Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Pensei muito antes de escrever aqui, porque sempre fico constrangida de falar do que sinto quando penso que tem gente mais diretamente atingida do que eu. Mas depois entendi que preciso escrever esse texto, um pouco por mim, porque a palavra cura e eu to numa tristeza danada, mas principalmente pelo dever moral de dar testemunho do que significava o Museu Nacional e como sua perda, resultado de um projeto de desmonte da cultura e da educação neste país, não pode passar batida. Devo isso a minhas amigas e amigos que lá trabalham, pelos professores-mestres que me formaram, por todo o esforço que inúmeras pessoas que atuaram e atuam naquele espaço fizeram e fazem, mesmo em situação enormemente precarizada, para que o Museu Nacional fosse o que era.

Eu poderia contar muitas histórias, porque foram muitos anos, como turista, como visitante, como aluna do mestrado e do doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, nosso amado PPGAS, já como professora da UFF em eventos e bancas por lá e como amiga de meus amigos que lá trabalham. Escolhi duas, porque acho que elas são síntese do que gostaria de lembrar e testemunhar aqui.

1) Lembro como se fosse hoje quando, assim que terminei a graduação em Comunicação, fui com o Gustavo Barbosa dar uma passada no Museu para conhecer o PPGAS, tínhamos vontade de continuar estudando, e achávamos que antropologia poderia ser um caminho legal depois da comunicação. Lembro que ficamos encantados com aquele jardim onde ficava o PPGAS, tinha arara, tinha banco pra sentar, tinha árvore. Pegamos as informações, fizemos projetos, mas não rolou naquela época. Eu fui trabalhar em jornal, mas naquele dia eu pensei: "taí, gostei desse lugar, ainda vou estudar aqui" (Gustavo também acabou sendo aluno de lá posteriormente, aquela visitinha foi premonitória). Cinco anos depois, já ciente de que não queria atuar em jornalismo de mercado, fiz a prova pra lá, passei e iniciei, em 1993, uma longa história, que, entre mestrado e doutorado, com paradinha no meio, só se completou em 2002, quando defendi meu doutorado (lembro que fiz uma conta quando tava imprimindo minha tese pra entregar pra banca que me horrorizou: tinha passado três copas naquele Museu! Lembro que eu saia das aulas pra ouvir no rádio o resultado dos jogos crente que tava sendo discreta e quando eu voltava pra sala todo mundo ficava me perguntando, inclusive o professor, isso na copa de 1994!). Tive a honra e a sorte de ter sido orientada por dois grandes professores, no mestrado pelo professor Gilberto Velho e no doutorado pelo professor Antonio Carlos de Souza Lima, esse meu mestre para a vida inteira, que me ensinou uma grande parte do que sei hoje sobre dar aula, pesquisar, orientar e aprender com a vida, e que me ofereceu, generosamente, também sua amizade, que me enche de alegria diariamente. Grande parte do que sou hoje, academicamente falando, devo ao PPGAS, a seus professores e funcionários, a sua biblioteca INIGUALÁVEL, com a qual mantive uma relação amorosa para além dos tempos de estudante, recorrendo a ela quando não achava alguma coisa em outro lugar ("Não tem no PPGAS, não tem em lugar nenhum", a gente costumava dizer quando indicava uma bibliografia difícil pra alguém), perturbei muito Cristina, Isabel e Carlinha pra levar mais de cinco livros pra casa... imagina, eu, uma apaixonada que sou por livros, com uma biblioteca daquelas, eu ficava louca!

Mas tinha mais do que livro. Tnha muita vida, amigos e desafetos, debates e brigas, críticas e deboches, tinha VIDA!!!!Tinha muito gente séria e compromissada dedicando suas vidas às pesquisas ali. Eu queria agradecer muito aos professores que me atravessaram mais fortemente, João Pacheco de Oliveira, Gilberto Velho, Antônio Carlos de Souza Lima, Giralda Seyferth, Moacir Palmeira e Luiz Fernando Dias Duarte, suas aulas transformaram o meu mundo e, como disse minha amada amiga Adriana Vianna, egressa também do PPGAS e hoje brilhante professora e pesquisadora daquela instituição, ali pude aprender mais do que imaginei ser possível. Ter passado por aquele PPG foi uma experiência arrebatadora e se hoje sou a professora que sou devo muito, mas muito ao Museu Nacional.

2) Quero contar uma segunda coisa: já como professora, num certo período antes de entrar na universidade pública, em que dei aulas em várias universidades privadas do Rio de Janeiro, tive a oportunidade de visitar o Museu, não o PPGAS, mas o Museu Nacional, com suas exposições, acervo, aquela belezura que era o xodó de tanta gente, que fazia fila pra visitá-lo no domingo, o "Museu mais amado", como disse minha amiga Adriana Facina, também brilhante professora e pesquisadora daquela institução, também egressa de sua formação. Peguei uma turma de cinco alunos que eu tinha no curso de Antropologia que eu dava para desenho industrial na Silva e Souza, em Bonsucesso, enfiei no meu fiat uno e falei: "hoje vamos ver a materialidade das coisas, vamos no Museu Nacional". Do grupo, três não conheciam o Museu, outros dois tinham ido na infância. E quero falar dessa experiência: naquela visita, éramos seis crianças vendo tudo, maravilhados, nos divertindo, aprendendo. Era uma época pré foto, pq isso foi lá pros idos de 1997, sei lá. Ficou tudo guardado na parede da memória. Naquele dia eu entendi o poder daquele Museu, como ele falava com as pessoas, não importando a idade. E isso aumentou ainda mais meu amor, que já era imenso.

Acompanhei o descaso com o Museu, ele não vem de hoje, obviamente. Faltou investimento e vontade política em sucessivos governos para cuidar daquele patrimônio material, científico, afetivo, cultural e profissional. Mas nos últimos anos a situação piorou bastante, como revelam os depoimentos de quem lá trabalhava. Porque há um evidente projeto político de estrangulamento da cultura e da ciência nesse país, agravado muito pela PEC do fim do mundo, a que congela os investimentos federais por 20 anos, atingindo especialmente as áreas da saúde, da cultura e da educação. Estão pegando fogo diariamente o SUS, as escolas e universidades públicas, os projetos e bolsas de pesquisa, os prédios que abrigam a memória e a história do país, os pontos de cultura, a juventude negra, as favelas sob intervenção, as moradias precarizadas pela falta de políticas habitacionais, os ônibus e trens sucateados... é muito coisa que vem sendo queimada diariamente, gente! Precisamos lutar contra isso, porque não podemos deixar essa brasa sendo alimentada e virando essas labaredas apocalíticas daquelas imagens dolorosas do nosso amado Museu pegando fogo!

Incrível nesse momento ter que dizer o quanto é canalha criminalizar os profissionais da universidade, dos bombeiros, pelo que aconteceu. Colocar a culpa em quem faz milagre pra continuar trabalhando em situação precária, eu, como professora de universidade pública, sei bem do que estamos falando, é inaceitável. A culpa é do projeto político de sucateamento e precarização da saúde, educação e cultura, de nossa elite deslumbrada e cínica. Sem perdoar nenhum governo federal, mas olhando os dados e vendo o que vem acontecendo nos últimos três anos. É um projeto nefasto e, se não pararmos isso agora, teremos um custo ainda maior.

Por fim, queria dizer que ontem, no silêncio de minha tristeza, eu lembrava que todas as vezes em que eu ia no Museu e no PPGAS para um evento, uma banca, uma visita, uma passadinha na biblioteca, eu sempre dava uma sentadinha naquele jardim, não importava se eu estava atrasada ou não, pra dar uma respirada, e pensava: "quando eu me aposentar vou tirar uns dias pra vir ficar lendo aqui". Com a aposentadoria em risco e aquele lugar tão poderoso e lindo destruído, fico pensando como é difícil sonhar em tempos sombrios. Não podemos deixar que roubem nossos projetos de um mundo melhor, nossos sonhos e nossos lugares amados. Não desistiremos! Luto é luta!

Por fim, um abraço especial pra Fernanda Guedes, funcionária há 15 anos do Museu, e que defendeu na sexta passada sua dissertação de mestrado pelo PPGCOM/UFF exatamente sobre o Museu Nacional e a relação do público com este espaço. Foi uma defesa linda e emocionante, uma homenagem ao Museu com toda a vida que ele continha. Nesse momento de tristeza, é o que eu vou guardar no coração. Obrigada, Fernanda!

E, pra terminar, três fotos de um dia especialmente feliz: a banca de titular de amado Antonio Carlos de Souza Lima. Dia de festa, de consagração, de afeto. Dia de vida, o que guardarei na parede da memória porque a gente precisa sobreviver e seguir na luta.










Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Amo formaturas! Mis alunes me homenageiam frenquentemente e eu adoro estar lá com eles, acho uma festa deliciosa, um ritual bonito de passagem, que une formandes, familiares, amigues, amores e nós os profes. Sempre me emociono com os discursos. Este foi da formatura de Procult turma de 2017/2, que ocorreu no primeiro semestre de 2018. Foi escrito e lido pela queridona Mariana Darsie. Me tocou muito e agora partilho aqui, porque amor nunca é demais! Obrigada, lindezas de pessoas!

"Boa noite. É uma honra poder expressar um pouco do nosso carinho pela Ana Enne, uma pessoa tão maravilhosa.
Embora coordene o programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades, originalmente a professora Ana é do Departamento de Estudos Culturais e Mídia. Então, suas disciplinas são optativas para alunos da graduação em Produção Cultural. Esta antropóloga costuma chegar em nossas vidas quando já estamos na correria, estagiando e começando o TCC. Ainda assim, suas salas de aula estavam sempre cheias, simplesmente porque a sua energia nos dava fôlego para encarar a semana.

Querida Ana,

Que presente foi te encontrar.
Contigo reconhecemos que somos dialéticos. Por um lado, conhecemos a feminista empoderada, inteligente, forte, corajosa. A ariana rainha da problematização. A presença ilustre nas bancas. A pesquisadora crítica e engajada que luta por uma sociedade sem desigualdades. Por outro, a mulher afetuosa, gentil, engraçada. Nossa referência de mediação. A amiga atenciosa que toca Parabéns na gaitinha, que recebe orientandos em casa. A comunicóloga que adora novelas, Roupa Nova e gongar o The Voice. A professora divertida que sonhava em ganhar um flash mob.
Contigo aprendemos a garantir a complexidade da realidade. No entanto, o seu jeitinho de educar nos ajudou a compreender até os conceitos mais difíceis. Você sabe articular teoria e cotidiano como ninguém. Por exemplo, em 2013, anotei no caderno a seguinte frase sua: “Bilhetinho na aula é coisa rica, fruto do letramento!”.
Contigo lemos teóricos da Sociologia, da Filosofia e dos Estudos Culturais, mas também conversamos com a periferia, a favela, o massivo e o popular.
Contigo refletimos sobre a mídia como véu da ideologia e como ferramenta de democratização do discurso. Principalmente, vemos a cultura como arena de disputas, analisamos as fusões e contradições.
Estamos vivendo momentos desafiadores para a democracia. Às vezes, quando ouço uma notícia devastadora e sinto minha esperança diminuir, revisito um texto antigo seu que nos incentiva “a narrar a vida falando de amor, de qualquer coisa do campo da doçura e do prazer”.

Poder ver a sua missão de transformar o mundo se realizando a cada dia é lindo demais. Muito obrigada por se doar tanto para nos ajudar a caminhar ao seu lado nessa jornada. Você ocupa um território especial no nosso curso e dentro de cada um de nós".


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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
A história começa assim:

Era uma vez uma professora maluca, que pra explicar a ideia de tradição inventada, via Hobsbawm, há uns anos inventou um negócio maluco pras turmas entenderem. Ela, então, criou o reino de Odisseia de Oriente, quiçá Império. Tinha mito de origem, história, moeda (um mendonça, que equivalia a dez saussures, que era uma homenagem ao querido Kleber Mendonça), hino, cor, cargos eméritos e eméritos... teve até coroação da Imperatriz NaEnne Primeira e Única e do Imperador Marildex, o Culturalista. Isso nos idos de 2011, 2012. Pra disciplina de memória e outras coisitas mais.

Aí que agora no curso de Comunicação e Cultura Popular, nesse 2017/1, tivemos uma aula sobre tradições inventadas, com a presença da querida Lia Bastos falando sobre sua dissertação show pelo PPCULT sobre a invenção e as disputas em torno do mito de Araribóia em Niterói. E resolvi mostrar pro povo da turma esse Reino, quiçá Império.

Depois veio o trabalho final. Era pra gerar ou analisar um produto que falasse sobre hibridismos, apropriações etc. E aí tem esse negócio de aluno, né, ô coisa mais linda, e esse doze maravilhosos (Ana Luiza Gomes, Beatriz Augusto, Beatriz Costa, Danilo Botelho, Duda Rodrigues, Gabriel Faria, Jackson Jacques, Luisa de Castro, Luísa Xavier, Mariana Silva, Paula Ubaldino e Rachel Sousa) fizeram como trabalho final e presente pra vida um jogo, estilo Banco Imobiliário, a partir de Odisseia do Oriente.

No Blog do GRECOS, depois vamos postar a ficha técnica e tudo certinho. Aqui só quero falar de belezura e afeto. O jogo é perfeito, o tabuleiro é lindo, as peças, as notas com o rostinho de Kleber Mendonça, o homenageado na moeda, pintados a mão, uma por uma, cada casa pensada, cada ficha criada, o hino pra ser cantado antes do jogo começar, o encarte com as regras, essa capa maravilhosa, enfim, não tenho palavras pra agradecer pelo trabalho, capricho, carinho...

De presente, vou convidar os 12 pra um cachorro-quente e uma rodada do jogo, porque eles merecem. E eu comovida e agradecida, partilho aqui.

Na verdade, acho que a história começa assim:

Era uma vez uma história de amor entre uma professora e suas alunas e seus alunos... o final é sempre feliz!











Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Inverno, frio, dá uma fome, ne? hahahahaha.



Hoje pro almoço fiz um peixe assado que é queridinho do povo aqui de casa. Outro que não é caro e dá pra geral, 4 pessoas comem mt bem. Então, vamos lá, nessa cruzada pela boa alimentação a baixo preço pros meus alunes tudo (podem me convidar pra provar depois!):

1)  Ingredientes:
400 g de filé de tilápia (umas quatro postas), vende no mercado, no hortifruti, tb chamam de saint peter, é peixe de água doce, sem espinha, branquinho e macio.
- 4 batatas médias/grandes
- 1 e 1/2 cebola (se vc ama que nem eu, taca logo duas)
- 2 tomates (tire as sementes, não pode ficar comendo isso pq dá problema no ácido úrico e quando se tem divertículo, vai por mim)
- 1/2 pimentão amarelo ou vermelho (se vc não tem problema com pimentão, pode ser o verde mesmo)
- 6 a 8 dentes de alho

2) Modo de preparar
- corte a batata em rodelas nem muito finas nem muito grossas e espalhe em uma travessa para assar (pode ser tabuleiro), formando uma base para colocar o peixe em cima. Se quiser coloque um pouco de manteiga pra não agarrar, ou um papel laminado por baixo. Use o sal em pitadas pra temperar a batata (não coloque muito pq vc vai colocar mais depois). Dê uma regada com um pouco de azeite (não coloque muito pq vc vai colocar mais depois).

- coloque sobre essa camada de batatas fatiadas as postas de tilápia. Tempere o peixe com sal e um pouco de molho de alho (se não tiver, passe um pouco de alho picado mesmo). Lembre-se sempre: não coloque sal demais, eu em geral vou passando as pitadas de sal no peixe e sentindo se está bom.

- corte o tomate, o pimentão e a cebola em rodelas ou em lascas. espalhe sobre o peixe. Faça de maneira a ficar distribuído e colorido (comemos com os olhos também!)

- coloque os dentes de alho espalhados pelo prato (dica que aprendi recentemente: com a casca. Ela é fundamental para manter os nutrientes do alho enquanto ele assa. E depois de assado ela sai com facilidade e o gosto do alho fica maravilhoso).

- Dê agora uma regada mais generosa de azeite, pro prato ficar mais molhado, e salpique mais, ou seja, coloque um pouco mais de sal, sempre com cuidado.

- Cubra com papel laminado e leve ao forno alto por cerca de 40 a 50 min. Depois retire o papel laminado e deixe mais 10 minutos assando com a travessa descoberta. Fique de olho, especialmente nessa parte final, para não queimar.

Depois pode levar pra mesa e servir, deixa o azeite e o sal pra quem quiser colocar mais um pouco. Mas nem precisa, já vai estar no ponto. Bom apetite!





Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Então, noites frias pedem uma coisinha quente, ne? Povo adora uma sopa. :)

vou partilhar aqui uma receita que aprendi com minha mãe Maria Lucia Enne, mas que depois modifiquei um pouco, pq cozinhar é coisa alquímica mesmo. É a sopa de couve-flor que aparece aqui embaixo e que fiz hoje. Ela é simples de fazer e beeeeem gostosa. Gosto sempre de partilhar aqui pros meus alunes, especialmente os que moram em república, receitas baratas e fáceis de fazer. Então, vamos lá!


Modo de preparo:

- separe os galhinhos da couve-flor, aproveitando o talo. Coloque pra cozinhar na água e sal. Não ponha muito sal, olha a pressão! E tb pra poder deixar pra colocar mais um pouco de sal no final, quando for fazer o refogado. Deixe cozinhar até ficar suculenta (espete com garfo pra ver). Não deixe que ela fique dura nem mole demais (normalmente cozinha em 15 min em fogo alto);

- jogue a água fora e com uma faca separe as florezinhas do couve-flor cozida do talo. Jogue todo o talo no liquidificador e um pouco das florezinhas tb, mas poucas, pq vc vai precisar das outras. No liquidificador, coloque uns 250 ml de água potável ambiente. Bata um pouco, mas não muito pra ficar um pouco grosso. Se vc tiver salsa, pode jogar um pouco. Tb pode jogar um quarto de cebola. Se tiver caldo knorr, coloque uma lasquinha, mas só uma lasquinha (olha o sódio!)

- numa panela, coloque um pouco de cebola, óleo e sal (num falei pra economizar ao cozinhar???) e dá uma refogada (num coloco alho pq me dá um pouco de gastura de noite, mas se vc não tem isso, coloca um dentinho amassado tb). Aí jogue as florezinhas cozidas nesse refogado e dá aquela misturada bacana, mas cuidado pra não destruir muito as florezinhas, pq é bom poder mastigá-las quando estiver tomando a sopa.

- Agora joga o caldo que vc bateu no liquidificador nessa panela e pronto, deixa esquentar pq já tem uma sopa deliciosa.

- Se vc gostar e tiver em casa, rala um queiinho por cima da sopa, como na foto abaixo. Se gostar tb, coloca umas torradinhas pra acompanhar. Enfim, é delícia mesmo.


Uma couve-flor média dá pra duas pessoas. Uma grande dá pra umas quatro tomarem. Divirta-se. :)



Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
E pra festa ficar completa, replico aqui o discurso lindo que a Mariana Cardinot, formanda de 2016/2 em Estudos de Mídia, fez pra me homenagear na formatura. Foi um daqueles dias mágicos que só a relação prof/aluno pode explicar. Te amo, Mari queridona, vou guardar pra sempre!



"Boa noite gente, é honra poder estar aqui e falar em nome da turma dessa pessoa, desse ser humano incrível, dessa mulher que é a Ana.  ~e uma dificuldade absurda tb, aquariana neah gente é difícil fazer essas declarações públicas de afeto, mas juro que temos coração sim ~                    
Estava eu reflexiva aqui, e como é que pode uma Ariana gente, ARIANA ser tão amada e homenageada há tantos anos quanto essa mulher é. Isso desafia a astrologia e merece um estudo real (Fica dica aí para próximas pesquisas).

A  ana é o nosso primeiro contato na graduação de mulher forte, que quebra padrões e quem vem desfazendo, construindo e desconstruindo tudo na nossa cabeça. Tudo que se aprendeu a vida toda de como um aluno precisa ser para ser um bom aluno, e de normas de como um professor precisa seguir, com ana, isso não existe. Esses dias eu li em uma postagem que ela mesma fez no facebook em que criticava esse desejo do professor de se ter uma atenção exclusiva do aluno durante toda a aula que me fez lembrar o motivo que me fez me apaixonar cada dia mais em ser sua aluna e em frequentar suas aulas. “No caso de uma aula, são meus alunes, que mediadores que são, vão se apropriar do discurso-aula de formas diferenciadas, dispersas, resignificantes. E, para isso, a desatenção é parte fundamental, para que os jogos matéria e memória, corpo presente e camadas de imaginação, movimentos de extensão e distensão que são a vida, possam acontecer.
Nós alunes , distraídos porém atentos, mandamos florzinhas de gratidão por isso.

E a Ana é um combo de ensinamentos. Na sala de aula ensina que não precisa cobrar presença para se ter aulas lotadas, ensina que a vida as vezes é uma aula, e que a  gente aprende coisas na aula que leva para a vida. Que o BBB pode dizer muito sobre quem a gente é, que “Vale Tudo” é um novelão da pourra. Sim, podemos aprender sociologia com novelas, séries e coisas que a gente mais gosta de fazer. E que the voice kids pode ser o melhor programa de TV se juntar a galera para comentar no Facebook. Ninguém sai ileso dessa relação. Uma vez que assistiu uma aula da Ana, você leva ela com você pra onde vc for. E tem esse papo que ainda não superamos de que  “Nenhum discurso é essencialmente verdade”? vai dando um bug real na cabeça. Ela tá inventando essa história meu brasel? isso é verdade povo? acho que nem ela sabe.

Em janeiro desse ano, eu apresentei meu TCC e ela esteve entre os professores da banca e disse “As vezes, a gente tem medo que as coisas acabem. É difícil mesmo concluir algo que a gente gosta. Vocês ficam dizendo aí que a vida é fluxo, a vida não é fluxo não, a vida é ciclo.” E hoje estamos aqui juntos, fechando nosso ciclo. E queremos agradecer o privilégio que é ter tido você como parte disso. Obrigada."
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Amo formaturas! Tenho sido agraciada, ano a ano, com homenagens de meus alunos e alunas, o que me deixa sempre imensamente feliz e orgulhosa. Fui paraninfa e patronesse um tanto e isso sempre se constitui num desafio de criar discursos originais a cada vez. Já falei de ousadia, já fiz discurso de improviso, já citei Fernando Pessoa, Novos Baianos, já imitei a outra lá e copiei discurso de Michele Obama (ideia da minha mãe, hahahaha), já falei de política, do mercado de trabalho, da amizade, já fiz discursos mais personalizados em turmas pequenas, já falei de um tuuuudoooo. Mas o de ontem achei diferente, amei escrever e senti que teve um efeito forte. A pedidos, partilho aqui pra quem quiser ler. Com um grande beijo de agradecimento pra turma de 2016/2, que fez uma formatura linda, com discursos fortes, emocionantes, muito intensos. Valeu, gente! Um beijo grande também pros demais professores homenageados, meus queridos Marildo Nercolini, Antonio Junior e Bia Polivanov. Foi bonita a festa, pá! :)



Abaixo, o discurso na íntegra. Se prepara que lá vai textão. Mas sabe que até acho que vale a pena ler até o final? #fikaadika

Queridas e queridos formandos, colegas de universidade, familiares, amigos e amores, boa noite!

Antes de mais nada, obrigada, mais uma vez, por ser honrada com essa homenagem. Amo formaturas, é um prazer enorme estar aqui, me sinto muito lisonjeada todas as vezes em que me homenageiam nesses rituais. Portanto, começo agradecendo, de todo o coração.

Hoje quero falar de algumas coisas. Vou começar com um poema lindo de Hermann Hesse, sim, o escritor, aquele de Sidarta, O Lobo da estepe, Demian, que é também um poeta fabuloso. Pedirei ajuda a ele pra falar aqui hoje com vcs. Trata-se do poema de nome “O poeta”, composto lá nos idos de meados do século passado. Jesus!

À noite, eu muitas vezes não consigo dormir:
a vida dói.
Fico então a brincar com as palavras,
com as boas e as más,
com as gordas e as magras,
e vou nadando pelo espelho do mar delas.
Longínquas ilhas surgem com azuis palmeiras,
da praia sopra um vento perfumado,
na praia um menino cata conchinhas de várias cores,
banha-se em verde cristal uma mulher cor de neve.
Como no mar arrepiam-se as cores,
em minha alma flutuam sonhos-versos:
gotejam de prazer, enrijecem de luto,
bailam, correm, dispersam-se perdidos,
enrolam-se em palavras conformados com essa vestimenta,
interminavelmente vão trocando de som, forma e semblante,
parecem antiquíssimos e contudo cheios de inconsistência,
A maioria das pessoas não entende:
dão por loucura os sonhos e me dão por perdido
– e assim me veem mercadores, jornalistas, professores.
Crianças e mulheres muitas, de outro lado,
sabem de tudo e me amam como eu a elas,
pois também elas estão vendo o caos dos aspectos do mundo
e a elas também a deusa emprestou seu véu.

Amo esse poema, ele sempre me emociona muito.

Vou partir do final dele pra falar de vcs. Sabe o que mais amo em vcs? A alma curiosa, encantadora, de quem tem o mundo pra descobrir. Amo que vcs sejam crianças e representem o feminino, no sentido dado por Hesse no poema, como o não instituído, como a negação da ordem do discurso que encerra a diferença na loucura e vê os sonhos como perdidos. Quando vcs chegam no primeiro período e nos encontram, e aqui falarei especialmente por mim, Antonio e Marildo, com quem partilho há muitos anos esse momento limiar tão bonito, quase todos oriundos do ensino médio, tão jovenzitos, 17, 18 anos, mas mesmo os que chegam mais cascudos, vividos, mas encaram o começo ou o recomeço de uma nova faculdade, vcs chegam com esse olhar lúdico, meio assustado, meio marrento, meio amoroso, meio desconfiado, mas sempre dispostos a aprender, a trocar, a crescer junto.
E sabe o que vcs fazem com a gente? Vcs nos transformam. Falando especificamente de mim, a cada semestre, rejuvenesço um, dois, dez anos. Uma benção, nem meu cabelo quer embranquecer, pra desespero da minha irmã mais nova... E como se dá essa magia, pq é negócio de magia, minha gente!
Acontece assim, olha:
Quando vcs fazem cara de surpresa quando descobrem que negócio é negar o ócio, que tudo no mundo é híbrido, que essência é construção discursiva, que memória é uma ilha de edição, que não é possível separar o real da representação do real, que a mídia é lugar de manipulação mas também de disputas...
Quando vcs se engajam nos projetos, nos grupos de estudo, nos cineclubes, nas produções de eventos, nas pesquisas de iniciação científica, nas monitorias, no movimento estudantil, nas ocupações, nas diversas atividades do curso de mídia....
Quando vcs nos questionam, discordam, nos colocam pra pensar, nos fazem perguntas enigmáticas que embolam nossa cabeça, criticam nossos métodos, nos cobram novas epistemes, novas práticas, mais coerência entre o que estudamos e como atuamos em sala de aula...
Quando vcs me abraçam no corredor, me levam brigadeiro, biscoito, pedaço de bolo feito pelo mãe, trufa feita por vcs mesmos, me mandam recados lindos e amorosos pelas redes sociais, me enchem de afeto de um jeito que é quase inexplicável...
Quando vcs ficam com a respiração suspensa num aula que pega na veia, gente, nem tenho palavras pra descrever essa sensação, não é sempre, mas quando rola, caramba, novamente, parece coisa de magia, negócio de feitiço...
E também quando vcs me apresentam coisas novas, já escutou essa música, vc não pode deixar de ver essa série, e toma spoiler pq não temos a velocidade de vcs, pestes, já leu esse livro, olha esse vídeo, naenne, lembrei de vc quando vi essa meme, teach, dá uma lidinha nesse artigo maneiro, prof, vc não conhece spotfy ana, pelo amor!, to te mandando esse link aqui de um filme que fiz, quando der dá uma olhada e responde quando puder, ô ana, to te mandando uns poemas que eu fiz mas po vc nunca dá retorno, anaaaaaaaa, conhece esse youtuber, tem tudo a ver com sua aula...
 E quando vcs me escrevem, me procuram, me acham, às vezes nem me acham mas falam assim mesmo (rede social, email, é pra essas coisas, ne?), pra falar da vida, dos amores perdidos, dos problemas familiares, da falta de grana pra vir pra aula, das crises de ansiedade, das dúvidas com a disciplina, dos professores que só jesus na causa, do que fazer no tcc, das coisas que pensaram a partir da aula, quando puder tomamos um café, ana, a gente pode conversar um pouco, um dia podemos almoçar, hum, tenho uma vontade de ir num dos almoços na sua casa....
Quando vcs fazem trabalhos espetaculares, escrevem textos geniais, têm ideias de uma sagacidade fabulosa, interpretam os textos de formas inusitadas, escolhem objetos de pesquisa inesperados, produzem monografias de uma densidade enorme...
E quando mesmo não fazendo nada disso vcs nos mostram o quanto as aulas falaram com vcs, uma observação, um olhar, uma mudança corporal, um obrigado, um desenho, uma risada, uma presença em sala em um dia particularmente difícil...
Enfim, em cada um desses momentos, seus lindos, eu rejuvenesço, me refaço como pessoa, me transformo... e vcs me devolvem o olhar infantil pro mundo, me fazem novamente a criança, e me devolvem o olhar feminino pro mundo, expulsam de mim o instituído, “o mercador, o jornalista, o professor”... e acho todos os sonhos de novo sonháveis, bate em meu peito mais uma vez meu coração de estudante, e sigo acreditando que podemos mudar o mundo, fazer melhor, sermos melhores pessoas, bons amigos, filhos, amores, pais, pessoas no sentido mais amplo.
Sim, sei que, como diz o poema, às vezes não se consegue dormir porque a vida dói. E nesse momento pelo qual passamos no Estado do Rio, no Brasil e no mundo, a vida tem doído bastante. E sei que tem horas que essa pressão fica tão grande que vcs sofrem muito. Quero dizer pra essa plateia que está aqui: essa é uma geração guerreira, precisamos ficar atentos a isso, porqueca pressão que eles estão sofrendo não tá brinquedo, não. Aí nesses momentos aquele olhar de esperança e sonho para o mundo acaba perdendo um pouco seu lugar. É, tem vezes que não dá mesmo pra dormir, a vida dói...
Pois então, em retribuição a tudo o q vcs me deram nesses anos de faculdade, vou dar a vcs agora um presente mágico, um #ficaadika, um contra dom, como diz Marcel Mauss, uma dádiva, pra vcs usarem sem medo e sem parcimônia: quando tudo estiver parecendo sem saída, lembrem-se de vcs mesmos, quando chegaram aqui, em todos os anos passados na universidade, em que enfrentaram tantas adversidades e superaram, lembrem-se desse momento vitorioso e tão bonito que é essa formatura aqui. Lembrem-se de vcs mesmos, queridas e queridos, porque vcs são poderosos. Não esqueçam isso. Lembrem de vcs, como diz o poeta, que enxergam o caos dos aspectos do mundo porque estão vivos e são sensíveis, mas também de vcs a quem a deusa emprestou o seu véu para que continuem a sonhar, a desejar, a procurar, a aprender, a superar. Lembrem de vcs, de suas almas femininas e seus olhares de criança. Lembrem de vcs, aqueles olhinhos do primeiro período, esses olhares aqui e agora. Se vcs fizerem isso, sempre vão se curar dos males do mundo, como anualmente vcs me curam. Tamo junto! Mil vivas pra vcs, merecedores de nossos maiores aplausos!



Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Nesse 25 de dezembro de 2016, noticiou-se a morte de George Michael. Em homenagem a ele, partilho aqui uma história mágica que envolve uma de suas músicas, "Heal the pain", uma das favoritas da minha vida.
Não sei bem o ano, talvez meados da década de 2000, tipo 2006. Eu tava cismada com uma música, mas não sabia cantar, cantarolar, não conseguia lembrar de quem era, nem um trecho sequer. E ficava tentando lembrar, queria porque queria, mas não conseguia. Quem mais sofria com isso era a amada Dani Brasiliense. Vira e mexe eu tentava lembrar um trecho, mas cantarolava uma coisa esquisita e nada. Isso durou muuuito tempo.
Aí um dia eu estava tomando banho, nós íamos a uma festa, e sem querer cantarolei um "tchurururu" meio troncho. Berrei: "é essa música, é essa música". Dani ouviu e disse: "acho que já sei qual é, mas não sei cantar nem de quem é. Vou tentar descobrir pra você. Mas não vai ser fácil, quase não escuto, mas vamos ver".
Aí terminamos de nos aprontar e entramos no carro pra ir para a tal festa. Assim que demos a partida no carro, Dani falou: "vou ligar o rádio e vai estar tocando a tal música, quer ver?". Eu ri, descrente. Tinha anos que eu não ouvia a danada da música, como podia ser?
Assim que ela apertou o botão do rádio, entrou o trecho que eu havia cantarolado: "tchurururu tchururu". Ficamos em pânico!!! Comecei a berrar: "é ela, é ela!". A gente ria de nervoso. Depois de meses querendo que alguém me ajudasse a lembrar da música, na noite em que consegui balbuciar um trecho toscamente, que Dani foi capaz de reconhecer, mesmo sendo uma música pouco ouvida, ela fala que vai ligar o rádio e a música estaria tocando, e páaaaa, lá estava ela. Tava já no finalzinho e o locutor disse quando terminou: George Michael, "Heal the pain". Cara, eu fiquei maluca. Era muita coincidência!!!! Uma música de 1990!!! Tocando em 2006 na hora em que ela falou que tocaria, dentre milhares e milhares de músicas!
Eu amo essa história, acho mágica. Depois consegui a música e ela mora permanentemente no meu mp3 player, eu escuto sempre.
A notícia da morte de George Michael me entristeceu. Compartilho aqui essa história como homenagem a ele. Músicos e suas artes: são capazes de provocar as maiores e melhores magias! Obrigada, seu lindo! Valeu!

e
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Como já comentei em outros lugares, "Pai Herói", a minha novela preferida, está sendo reprisada no canal Viva. Dela veio o pseudônimo Karina Limeira Brandão, personagem de La Savalla, lindíssima como a bailarina problemática, com que assino esse blog e que já me serviu de pseudônimo em festivais de poesia, trotes, cartas para jornais e outros momentos alteregóicos múltiplos... André Cajarana e Ana Preta, tipos inesqueciveis de Tony Ramos e Gloria Menezes, foram por muito tempo meus personagens preferidos, símbolos de justiça, pureza, força, luta, coragem. Na reprise, assisto embevecida e emocionada o quanto essa percepção permanece. E que maga essa Janete Clair! Essa semana um aluno amado, o querido Abrahão, apaixonado por novela que nem eu, me escreveu pra falar o quanto estava comovido com Pai Herói. E sobre Janete afirmou: "Janete escrevia muito bem, sabia escrever pro povo". Exatamente! Que talento, minha gente! Tanto que quase quarenta anos depois (a novela é de 1979) a novela segue emocionando e falando com um jovem estudante de midia, na faixa dos seus 20 anos. Não é formidável? Gênio, "usineira de sonhos", a maior, imbatível, viva Janete!!!

Anos depois, muitos, li e me emocionei com "As ilusões perdidas", clássico de Balzac. E quando li tive a sensação de que já tinha tido o impacto de acompanhar as desilusões de Lucien de Rubempré, personagem principal do romance, chegando na cidade grande cheio de sonhos e inocência, e aos poucos sendo devorado pela maldade e perversidade daquele mundo, perdendo suas ilusões. Agora, revendo a novela, sei de onde veio minha sensação de deja vu quando li o livro. André Cajarana era o nosso Lucien de Rubempré! E com um show de interpretação de Tony Ramos, que conseguiu encenar essa passagem dura da vida entre o olhar inocente e a aquele depois das lambadas do mundo.

Mas com uma diferença: nossa maga num ia deixar a gente sem esperança, não. Nosso André Cajarana amadurece, sofre, se endurece, mas não perde sua bondade e vontade de justiça. As ilusões perdem força, mas não desaparecem. Novelas e suas redenções no final... Balzac que me desculpe, mas prefiro assim... ;)

PS: e "Alouette", canção com Denise Emmer, é linda. Na época o povo reclamou, dizia que era nepotismo pq ela era filha do Dias Gomes, que a música era chata, que ela cantava mal... olha, gente chata. Música linda e casa perfeitamente com a personagem Karina e seus dramas.