pensada em retrospectiva, através de jogos de memória, sobre os quais quero falar adiante. No terceiro, a família era projetada prospectivamente, rumo a um futuro sem data mas não muito distante. Nos dois primeiros, guerras concretas - a primeira e a segunda guerras mundiais - aniquilivam os sonhos daquelas pessoas e interferiam diretamente no rumo não só daquelas famílias mas das sociedades nas quais estavam inseridas. No terceiro, algo mais poderoso do que uma guerra - a hecatombe total, o fim de tudo, cinzas, trevas e caos -, ainda que não nomeado, ameaçava de modo mais claro ainda pôr fim não só aos sonhos e à família protagonista, mas à humanidade como um todo.

Mas chega de lead surpresa (hehe, homenagem às minhas queridas Lu e Tati). Estou falando especificamente de três livros: 1) Léxico familiar, de Natalia Ginzburg (sim, é a mãe do Carlo, amado historiador e muito usado em meus cursos de cultura popular), publicado pela Cosac & Naif em 2009; Alfred e Emily, da prêmio Nobel Doris Lessing (Cia das Letras, 2009); e, por fim, A Estrada (já transformado em filme), de Cormac McCarthy (o mesmo de "Onde os fracos não têm vez", também filme premiado), editado pela Alfaguara em 2007.

Em Léxico familiar, Ginzburg aborda a vida de sua família no período que antecede a Segunda Guerra Mundial e durante a mesma. Trata-se de uma linda construção de memória da vida privada, privilegiando principalmente modos de falar, de comer, de ver o mundo, de pensar. Através daqueles personagens humaníssimos, Natalia Ginzburg não só descreve sua própria família, mas um pouco a nossa (claro que estou tomando como referência a família ocidental etc. etc. etc.). E o fim daqueles valores e visões de mundo, transtornados pela Guerra, é também o marco da passagem de um estilo de vida mais simples para a modernização e aceleração do pós-guerra. No excelente posfácio (aliás, que edição cuidadosa da Cosac & Naif, parabéns!), Ettore Finazzi-Agró lembra que quando o livro foi lançado na Itália, em 1963, muitos o compararam, em termos da utilização de um enfoque sobre a família para descrever as mudanças dos tempos e as transformações sociais, com O Leopardo, de Tomás de Lampedusa. Eu, que sou muuuito fã do livro da Lampedusa (magistralmente filmado por Visconti, perfeito pra entender a transformação do estilo de vida principesco para o burguês), concordo plenamente. Livro lindo, esse Léxico familiar, valeu muito tê-lo lido.

A memória também está no centro do livro da Lessing. Mas aí o jogo de recordar e recriar é ainda mais poderoso. A autora resolve, quase aos 90 anos, acertar as contas com as dores familiares, e escreve um livro de perdão, lindíssimo. Com a seguinte estrutura: na segunda parte, ela conta o que de fato aconteceu com seus pais a partir da primeira guerra, quando seu pai é ferido em combate e perde uma das pernas, e ambos vão criar os filhos em uma fazenda na Rodésia, no sul da África do Sul, onde sua mãe sofre com uma intensa depressão que a afasta fortemente dos filhos. Trata-se de uma vida dura, triste, atravessada pelo trauma da guerra, que aniquila os sonhos e projetos daqueles dois. Pois bem, na primeira parte do livro, em uma demonstração de generosidade e reconhecimento à dor dos dois, Doris Lessing resolve recriar, de forma livre, a história de seus pais caso não tivesse havido a primeira guerra. Não vou contar aqui para não estragar. Mas comparar as duas histórias é triste e comovente. Um show de escrita, vou te falar.

Por fim, A Estrada, do McCarthy. Olha, desolador. Também muito bem escrito, já com cara de roteiro pra cinema, mas você lê num folêgo só. Pai e filho vão atravessando uns Estados Unidos sem vida, lutando pra sobreviver, temendo qualquer ser humano, tentando não sucumbir à animalização, só tendo um ao outro como amparo. O jogo da memória é também elemento central, principalmente no que se refere aos esquecimentos e embaçamentos que ela sempre provoca. Devorei esses três livros, realmente um achado.

Li mais dois: as deliciosas impressões de viagem de Maiakóvski quando esteve no México e nos EUA nos anos 20 (que, não por acaso, escolhi ler em NY), Minha Descoberta da América (Martins, 2007). Novamente, em jogo a questão da memória. E nesse caso, claramente a dimensão projetiva da memória, afinal, trata-se da visão de um russo sobre a américa capitalista. Muito divertido de ler, inclusive. E em inglês (num tive jeito, já que meus livros acabaram logo lá), A little history of the world, um divertido e por vezes surreal livro, mas muito legal, de E. H. Gombrich (sim, aquele da história da arte). Olha, só a história do surgimento desse livro, contada no prefácio por sua neta, já vale lê-lo. Num vou contar pra num estragar. Mas é tudo legal.

E estou lendo, pra terminar as férias, por empréstimo de meu irmão Luiz, Os chineses, de Claudia Trevisan (ed. Contexto, 2009). Aliás, a Contexto está lançando vários desses, tipo "Os franceses", "Os russos" etc. Pode parecer bobagem, coisa superficial, mas este dos chineses é ótimo. Bem escrito, interessante, cheio de dados legais, com fatos históricos mas também pitorescos, tô aprendendo pra caramba

Rentoso esse período, né, não? Agora, com as aulas começando, é só pedreira. Mas em janeiro tem mais. Hehe, quem me conhece sabe que vou dar escapulidas no decorrer do semestre. ;) Mas essa porção gorda e deliciosa, só nas férias mesmo. Peninha!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Terminei de ler, como um raio, a belíssima homenagem de Paula Dip a Caio Fernando de Abreu, através do livro "Para sempre teu, Caio F. Cartas, conversas, memórias de Caio Fernando de Abreu" (Rio de Janeiro, Record, 2009). Comprei meio sem querer, por sugestão de Dessa, quando estava escolhendo livros pra levar na minha viagem pra NY. Acabei lendo antes de ir, depois de cair naquele velho truque de "vou dar só uma folheadinha pra ver qual é"...

Num me arrependo, é muito bonito o livro! Ela, muito amiga dele a vida toda, faz um relato de histórias, afetos, coisas raras, "pequenas epifanias", como chama o próprio Caio a essas jóias raras e efêmeras que a vida nos traz. Bem escrito e tocante, como um bom livro, ao menos pra mim, deve ser. :) Queria destacar um trecho, tirado de uma das inúmeras belas cartas escritas por Caio, citada por Paula Dip na p. 228:

"Deve ser o tempo, a proximidade dos 40 anos (que meeeeedo), as nossas células e neurônios fatigados, mas vai baixando uma humildade tão grande. Reduzi tanto meus sonhos, minhas fantasias, minhas esperanças. Ando espantado com o Tempo. O tempo é a única coisa terrível que existe. O tempo que passa e leva de arrasto, aparentemente aleatório, a juventude nossa e a dos outros. Não é amargo, é apenas real. Só hoje começo a compreender certa expressão de espanto inconsolável que muitas vezes percebi nos olhos de meu pai. Meus próprios olhos estão ganhando pouco a pouco uma expressão semelhante".


Minha história com Caio também tem lá seus momentinhos. Não lembro quando li seus escritos pela primeira vez, mas lembro que foi "Morangos mofados", que fiquei impressionadíssima, especialmente com o conto "Sargento Garcia", e que li o livro algumas vezes. Depois ganhei o "Triângulo das águas" com uma dedicatória inesquecível e num momento inesquecível de Tânia Neves, pra mim a Cachs. E lembro de ter ficado muito impactada com esse livro tb. Já tinha lido "Os Dragões..." e crônicas esparsas do Caio, e já estava irremediavelmente apaixonada por ele. Lembro-me que senti de forma forte a notícia de sua morte (como muitos, acompanhei suas crônicas em que ele falava sobre a doença), o que só se repetiu duas vezes com pessoas públicas pra mim (Renato Russo e Marcelo Mastroiani). E recentemente ganhei de presente,veja só, exatamente pelos meus 40 anos!, o livro "Pequenas epifanias" do Caio, com belíssima dedicatória de meu amigo Dênis de Moraes, um declarado apaixonado pelo autor.

Ter lido esses fragmentos de memória e amor acerca do Caio, neste momento, me fez muito bem. Coisa boa é ser humano de verdade, idiossincrático, sem dúvida, mas criando, gerando, fazendo história, e não destruindo, vampirizando, vuduzando a vida alheia. Obrigada, Caio, mais uma dívida com você.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

E as músicas que num me falavam nada, achava até chatinhas??? Ouço agora e elas fazem tanto sentido, dá vontade de pedir perdão pro compositor. :)

Pra começar, "Tesouro da juventude", de Tavinho Moura e Murilo Antunes, que ouvia na voz de Beto Guedes.

"A pedalar
camisa aberta no peito
Passeio macio
Levo na bicicleta
O meu tesouro da juventude
Passo roubando fruta de feira
Passo a puxar meu estilingue
Vai pedra certeira no poste
Passa um veterano
e já cansado
Herói de guerra
E grito: lá vem a bomba!
E meu tesouro me leva
pelas ruas de Santa Teresa
A pedalar
encontro amigo do peito
sentado na esquina
Pula, pega garupa
Segura o bonde ladeira acima
Ganha o meu tesouro da juventude
Ainda que a cidade anoiteça
Ou desapareça
Piso no pedal do sonho
E a vida ganha mais alegria
Ganha o meu tesouro da juventude
Que foi em Pedra Azul
E em toda parte
Onde tive o que sou"
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Estou inaugurando série nova, com o sugestivo título de "Se sou eu ainda jovem passando por cima de tudo", trecho de uma música que amo do Ira. O objetivo dessa série é revelar coisas que não faziam o menor sentido pra mim quando jovenzita, lá pelos 18, 20 anos, e que depois, meu Brasil!, fizeram muuuuito sentido, até demais. Pra começar:


CABELOS BRANCOS!!!




Nunca pensei que meus cachos de graúna um dia sofreriam desse mal. Ou q isso iria me incomodar. Mas, ó, vou falar: ODEIO!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
LOST acabou semana passada. Sei que muita gente já falou sobre isso, mas quero pitacar um pouco também (blog é pra isso, né mermo?). Afinal, foram longos seis anos acompanhando uma série genial, na minha concepção, da qual sentirei muita, mas muita saudade mesmo.

Primeiro quero falar da série em si. Nem preciso me referir aprofundadamente às quebras narrativas. Todo mundo já falou disso, e achei muuuuito genial, pioneiro, original etc. Amei o clima de mistério, a construção das personagens na ilha e fora dela, os sustos, as explicações, as teorias, as horas que passei navegando lendo e me informando sobre LOST, minha ansiedade esperando para baixar os episódios, sua capacidade transmidiática, o show de atuação de seu elenco (com as exceções etc., tipo fiasco Santoro) e, principalmente, as histórias de amor, amizade, superação, heroísmo, ambiguidades, maniqueísmos e quebras dos mesmos, enfim, eu amei o caráter humaníssimo da série. Me identifiquei, sofri, chorei, fiquei pasmada algumas vezes, num entendi nada tantas outras, fiquei em êxtase quando as tramas faziam sentido, achei alguns episódios perfeitos, enfim, mais uma vez tive que berrar, ai que delícia é a cultura de massa! :)

Sobre o final, quero falar especialmente. Muita gente odiou. AMEI, AMEI, AMEI. Cada um tem o direito a achar o que quiser, é claro. Mas tem gente que num gostou meio pq num entendeu a estrutura narrativa. Não, não estavam todos mortos na ilha. O último a morrer na ilha, pelo menos aos nossos olhos de espectadores, foi Jack (cena linda!). Outros escaparam. Não sabemos o que aconteceu com eles depois, não nos foi mostrado. A história da ilha de LOST e seus estranhos mistérios (em sua maioria, ao menos) foram fechados com a morte de Jack. Finito.

Mas os roteiristas resolveram nos dar um presente. E nos deixaram assistir, de forma paralela ao que estava se desenrolando na Ilha, o que aconteceria, de forma mística, numa vida pós-morte. A gente assistiu paralelamente, algumas coisas se cruzaram paralelamente (se não, num seria LOST, né?), mas mesmo conectada com a história da ilha, aquela que víamos como paralela era, na verdade, uma história posterior à morte de todos os personagens, mas que só poderia ser vivida e percebida por eles quando o herói da série cumprisse sua missão, se sacrificasse e finalmente percebesse que a fé superava a ciência. Quando isso acontecesse, aqueles sujeitos, que eram os perdidos no mundo antes de se perderem na ilha, teriam chance de encontrarem, se reconhecerem e viverem finalmente uma vida de amor e redenção (a porta estava aberta e o Pastor Cristão - Christian Shepard - estava mostrando o caminho). Antes disso, porém, enquanto esperavam o momento do reencontro, todos teriam tido a chance, ao menos os que estavam prontos (não é a isso que se refere Hurley quando fala que Ana Lucia ainda não poderia saber do que estava acontecendo?), de ter reescrito um pouco suas vidas, de forma a ajeitar algumas pendências da vida anterior. Quase uma limpeza de karma. :) Mais ainda, para além da metáfora da vida, uma forma de nos dizer, eles, roteiristas, que aqueles personagens não morreram também para nós, que suas histórias os transformaram e nos transformaram e que não seríamos brindados de forma acachapante com uma cena final de morte trágica do grande herói, tantas vezes chato, tantos vezes cético, mas tão retrato de nós todos, sem um abrandamento deste baque através de uma cena com todos se encontrando, se reconhecendo, se abraçando.

Místico? Cristão demais? Cafona? Pode ser tudo isso. Mas confesso que me tocou. Talvez pela minha fase de transformação, fico grata pelas metáforas ficcionais que falam de possibilidade de superação e recomeço, pela idéia de que as coisas não morrem mas se recriam, que nos lembram que é do encontro que nasce a mudança, de que as coisas idas não precisam ser findas e de que o amor é a tal da fonte de luz, o que faz de uma ilha perdida uma analogia com a vida da gente, suas perdas, mistérios, recuos, mortes e desrazões, mas sempre uma história que valeu a pena ser contada e ser vivida.

Para quem quiser mais coments, inclusive mais aprofundados sb a série e sb o final, recomendo as análise do Dude, we are Lost e as análises perfeitas do Leonardo "Jerry" em todos os tópicos de análise de episódios do fórum da comunidade Lost Brasil, no orkut.