Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Já tinha achado engraçado estar no Louvre vendo as pinturas holandesas do século XVII (Rembrandt, van Dick, van Goyen, Vermeer e essa turma toda) no mesmo momento em que estava terminando de ler "O Pintassilgo", de Danna Tartt, que eu havia começado semanas antes de viajar, cuja história se passa exatamente em torno de um quadro de um dos nomes desse período, Fabritius, fazendo com que vários dos nomes e quadros que agora eu via pessoalmente fossem citados e comentados. Mas fiquei emocionada com a coincidência, deu um sabor especial a minha visita ao Louvre e fim de papo, não achei nada a mais, só um acaso legal.
Mas aí veio a história do Hemingway. Antes de contar, queria agradecer à Flora por ter me enviado a linda crônica de Caio Fernando de Abreu em que ele explica como, em Paris, graças a uma coincidência cósmica, ele se conectou definitivamente à grande artista Camille Claudel (quer ler a crônica? Clique aqui). Pois bem, Flora me mandou essa crônica quando eu já estava meio abismada com algumas coisas estranhas em relação a Hemingway e Paris, e ler o texto do Caio acalmou meu coração, porque a vida tem mistérios que nossa vã filosofia jamais explicará, né?
Vamos ao meu mistério pessoal. Cheguei em Paris, cidade em que jamais havia pisado, e me deixei ser conduzida pela minha anfitriã Danic, que gentilmente estava nos hospedando. No primeiro dia ela nos levou em alguns pontos turísticos (catedral, Île Saint Louis etc.), mas o que amei mesmo foi o Jardim de Luxembourg, onde comemos um sanduba e uma tortinha deliciosa. Por mim passava o dia no jardim, ao qual prometi retornar outras vezes. Inclusive existe lá um busto do querido Baudelaire, que apadrinha esse blog, com quem aprendi muito sobre minha arte preferida que é a de flanar (isso também vai merecer outro post).




No segundo dia de viagem, ela nos levou até à rua Mouffetard, parte sul do Quartier Latin, rua muito interessante de comércio árabe, mansardas, passagem estreita e fora do circuito turistão consagrado. Rodamos por lá rapidinho, gostei bastante, e fomos almoçar na Mesquita e passear no Jardin des Plantes, tudo lindo e maravilhoso.







De lá, Dani e uma turma resolveram seguir para outro lugar, e eu e Lid resolvemos retornar para a Mouffetard, queria ver mais a rua, tinha simpatizado muito. Rodamos por lá com calma, paramos num bar pra tomar cerveja (ela) e mojito (eu), passamos por uma pracinha linda, Place de La Contrescarpe, que me deixou encantada, e seguimos por uma rua também estreita, rua Descartes, com uma série de bares e restaurantes dos mais diversos. Quando passei em frente de um deles, de cor predominante verde, simpatizei profundamente e decidi que em outro dia voltaria lá para almoçar. Comentei com Lid e ponto.




Para chegar no jardim de Luxembourg, onde tomaríamos o metrô, caminhamos aleatoriamente por algumas ruas, meio no sexto sentido, eu dizendo "vamos por aqui, agora dobra ali". Passamos por uma igreja muito bonita, Saint-Étienne-du-Mont, passamos por outra igreja menor, onde Woody Allen gravou cenas de "Meia-noite em Paris" e desembocamos na Praça do Pantheon, tudo meio por acaso, sem consultar mapa, seguindo a intuição.


 Quando chegamos no Boulevard Saint-Michel, cerca de 20h, ficamos procurando um café para ficarmos um pouco, mas nada nos agradou muito. Sugeri então pra Lid voltarmos à simpática pracinha, que não era exatamente pertinho, mas ela topou. Resolvi ir por outro caminho, também aleatório, confiando novamente numa intuição, e chegamos mais rapidamente à rua Descartes e a praça de Contrescarpe, onde ficamos até umas 22h nos deliciando. Retornamos andando para o Pantheon e me prometi que até o fim da viagem voltaria àquele lugar, com o qual havia simpatizado profundamente, e almoçaria no simpático restaurante verdinho.
Pois bem, a semana foi passando, Paris se apresentando, fui conhecendo lugares lindos, monumentos inesquecíveis, tudo maravilhoso. Mas seguia considerando aquele trecho Mouffetard/Place de Contraescarpe/Rua Descartes meu preferido até ali. Também ao cabo desta semana terminei enfim "O Pintassilgo" (sobre o qual farei um post caprichado depois) e fui escolher, em meios aos trinta livros que havia salvado no kindle para levar para as férias (exagerada e prevenida, quem nunca?), um para ler. O primeiro em que bati o olho foi "Paris é uma festa", de Ernest Hemingway, e falei: "taí, vai ser legal ler esse aqui, agora".
Num tenho muita intimidade com Hemingway. Li e amei "O sol também se levanta". Não li os outros consagrados. Sei que ele morou e escreveu em Paris nos anos 20 porque vi em filmes e em outros livros que havia lido, mas nada demais. Então, comecei a ler sem muitas expectativas.
Aí já no primeiro capítulo começo a ficar levemente impressionada. Hemingway morou exatamente nos arredores da Place de Contrescarpe, que amava. Tinha um quarto com a esposa na Cardinal Lemoine, bem na divisa com a Praça, e alugava outro só para escrever na rua Descartes. E amava a Mouffetard. Ele conta, numa passagem do livro, que conversando com Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, que ficava na rue de l'Odéon, não muito longe de onde Hemingway morava, que ela não conhecia aquela parte de Paris, era uma zona mais pobre, boêmia e periférica de Paris (hoje já bem mais turística). Ele conta também que para ir de sua casa ao jardim de Luxembourg, seu outro lugar preferido (outra coincidência) ou para a casa de Gertrude Stein, que ficava na rua de Fleurus, bem próxima ao Jardim, ele optava por um caminho alternativo. E quando ele descreveu o caminho senti medo de novo, porque era o mesmo que eu, aleatoriamente, havia escolhido fazer naquele dia, sem mapa, sem noção alguma de Paris ainda. E que, para voltar do Jardim para a Praça, ele fazia um segundo caminho, menos charmoso mas mais rápido, novamente o que eu havia escolhido fazer.
Isso me impressionou, comentei com Lid e com algumas pessoas, Flora me mandou o texto do Caio, enfim, já tava bonito. Mas teve mais. No dia seguinte à leitura desse capítulo do livro, fomos para Montparnasse. Também adorei, e fui escolhendo lugares aleatórios para pararmos, para tirar fotos, para flanarmos. Pois bem, chego em casa de noite, retomo a leitura e tá lá, o homem e sua família, na sua segunda rodada em Paris, se mudaram para Montparnasse, moraram exatamente no trecho em que rodamos, ia nos restaurantes e cafés que me encantaram. Tava começando a achar estranho mesmo. Mas deixei quieto.


Nos dois últimos dias, eu e Lid resolvemos nos presentear com dias mais livres, voltando aos lugares que mais tínhamos gostado. E no último dia fomos novamente para a Mouffetard e para a Place de Contrescarpe, queria almoçar no restaurante verdinho simpático. Pra evitar muita contaminação com o livro, porque já estava meio impressionada, optei por irmos por um novo caminho, bem mais longo, mas que nos fez conhecer novas e agradáveis ruas. Quando chegamos na rua Descartes, já por volta das 16h, procurei o restaurante verdinho e vi que ele estava fechado, na hora da limpeza. Nos aproximamos pra ver melhor, pra ver que horas abria etc. E quando cheguei perto, vi uma placa na entrada, INDICANDO QUE ALI HAVIA MORADO HEMINGWAY. A minha cara na foto abaixo indica meu pavor.


Juro, fiquei com medo, era coincidência demais. Um pouco por conta disso, em parte pela grosseria do garçom que jogou água na gente para continuar lavando a calçada (hahahahaha, franceses!), optamos por almoçar em outro restaurante, na Place Contrescarpe, que, OBVIAMENTE, era colado ao prédio em que Hemingway morou na rua Cardinal.





Alguém me explica? Tô impressionada até agora. Depois, com calma, vou até ler os outros livros desse homem, porque parece que ele quis falar alguma coisa comigo.
Amei Paris, e amei especialmente os lugares que ele amava. Tamo junto, Hemingway! Jamais esquecerei essa experiência mística.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Bem, vamos diversificar, né, meu povo? quer comer um macarrãozinho gostoso e rápido, não precisa ser sempre miojo. Por exemplo, pode ser uma macarronese, ou salada de macarrão. Fiz hoje, tava com saudade, minha mãe fazia mt na nossa casa na infância, adoro! Olha ela aí!



Vamos ao passo a passo:

1) Coloque pra cozinhar o macarrão, daquele jeito básico: coloca a água no fogo, quando ferver coloca o macarrão, coloca umas gotas de óleo pra num agarrar e o sal a gosto (cuidado pra num salgar, olha a pressão, brasil!). Eu usei macarrão parafuso, mas pode ser qq um. Eu deixo cozinhar bem pq gosto dele molinho. Quem preferir al dente, ou seja, mais durinho, uns dez minutos já são suficientes, eu deixo uns 15. E eu escorro pra tirar o excesso de sal e goma. Usei um pacote de 500 gramas.

2) Ingredientes - eu usei um tomate, uma cebola, meio pimentão amarelo, 100 gramas de champignon, 50 gramas de passas brancas, meia cenoura ralada, meia beterraba ralada e uma lata de atum. Deixei tudo picadinho. Eu vou picando no tempo em que o macarrão vai cozinhando, pq odeio ficar muito tempo na cozinha.

3) Misturei tudo e dei uma regadinha no azeite, mas um pouco, só pra dar gosto. Aí coloquei duas colheres de sopa de maionese (eu uso hellmans light). Misturei bem, mas bem mesmo, pra os ingredientes se espalharem e a maionese também.

Depois me deliciei feliz! Molinho, molinho!
E vc pode colocar muitos outros ingredientes, se tiver e/ou quiser: ovo, frango, presunto, muzzarela, ervilha, azeitona, temperos, milho (to evitando porque tá tudo transgênico), alcaparras, batata palha, couve-flor, ah, sei lá, qualquer coisa que vc ache q vai dar um gostinho e alegrar sua macarronese.

Mas uma dica: no máximo 3 colheres mesmo de maionese. Eu uso duas e é suficiente. Pq o truque tá aí. A maionese dá a liga e alegra, mas se colocar muito fica com gosto só dela. Vai por mim, pode parecer q tá seco, mas tá ótimo! Mas se vc preferir bem molhado, aí coloca de três a quatro colheres. Vlw, flw.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
No ano passado, uma dor no meu ombro direito foi me deixando doida e praticamente paralisando meus movimentos. Aí fiz uma ressonância e o diagnóstico foi de artrose. Resolvi não me conformar e buscar ajuda. Graças a minha amiga amada Giovana Giovanini, conheci o Rodnei Martins, acupunturista e professor de Qi Gong (ou Chi Kung), uma terapia de exercícios orientais em séries para as diversas partes do corpo.
Minha dor no ombro está controlada, recuperei meus movimentos e ganhei muito mais elasticidade no corpo, a dor da fascite no pé direito está praticamente desaparecendo, não tenho mais dor nas costas, no quadril, pra dar aula estou me sentindo muito melhor, respirando melhor, me sentindo mais tranquila e disposta. Enfim, super recomendo e vou postar alguns links abaixo pra quem tiver interesse em conhecer.
O que venho praticando são as 3 séries das 18 "Terapias Anterior" desenvolvidas no Lian gong. Mas minha meta é cada vez mais expandir meu corpo para outras modalidades do Qi Gong. É um processo a longo prazo e a cada dia percebo maravilhada meu corpo se adaptando a novos movimentos.
O Rodnei, meu acupunturista, é presidente da Associação de Qi Gong do Rio de Janeiro. Eles têm uma página no Facebook, confere lá pra saber mais. :)
Abaixo, um link para uma reportagem do Sá Maria Maria, sobre o Lian Gong, muito bacana!





Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Noutro dia, eu estava dando aula de Cultura Popular e, ao comentar sobre diversidade cultural, fiz um comentário-piada sobre pastelarias e chineses. Na hora quase todo mundo riu, mas alguns alunos ficaram sérios, embora não tenham feito qualquer comentário. Isso me alertou sobre algo dissonante e ficou retumbando na minha cabeça. Pensei sobre isso com calma e na aula seguinte pedi desculpas, aproveitando o acontecido para conversar com a turma sobre o lugar do preconceito no discurso, como "ao falarmos, somos falados", segundo afirma Michel Foucault, e reproduzimos preconceitos e estigmas que nos atravessam no fluxo das ordens discursivas.
Começo meu texto por aqui para dizer que sim, todos nós podemos incorrer em erros e deslizes preconceituosos, pois os imperativos das representações hegemônicas nos perpassam. E todos podemos e devemos pedir desculpas quando nos pegamos nestes processos. Dito isso, gostaria de tecer algumas ponderações sobre o comentário preconceituoso, estereotipante e estigmatizador de William Bonner, editor e âncora do Jornal Nacional, da Globo, na edição de ontem, dia 18 de maio de 2015, sobre um personagem estadunidense (pois se trata de um personagem, uma criação noticiosa, que, por um acaso, tem uma correspondência no "real", que é o próprio sujeito que ali está sendo representado, mas em última instância estamos diante de uma representação, e das mais breves e cerceadoras da diversidade, visto se tratar de uma imagem descontextualizada que é mostrada enquanto a voz do repórter narra a acusação) de uma reportagem sobre uma tentativa de hackear aviões e mexer em seus planos de voo. Bonner comenta, após ver a imagem do suspeito: "O mundo parece que tá ficando muito complicado, né... A gente vê até pelo rosto do sujeito que não tá fácil (...)". A seguir, completa o absurdo: "Cara de maluco ele tem, né? Cá pra nós...".
Minutos depois, na passagem da previsão do tempo, Bonner aproveitou o gancho para se desculpar, dizendo que nas redes sociais foram muitos os comentários desaprovando sua fala. Mas o pedido de desculpas, a meu ver, também precisa ser problematizado: "Teve gente que me censurou porque eu disse que aquele rapaz que entra no avião com um cabo no computador do avião tinha cara de maluco. Na verdade eu fiquei pensando: "que mau humor dessas pessoas"; mas não, elas estão certas. Porque depois eu fiquei fazendo uma reflexão. Eu conheço uma porção de gente com aquele cavanhaque, com o olho meio esbugalhado, mas eles não ficam entrando em avião, não. Não tem nada a ver o rosto do rapaz com o que ele fez ou disse que fez".
Em seu pedido de desculpas tangencial, em que a palavra "Desculpe" jamais aparece, dois pontos merecem destaque: primeiro, a maneira matreira pela qual Bonner reafirma que fez uma brincadeira, tanto que estranhou a falta de humor dos espectadores; depois, a admissão do erro porque não seria justo associar o rosto do rapaz à acusação de ser "maluco" (vou pular aqui os comentários sobre a definição estética do rosto do rapaz feita por Bonner, só isso a meu ver merecia nosso repúdio, mas vamos ao mais grave).
Bem, no meu ponto de vista, aí está parte do problema, do que me incomodou profundamente ontem. Em primeiro lugar, a utilização de um sistema classificatório perverso, instância fundamental de poder (novamente Foucault nos lembra que nas interdições discursivas estão a palavra mentirosa, a palavra proibida e a palavra louca), cuja rotulação causa imenso sofrimento e desconforto a todos por esse sistema classificados como "loucos", independentemente do critério. Ou seja, há uma intensa luta no campo discursivo e político para não se classificar ninguém como "maluco", não só por critérios físicos, mas por qualquer critério. É também sobre isso que fala a importante e sempre urgente Luta Antimanicomial.
Aí vem o segundo problema do infeliz episódio de ontem. Era  dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Caramba, isso era pra ser pauta do Jornal Nacional! Pra isso serve a mídia em concessão pública, pra abarcar as diversas demandas sociais. Não, no jornal total silêncio sobre isso. Ao contrário, seu âncora principal, porta-voz oficial, faz piada sobre "maluco". Isso ultrapassa e muito um simples episódio de piada sem noção, dentro de novo padrão de jornalismo/entretenimento, e se revela um escárnio, uma afronta, um indício revelador do quanto precisamos avançar na luta pela democratização dos meios de comunicação no Brasil.
Mas vamos voltar um pouco mais a Foucault. Ainda sobre as interdições do discurso, ele fala sobre uma estratégia importante das sociedades discursivas para impor seus limites: a autoridade e legitimidade de quem fala. Weber já havia nos alertado para isso, quando abordou as formas de dominação. Lugares simbólicos instituídos são decisivos, em termos de autoridade e legitimidade, para fixar o sentido discursivo, constituir seu caráter performativo, palavra que cria mundo, faz acontecer, vira realidade.
Por isso um professor precisa ter responsabilidade com o que fala em sala para seus 50 alunos. Por isso um apresentador de telejornal de maior audiência do país tem que ter cuidado com o que fala para milhares de receptores. E por isso o pedido de desculpas não pode ser tangencial, tem que ser pra valer, tem que problematizar a questão, tem que sair do reducionismo e da simplificação. Fora isso, é performance pra plateia, é show pra manter audiência, é manutenção do preconceito com outros condicionamentos.
Não, nao é a mesma coisa fazer uma piada sobre "ser maluco" com alguém na mesa do bar ou dizer isso enquanto editor do Jornal Nacional ao vivo. Não, não é a mesma coisa pedir desculpas complexificando a questão ou dando a entender que é uma bobagem com a qual os espectadores resolveram implicar. Sim, a autoridade de quem fala faz acontecer, é discurso fundador, mito original. E sim, a classificação "maluco" (e todas afins) precisa ser banida, por qualquer critério, porque é um rótulo perverso, perigoso, aprisionador e estigmatizante, causa sofrimento e é instrumento de poder e cerceamento da diferença.
E não se importar com isso, porque não te atinge diretamente, é ser cúmplice disso. Lembrando: a roda gira, qualquer hora a boa fortuna também pode te abandonar e o estigma virar pra você. Fica a dica.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

vamos pra receita prometida:

1) em um tabuleiro com forminhas para cupcake, coloque ingrediantes picados. Eu coloquei pimentão vermelho, amarelo, tomate, cebola, cenoura, cebolinha e salsa em alguns. Noutros pedaços de peito de peru e muzarella light. Em outros misturei os dois. Mas pode ser tudo: champignon,milho, ervilha, arroz que sobrou, pedaços de carne, frango, linguiça, atum, ovo de codorna, passas, azeitonas, outras verduras, outras ervas, tudo o que vc quiser ou tiver sobra na geladeira. Sugiro misturar e temperar antes de colocar na forma, pra já pegar um temperinho, um azeite, salzinho, vinagre, o que vc quiser. Mas pouco tempero, pra num ficar molhado, só pra dar gosto.

2) pra um tabuleiro com doze forminhas, usamos 5 ovos. Mas é muito. Use 3 ou 4, vai dar suficientemente. Separe a clara das gemas, pra bater as claras primeiramente. Bata as claras até ficar naquela textura de neve e depois acrescente as gemas e bata junto. Minha mãe usou batedeira, foi mais rápido e rendeu bastante. Lá em casa vai ser no garfo e no bração mesmo, bom que faz exercício ao mesmo tempo.;) Minha mãe colocou uma pitada, tipo uma colher de chá, de pó royal pra dar aquela crescida na massa, mas lá em casa vai ser sem mesmo. E coloquei um pouco de queijo ralado, pra dar liga. E colocamos uma pitada de sal, só pra dar gosto.

3) derrama esses ovos batidos nas forminhas, preenchendo os espaços em torno dos recheios que vc colocou. Eu cobri até em cima, acho q fica legal pq dá aparência de empadinha. :)

4) minha mãe já tinha pre-aquecido o forno por uns cinco minutos antes. Vou fazer o mesmo aq em casa. Coloque no forno, com temperatura alta, por quinze minutos. Se vc achar que precisa tostar um pouco mais, deixe mais uns cinco minutos. Mas fica de olho pra ver se tá estufando direitinho e se tá ficando tostadinha em cima. Cuidado pra num deixar mt tempo e queimar demais embaixo.

Pronto! Acabou! Pode servir e se deliciar. Super leve, rápido, fácil de fazer, e delicioso de comer.:)

As fotos abaixo estão na ordem do que descrevi acima.









Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Cena 1 - meados de 2014: mesa de bar em niter, com orientanda discutindo rumo da tese e coisas da vida. Cerveja e coca-cola rolando, mesa do lado de fora prum cigarrinho. Uma hora resolvo ir ao banheiro. Bar já estava fechando, porta de ferro abaixada, portinhola pra atravessar. Vou com um pouco de dificuldade, dou uma leve tropeçada, nada muito dramático, ok. Na volta, quando vou transpor a mesma portinhola, a pessoa rapidamente se levanta, sem falar nada, fica em pé ao lado da porta e me dá a mão pra me ajudar a atravessar. Não faz qualquer comentário, não pergunta se quero ou preciso, só se antecipa e me ajuda. Estava lá, de boa, bebendo, mas se levantou para me auxiliar. Agradeço. Sentemos e seguimos com a conversa.

Cena 2 - segundo semestre de 2014: passo o semestre com problema chato de dor no ombro, causado por uma artrose, que me impede vários movimentos. Por vezes me esqueço pela força do hábito e repito os mesmos, pego peso, sinto dor. No decorrer do semestre todo, um aluno e duas alunas, de períodos e turmas diferentes, individualmente e sem combinar, sempre ficam conversando comigo no fim da aula, muitas vezes com outros alunos em volta. E sempre, sempre, sem falarem nada, pegam minha pasta ou mochila ou bolsa e carregam pra mim, até a saída do prédio e até o carro. Não me perguntam se preciso, não se oferecem, não fazem qualquer comentário sobre o problema do meu ombro. Só se antecipam e me protegem. Podiam ir embora antes, não têm qualquer obrigação de fazer isso, mas ficam até o final. Agradeço. Mas sem muito estardalhaço.

Cena 3 - dezembro de 2014: banca de defesa de TCC em cinema. Não conheço muito a formanda, só de vista e de alguns encontros fortuitos, nunca foi minha aluna. Calor forte, ar condicionado ligado e também o ventilador. A aluna está apresentando seu tema, na sala estamos eu, o orientador e outro membro da banca. Enquanto ela fala, eu, que estou sentada embaixo do ventilador, por um momento sinto mais frio e discretamente me encolho, nada muito grave, portanto, faço um gesto contido. Não falo nada para não atrapalhar a apresentação. A aluna, então, sem interromper o que está falando, se levanta e desliga o ventilador. Não fala nada, não pergunta se estou com frio. Percebe o pequeno gesto e se antecipa. O ventilador estava longe dela, não a incomodava em nada, mas procurou o meu bem-estar. Não agradeço para não atrapalhar.

Cena 4 - fevereiro de 2015: churrasco vegetariano na casa de amigas. Noite divertida, todas rindo e conversando. Uma das anfitriãs, que conheci naquele dia, está sentada na mesa redonda do lado oposto ao meu. Muitas estão fumando. Eu, inclusive. O cinzeiro está do lado dela, longe de mim. Alguém está contando uma história divertida, não quero atrapalhar, me esforço um pouco pra bater a cinza, nada muito grave, dá pra fazer isso, só preciso me esticar um pouco, mas não falo nada. A anfitriã, assim como eu e as demais, está atenta ao que está sendo falado, mas discretamente, sem falar nada e sem me perguntar se gostaria ou preciso, chega o cinzeiro um pouco mais pro centro da mesa. A cena se repete mais uma vez, melhorou bem mas ainda está um pouco longe, não preciso me esticar tanto mas preciso me afastar do encosto da cadeira, mas o gesto é bem mais discreto. Mais uma vez, sem falar nada, ainda olhando para quem fala, a anfitriã move mais uma vez o cinzeiro, o coloca no centro, pra que todos possam usá-lo igualmente, eu e ela inclusive, embora para ela, que estava fumando também, seria muito mais cômodo manter o cinzeiro perto de si. Agradeço ao final.

Quatro casos. O que unifica essas pessoas e essas histórias? Em primeiro lugar, as gentilezas pequenas, mas que causaram um bem enorme; em segundo, a presteza no préstimo, sem necessidade de perguntar se era preciso ou esperar agradecimento; em terceiro lugar, o olhar para o outro, a percepção da demanda do outro, a preocupação em ajudar o outro, a atenção para com o gesto do outro; em quarto, o silêncio do ato, que se exprime só no gesto e não requer nem justificativas nem valorizações; e por fim, o fato dos autores das façanhas acima descritas não terem a mínima ideia que me marcaram tanto, que vira e mexe lembro desses pequenos flashes de afeto e o quanto me senti agradecida pelas suas ações. To agradecendo agora e pedindo: não percam esse olhar generoso e amoroso para o mundo. Ele cria atos simples de humanidade, como os que descrevi acima, que comovem como o diabo, como já dizia o poeta.


PS: se os heróis dessas proezas plenas de gentileza me autorizarem, coloco seus nomes neste texto. ;) Eles autorizaram, então lá vai: obrigada, Marina Dutra; Luiza Gomes; Raphael Azevedo; Tassiana Benamor; Juliana Bravo e Susana Amaral! 

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Para guardar para sempre e escapar do fluxo contínuo da linha do tempo do Facebook, reproduzo aqui texto que publiquei lá no dia 30 de novembro de 2014:
"Agora, com mais calma, posso escrever sobre o que Flora Daemon precisamente denominou de "bomba de afeto", que foi o que recebi na última quinta, no encerramento da aula de Mídia e Memória na graduação. Como disse brevemente num post naquele dia, conclui que Rodrigo Reduzino tinha razão quando me disse, em uma aula, que eu não tinha noção do que representava, do impacto que causava, do que significavam as aulas e as palavras que como professora eu partilhava. Este vídeo, misto de homenagem e trabalho, utilizando tanto na parte visual quanto na escrita que foi entregue em anexo LITERALMENTE TODOS OS AUTORES E CONCEITOS DO CURSO, foi feito por parte da turma (a partir de uma sugestão linda da Ohana Boy Oliveira). Como trabalho, ficou muito legal e ao final do período de 2014/2 partilharei a parte escrita e todas as explicações metodológicas sobre ele no nosso Blog do GRECOS, juntamente com outros trabalhos que se destacarem nas duas turmas, como sempre faço. Como trabalho, me confirmou o quanto a matéria falou com vcs, de forma intensa, foi maravilhoso perceber isso, e falarei sobre isso no blog do GRECOS mais pra frente. Mas como homenagem, queria comentar aqui que tenho sido agraciada, em minha vida docente, com momentos lindos, e que esse, sem dúvida, foi um dos mais especiais. Não só pelos depoimentos nos vídeos (inclusive os mentirosos, hahahaha, brincando com a questão da memória ser sempre invenção e com o fato de que sou assumidamente uma contadora de histórias que invento muito, como todo contador de histórias que se preze), que me emocionaram muito, mas pela reação nossa na sala no decorrer da exibição, com muita emoção e choro. Foi um daqueles momentos inesquecíveis da vida de professora, que, como bem descreveu o magistral Nick Hornby, traduz "aquele sentimento que tinha quando uma aula ia bem, quando tudo eram olhos brilhantes e uma concentração tão densa que parece quase úmida, alguma coisa que parece grudar na roupa". Foi tão denso e emocionante que minha pressão deu aquele seu pico mágico, hahaha, e tive que me segurar pra num passar mal e acabar com a festa do povo. Eu já estava emocionada com a aula forte e poderosa sobre a temática da morte, mídia e memória, que estava sendo dada pelos queridos Milton Batista e Flora Daemon a partir de suas pesquisas, e com aquela turma lotada e super atenta ao que estava sendo dito. O vídeo selou ritualmente aquela emoção "úmida", na tradução perfeita de Hornby. Mas também fiquei muito impressionada ao perceber como pequenos gestos de humanidade e afeto marcam as pessoas. Fiquei a noite de quinta rolando na cama pensando nisso. Como isso é importante, abraçar, ouvir, considerar, se preocupar, dar atenção, amar. Tem horas em que a UFF me enche as medidas, tem horas em que dá muita vontade de bicar tudo, esse negócio de produtividade é uma mesquinharia etc. Mas quando vejo uma resposta dessas, caramba, que coisa poderosa, sei que estou no caminho certo, e isso me anima pelos próximos dez anos! Obrigada, meus queridos alunos, amados, amadíssimos. Foi lindo, jamais esquecerei, vcs conseguiram marcar minha memória de forma midiática indelevelmente.  Não vou nominar cada um, porque seria injusto, mas queria conectar esse vídeo à nossa amada Ana Luisa Thomas Caetano, que com certeza teria amado participar dele. E dizer que vcs são o poder, curam, mudam o mundo, são vida e transformação. Tamo junto sempre! Obrigada, de todo coração, muito obrigada! PS: mas já não tenho idade, gente, vcs vão me matar, pestes! hahahahaa E obrigada também por todos os depoimentos no Facebook posteriores ao video, vcs são uma lindeza! Por fim, obrigada ao meu amigo Marildo Nercolini, que dividiu neste ano difícil de 2014 a matéria de Espaço, Memória e Identidade comigo no PPCULT, e que gravou o belo poema de Fernando Pessoa que encerra o vídeo!"

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler o ótimo A Ilha sob o mar, romance de Isabel Allende que ganhei de minha amada Lu-colegamãe Ribeiro (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010). Bem escrito como de hábito, só que dessa vez, em vez de tematizar a história chilena como costuma fazer, a autora ambientou a trama no Haiti no período da revolta dos escravos em fins do século XVIII, com a parte final narrando a vida dos que fugiram da ilha e foram para Cuba e para Nova Orleans. A narrativa histórica é bem interessante, a trama está centrada na figura de uma escrava, Zarité, e na questão da miscigenação, em especial na caracterização que Allende faz dos "mulatos", no livro abordados mais fortemente nos personagens dos filhos de escravas com os homens brancos.
Essa trama me fez lembrar de outra, que também andei relendo, e sobre a qual pretendia escrever aqui no blog mas ainda não havia encontrado tempo. Trata-se de A Escrava Isaura, clássico brasileiro de Bernardo Guimarães. Li o livro ainda na adolescência, por volta dos 15 anos, e resolvi reler agora. E fiquei impressionada ao ver que a memória que eu tinha da trama era toda a da Globo e sua novela, adaptada por Gilberto Braga, e não a descrita na obra de Bernardo Guimarães.
E o que havia na minha memória? A história de uma escrava branca, propriedade de um grande senhor de engenho provavelmente no Nordeste, que lutava por sua liberdade e contra as tiranias do sistema e desse senhor déspota e cruel. Lembrava também que Gilberto Braga tinha enfrentado problemas com a censura do governo militar, que havia proibido o uso de palavras como escravo e escravidão, porque poderiam funcionar como metáfora da situação de opressão vivenciada politicamente no período. E também lembrava de ter lido em alguns artigos que a novela era campeã de exportação entre os produtos televisivos da Rede Globo, já tendo sido vista em não sei quantos, mas mais de uma centena, de países, nos quais Lucélia Santos (que protagonizava a escrava branca) era adorada, e que especialmente em países onde havia "restrições à liberdade", como Cuba e China, o sucesso da novela era impressionante, pois sua temática universal era a da luta por liberdade e combate à opressão.
Tudo isso fazia a novela "Escrava Isaura" crescer na minha cotação. Mas tinha uma coisa que me incomodava: por que Bernardo Guimarães havia escolhido exatamente uma branca para tematizar a luta pela liberdade? Também havia lido que ele era um abolicionista aguerrido e que sua obra, escrita em 1875, tinha sido importante na configuração do imaginário pró-abolição. Mas eu pensava: como, se ele usava como referência uma escrava branca? Isso me incomodava sempre que falava da novela.
Eis que por um acaso resolvi reler o romance. E olha só as surpresas que a vida traz!: logo no primeiro parágrafo, descobri que a trama não se passa no Nordeste, nem se trata de um graaaande engenho, mas se passa em um engenho mais modesto em Campos de Goitacazes. Já mexeu no meu imaginário, porque conheço bem a região de Campos e em termos paisagísticos não dava pra encaixar muito naquela representação da Rede Globo. Mas segui adiante com o livro. E eis que de repente, quando ainda no primeiro capítulo, ao falar da relação que a mulher do Comendador (o dono original do Engenho, pai de Leôncio, o grande vilão) estabeleceu com Isaura, a escrava filha de seu marido com uma mulata, o narrador diz: "O comendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para com a mulatinha, capricho que qualificava de caduquice". 
Eu: mulatinha? que mulatinha???? Ela num era branca, a Isaura?
Segui adiante, já encafifada. E eis que chego na seguinte cena:
" Por fim Henrique, afoito, e estouvado como era, lembrando-se que Isaura, a despeito de toda a sua formosura, não passava de uma escrava, entendeu que fazia um ridículo papel, deixando-se ali ficar diante dela em muda e extática contemplação, e chegando-se a ela com todo o desembaraço e petulância travou-lhe da mão, e...
- Mulatinha, disse, - tu não fazes idéia de quanto és feiticeira".
E segue por aí, com outras referências à cor da pele de Isaura no livro classificando-a como "mulata" ou "mulatinha". Sério, fiquei chocada. Quer dizer que ela era mulata na narrativa original???? Aí fazia sentido no discurso pró abolicionista de Bernardo Guimarães, porque nesse caso o que a diferenciava das outras escravas era a educação recebida, o que a aproximava das "sinhás" brancas. Po, aí sim tem discurso abolicionista, claro que datado e problemático etc. e tal, mas sim, aí tem lógica. 
Fiquei boquiaberta com a cara de pau da Globo, gente! E a cara de pau de usarem a novela no discurso "Olha como resistimos à ditadura militar" simplesmente apagando outras lutas e resistências às formas de opressão.
Na edição que estou lendo, da editora Globo, ao final do romance existem algumas perguntas para ajudar o professor em atividades didáticas pós leitura do livro. E as fotos que ilustram essa parte são todas da novela, com sua escrava branca, alterando totalmente o sentido do livro e ajudando, mais uma vez, a fixar a hegemonia do sentido, o qual envolve embranquecimento e apagamento de lutas, como a do autor pela causa da abolição.
Sério, fiquei muito chocada. Sei que é mais do mesmo quando falamos de grande parte da indústria cultural brasileira, mas sempre bom narrar e desconstruir os sentidos fixados, e tô aqui fazendo minha parte e colocando água nesse chope da vitória. Não passarão.
Para ilustrar melhor essa disputa por sentidos, vou postar abaixo algumas capas de inúmeras edições do livro, que nos permitem perceber as disputas em termos de representação. Valia a pena um estudo sobre essas capas, procurando saber quais eram as representações que predominavam antes e depois da novela ser exibida, em 1977. Fica a dica de um bom trabalho de análise de discurso.;)
















Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Lembro-me como se fosse hoje. Quando fui escolher o que fazer no vestibular, nos idos de 1984, pensei em escolher Letras ou História. Mas desisti porque não queria ser professora, o que me parecia o destino dessas duas carreiras. Optei por jornalismo. Me formei. Trabalhei cinco anos no mercado. Vi que não era pra mim. Fui fazer mestrado. E em 1994, há vinte anos, entrei em sala de aula como professora pela primeira vez, em uma turma de Sociologia na UNIVERSO/SG. E, como os gregos, percebi que o destino tece suas teias. Inexorável. Nasci para isso.
De lá para cá, muita história. Aulas na Universo, na Silva e Souza, na Estácio, na Castelo Branco, na UFF, graduação e pós-graduação... Muitas turmas, centenas de alunos/ex-alunos, bolsistas, estagiários, muitas disciplinas diferentes, orientandos, bancas, projetos, trabalhos e provas pra corrigir, aulas pra preparar, problemas pra resolver, atividades de coordenação... nesse caminho, ganhei cabelos brancos e quilos a mais, não tenho mais a vitalidade de antes, amadureci em muitos pontos, acumulei conhecimento e já não me importo tanto com as bobagens institucionais, com a maluquice do ambiente e a neurose de quem está na profissão errada. Também sou, por incrível que pareça, mais paciente com meus alunos, tolerante, aberta a aprender com eles, a me reinventar. Cobro menos e dou mais. Gosto mais das férias do que gostava antes. Ainda mando notas individuais a cada turma (ao contrário da previsão de um colega assim que entrei na UFF, que me disse que eu só fazia isso porque "estava no começo"...), para não constranger ninguém. Ainda faço piadas, me divirto muito em sala de aula, procuro exemplos, releio os textos antes de entrar em classe, me emociono com minhas turmas. Ainda mantenho meu grupo de estudos que criei em 1999, há quinze anos. Ainda acredito no poder transformador da aprendizagem, embora de forma diferente do que imaginava antes. E vira e mexe escolho algo para aprender também, como aluna, para nunca me esquecer de que somos todos iguais e para manter aberto meu olhar curioso para o mundo.
Obrigada a todos os professores que foram exemplos pra mim. Obrigada aos amigos e ao meu amor, que são professores e de fato amam o que fazem. Obrigada a minha mãe, exemplo de professora dedicada que sempre me inspirou. Obrigada, alunos dessa primeira turma, que me receberam tão generosamente. Obrigada a todos os meus ex-alunos e atuais alunos, razão dessa profissão. Graças a eles, ainda acredito que o segredo está no afeto, no amar, no partilhar. Amo o que faço, amo profundamente meus alunos e sou muito amada por eles. Muitos se transformaram em grandes amigos. Aprendo sempre e ensino sempre. Trocamos. Me mantêm jovem e "esperta da cabeça", esses danados. Fazem permanente meu "coração de estudante" e me lembram que "há que se cuidar do broto/ pra que a vida nos dê flor e fruto". Vinte anos! Uau!


1994, na minha primeira turma; 2014, neste segundo semestre



Turma de Sociologia em 1994 / Turma de Sociologia em 2014

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Dentre os alunos inscritos em Sociologia e Comunicação no primeiro semestre de 2014, lá estava o Daiki Kawauchi. Um aluno japonês, que nasceu e vive no Japão, onde cursa Letras com especialização em português. Está no Brasil fazendo um intercâmbio, em mobilidade internacional. Algum doido mandou o pobrezinho se inscrever nas disciplinas minha e de Marildo, em mídia. Dois professores que falam muito, rapidamente, e que passam muuuita matéria. E o Daiki, que ainda está aprendendo a falar e escrever em português, com aquela carinha assustada na aula... Pegou semestre corrido, aula tumultuada, festa surpresa de aniversário de Marildo, atividade com juri simulado e turma enlouquecida, de um tudo. Numa turma de 60, toda aula esquecia de falar com ele pra saber direitinho qual era a dele ali na UFF. Até que o Yuichi Inumaru me deu um toque (obrigada! Por isso que amo esses meus alunos solidários e preocupados com os demais), porque achava que ele estava meio perdido ali. Falei com Marildo, que ministra a obrigatória de Comunicação e Cultura, e ele me disse que no curso dele havia sugerido como trabalho que Daiki apresentasse um seminário sobre questões culturais no Japão. Foi um sucesso! A turma, o professor e o aluno adoraram. Eu, em Sociologia, busquei uma alternativa. Sugeri que ele fizesse um texto sobre suas percepções culturais em meu curso como atividade suplementar e, como trabalho final, a análise de algum fato social que ele considerasse importante acerca do Japão. Escolheu falar sobre a polidez e o formalismo fortes na cultura japonesa tradicional, ficou bacana. Combinei com ele que aproveitaria o exercício para fazer as correções no seu português, objetivo maior de sua visita ao Brasil. Só que me surpreendi ao ler suas impressões sobre o curso. E quando vi, tava eu lá chorando com o texto do Daiki. Pedi licença pra ele para publicar aqui, quero dividir com vcs essa doçura de olhar. Me deixou muito emocionada, muito mesmo. O texto é simples, o olhar é complexo, a vida é de uma beleza que nem dou conta. Obrigada, Daiki.

Sociologia e Comunicação
Daiki Kawauchi
Prof. Ana

"Vou escrever sobre o que eu senti na aula.
Primeiro, os professores no Japão não divertem tanto os alunos. Você sempre contou as piadas e os alunos riram bastante. Não consegui entender quase nada, por isso quando você contava as piadas, eu sempre ficava triste porque não conseguia entender suas piadas porque meu português não era bom. Os alunos pareceram ter se divertido na sua aula. Se no Japão também tivesse professores como você, eu não dormiria durante as aulas. Invejo seus alunos.
Segundo, eu fiquei espantado porque o horário do começo da aula não foi decidido e não existiu o horário de descanso. Esta aula sempre começava mais ou menos às 16:20 e os alunos voltavam a sala mais ou menos às 16:30. No Japão, por exemplo, uma aula acaba às 16h, e tem o horário de descanso por 15 minutos. A próxima aula começa às 16:15. Precisava entrar na sala antes do horário do começo da aula. No Brasil, eu acho, os universitários são considerados como os adultos. Por isso muitas coisas são deixadas para os alunos decidirem.
Terceiro, achei uma coisa muita boa. Os alunos falavam com você livremente durante a aula. Isso foi muito raro para mim. No Japão, precisava de coragem para falar com os professores durante a aula. Mas aqui no Brasil, os alunos falam com os professores como amigos. A distância entre professores e alunos é menor. No Japão, nunca vi os alunos comprando o bolo para o aniversário do professor. Acho que os professores no Brasil talvez sejam mais felizes do que os professores japoneses.
Em conclusão, eu te agradeço porque você me recebeu.
Tomara que eu possa conseguir entender sua piada em dezembro.
Muito obrigado.
Abraço".

Marcadores: 0 comentários |
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
gente, prometi escrever com calma depois dos desabafos feitos no nosso grupo de discussão da disciplina "Mídia e Representação de Favela" no decorrer dessa semana triste em que DG foi assassinado, mas fui engolida pelos múltiplos afazeres.

Mas não esqueci e queria dizer pra vcs que pensar o mundo num é fácil, especialmente quando as coisas são tão fortes e tristes. Dá vontade de desistir, muitas vezes, de se alienar, de deixar pra lá. Como diz Hermann Hesse num poema, que já compartilhei em mensagens anteriores, "de noite, às vezes, não consigo dormir. A vida dói". E também sentimos culpa, especialmente culpa de classe, porque a vida dá privilégios a alguns e não a outros, e não nos sentimos de fato fazendo algo pelo outro, para diminuir as injustiças, para sairmos de nossa zona de conforto.

Quando penso em vcs, que se inscrevem nas disciplinas que ofereço, sempre fico comovida e preocupada. Porque ninguém se inscreve em "Midia e mobilização social" ou "Midia e representação de favela" por acaso, são optativas, todos sabem qual vai ser a pegada dessas disciplinas. Então sei que quem se inscreve nessas disciplinas, em geral, já tem um olhar sensível, uma militância, uma preocupação para com o outro, uma vontade de compreender e transformar o mundo. E os acontecimentos vão mexendo com a gente, num é fácil lidar com isso, vou citar outra poeta pra me ajudar a significar aqui: "Tortura do pensar, triste lamento. Quem me dera calar a vossa voz!" (Florbela Espanca).

Mas nem sempre se consegue, as vozes, os lamentos, as dores do mundo nos invadem, comovem, dilaceram. Não existe antídoto pra isso. No máximo, repetir o mantra grammsciano dia após dia: é preciso conjugar o pessimismo do pensar com o otimismo da vontade. Vontade de lutar, de mudar o mundo, de agir, de transformar. Mas mesmo repetindo o mantra, muitas, muitas vezes, tem momentos em que o absurdo é tão forte, em que o horror é tão impressionante, que fica difícil representar, expressar, significar.

Porque existem dimensões do horror que não conseguimos narrar. São demais pra nós. Isso fica muito patente no fim do magistral romance "O coração das trevas", de Conrad (quem não leu, LEIA! É uma ordem!), quando Marlow, o narrador, vai encontrar a noiva do coronel Kurtz, aquele que enlouqueceu na selva e só conseguiu dizer, em suas palavras finais: "O horror! O horror!". Aqui está a transcrição da cena das palavras finais de Kurtz, que ele profere para Marlow:

"Eu nunca tinha visto, nem espero tornar a ver, coisa parecida com a transformação que se dera nos seus traços. Não, emocionado eu não estava. Estava fascinado. Como se um véu se tivesse rasgado. No marfim daquele rosto vi uma expressão de orgulho sombrio, indomável poder, de abjecto terror - de um desespero intenso e sem esperança. Naquele supremo instante, de integral conhecimento, estaria ele a reviver a vida em todo o pormenor, com os seus desejos, tentações e renúncias? Deu um grito sussurrado a uma imagem qualquer, a uma visão qualquer - gritou duas vezes, um grito que não passava de sopro... "O horror! O horror!"".

Pois no encontro com a noiva de Kurtz, acontece essa cena magistral, que agora transcrevo pra vcs, quando a noiva indaga para Marlow quais teriam sido as últimas palavras de seu noivo:

- "Mesmo até ao fim" - respondi com voz trémula. - "Ouvi-Lhe as últimas palavras..." - Calei-me apavorado.
- "Repita-as" - murmurou num tom de partir o coração. - "Eu quero - eu quero - qualquer coisa - para - para viver com ela."
Estive a ponto de lhe gritar: - "Não as ouve?" À nossa volta a escuridão repetia-as como um incansável segredo, um segredo que parecia avolumar-se, numa ameaça, como o primeiro segredo de um vento que começa a levantar-se. "O horror! O horror!"
- "A sua última palavra - para eu viver com ela" - insistiu. - "Não compreende que eu o amava - amava -
amava?"
Consegui dominar-me e falar pausadamente:
- A última palavra que ele disse foi - o seu nome.
Ouvi um suspiro leve e o meu coração deixou de bater, mortalmente parado por um exultante e terrível grito, pelo grito de um inconcebível triunfo e de uma indescritível dor.
Eu sabia - eu tinha a certeza!,...
Ela sabia. Ela tinha a certeza. Ouvi-a chorar, com o rosto escondido nas mãos.
Parecia que antes de eu sair aquela casa ia desmoronar-se, o céu ia cair-me na cabeça. Mas nada disso aconteceu. O céu não cai por tão pouco. Teria caído, pergunto a mim próprio, se eu tivesse feito ao Kurtz a justiça que lhe era devida? Ele não tinha dito que só queria justiça? Mas não pude. Não pude
contar-lhe nada. Seria tenebroso demais - tenebroso ao máximo...".

Por que estou descrevendo essas cenas pra vcs? Porque quero dizer que tem horas que só mesmo a expressão "O horror! O horror!" é capaz de dar conta do que vivemos e/ou assistimos no mundo, e tem horas que nem dizê-la conseguimos. Mas tem horas em que é preciso, para que continuamos a viver sem cairmos na mais profunda tristeza e depressão, mascarar estas impressões tão tristes e narrarmos a vida falando de amor, música, arte, dança, bobagens, amigos, afetos, novelas, bobeiras, festas, beijos, séries, o nome de quem amamos, qualquer coisa do campo da doçura e do prazer, pra que a vida possa seguir, porque narrar tudo o que nos choca e pasma e dilacera "seria tenebroso demais - tenebroso ao máximo...".

Espero que tenham entendido o que quis dizer aqui pra vcs, com todo o meu amor. Fiquemos firmes, "atentos e fortes", "mas sem perder a ternura". Nos chocando com o horror, nos comprometendo a narrá-lo e lutar pelo seu fim, mas sabendo que às vezes não dá, e isso também nos faz humanos.


Marcadores: , 0 comentários |
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
1994. Exatamente há vinte anos, durante um carnaval, eu me mudava para a casinha então branca em que resido até hoje. Foi um presente generoso e amoroso de meus pais para mim, facilitando e muito a minha vida, me permitindo fazer escolhas difíceis (largar o emprego em jornalismo para viver da bolsa do mestrado e depois como professora, por exemplo), me conferindo autonomia e permitindo, com respeito, amor e compreensão, que eu vivesse minha vida da forma que eu escolhi pra mim. Nunca terei palavras para expressar minha gratidão para com eles por isso, pela casa, pelo amor e pelo respeito ao jeito de cada filho.

Nesses vinte anos, ela mudou de cor, quando fiz a obra dos dez anos vivendo aqui, virou a casinha amarelinha, como é agora conhecida por muitos. Talvez esse ano mude de cor de novo. Na obra dos dez anos, troquei o piso, pintei janelas, mudei minha sala toda, construí o puxado da churrasqueira lá atrás, me reinventei, como bem disse minha amada amiga Claudinha. Agora devo fazer a obra dos vinte anos, vamos ver no que dá. :)

Nesses anos, por aqui passaram amores, amigos, família, fiz muuuuuuuuuuuuitos churrascos, almoços, jantares, caranguejadas, camaroadas, festival de saladas, pizza, bebedeira,bicicleta, cesta de basquete, salão de jogos "Cátia Vanni", combate aos pombos, Jarbas e Plínio, bichos de pelúcia na janela, hóspedes, teve ano novo, teve aniversário, teve festa por nada, teve xurras "uhu é pijamão", teve encontro do GRECOS, teve muito violão, comes e bebes, choro, riso, povo jogado dormindo pelos quartos, pela sala, teve muita virada de noite, teve jogatina, café no dedal, cachorro-quente, lanche, café da manhã, dissertação, tese, concurso, novela na tv, internet direto e reto, visita na madrugada, teve encontro e desencontro, teve rede na varanda, noites e domingos de silêncio, vizinhos ótimos e inesquecíveis, vizinhos escrotos e processáveis, tempos de penúria, sem tv, sem telefone, sem carro, orelhão de ficha, teve aprender a cozinhar, teve aprender a matar barata, teve aprender a conviver com o silêncio e a solidão, teve muito beijo na boca, dias e noites calientes, teve muita música, estudo, filme, leitura, conversa, praia, teve private piscinão de ramos, teve uma turma muito boa de apoio (Eliane e Márcia, minhas faxineiras guardiães; seu Antonio, meu bombeiro-hidráulico faz tudo e meio pai/conselheiro/amigo; Rubens, meu faz tudo doidinho e sempre caprichoso; Cátia Bubu e Marjo, que me ajudam sempre com a cachorrada), teve toalha feita pela mãe, pano de prato feito pela mãe, enfeites feitos pela mãe, teve jardim plantado e replantado por madrinha e por amores, móveis herdados de outras casas, móveis comprados novos e usados, tevê de 29" que me fez até chorar de emoção, teve paixão, teve pé de acerola que secou mas deu muita fruta antes, teve a cachorrada amada (Xuxa, minha pastora inesquecível; Vaca e Jujuba, 16 anos de muito amor; e as safadas da Zara e da Bebel, que aqui vivem agora), teve muito apoio logístico familiar. Teve momento de "vou ficar aqui pra sempre"; teve momento de "quero me mudar ainda esse mês". Teve poltrona no escritório; sofá vermelho na sala; baú com casinhas que todo mundo adora; meus livros nesse escritório que amo; reforma na cozinha que pretendo fazer esse ano; quarto de hóspedes sempre bagunçado; teve sempre muita vida, essa danada dessa casa. Nossa, vinte anos!

Talvez o maior símbolo dessa história seja o pinheiro, que veio pra cá assim que cheguei na casa, veio num vaso, pra servir de árvore no natal. Depois ficamos com pena e plantamos no jardim. Ainda miudinho. Ele hoje é enorme, lindo e imponente, e toda vez que olho pra ele sinto minha história inscrita e escrita nessa casa.







Obrigada, pais generosos e amorosos, que me deram esse lar. Obrigada, minhas amadas, que durante esta vida dividiram esse espaço comigo, cada uma com sua forma de estar e amar a casa. Obrigada, meus amigos, por estarem sempre aqui, enchendo essa casa de afeto, alegria, confusão e luz. Esta casa é cheia de vida, esta vida é a minha, e só tenho a agradecer por ela.

PS: atualizando pós-reforma, e com o pinheiro cada vez mais intenso!





Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Tá rolando no BBB 14 uma história entre duas mulheres, Clara e Vanessa (apesar de homônima, num to falando daquela Clara ridícula que Manoel Carlos resolveu transformar na gay da novela das 8, essa só rende risadas). Não importa, para o que pretendo falar aqui, se é fake, forçado, só pra ganhar um milhão. Tanto faz. A questão é que em um reality show que já está na sua décima quarta edição e que, em várias, casas heteros fizeram sucesso e comoveram os fãs, pela primeira vez um casal gay está formado na casa e sensibilizando parte dos espectadores.
Não estava prestando muita atenção nesse BBB, porque a situação na vida "real" está tão tensa nesse verão de 2014 (somando o pico de calor com as loucuras, omissões e crimes de nossos governantes picaretas, com apoio de um jornalismo de dar vergonha, mais a violência, a pobreza, a desigualdade, os conflitos, olha, tá tenso!), mas outro dia meio sem querer reparei numa cena aleatória, que não era de pegação, e vi que a forma com que as duas se tratavam era meio de namoro. Fiquei surpresa e aí resolvi dar uma investigada. E o que fui descobrindo me colocou pra pensar.
Clara e Vanessa fazem enorme sucesso nas redes sociais, em especial nas comunidades GLBTS. As pessoas se comovem em parte com a coragem das duas em performatizarem cenas calientes entres duas mulheres para as câmeras e o público em geral, mas principalmente com a cumplicidade, os olhares, os carinhos, uma certa intimidade e principalmente essa cara de namoro que a relação das duas foi tomando, e que a edição mais curta, sem ser pay-per-view, não privilegia, destacando, evidentemente, só a pegação. Mas são muitos os vídeos (vou anexar dois nesse artigo) com montagens com as inúmeras cenas de carinho e intimidade entre as duas, algumas extremamente simples, mas que comovem como o diabo. E comovem principalmente porque é tão raro, quase invisível, essa representação do amor cotidiano entre pessoas do mesmo sexo na grande mídia, que quando aparece num tem como não emocionar. É a rotina de milhares de nós, que amamos cotidianamente, vivemos vidas comuns, com nossos amores/parceirXs/companheirXs/namoradXs... e que somos cotidianamente suprimidos do imaginário porque não somos representados, ou quando somos, somos de forma caricata, ridícula, irreal, surreal, preconceituosa, simplificadora etc.
Veja, não estou dizendo que BBB é um show de complexificação, evidentemente. Mas naquela rotina de 24h numa casa, em que as pessoas estão representando um self, que bom, mas que bom mesmo ver uma representação amorosa rotineira que não seja hetero, que abra espaço para que outros se vejam, se identifiquem, se sintam representados. As pessoas que vivem uma vida heteronormativa em geral, mesmo as mais bem intencionadas, NÃO TÊM ideia do que isso significa. E acabam não entendendo porque toca tanto, sensibiliza tanto, emociona tanto aos que vivem uma vida não representada midiaticamente naquilo de mais simples e fundamental para um ser humano, que é amar e ser amado.
Também não estou dizendo que não tem problemas na representação. Tem ideologia pra caramba. Só rola quando uma emissora poderosa quer, ou permite (como no caso Felix e Nico); a emissora edita para o público em geral somente o que "vende", então omite as cenas mais amorosas espontâneas e rotineiras, que são fundamentais para a construção da representação cotidiana do self; as representações que causam mais comoção repetem modelo de amor romântico ocidental e e família burguesa; BBB e outros produtos que se colocam como realidade são ficcionais e editados ideologicamente (o que não é, né, minha gente? porque só com muita cegueira, estupidez ou cinismo pra acreditar em objetividade, neutralidade e discurso que retrata a "verdade" nessa altura do campeonato); enfim, os problemas não sumiram.
Mas volto a insistir na importância da luta por representação. Volto a insistir que parte muito bem intencionada da militância política não tem ideia do que isso significa. Como é importante. Sugiro uma netnografia entre as muitas páginas e comunidades de apoio ao casal Clanessa pra entender o impacto que isso tem entre quem não se sente representado. Talvez isso indique que são muitas as frentes de luta, num dá pra abandonar nenhuma, muito menos a que envolve representações e ideologias acerca das subjetividades. E entender que para combater a crescente violência contra os gays em nossa sociedade é preciso atuar em muitos fronts, sem desprezar nenhum, incluindo o campo do direito, as manifestações, o ativismo político no sentido estrito e o campo comunicacional e suas múltiplas janelas, disputando o direito de significar, de falar, de se representar e se sentir representado, de não ser invisível, de ser mais do mesmo ainda que diferente. Um viva para Clanessa!



Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Não, não vai acabar diretamente com a homofobia no Brasil.
Sim, mas foi um passo importante na discussão que está sendo travada sobre o tema, porque a emissora de maior visibilidade do país bancou essa cena polêmica.
Sim, a Globo quer faturar audiência.
Não, não redime a Globo de todos os seus crimes ideológicos.
Sim, a Globo conseguiu a proeza de ser mais pra frente do que o governo Dilma, essa vergonha em políticas de combate à homofobia.
Não, não foi o primeiro beijo gay em novelas brasileiras.
Sim, mas foi a primeira vez que o beijo final, destinado ao casal principal, foi um beijo entre dois homens.
Sim, é super conservador esse negócio de só existir felicidade via casamento/família etc.
Sim, mas no momento atual é muito importante e pertinente mostrar, como cena final de uma novela, uma família de dois homens e seus filhos, principalmente com as discussões que têm sido travadas na sociedade brasileira sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Não, não foi um beijo caliente.
Sim, foi um beijo amoroso entre duas pessoas que se amam.
Não, não apaga tudo o que o personagem fez de maldade durante a trama toda.
Sim, W. Carrasco acertou a mão neste final e os atores (Solano, Fragoso e Fagundes) deram um show.
Não, não redime a canastrice da novela e as cenas ridículas que Carrasco nos obrigou a aturar.
Sim, foi o coroamento de uma atuação magistral, a de Matheus Solano como Felix.
Sim, o amor muitas vezes redime e promove o perdão. O amor muitas vezes cura.
Sim, foi uma cena referência ao final de Morte em Veneza.
Sim, terminou sem o tradicional "fim" após a cena final. Vida que segue...
Não, não gerou uma aceitação unânime.
Sim, mexeu com o imaginário nacional, colocou o tema na pauta do fim de semana, gerou reações de torcida como se fosse final de copa do mundo.
Sim, foi um #chupafeliciano e #chupabolsonaro e #chupamiriamrios e #chupamalafaia que deu gosto de ver.
Sim, era só uma novela.
Não, não era só uma novela. Era um importante lugar de representação, de disputa cultural, discursiva, a cena final de uma novela das oito, em que tradicionalmente o último beijo cabe ao casal principal da trama, e dessa vez esse casal foi REPRESENTADO por dois homens.
Não, uma novela das oito da rede Globo não é, no Brasil, só uma novela. E tem que ser muito cínico pra fingir que não se sabe disso.
Sim, ainda há muito para ser feito na "vida real".
Mas, sim, sim, foi muuuuuito legal ver parte significativa da minha TL no Facebook e no twitter emocionada, comemorando, festejando. Porque todo mundo sabe o que tava em jogo ali. Quem finge não saber se faz de besta, por ignorância, conveniência ou cinismo.
Sim, a cena foi linda pra caramba, a luta por representação foi linda, mas bonito mesmo, de emocionar, foi ver a alegria de todos os que são diariamente massacrados pela ausência de representação ao lado da ausência de princípios básicos de igualdade que, pelo menos por alguns breves segundos, se sentiram minimamente representados.
Se as pessoas não conseguem ver o passo que essa cena significou para a auto-estima e para a luta em torno da representação, com todos os problemas que isso obviamente ainda carrega, sinto muitíssimo, mas talvez esteja faltando um pôr-do-sol e a mão de um ente amado para ajudar a curar a cegueira...


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Djavan e suas músicas marcaram minha vida, assim como a de muitas outras pessoas. Em diversas fases, especialmente aquelas de venturas e desventuras amorosas, tava lá o alagoano, suas letras, melodias, aquele violão, aquele baixo, aquele arranjo, falando comigo e falando por mim. Pensei muito nisso enquanto ouvia, no carro, um cd com diversos discos dele, em MP3, que meu irmão me deu de presente. Era muita música marcante na minha história.:) Resolvi prestar uma homenagem a esse artista porreta, que quando brilhou foi esplendoroso, elegendo, com muuuita dificuldade, as minhas dez mais dentre as muitas músicas dele que amo. Os critérios são os mais diversos, inclusive lembranças profundas de amor, gostar de tocar no violão, dias felizes etc.. :) Também não me importei muito se é mesmo dele ou se ele interpreta, o que me importa é que foi via Djavan que a música me marcou. Lá vai:

1) "História de cantador" - segue sendo minha preferida. É ele cantar e eu me emocionar de ir às lágrimas. Primor.



2) "Lambada de serpente"- um clássico no repertório violeiro ênnico. Adoro!



3) "Você bem sabe" - uma das mais queridas, adoro cantar, lembranças múltiplas.



4) "Água" - me lembra dias felizes de uma amiga em seus tempos de artista e revolucionária. Também me emociono quando escuto, sempre.



5) "Boa noite" - adoro esse ritmo funkeado, adoro o baixo, adoro a letra. Sempre fico empolgada quando toca.



6) "Esfinge" - amo tanto o baixo nessa música que me prometi que vai ser a primeira que irei tocar totalmente quando puder estudar baixo, sonho antigo.



7) "Se" - posso ouvir mil vezes, não me canso. Me lembra tempos de picardia, hehe. E também é clássico na viola.



8) "Alegre menina" - a meu ver, dispensa explicações. Que lindeza de música, viva Dorival Caymmi!



9) "Linha do equador" - o que dizer da música que tem o que você gostaria de epígrafe da sua vida? "Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria/ isso pra mim é viver". Maravilhoso!



10) "Dou-não-dou" - outra das picardias. Adoro! Tb amo tocar no violão.



Espero que vcs curtam. Ou não, gosto é gosto. E foi difícil deixar de fora tantas outras, como "O vento", "Me leve", "Mal de mim", "Nuvem negra", "Eu te devoro", "Oceano", "Avião", "Florir", "Maçã", "A rota do indivíduo (Ferrugem)", "Bouquet", "Correnteza", "Doidice", "Esquinas", "Faltando um pedaço", "Meu bem querer", "Azul", "Morena de endoidecer", "Navio", "Outono", " Real", " Retrato da vida", " Seduzir", bem como as versões dele e Chico cantando "A rosa" e "Tanta saudade". Poxa, difícil fazer essa escolha, amo todas essas. As outras num gosto muito, não.

Viva Djavan, muito obrigada por ter marcado tão fortemente minha história!