O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe... Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...
27 - Um senhor estagiário
Eu poderia contar muitas histórias, porque foram muitos anos, como turista, como visitante, como aluna do mestrado e do doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, nosso amado PPGAS, já como professora da UFF em eventos e bancas por lá e como amiga de meus amigos que lá trabalham. Escolhi duas, porque acho que elas são síntese do que gostaria de lembrar e testemunhar aqui.
1) Lembro como se fosse hoje quando, assim que terminei a graduação em Comunicação, fui com o Gustavo Barbosa dar uma passada no Museu para conhecer o PPGAS, tínhamos vontade de continuar estudando, e achávamos que antropologia poderia ser um caminho legal depois da comunicação. Lembro que ficamos encantados com aquele jardim onde ficava o PPGAS, tinha arara, tinha banco pra sentar, tinha árvore. Pegamos as informações, fizemos projetos, mas não rolou naquela época. Eu fui trabalhar em jornal, mas naquele dia eu pensei: "taí, gostei desse lugar, ainda vou estudar aqui" (Gustavo também acabou sendo aluno de lá posteriormente, aquela visitinha foi premonitória). Cinco anos depois, já ciente de que não queria atuar em jornalismo de mercado, fiz a prova pra lá, passei e iniciei, em 1993, uma longa história, que, entre mestrado e doutorado, com paradinha no meio, só se completou em 2002, quando defendi meu doutorado (lembro que fiz uma conta quando tava imprimindo minha tese pra entregar pra banca que me horrorizou: tinha passado três copas naquele Museu! Lembro que eu saia das aulas pra ouvir no rádio o resultado dos jogos crente que tava sendo discreta e quando eu voltava pra sala todo mundo ficava me perguntando, inclusive o professor, isso na copa de 1994!). Tive a honra e a sorte de ter sido orientada por dois grandes professores, no mestrado pelo professor Gilberto Velho e no doutorado pelo professor Antonio Carlos de Souza Lima, esse meu mestre para a vida inteira, que me ensinou uma grande parte do que sei hoje sobre dar aula, pesquisar, orientar e aprender com a vida, e que me ofereceu, generosamente, também sua amizade, que me enche de alegria diariamente. Grande parte do que sou hoje, academicamente falando, devo ao PPGAS, a seus professores e funcionários, a sua biblioteca INIGUALÁVEL, com a qual mantive uma relação amorosa para além dos tempos de estudante, recorrendo a ela quando não achava alguma coisa em outro lugar ("Não tem no PPGAS, não tem em lugar nenhum", a gente costumava dizer quando indicava uma bibliografia difícil pra alguém), perturbei muito Cristina, Isabel e Carlinha pra levar mais de cinco livros pra casa... imagina, eu, uma apaixonada que sou por livros, com uma biblioteca daquelas, eu ficava louca!
Mas tinha mais do que livro. Tnha muita vida, amigos e desafetos, debates e brigas, críticas e deboches, tinha VIDA!!!!Tinha muito gente séria e compromissada dedicando suas vidas às pesquisas ali. Eu queria agradecer muito aos professores que me atravessaram mais fortemente, João Pacheco de Oliveira, Gilberto Velho, Antônio Carlos de Souza Lima, Giralda Seyferth, Moacir Palmeira e Luiz Fernando Dias Duarte, suas aulas transformaram o meu mundo e, como disse minha amada amiga Adriana Vianna, egressa também do PPGAS e hoje brilhante professora e pesquisadora daquela instituição, ali pude aprender mais do que imaginei ser possível. Ter passado por aquele PPG foi uma experiência arrebatadora e se hoje sou a professora que sou devo muito, mas muito ao Museu Nacional.
2) Quero contar uma segunda coisa: já como professora, num certo período antes de entrar na universidade pública, em que dei aulas em várias universidades privadas do Rio de Janeiro, tive a oportunidade de visitar o Museu, não o PPGAS, mas o Museu Nacional, com suas exposições, acervo, aquela belezura que era o xodó de tanta gente, que fazia fila pra visitá-lo no domingo, o "Museu mais amado", como disse minha amiga Adriana Facina, também brilhante professora e pesquisadora daquela institução, também egressa de sua formação. Peguei uma turma de cinco alunos que eu tinha no curso de Antropologia que eu dava para desenho industrial na Silva e Souza, em Bonsucesso, enfiei no meu fiat uno e falei: "hoje vamos ver a materialidade das coisas, vamos no Museu Nacional". Do grupo, três não conheciam o Museu, outros dois tinham ido na infância. E quero falar dessa experiência: naquela visita, éramos seis crianças vendo tudo, maravilhados, nos divertindo, aprendendo. Era uma época pré foto, pq isso foi lá pros idos de 1997, sei lá. Ficou tudo guardado na parede da memória. Naquele dia eu entendi o poder daquele Museu, como ele falava com as pessoas, não importando a idade. E isso aumentou ainda mais meu amor, que já era imenso.
Acompanhei o descaso com o Museu, ele não vem de hoje, obviamente. Faltou investimento e vontade política em sucessivos governos para cuidar daquele patrimônio material, científico, afetivo, cultural e profissional. Mas nos últimos anos a situação piorou bastante, como revelam os depoimentos de quem lá trabalhava. Porque há um evidente projeto político de estrangulamento da cultura e da ciência nesse país, agravado muito pela PEC do fim do mundo, a que congela os investimentos federais por 20 anos, atingindo especialmente as áreas da saúde, da cultura e da educação. Estão pegando fogo diariamente o SUS, as escolas e universidades públicas, os projetos e bolsas de pesquisa, os prédios que abrigam a memória e a história do país, os pontos de cultura, a juventude negra, as favelas sob intervenção, as moradias precarizadas pela falta de políticas habitacionais, os ônibus e trens sucateados... é muito coisa que vem sendo queimada diariamente, gente! Precisamos lutar contra isso, porque não podemos deixar essa brasa sendo alimentada e virando essas labaredas apocalíticas daquelas imagens dolorosas do nosso amado Museu pegando fogo!
Incrível nesse momento ter que dizer o quanto é canalha criminalizar os profissionais da universidade, dos bombeiros, pelo que aconteceu. Colocar a culpa em quem faz milagre pra continuar trabalhando em situação precária, eu, como professora de universidade pública, sei bem do que estamos falando, é inaceitável. A culpa é do projeto político de sucateamento e precarização da saúde, educação e cultura, de nossa elite deslumbrada e cínica. Sem perdoar nenhum governo federal, mas olhando os dados e vendo o que vem acontecendo nos últimos três anos. É um projeto nefasto e, se não pararmos isso agora, teremos um custo ainda maior.
Por fim, queria dizer que ontem, no silêncio de minha tristeza, eu lembrava que todas as vezes em que eu ia no Museu e no PPGAS para um evento, uma banca, uma visita, uma passadinha na biblioteca, eu sempre dava uma sentadinha naquele jardim, não importava se eu estava atrasada ou não, pra dar uma respirada, e pensava: "quando eu me aposentar vou tirar uns dias pra vir ficar lendo aqui". Com a aposentadoria em risco e aquele lugar tão poderoso e lindo destruído, fico pensando como é difícil sonhar em tempos sombrios. Não podemos deixar que roubem nossos projetos de um mundo melhor, nossos sonhos e nossos lugares amados. Não desistiremos! Luto é luta!
Por fim, um abraço especial pra Fernanda Guedes, funcionária há 15 anos do Museu, e que defendeu na sexta passada sua dissertação de mestrado pelo PPGCOM/UFF exatamente sobre o Museu Nacional e a relação do público com este espaço. Foi uma defesa linda e emocionante, uma homenagem ao Museu com toda a vida que ele continha. Nesse momento de tristeza, é o que eu vou guardar no coração. Obrigada, Fernanda!
E, pra terminar, três fotos de um dia especialmente feliz: a banca de titular de amado Antonio Carlos de Souza Lima. Dia de festa, de consagração, de afeto. Dia de vida, o que guardarei na parede da memória porque a gente precisa sobreviver e seguir na luta.
Era uma vez uma professora maluca, que pra explicar a ideia de tradição inventada, via Hobsbawm, há uns anos inventou um negócio maluco pras turmas entenderem. Ela, então, criou o reino de Odisseia de Oriente, quiçá Império. Tinha mito de origem, história, moeda (um mendonça, que equivalia a dez saussures, que era uma homenagem ao querido Kleber Mendonça), hino, cor, cargos eméritos e eméritos... teve até coroação da Imperatriz NaEnne Primeira e Única e do Imperador Marildex, o Culturalista. Isso nos idos de 2011, 2012. Pra disciplina de memória e outras coisitas mais.
Aí que agora no curso de Comunicação e Cultura Popular, nesse 2017/1, tivemos uma aula sobre tradições inventadas, com a presença da querida Lia Bastos falando sobre sua dissertação show pelo PPCULT sobre a invenção e as disputas em torno do mito de Araribóia em Niterói. E resolvi mostrar pro povo da turma esse Reino, quiçá Império.
Depois veio o trabalho final. Era pra gerar ou analisar um produto que falasse sobre hibridismos, apropriações etc. E aí tem esse negócio de aluno, né, ô coisa mais linda, e esse doze maravilhosos (Ana Luiza Gomes, Beatriz Augusto, Beatriz Costa, Danilo Botelho, Duda Rodrigues, Gabriel Faria, Jackson Jacques, Luisa de Castro, Luísa Xavier, Mariana Silva, Paula Ubaldino e Rachel Sousa) fizeram como trabalho final e presente pra vida um jogo, estilo Banco Imobiliário, a partir de Odisseia do Oriente.
No Blog do GRECOS, depois vamos postar a ficha técnica e tudo certinho. Aqui só quero falar de belezura e afeto. O jogo é perfeito, o tabuleiro é lindo, as peças, as notas com o rostinho de Kleber Mendonça, o homenageado na moeda, pintados a mão, uma por uma, cada casa pensada, cada ficha criada, o hino pra ser cantado antes do jogo começar, o encarte com as regras, essa capa maravilhosa, enfim, não tenho palavras pra agradecer pelo trabalho, capricho, carinho...
De presente, vou convidar os 12 pra um cachorro-quente e uma rodada do jogo, porque eles merecem. E eu comovida e agradecida, partilho aqui.
Na verdade, acho que a história começa assim:
Era uma vez uma história de amor entre uma professora e suas alunas e seus alunos... o final é sempre feliz!
Hoje pro almoço fiz um peixe assado que é queridinho do povo aqui de casa. Outro que não é caro e dá pra geral, 4 pessoas comem mt bem. Então, vamos lá, nessa cruzada pela boa alimentação a baixo preço pros meus alunes tudo (podem me convidar pra provar depois!):
1) Ingredientes:
400 g de filé de tilápia (umas quatro postas), vende no mercado, no hortifruti, tb chamam de saint peter, é peixe de água doce, sem espinha, branquinho e macio.
- 4 batatas médias/grandes
- 1 e 1/2 cebola (se vc ama que nem eu, taca logo duas)
- 2 tomates (tire as sementes, não pode ficar comendo isso pq dá problema no ácido úrico e quando se tem divertículo, vai por mim)
- 1/2 pimentão amarelo ou vermelho (se vc não tem problema com pimentão, pode ser o verde mesmo)
- 6 a 8 dentes de alho
2) Modo de preparar
- corte a batata em rodelas nem muito finas nem muito grossas e espalhe em uma travessa para assar (pode ser tabuleiro), formando uma base para colocar o peixe em cima. Se quiser coloque um pouco de manteiga pra não agarrar, ou um papel laminado por baixo. Use o sal em pitadas pra temperar a batata (não coloque muito pq vc vai colocar mais depois). Dê uma regada com um pouco de azeite (não coloque muito pq vc vai colocar mais depois).
- coloque sobre essa camada de batatas fatiadas as postas de tilápia. Tempere o peixe com sal e um pouco de molho de alho (se não tiver, passe um pouco de alho picado mesmo). Lembre-se sempre: não coloque sal demais, eu em geral vou passando as pitadas de sal no peixe e sentindo se está bom.
- corte o tomate, o pimentão e a cebola em rodelas ou em lascas. espalhe sobre o peixe. Faça de maneira a ficar distribuído e colorido (comemos com os olhos também!)
- coloque os dentes de alho espalhados pelo prato (dica que aprendi recentemente: com a casca. Ela é fundamental para manter os nutrientes do alho enquanto ele assa. E depois de assado ela sai com facilidade e o gosto do alho fica maravilhoso).
- Dê agora uma regada mais generosa de azeite, pro prato ficar mais molhado, e salpique mais, ou seja, coloque um pouco mais de sal, sempre com cuidado.
- Cubra com papel laminado e leve ao forno alto por cerca de 40 a 50 min. Depois retire o papel laminado e deixe mais 10 minutos assando com a travessa descoberta. Fique de olho, especialmente nessa parte final, para não queimar.
Depois pode levar pra mesa e servir, deixa o azeite e o sal pra quem quiser colocar mais um pouco. Mas nem precisa, já vai estar no ponto. Bom apetite!
vou partilhar aqui uma receita que aprendi com minha mãe Maria Lucia Enne, mas que depois modifiquei um pouco, pq cozinhar é coisa alquímica mesmo. É a sopa de couve-flor que aparece aqui embaixo e que fiz hoje. Ela é simples de fazer e beeeeem gostosa. Gosto sempre de partilhar aqui pros meus alunes, especialmente os que moram em república, receitas baratas e fáceis de fazer. Então, vamos lá!
Modo de preparo:
- separe os galhinhos da couve-flor, aproveitando o talo. Coloque pra cozinhar na água e sal. Não ponha muito sal, olha a pressão! E tb pra poder deixar pra colocar mais um pouco de sal no final, quando for fazer o refogado. Deixe cozinhar até ficar suculenta (espete com garfo pra ver). Não deixe que ela fique dura nem mole demais (normalmente cozinha em 15 min em fogo alto);
- jogue a água fora e com uma faca separe as florezinhas do couve-flor cozida do talo. Jogue todo o talo no liquidificador e um pouco das florezinhas tb, mas poucas, pq vc vai precisar das outras. No liquidificador, coloque uns 250 ml de água potável ambiente. Bata um pouco, mas não muito pra ficar um pouco grosso. Se vc tiver salsa, pode jogar um pouco. Tb pode jogar um quarto de cebola. Se tiver caldo knorr, coloque uma lasquinha, mas só uma lasquinha (olha o sódio!)
- numa panela, coloque um pouco de cebola, óleo e sal (num falei pra economizar ao cozinhar???) e dá uma refogada (num coloco alho pq me dá um pouco de gastura de noite, mas se vc não tem isso, coloca um dentinho amassado tb). Aí jogue as florezinhas cozidas nesse refogado e dá aquela misturada bacana, mas cuidado pra não destruir muito as florezinhas, pq é bom poder mastigá-las quando estiver tomando a sopa.
- Agora joga o caldo que vc bateu no liquidificador nessa panela e pronto, deixa esquentar pq já tem uma sopa deliciosa.
- Se vc gostar e tiver em casa, rala um queiinho por cima da sopa, como na foto abaixo. Se gostar tb, coloca umas torradinhas pra acompanhar. Enfim, é delícia mesmo.
Uma couve-flor média dá pra duas pessoas. Uma grande dá pra umas quatro tomarem. Divirta-se. :)
Em janeiro desse ano, eu apresentei meu TCC e ela esteve entre os professores da banca e disse “As vezes, a gente tem medo que as coisas acabem. É difícil mesmo concluir algo que a gente gosta. Vocês ficam dizendo aí que a vida é fluxo, a vida não é fluxo não, a vida é ciclo.” E hoje estamos aqui juntos, fechando nosso ciclo. E queremos agradecer o privilégio que é ter tido você como parte disso. Obrigada."
Abaixo, o discurso na íntegra. Se prepara que lá vai textão. Mas sabe que até acho que vale a pena ler até o final? #fikaadika
Não sei bem o ano, talvez meados da década de 2000, tipo 2006. Eu tava cismada com uma música, mas não sabia cantar, cantarolar, não conseguia lembrar de quem era, nem um trecho sequer. E ficava tentando lembrar, queria porque queria, mas não conseguia. Quem mais sofria com isso era a amada Dani Brasiliense. Vira e mexe eu tentava lembrar um trecho, mas cantarolava uma coisa esquisita e nada. Isso durou muuuito tempo.
Aí um dia eu estava tomando banho, nós íamos a uma festa, e sem querer cantarolei um "tchurururu" meio troncho. Berrei: "é essa música, é essa música". Dani ouviu e disse: "acho que já sei qual é, mas não sei cantar nem de quem é. Vou tentar descobrir pra você. Mas não vai ser fácil, quase não escuto, mas vamos ver".
Aí terminamos de nos aprontar e entramos no carro pra ir para a tal festa. Assim que demos a partida no carro, Dani falou: "vou ligar o rádio e vai estar tocando a tal música, quer ver?". Eu ri, descrente. Tinha anos que eu não ouvia a danada da música, como podia ser?
Assim que ela apertou o botão do rádio, entrou o trecho que eu havia cantarolado: "tchurururu tchururu". Ficamos em pânico!!! Comecei a berrar: "é ela, é ela!". A gente ria de nervoso. Depois de meses querendo que alguém me ajudasse a lembrar da música, na noite em que consegui balbuciar um trecho toscamente, que Dani foi capaz de reconhecer, mesmo sendo uma música pouco ouvida, ela fala que vai ligar o rádio e a música estaria tocando, e páaaaa, lá estava ela. Tava já no finalzinho e o locutor disse quando terminou: George Michael, "Heal the pain". Cara, eu fiquei maluca. Era muita coincidência!!!! Uma música de 1990!!! Tocando em 2006 na hora em que ela falou que tocaria, dentre milhares e milhares de músicas!
Eu amo essa história, acho mágica. Depois consegui a música e ela mora permanentemente no meu mp3 player, eu escuto sempre.
A notícia da morte de George Michael me entristeceu. Compartilho aqui essa história como homenagem a ele. Músicos e suas artes: são capazes de provocar as maiores e melhores magias! Obrigada, seu lindo! Valeu!
e
Anos depois, muitos, li e me emocionei com "As ilusões perdidas", clássico de Balzac. E quando li tive a sensação de que já tinha tido o impacto de acompanhar as desilusões de Lucien de Rubempré, personagem principal do romance, chegando na cidade grande cheio de sonhos e inocência, e aos poucos sendo devorado pela maldade e perversidade daquele mundo, perdendo suas ilusões. Agora, revendo a novela, sei de onde veio minha sensação de deja vu quando li o livro. André Cajarana era o nosso Lucien de Rubempré! E com um show de interpretação de Tony Ramos, que conseguiu encenar essa passagem dura da vida entre o olhar inocente e a aquele depois das lambadas do mundo.
Mas com uma diferença: nossa maga num ia deixar a gente sem esperança, não. Nosso André Cajarana amadurece, sofre, se endurece, mas não perde sua bondade e vontade de justiça. As ilusões perdem força, mas não desaparecem. Novelas e suas redenções no final... Balzac que me desculpe, mas prefiro assim... ;)
PS: e "Alouette", canção com Denise Emmer, é linda. Na época o povo reclamou, dizia que era nepotismo pq ela era filha do Dias Gomes, que a música era chata, que ela cantava mal... olha, gente chata. Música linda e casa perfeitamente com a personagem Karina e seus dramas.
Fiquei uns anos sem tocar violão. Por diversos motivos. Mas nos últimos anos porque tava sofrendo com tendinite na mão esquerda e depois a artrite no ombro direito. Aí veio a terapia (obrigada, Lucio!) e me fez retornar no caminho pra mim mesma. Aí veio o lian gong/acupuntura (obrigada, Rodnei!) e me libertou. Aí vieram os incentivos do afeto e cá estou eu de novo, tocando que é uma beleza, me divertindo e me sentindo uma aprendiz novamente. Música é coisa maneira, né? A gente começa e quando vê aquilo toma conta da gente.
Este post memória é tb agradecimento. Montei um kit em torno do regresso do violão na minha vida que é puro afeto, fruto de presentes de pessoas que amo muito e me amam muito. Aí me emociona só de pegar nele, mesmo antes de tocar. :)
O violão, já falei, presente da Dani. O kit fica guardado nessa bolsa vermelha motivo signo de áries coisa mais linda que ganhei de Ohana. Dentro, o caderno motivo coca-cola que me dei de presente em 2010 já visando voltar a tocar (tive que esperar muito antes de concretizar esse desejo, acho que isso aumentou ainda mais o prazer que sinto agora a cada letrinha colocada nesse caderninho) abriga as letras/cifras que vou colocando a mão, bem artesanalmente. As canetas coloridas com que escrevo letras e cifras (pegando na internet e na memória e modificando pra ficar do jeito que gosto) são presente de Lid, Dani, Tira e Ninha. Ficam dentro do estojo motivo allstar presente de Mari Baltar. Junto das canetinhas, antiga palheta e afinador eletrônico, presente de mano Luiz. As cifras novas são colocadas no caderninho de cifras presente de Marina e Rê. Pra criar tumulto, os carimbos de Like e Deslike, presentes de Tira e Ninha, ficam do lado pro povo avaliar as músicas tiradas, hahahaha. Dois cadernos, um presente lindo de Lia Bahia, abrigam o índice das músicas e seus intérpretes.
Não é muita riqueza de afeto e amor, Brazil?! Agradeço muito. Tá sendo mágico voltar a tocar e tirar música sistematicamente, por longas horas, me divertindo muito. Nesses tempos difíceis em que o mundo parece mais louco do que antes, tem sido fundamental pra manter a sanidade. Quem sabe ainda volto a compor? ;)








































