Seja bem-vindo ao meu boteco virtual. Como acepipes e tira-gosto: resmungos, poemas, fotos, desabafos, coments, textos aleatórios, homenagens, debochinhos e o que mais couber. Bebidas ao gosto do freguês, mas de preferência coca zero com gelo e limão, porque, conforme a lenda: "a bebida entra e a verdade sai".
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem, quando terminei a aula de Sociologia lá no gragoatá, por volta das 18h, tava indo, como sempre, rumo ao meu carro pra ir pra casa. Eis que no caminho encontrei dois alunos queridíssimos, Lia Ribeiro e o Paulo Régis, e eis que nos pegamos num conversê sobre temas vários, vida, política, projetos. Foi ótimo. Ficamos nessa conversa-troca muito agradável e produtiva, meio do nada, até 19h.
E aí me lembrei que quando entrei na UFF, em 2003, como bolsista PRODOC, encontrei essa possibilidade. De conversar, trocar, ter tempo pra aprender e crescer junto. Lembro que no meu Laboratório (LAMI), muita gente passava pra conversar, alunos, orientandos meus ou não, da pós ou da graduação, professores, amigos, enfim, era um ponto de encontro recorrente. O grupo de estudos (GRECOS) tinha um lugar aconchegante, um "próprio", no sentido do Certeau, importante para constituir sua identidade. Perdíamos/ganhávamos tempo convivendo lá. As pessoas passavam porque sabiam que iam me encontrar. Então, pensei na época que universidade também era isso, um lugar pra se sentar, conversar, trocar... enfim, tenho certeza de que essa num é só uma memória minha, o LAMI, nesse período, foi importante pra muita gente. Pena que isso, por agora, acabou.
Pois o LAMI, com as formas de socialização que nele ocorriam, foi engolido pela burocracia. Sucessivas reformas no espaço acabaram fisicamente com o laboratório, por agora sem pouso. Pra implementá-lo, só com muito tempo e disputa. Cansaço.
No entanto, ele faz falta, não pelos equipamentos ou pelo aporte para material de pesquisa, isso pode ser virtual, ser na minha casa, em qq laptop. Mas faz falta esse ponto de sociabilidade que faz da universidade o lugar de trocas múltiplas, como a que tive ontem com Lia e Paulo. Senti falta. E lamentei.
Acho que isso é parte do extremo fosso entre visões de mundo acerca do que significa a universidade, a maneira com que se pensa o espaço e sua distribuição. Processo complexo, do qual esse lamento é apenas uma parte.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ainda não me conformei. Eu e parte do Brasil. Glória Perez tem sua parcela de culpa, com essa novela RIDÍCULA que é Salve Jorge. Mas não é nada disso. É que era boa mesmo Avenida Brasil. Que novela sensacional, inesquecível... Sinto falta de Carminha, especialmente, naquele show de Adriana Esteves. E de tudo, até do núcleo do Cadinho. Até de Monalisa!!!!! Num tem jeito, foi paixão na veia. Que nem Lost, que nem Friends.
E para marcar minha saudade, uma das pérolas daquela trilha sonora também inesquecível: a música tema de Tufão e Nina, que fico cantando no MP3 o dia inteiro, aos berros, até hoje.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Semana passada tive o prazer de rever Juliette Binoche em "A vida de outra mulher", comédia romântica melancólica bem gostosinha. Conclusão: essa mulher fez pacto, gente! Como envelhecer lindamente assim, Brasil???!!! Olha, parabéns a todos os envolvidos! :))) Babei!
E lembrei da primeira vez que vi JB no cinema, no inesquecível "A liberdade é azul", primeira parte da trilogia linda do Kieslowski, em 1993. Assisti com Gil, meu amorzão, no cinema do Plaza. Lembro que chegamos atrasadas, perdemos a primeira cena, do acidente de carro, e assistimos ao restante maravilhadas. No final, resolvemos emendar com o comecinho da outra sessão pra ver a cena inicial. Mas como tínhamos compromisso, só vimos essa cena mesmo e levantamos pra sair. Na hora, Gil, debochada, disse alto: "vambora, num quero mais ver esse filme, num suporto filme que tem acidente", para espanto e terror do povo todo intelectual que tava fazendo pose pra ver o filme. Nós morremos de rir. E ainda enguiçamos a escada rolante do Plaza. Enfim, vinte anos, aquela beleza de tempo de risos e bobagens e muito amor.
Juliette Binoche não fica feia, meu amor por Gil ainda é forte e lindo e eu ainda tenho uma alma de vinte anos. A vida pode ser tão boa, né?
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem um amigo querido me escreveu dizendo que conheceu meu blog. Aí comentei com amiga amada que estava com saudade de escrever aqui no Baiúca. Aí hoje acordei com vontade de fazer uma série nova, com cenas passadas nessa nova Niterói. Porque Niterói mudou, assim como o mundo. E está repleta de pessoas neurotizadas, predadoras e capazes de atitudes surreais. Presenciei algumas, em diversas ocasiões. Vou repartir aqui.
Cena I
estou cruzando, com meu carro, a Av. Francisco da Cruz Nunes, na Região Oceânica, para entrar na rua do Hortifruti. Sinal aberto pra mim. Idiota avança o sinal. Quase bato. Tenho que dar aquela freada em cima. Enfio a mão na buzina. Idiota pára, abre o vidro, é um cinquentão esportivo numa picape. Olha pra mim e... a) pede desculpas?; b) me xinga?; c) acelera envergonhado?. Não. Faz uma careta pra mim e fica parado, até o sinal abrir pra ele e eu ficar no meio da pista, levando buzina de tudo quanto é lado. Passo entre os carros e balanço a cabeça, sem acreditar.
Cena II
estou caminhando matinalmente na Praia de Piratininga. É cedo ainda, o calçadão (força de expressão, porque depois das ressacas caminho pelos escombros) está vazio, só os caminhantes/corredores de sempre. A maioria de idosos, praticamente conheço todos. Passo por eles e dou bom dia, como faço sempre que caminho rotineiramente pelo mesmo lugar. Todos respondem, alguns sorriem, se sentem reconhecidos e cumprimentados. Passo por uma cinquentona. Digo bom dia. Ela me olha e responde agressiva: "Por quê? Não te conheço". Digo "ok, desculpe". Ela levanta a cabeça altiva e segue vitoriosa. Balanço a cabeça e penso: "ai, hoje vai ser um dia complexo". Sigo a caminhada, distribuo outros bons dias, e respondo a outros acenos.
Cena III
nesse mesmo dia, mais tarde. Eu adivinhei que seria complexo, né? Estou no Hortifruti do centro. Na fila do caixa. Na minha frente, senhora com carrinho cheio vai descarregando seus produtos pra pagar. Eu com carrinho cheio. Atrás cinquentona com carrinho cheio. Vem um velhinho, bem velhinho, meio confuso com uma cestinha e quatro itens pingados na mesma. Olha pra mim e pergunta se eu me incomodo de deixar que ele passe antes de mim. Eu digo: "claro, o senhor pode passar sem problemas". Sinto uma mão no meu ombro. Cinquentona berra: "você me perguntou se eu concordo? Eu não concordo!". Volta seu ódio vespertino pro pobre senhor e aponta pra uma fila enorme no canto direito, a do caixa rápido, e diz: "vai pra lá, é pra lá que vc tem que ir". Ele pede desculpas, eu tento argumentar, ele me olha com ternura e me diz: "deixa, minha filha, prefiro assim, menos confusão. Mas muito obrigado, viu?". Segue então pro caixa rápido que vai demorar horrores. Olho com ódio para a mulher, mas deixo quieto.
Torno a me concentrar na caixa e na mulher da frente. Vejo que ela está com dificuldades físicas pra pegar os produtos no carrinho e colocar na esteira do caixa. Falo: "você quer ajuda?". A mulher da frente diz: "ah, quero sim, se vc não se incomodar. Fiz uma operação recentemente, ainda estou em fase de recuperação, então tá dificil fazer muito movimento". Começo a ajudar a mulher a tirar as coisas do carrinho. Ela passa tudo, paga, agradece e vai embora.
Começo a tirar as coisas do carrinho. Eu e a caixa comentamos sobre a situação da mulher, coitada, tendo que fazer compras sem condições físicas pra isso. Nisso uma voz me interrompe. É a cinquentona neurótica e histérica. Ela pergunta:
- Escuta aqui, vc está com algum problema de karma?
Eu:
- Oi?
Ela:
- Só pode estar, pra querer estar ajudando todo mundo assim na rua. Só pode ser karma mal resolvido, tá precisando pagar alguma coisa, pra querer ficar ajudando assim.
Eu olho pra caixa, pasma. A caixa abre olhos estupefatos. Eu ignoro a histérica e digo pra caixa:
- É mole?
A caixa e eu começamos a rir muito. A caixa fala:
- Gente, é cada coisa.
Continuamos a rir. Cinquentona fica puta, mas num fala mais nada.
Termino de fazer o pagamento, agradeço à caixa, rimos novamente. Ignoro totalmente a louca e vou embora.
Eu disse que ia ser um dia complexo, né?
Cena IV
Estou indo para dar aula na faculdade, de manhã cedo. Ruas Mário Vianna e Santa Rosa totalmente paradas. Resolvo cortar pela João Pessoa, quando ainda dava mão sentido Paulo Cesar. A cada cruzamento da João Pessoa, então sem sinais de trânsito, paro para dar passagem para crianças escolares e seus responsáveis, muitas vezes avós. No terceiro cruzamento em que isso acontece, na esquina com Domingues de Sá, sinto um empurrão no meu carro por trás. É uma picape tentando passar por cima do meu pobre uno. Salto pra ver que diabos está acontecendo.
No carro, um cinquentão enlouquecido começa a berrar e me xingar, dizendo pra eu sair da frente, vaca!, ele vai perder a hora, piranha!, tirar a merda do meu carro da frente, vaca!. No banco do carona, a mulher me olha envergonhada. Os dois filhos no banco de trás estão boquiabertos. Trata-se de um dos "pais do Abel", que diariamente fazem misérias no trânsito com suas picapes pra deixar seus filhos na escola, e que se foda o resto do trânsito e da cidade!
Enquanto ele xinga e berra, eu olho para a mulher no banco do lado, bem no olho e falo, baixo, mas ela escuta: "Tenho pena de você, amiga, por ter que aguentar esse idiota. Mas tem certeza de que vai deixar esse cara (friso bem esse trecho pra ela entender) educar seus filhos?". Ela me olha resignada. Ele me xinga mais. Saio, entro no meu carro, dou passagem e ele acelera feito louco, ainda me xingando. Pessoas na rua me olham pasmas e balançam a cabeça em solidariedade. Sigo adiante, com calma, parando nos cruzamentos. Pessoas agradecem. Chego na hora pra dar aula.
Por enquanto é só. Mas tem mais! Ah, nossa Niterói, que beleza, né? E os cinquentões, que estão terríveis???!!! ;)
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Era antevéspera do aniversário dela. Passaram a noite anterior na cama. A manhã de segunda também. Sem se soltarem. Ela chegou muito atrasada na reunião. Com cara de louca feliz. Saiu da reunião, tomou café com o amigo e voltou pra casa, pra mesma cama. Novamente sem se soltarem. Diziam, em êxtase, sorrindo, na dosagem mágica do amor: "sem espaço". Sem se soltarem, na felicidade plena, "sem espaço, sem espaço".
O que se passou depois daquele dia - o fim, o fim -, ela nunca conseguiu entender.
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adoro coments no blog, negativos ou positivos. Mas só permito os identificados. Anonimato pra comentar opinião alheia é covardia. Aqui só rola quem se posiciona, regras da casa. E quem coloca nome sem link, sem ser conhecido previamente, pra mim é anônimo tb. E num aceito grosseria gratuita em coment. Como disse, regras da casa. Apaguei muitos hoje. Gente chata! vai fazer um blog pra encher a paciência dos outros, peloamor!
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Se isso num é ideologia ... não sei o que mais pode ser!
Mauro Ventura, em trecho de livroSOBRE INCÊNDIO no circo EM NITERÓI EM 1961 (ou seja, sobre um acontecimento que nada tem a ver com o contexto referente ao trecho abaixo, que aparece como quem não quer nada no meio do livro):
"Se não tivesse escapado do incêndio com a ajuda do pai, o comandante-geral da Polícia Militar (...) não teria se tornado um dos principais nomes da maior vitória das forças de segurança sobre o crime da história do estado do Rio, com a tomada da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, em novembro de 2010" (p. 29).
???? Pode??????
E pra fechar meu coment sobre esse livro: como uma boa ideia e um bom material de pesquisa podem ser desperdiçados, vou te contar!
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Ele e Zico foram meus ídolos nos meus dez, quinze anos. Época em que ídolo é coisa muito séria e em que eu era fanática por futebol. E o doutor Sócrates ainda era médico, meio revolucionário, democracia corintiana, falava bem, era politizado, vizu meio Che Guevara, e aquele futebol, porra, que futebol! O calcanhar mágico, as cobranças de faltas, os lançamentos, os gols de craque... O mundo precisava de outros como você, Doutor!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Tenho ouvido, para experimentar, algumas rádios on-line enquanto trabalho no escritório. Faço a escolha por este site, o "Rádios ao vivo", que tem uma oferta imensa.
E estou fazendo um ranking particular. Vou recomendar algumas aqui, para quem tiver interesse.
Para começar, conheci ontem a "Brasileiríssimas", uma ótima e variada rádio de música brasileira, incluindo classicões, pop, alternativos e umas coisas mais raras, dos anos 80, que adoro. Gostei bastante!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hj assisti, finalmente, à animação Rio. Olha, por que o diretor/autor/roteirista, enfim, por que os responsáveis por uma animação tecnicamente impecável, com personagens simpáticos, com paisagens cariocas fabulosas, dão uma de "babaca mor" ao colocarem os micos (todos pardos/morenos) como ladrões e funkeiros? Qual a necessidade de ser tão escroto, meu pai?
Por que alguém se dá ao trabalho, depois de fazer a analogia óbvia acima, de colocar na boca/bico de um pássaro BRANCO a inacreditável frase "isso que dá mandar macaco fazer trabalho de ave" (não estou citando literalmente, mas é isso aí, mais ou menos).
Cara, num consegui mais curtir o filme. Aí a gente fala e o povo reclama do politicamente correto. Gente, qual a necessidade de ser tão preconceituoso, tão gratuitamente preconceituoso, tão gratuitamente babaca? Num consigo entender.
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Hj tive o desprazer de assistir ao inacreditável discurso da dep. estadual Myriam Rios (sim, ela foi eleita! Sim, me recuso a postar aq e ofender ao meu blog querido!) sobre suas posições acerca das leis anti-homofobia (ela está se opondo ao PEC 23/2007, que na surdina foi votado e derrubado no dia 21/06/2011. Saiba mais aqui e vejam no que dá ter tolerância com quem é intolerante. Mais uma regressão no campo legal, que lamentável!). Não deveria mais perder tempo com essa gente que não se sabe se age assim por má fé (que ironia, né?), ignorância, medo, obscurantismo, vontade de aparecer, ah, nem sei mais como classificar essa profusão de falas homofóbicas, preconceituosas e discriminatórias que são emitidas em público com um suposto aval da democracia, do livre pensamento religioso, do sei lá mais o quê. Para mim, são discursos ofensivos e empobrecedores do debate, mas, principalmente, extrapolam o campo dos argumentos e geram ações como a derrubada do PEC 23. Portanto, resolvi que num dá para me omitir e não comentar a surreal fala acima citada.
Vamos aos pontos:
1) ela afirma, no discurso, que se o PEC 23/2006 for aprovado ela ficará impedida de demitir um empregado se ele for pedófilo. Oi? gente, pelo amor de Deus, avisa pra essa senhora que pedofilia é crime, então ela pode sim não só demitir como principalmente denunciar um pedófilo! O que ela não pode é fingir que num sabe (porque num é possível, eu sei que ela sabe) que pedofilia não é sinônimo de ser gay, e que existem pedófilos homossexuais, infelizmente, mas também infelizmente pedófilos heterossexuais (e muitos, minha senhora, muitos!). Portanto, se seu empregado, hetero ou homossexual, for um pedófilo, a senhora deve mesmo demiti-lo, denunciá-lo, fazer de tudo para que ele não possa agir nem perto de seus filhos nem dos filhos de ninguém (estratégia melodramática muito usual e eficiente, a de chamar a comoção do público para seus argumentos usando da seguinte frase: "sou mãe de dois filhos", usada não só por Myriam Rios, mas por tantos outros "defensores da família" e, em nome disso, defensor dos preconceitos também, vide a fala de Leilane Neubarth que já comentei nesse post). Mas o que a senhora não deveria (e se tudo correr bem, se o mundo for justo, com aprovação posterior dessa Lei - ela ainda terá que ser objeto de apreciação mais uma vez - ou de outras, como a PL-122, o que a senhora NÃO PODERÁ) é imputar a uma pessoa um rótulo criminalizável, como associar a um homossexual a acusação de pedofilia, a priori, porque isso é discriminação e também calúnia e difamação.
2) Vamos entrar agora nesse surreal argumento "Quero dizer que não tenho preconceitos, que não estou discriminando ninguém", pra depois sair discriminando a torto e a direito, povoando o mundo de
preconceitos e estigmas aviltantes. Vou repetir: NÃO PODEMOS TOLERAR QUE OS DEFENSORES DO PRECONCEITO, ESSES ARAUTOS TOTALITÁRIOS QUE QUEREM IMPOR SUAS VISÕES DE MUNDO SOBRE OS DIREITOS DOS OUTROS, ADVOGUEM DIREITO DE IGUALDADE DE OPINIÃO, DIREITO DE EXPRESSAR SEU PRECONCEITO PORQUE ISSO É DEMOCRÁTICO. Não, não é. É totalitário, já escrevi sobre isso nesse post e não vou me repetir. Mas não aceitamos mais esse argumento. Bata no peito e assuma: sou totalitário, quero despedaçar você, por ser diferente de mim, não quero que você tenha o mesmo direito que eu, e aí a gente conversa. Fora isso, para mim você está se portando duplamente como um cínico e um preconceituoso.
3) Ela repete várias vezes: "imagina vc contratar um empregado para cuidar de seus filhos e depois descobrir que ele é homossexual". Essa dimensão do "descobrir" me lembra muito a sempre atual obra de E. Goffman, Estigma (senhora deputada, vença seu medo do conhecimento, procure ler esse livro, venha para a luz, Caroline!). Nele, Goffman distingue os desacreditados (aqueles que portam estigmas visíveis, marcas corporais, e serão discriminados por isso) e os desacreditáveis (aqueles cujos estigmas são passíveis de disfarce e manipulação, por não serem marcados pelo traço físico objetivo, mas que se forem descobertos serão discriminados). Para os primeiros, os estigmatizados/desacreditados, o problema está no contato, pois este é marcado sempre por uma situação tensa em que a materialidade do estigma evoca o preconceito e a discriminação. Para os segundos, os estigmatizáveis/desacreditáveis, o problema é a informação, o controle sobre ela, quem pode saber, quando, onde... trata-se de uma situação de absoluta tensão e neurose, já que sobre o desacreditável paira a sombra do medo de ser descoberto.
E a deputada Myriam Rios, que acha mesmo (será que acha?) que não está discriminando ninguém, quer perpetuar exatamente esse medo, essa tensão, essa neurose. Ela quer que seu empregado (olha, me recuso a comentar o quanto esse exemplo sobre contratar empregados como único meio de contato com homossexuais é chocante, nem o caráter classista dessa exemplificação) continue se escondendo, mentindo para se proteger, controlando as informações acerca de sua vida privada para não ser descoberto, porque se for, segundo o que sugere a deputada, o levaria a perder o emprego. E ELA VEM DIZER QUE ISSO NUM É DISCRIMINAÇÃO!!!! Ah, num tem como ter paciência com esses argumentos.
4) Podia falar aqui do estado laico, da necessidade de contermos, com urgência, esse avanço das posições religiosas sobre questões de direitos individuais, mas isso já vem sendo pauta de inúmeros artigos e falas (recomendo, por exemplo, essa entrevista com o deputado federal Jean Wyllys). Prefiro abordar aqui a importante questão levantada por H. Bhabha a respeito das relações ambíguas entre colonizadores e colonizados. Segundo ele, os colonizadores, buscando situações de controle e dominação, esmagavam os direitos dos colonizados, oprimindo-os. Para isso, deslegitimavam qualquer fala destes, acusando-os de uma não humanidade, de inferioridade, de representarem o perigo da anomia, o primitivismo. No entanto, mostra Bhabha, ao mesmo tempo que oprimem e desqualificam os colonizados, os colonizadores os fetichizam, transformando-os em objeto ambivalente, significante de um misto de temor/medo com fascínio/desejo. A ação de sujeitar o outro, antes de significar somente um atestado de poder, demonstra Bhabha, é uma alegoria de uma ambiguidade constitutiva da relação colonizado/colonizador: lugar de temor e também de desejo, o colonizado precisa não só ser domesticado, mas principalmente fetichizado, para que o opressor possa lidar com seus medos e seus desejos, como o medo/desejo de, de alguma forma, ser dominado por aquele a quem domina ou, em última instância, tornar-se um deles, e o pior, gostar de tornar-se, desejar tornar-se aquilo que em tese se abomina.
Acho essa uma excelente forma de pensarmos a relação da hegemonia heterossexual em relação ao homossexual. Claro que não estou propondo aqui uma aplicação colonizador e colonizado ao pé da letra, mas pegar por empréstimo o que Bhabha aponta existir, no jogo perverso do fetiche, de medo e desejo nas relações de dominação.
Porque venhamos e convenhamos, essa fixação de uma parcela de religiosos brasileiros com a questão dos direitos homossexuais pode ser pensada claramente nesses termos do fetiche. Aliás, frente aos últimos acontecimentos, já estamos no campo da obsessão.
Portanto, acho que esse bando de preconceituosos travestidos de bons samaritanos está precisando mesmo é de uma bela de uma ... terapia gigante! Ou, pelo menos, de dar uns bons beijos na boca. Talvez parassem com essa encheção.
Terminarei com um "Você dedide" particular. No filme "O grande debate", o orador negro, que vencerá ao final o desafio dos debates que perpassa o filme, termina seu consagrador discurso sobre a segregação racial norte-americana com a seguinte observação (não lembro ao pé da letra, então é mais ou menos isso): "frente ao que vocês nos fizeram, só nos restava escolher entre a desobediência civil e a violência. Vocês têm sorte por termos escolhido a desobediência civil". Ora, não precisamos chegar a tanto por aqui. Não precisamos nem de um nem de outro caminho. Escolhemos o de lutar no campo das leis.
Mas deixo aos discriminadores, esses falsos cristãos, que fingem que pregam o amor ao próximo mas só tem, como narciso, amor a si mesmo, o seguinte direito de escolha: abaixo endereço duas mensagens a vocês. Dependendo do seu comportamento em relação a mim, te ofertarei uma delas. Agora é com você!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Conheci recentemente o blog da Rávellyn, minha aluna neste primeiro período de sociologia em 2011/1. Sempre fico impressionada com a sensibilidade e com a força de expressão dos blogs pessoais. Sou fã.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Dando prosseguimento à série de receitas e dicas culinárias bem facinhas que pretendo disseminar neste blog, segue a receita de um delicioso e saudável antepasto de abobrinha:
1) Corte picadinho ou em tirinhas (como vc preferir):
- 2 abobrinhas (se preferir, faça com 1 abobrinha e 1 berinjela, ou com duas berinjelas)
- 2 tomates (sem caroço)
- 1 cebola
- 1 pimentão amarelo ou vermelho (ou os dois, fica ainda melhor)
- 8 dentes de alho
2) coloque num tabuleiro e misture com um punhado de orégano, sal a gosto, 1/2 xícara de azeite e 1 pouco de vinagre
3) cubra o tabuleiro com papel laminado e coloque no forno para assar por cerca de 1 hora e meia, em fogo médio/alto (250°, mais ou menos)
4) depois de pronto, misture um pouco de cheiro verde picadinho.
Pronto, tá no pontinho pra servir. Fica tão gostoso que dá pra comer puro esse antepasto, ou com torradas, num sanduíche, acompanhando a comida... e se você quiser, depois coloque mais azeite ou sal, de acordo com sua preferência.
Como reclamaram que no primeiro post desta série, sobre meu arroz elogiado, a foto num era do mesmo, agora tô matando a cobra e mostrando o pau. Nas fotos abaixo, o antepasto pronto pra ir ao forno, ainda cru; e num segundo momento, já pronto pra ser servido. Tudo de minha própria autoria. :)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Estou lendo o sensacional "Lendo Lolita em Teerã - memória de uma resistência literária", da iraniana Azar Nafisi. A autora, professora de literatura inglesa e exilada nos EUA, narra suas memórias sobre o processo de endurecimento pós-revolução no Irã, em 1979, a suspensão de seu direito de dar aulas na universidade de Teerã, a proibição pelo regime dos romances ingleses, a obrigação do uso do véu para as mulheres em lugares públicos e as pequenas resistências que ela e suas alunas faziam cotidianamente, em especial o grupo de estudos sobre romances ingleses que mantinham, clandestinamente, na casa de Nafisi nas quintas pela manhã, durante dois anos. Nesses encontros, liam e discutiam romances e suas próprias vidas. Esse jogo de memórias e subjetividades faz desse um livro magistral.
Mas não pára por aí. A autora aproveita para fazer crítica literária de altíssimo nível, entremeada com as fragmentações da memória e uma narrativa muito bem costurada. É romance com crítica literária, acredito que um sonho daquela professora que achava que a ficção era fundamental para a vida. Cada parte do livro traz muitas referências literárias, mas é costurada em torno de algum grande autor ou romance. Já terminei as duas primeiras partes, dedicadas a Nabokov e ao "Grande Gatsby". Estou no meio da longa parte três, que tem como fio condutor Henry James. A última é dedicada a Jane Austen.
Sobre a primeira parte, gostaria de fazer dois coments. No mesmo dia em que consertei minha bicicleta e fiz coments no twitter sobre a sensação maravilhosa de voltar a sentir o vento batendo no meu rosto ao andar de bike, li um trecho em que a autora e suas alunas comentavam o que mais as impressionaram quando leram "Madame Bovary", de Flaubert. E o vento batendo no rosto de Emma Bovary era uma das imagens mais fortes. Não entendi muito bem este trecho, até me deparar com esse outro, em que tudo ficou claro:
"Esses estudantes, como toda a sua geração, eram diferentes dos da minha geração em um aspecto fundamental. Minha geração se lamentava de uma perda, do vazio em nossas vidas que foi criado quando nosso passado nos foi roubado, o que nos exilou em nosso próprio país. Ainda assim, tínhamos um passado para comparar com o presente; tínhamos memórias e imagens do que nos fora tirado. Minhas meninas falavam constantemente de beijos roubados, de filmes que jamais viram e do vento que nunca sentiram no rosto." (p. 99)
Fiquei pasma, nunca tinha pensado sobre isso: o vento no rosto de Emma Bovary era expressão máxima de liberdade para aquelas mulheres que, fadadas a usarem sempre em público o véu, não experimentavam a pequena mas inesquecível sensação do vento batendo no rosto!!! Nos obriga a pensar e muito, uma cena dessas, não é?
Ainda na parte referente a Nabokov, agora um coment de caráter mais literário: finalmente encontrei uma leitura de "Lolita" com a qual me identifiquei plenamente. Nas duas vezes que li o romance e na vez em que assisti ao filme, sempre pensei que os ardis do enredo não poderiam me deixar esquecer o essencial: tratava-se de uma criança de 12 anos! Não importa se sexualizada, se interesseira, se manipuladora. Uma criança, sempre, portanto, vítima, sempre. De certa forma, é este o princípio que precisamos ter no debate sobre diminuição da idade em crimes que envolvam maioridade penal. Temos que remover o véu das verdades aparentes (é um criminoso, num tem mais jeito, age como um adulto etc.) e lembrar: mas é uma criança. E tem que ser cuidada como tal. E não violentada, sujeitada, explorada, massacrada, encarcerada. Adorei a leitura que Nafisi faz de "Lolita", me senti em casa.
Por fim, para este post, um coment tb literário sobre sua interpretação acerca de "O grande Gatsby", de Fitzgerald. Em meio a discussões polêmicas com seus alunos, Nafisi considera que "Gatsby" é, na verdade, um romance sobre a desilusão. Concordo plenamente. E lembrei-me de um dia distante, em uma aula da pós-graduação em História, disciplina que fiz como complemento aos meus créditos no mestrado em Antropologia, em que discutíamos em sala o romance "Clara dos Anjos", de Lima Barreto. E a professora, sempre soberba, uma de umas soberbas que já conheci, dizia que era um romance sobre a dominação das classes, sobre traição e dominação. Lembro-me que discordei, dizendo que achava "Clara dos Anjos", antes de tudo, um romance sobre a desilusão, todos os personagens eram desiludidos, independentemente das classes e posições que ocupavam (de certa forma, este é o argumento de Nafisi sobre Gatsby). E a professora discordou de forma bem grosseira, fechando ali a discussão. Tempos mais tardes, li um texto dessa professora em que ela falava, em determinado trecho, sobre "Clara dos Anjos", e adivinhem?, ela concluía que se tratava de um grande romance sobre a desilusão. Quem é essa gente, Brasil?
Mas a Nafisi, vou te falar, me senti hermanada...
Aposto q vai ter mais post sobre "Lendo Lolita em Teerã"...
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Acabo de saber de mais um escandaloso caso de roubalheira em concurso público para professor universitário.
Sempre me deprimo com essas histórias. Como é possível? Como é possível que exatamente no meio voltado para a reflexão crítica, para o questionamento, para o desafio do status quo, se reproduza uma das mais abjetas relações de embaralhamento entre o público e o privado, que é o favorecimento em concursos públicos, mandando às favas todos os escrúpulos e méritos, senhor presidente, desde que entre o apadrinhado, o protegido, o nepote????
E a gente vai se acostumando com isso. Aceitando. Que tristeza que me dá... como é possível? Como uma banca pode dormir feliz, tranquila, o sono dos justos, depois de esfacelar os sonhos, os projetos, a vida de alguém que merecia ter passado?
Já cansei de ver isso. Já lamentei. Reclamei. Fico pasma! Como é possível? A pessoa reproduzir todos os males sobre os quais supostamente reflete: poder, favorecimento político, vaidade, injustiça???? Na boa, cambada de falso, fariseus, hipócritas do saber. Não estudam porra nenhuma. São fingidores. E com dinheiro público. E são acobertados por um corporativismo inexplicável.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Minha gente, decidi q sempre que der tempo vou partilhar algumas descobertas/receitas/macetes simples da minha vida cozinheira. Pra quem se interessar, principalmente meus alunos que moram sozinhos e/ou recém-casaram. :) Aproveito pra deixar de registro, como um livro de receitas blogado. Vou começar com meu arroz consagrado.
1) Como fazer um arroz branquinho, soltinho e delicinha
- Lave bem o arroz (tipo 1, eu uso Tio João), deixando escorrer por um tempo. A quantidade varia de acordo c/ o número de pessoas e/ou dias q vc pretende comer o mesmo arroz (coisa de quem mora sozinho. Não esqueça de guardar o arroz fechado dentro de um recipiente, arroz é danado pra dar bicho). Um copo dá bem pro dia-a-dia de um casal.
- Coloque uma leiteira com água pra ferver (meia leiteira p/ 1 copo).
- Prepare numa panela um refogado com cebola (1/2 pra um copo), alho (3 dentes amassados p/ 1 copo), óleo (eu uso de canela, q é mais saudável. E boto bem pouquinho, pq é p/ refogar, não fritar, e a saúde agradece) e sal a gosto (eu coloco sempre pouco primeiro, depois vou provando a medida em q o arroz vai cozinhando, pra evitar salgar. Mas no total dá uma colher cheia de sobremesa).
- Quando a água da leiteira tiver fervido, é hora de colocar o refogado no fogo. Coloque no fogo médio. Não deixe pegar o fundo, fique mexendo com colher de pau (arroz q pega no fundo fica com gosto de queimado, imperdoável)
- Coloque o arroz sequinho e refogue um pouco tb, misturando bem com o refogado já quentinho. Depois pegue a água da leiteira e coloque na panela do arroz, cobrindo o mesmo em cerca de um dedo. Dê uma mexida com a colher de pau pra desgrudar os grãos mais teimosos.:))) Deixe o arroz destampado.
- Ponha uma música na cozinha, fique dançando, faça outras coisas (eu sempre lavo louça, quando não tenho outro prato pra preparar)... MAS NÃO SE AFASTE DO ARROZ, tipo pra ir no computador, falar no cel, ver tevê. É CERTO QUE ELE IRÁ QUEIMAR, é uma lei! Fique por perto, de olho vivo. Quando a água do arroz baixar e o topo dele aparecer, coloque água novamente, cobrindo um dedo. Dê uma provada pra ver a quantas está o sal. Se sentir que tá faltando, ponha mais um pouco, mas com cuidado. - Repita essa operação mais uma vez. Nesta última, prove e veja se o arroz já está com aquela textura de cozidinho (ele já vai estar). Aí tampe a panela e deixe o arroz secar. MAS ATENÇÃO: essa é a hora decisiva. De vez em quando, coloque uma colher pra ver como está a água, se está secando etc. E, principalmente, fique ligado no barulho da secagem, pq qdo o arroz começa a pegar o barulho muda. Quando tiver secado, desligue (na dúvida, eu sempre desligo. Melhor arroz um pouco molhado do que queimado).
Bem, é assim que eu faço. Fica bem gostoso. E com a prática vc fica mais ligado em tudo, portanto, não se preocupe se das primeiras vezes não der muito certo. Tamo junto!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Essa postagem tem esse título porque quando comentei com a árabe invejosa que finalmente tinha assistido Tropa de Elite II e que iria fazer post sobre o filme, ela, invejosa como sempre, debochou e disse que o título deveria ser "Em tempo" porque o assunto já estava velho. Como graças aos céus me livrei dessa algema jornalística de que existe um tempo quente para falar de assuntos quentes, cá estou eu, a despeito da maledicência da árabe invejosa e outras que tais.
Pois bem, vi o filme. Gostei bastante. Mas fiquei com uma pulga: terá sido um roteiro previamente pensado, antes de rodar os dois? Ou terá sido uma reação na base do mea culpa à saraivada de críticas que o primeiro tomou?
Eu, que meti o pau no primeiro (poucos filmes me irritaram tanto), teria que dar a mão à palmatória
se o roteiro dos dois foi previamente pensado. Porque o segundo rearruma de maneira fabulosa a razão de ser do primeiro. Pois a la Clint Eastwood em Gran Torino (poucos filmes me emocionaram tanto), o xerifão Nascimento percebe que sua truculência não resolve porra nenhuma, que o buraco é bem mais embaixo, que num vai ser fácil lutar contra o que está entranhado neste mundo perverso, e que armas, caveirão, ser durão e esses lugares comuns do masculino, dos aparelhos repressivos e dos xerifes do cinema não conseguem dar conta da complexidade da vida real. E aí o sujeito repensa, muda de lado, finalmente vê. Vi muitas semelhanças entre as caídas em si do personagem de Clint em Gran Torino e o de Wagner Moura (aliás, que atores formidáveis!) em Tropa II. Pasmos e convencidos, eles percebem que terão que sacrificar seus ideais e suas antigas práticas se de fato quiserem ajudar a mudar o estado das coisas.
Caso tenhamos no roteiro de Tropa II não a execução de um roteiro original, mas uma mudança de rumos a partir das críticas, teríamos aí uma conversão não só dos personagens, mas também dos roteiristas? Pergunto: será esse o sentido da cena em que o capitão Nascimento é aplaudido dentro do restaurante pelos frequentadores após ter sido responsável/responsabilizado pelo massacre dos presos? Porque na imagem difusa, meio que apagada, mas perceptível, quem aparece aplaudindo é Rodrigo Pimentel, ex-policial do Bope e um dos roteiristas, de certa forma inspiração para o personagem de Nascimento. Há um forte contraste entre a imagem difusa de Rodrigo e a explícita referência a Marcelo Freixo, inspiração para o personagem Fraga, que aparece assistindo, na platéia, de forma bem nítida, a palestra dada por Fraga no início do filme. Será aquela imagem difusa de Rodrigo Pimentel uma ponte para entendermos que também ele, assim como Padilha, repensou suas visões de mundo? Caso sim, temos aí um sensacional case de como a resposta, as mediações e apropriações do público interferem na produção do enunciado. Mas confesso que tenho algumas dúvidas, principalmente quando penso no próprio Rodrigo Pimentel pós produção de Tropa II, recorrentemente sendo convocado pelas emissoras televisivas, em especial a Globo, para comentar as intervenções de segurança no Rio de Janeiro e as UPPs. Esse Rodrigo num fala como o Nascimento II, mas como o I. Fiquei bem confusa.
Bem, esses são meus comentários a posteriori ao lançamento e à onda em torno do filme. Achei que ainda estava, de fato, em tempo. Árabe invejosa num acha. Coitadinha, nunca vai poder escrever, por exemplo, sobre "As mil e uma noites"... ;-p
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Vendo a comoção dos meus alunos queridos para comprar ingressos para o Rock in Rio 2011 e lendo parte da monografia de minha querida orientanda Elaine sobre o festival, lembrei muito de minha vida em janeiro de 1985, quando o primeiro Rock'n Rio aconteceu.
Como todos os meus amigos, eu planejava muito, queria muuuito, ir a pelo menos um dia dos shows, mais especificamente o do James Taylor. Minha mãe achava perigoso, coisa de mãe niteroiense, e ainda precisava convencê-la, mas eu sabia q iria. Cheguei a comprar o ingresso. Mas quebrei o pé no fim de dezembro. Assim que tive notícia de que tinha passado no vestibular pra Comunicação na PUC. Peguei a bicicleta pra passar na casa dos amigos e contar a novidade, afobada, ariana como sempre, caí na entrada da casa de meus pais, hehe. Pronto! 21 dias de gesso. Fim do sonho. Adeus Rock in Rio.
Acabei indo pra Conceição de Macabu com minha família. Para nossas férias usuais de verão na velha casa do interior. Lembro claramente do dia em que me enchi daquele gesso maldito, coçando no verão, e coloquei o pé dentro do tanque da varanda de trás para derretê-lo, antes mesmo de completar as três semanas recomendadas. Resultado prático: o resto da vida tive problema nesse tornozelo. Mas pelo menos fiquei livre naquelas férias daquele trombolho (não, ainda não existiam essas botas com velcro, essas maravilhas q vc põe e despõe pra dormir, tomar banho etc.). Só que não a tempo de ir ao festival. Já era.
Lembro que naquele tanque eu só pensava, com muita raiva, que eu queria muito não estar lá e que trocaria tudo para estar no Rock in Rio, com os meus amigos.
Engraçada a vida: hoje eu trocaria tudo, tudo, tudo, para estar novamente com o pé dentro daquele tanque.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler o belíssimo e comovente O arroz de Palma, romance de Francisco Azevedo sobre memórias familiares (Rio de Janeiro, Record, 2008). Chorei em vários trechos. Muito, muito sensível mesmo.
Como já disse antes, ando interessada em livros de memória, para o curso que eu e Marildo daremos na pós no segundo semestre de 2011. Tenho lido muitos, e cada um tem sua especificidade. Mas tenho me dedicado em especial a memórias familiares. Nesses, alguns eixos acabam tendo importância, me lembrando muito Michel de Certeau. São modos de falar, de cozinhar, de dispor dos objetos, de ocupar os espaços... fazendo uma certeira mistura de casos particulares com narrativas universalistas. Cada família é uma, mas ao mesmo tempo encerra arquetipicamente a todas.
Em Arroz de Palma, estão lá todos esses modos de fazer com... Em especial, maneiras de cozinhar, que funcionam como metáforas para o próprio viver. Totalmente atravessado por pistas culinárias, o livro indica que o guardião da arte de preparar os pratos tradicionais da família é também o guardião das memórias da mesma, o que tempera, o que deve buscar os sabores e preparar a família "a moda da casa".
O livro mexeu comigo não só pelas memórias familiares, mas exatamente por esse atravessamento da arte culinária. Tenho descoberto, nos últimos tempos, que gosto de cozinhar tanto quanto gosto de dar aulas. Ou seja, é misto de paixão e vocação. Tenho aprendido e me desafiado com coisas novas na cozinha, estou testando receitas, buscando novos pratos, aprendendo e me recriando. Adorando, sempre. Nem sinto o tempo passar. Mas no fim de tudo, o povo prova os pratos todos, elogia, incentiva, mas vibra mesmo, sempre, desde vinte anos atrás, com meu arroz. Sim, meu arroz, esse prato simplicíssimo, é o meu maior sucesso em termos culinários. Não tem quem não elogie, todo mundo baba por ele...
Sei não, mas me lembra muito minha relação com o ensinar. Posso variar as matérias, buscar coisas novas, estudar, aprender, me aprimorar. Mas o povo gosta mesmo é do meu arroz, qdo dou os clássicos, ensino o básico, vou lá na raiz, dou o melhor de mim no partilhar do aprendizado, dou a melhor de minhas aulas. Aí, num tem quem não elogie, todo mundo baba por ela... :)))))
Pra terminar, trecho muito legal do livro, que já me servia de mantra pra vida de forma instintiva, mesmo antes de ser verbalizado e sintetizado no parágrafo que se segue:
"Cedo descobri que o que mais queria na vida era o poder. O poder estar sempre com as pessoas que eu amo, o poder andar despreocupado pelas ruas, apreciar cenários, paisagens, bichos, gente que passa. O poder tomar outro caminho só porque naquela direção um verde me despertou a curiosidade. O poder trabalhar no que me alegra. O poder ser dono do meu tempo e fazer o que quiser sem precisar me aposentar. O poder estar disponível para quem está perto e precisa. O poder ter certeza de que o abraço recebido é de afeto e não de interesse. O poder ser eu mesmo e envelhecer saudável. Céus, como ambiciono todo esse poder" (p. 235).
desde que protagonizei "Pai Herói", estou sempre atenta ao mundo midiático... e agora quero exercer o meu direito à expressão. Blog neles, André Cajarana!
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