Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Como já comentei em outros lugares, "Pai Herói", a minha novela preferida, está sendo reprisada no canal Viva. Dela veio o pseudônimo Karina Limeira Brandão, personagem de La Savalla, lindíssima como a bailarina problemática, com que assino esse blog e que já me serviu de pseudônimo em festivais de poesia, trotes, cartas para jornais e outros momentos alteregóicos múltiplos... André Cajarana e Ana Preta, tipos inesqueciveis de Tony Ramos e Gloria Menezes, foram por muito tempo meus personagens preferidos, símbolos de justiça, pureza, força, luta, coragem. Na reprise, assisto embevecida e emocionada o quanto essa percepção permanece. E que maga essa Janete Clair! Essa semana um aluno amado, o querido Abrahão, apaixonado por novela que nem eu, me escreveu pra falar o quanto estava comovido com Pai Herói. E sobre Janete afirmou: "Janete escrevia muito bem, sabia escrever pro povo". Exatamente! Que talento, minha gente! Tanto que quase quarenta anos depois (a novela é de 1979) a novela segue emocionando e falando com um jovem estudante de midia, na faixa dos seus 20 anos. Não é formidável? Gênio, "usineira de sonhos", a maior, imbatível, viva Janete!!!

Anos depois, muitos, li e me emocionei com "As ilusões perdidas", clássico de Balzac. E quando li tive a sensação de que já tinha tido o impacto de acompanhar as desilusões de Lucien de Rubempré, personagem principal do romance, chegando na cidade grande cheio de sonhos e inocência, e aos poucos sendo devorado pela maldade e perversidade daquele mundo, perdendo suas ilusões. Agora, revendo a novela, sei de onde veio minha sensação de deja vu quando li o livro. André Cajarana era o nosso Lucien de Rubempré! E com um show de interpretação de Tony Ramos, que conseguiu encenar essa passagem dura da vida entre o olhar inocente e a aquele depois das lambadas do mundo.

Mas com uma diferença: nossa maga num ia deixar a gente sem esperança, não. Nosso André Cajarana amadurece, sofre, se endurece, mas não perde sua bondade e vontade de justiça. As ilusões perdem força, mas não desaparecem. Novelas e suas redenções no final... Balzac que me desculpe, mas prefiro assim... ;)

PS: e "Alouette", canção com Denise Emmer, é linda. Na época o povo reclamou, dizia que era nepotismo pq ela era filha do Dias Gomes, que a música era chata, que ela cantava mal... olha, gente chata. Música linda e casa perfeitamente com a personagem Karina e seus dramas.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Violão sempre foi uma coisa marcante na minha história. Muitas horas tocando, amigos em volta, muita cantoria pra desanuviar a alma, rir, chorar, deixar fluir, bagunçar... agradeço mt por minha mãe Maria Lucia não ter me deixado desistir depois de um ano tocando só "Noite Feliz" (mas eu gostava do professor, Clovis, falava várias línguas, me ensinava ciências, golpes de karatê, me deu um elefante de porcelana que tenho até hoje, era meio doido mas era legal, só não sabia ensinar violão hahahaha. Mas me ensinou o pouco que sei de teoria musical, e me ajuda bastante)... Pessoa boa, minha mãe se matriculou comigo nas aulas do professor Celso pra gente aprender junto. Aí a coisa andou e nunca mais parou. Violão me lembra viajar, minha amiga Pri, meus amigos de todas as fases da vida, EAC (Encontro de Jovens com Cristo, sim, eu fazia!), jogo de corda na bolsa, revistinha com cifras, festivais da canção... tive um trovador meio preto que amava, depois um di giorgio braço 16 que era a perfeição (a gente chamava de ursinho pq povo do EAC colou adesivo de urso nele hahahaha), depois um giannini que era horrível mas tá vivo até hoje lá no ap de cabofrio, depois um di giorgio 18 q me acompanhou por anos e tá quebrado aq em casa mas ainda planejo consertar, e finalmente esse di giorgio 18 q amada Dani Brasiliense me deu mas não lembra ter feito isso mas que fez, fez... ele é maravilhoso, afino o bichinho em sol pra tocar bem grave e vou dando forma pras músicas que amo do meu jeito. :)

Fiquei uns anos sem tocar violão. Por diversos motivos. Mas nos últimos anos porque tava sofrendo com tendinite na mão esquerda e depois a artrite no ombro direito. Aí veio a terapia (obrigada, Lucio!) e me fez retornar no caminho pra mim mesma. Aí veio o lian gong/acupuntura (obrigada, Rodnei!) e me libertou. Aí vieram os incentivos do afeto e cá estou eu de novo, tocando que é uma beleza, me divertindo e me sentindo uma aprendiz novamente. Música é coisa maneira, né? A gente começa e quando vê aquilo toma conta da gente.

Este post memória é tb agradecimento. Montei um kit em torno do regresso do violão na minha vida que é puro afeto, fruto de presentes de pessoas que amo muito e me amam muito. Aí me emociona só de pegar nele, mesmo antes de tocar. :)


O violão, já falei, presente da Dani. O kit fica guardado nessa bolsa vermelha motivo signo de áries coisa mais linda que ganhei de Ohana. Dentro, o caderno motivo coca-cola que me dei de presente em 2010 já visando voltar a tocar (tive que esperar muito antes de concretizar esse desejo, acho que isso aumentou ainda mais o prazer que sinto agora a cada letrinha colocada nesse caderninho) abriga as letras/cifras que vou colocando a mão, bem artesanalmente. As canetas coloridas com que escrevo letras e cifras (pegando na internet e na memória e modificando pra ficar do jeito que gosto) são presente de Lid, Dani, Tira e Ninha. Ficam dentro do estojo motivo allstar presente de Mari Baltar. Junto das canetinhas, antiga palheta e afinador eletrônico, presente de mano Luiz. As cifras novas são colocadas no caderninho de cifras presente de Marina e Rê. Pra criar tumulto, os carimbos de Like e Deslike, presentes de Tira e Ninha, ficam do lado pro povo avaliar as músicas tiradas, hahahaha. Dois cadernos, um presente lindo de Lia Bahia, abrigam o índice das músicas e seus intérpretes.





Não é muita riqueza de afeto e amor, Brazil?! Agradeço muito. Tá sendo mágico voltar a tocar e tirar música sistematicamente, por longas horas, me divertindo muito. Nesses tempos difíceis em que o mundo parece mais louco do que antes, tem sido fundamental pra manter a sanidade. Quem sabe ainda volto a compor? ;)



Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Em 12 de janeiro de 2006, tomei posse como professora concursada na UFF. Portanto, essa semana esse marco completa aí seus dez anos. Nesse processo, conheci colegas e alunos maravilhosos, muitos dos quais viraram meus amados amigos. Não vou ceder ao desejo de fazer uma lista extensa nominal porque não quero ser injusta nem deselegante. Na graduação e na pós, tive oportunidade de passar por experiências profissionais e afetivas inesquecíveis. Daqui deixo meu muito obrigada às parcerias que valem a pena. :)

Resolvi, pra marcar essa data e homenagear todos esses queridões, falar da primeira turma de Estudos de Mídia, que conheci nessa minha entrada concursada na UFF. Turma adorada e inesquecível! Muitos viraram meus amigos e sinto enorme saudade de todos. Com eles comemorei, durante anos, meu aniversário no rodízio de pizzas do seven grill (gente, sinto muita saudade disso!), fizemos festas, entramos e saímos de confusões, tivemos aulas e trabalhos memoráveis... são tão queridos pra mim que quando os encontro, vejo foto no face, recebo notícias ou lembro por acaso, sinto meu coração sempre apertado. Através deles, quero homenagear todos os colegas e alunos que marcaram esses dez anos como concursada, os treze anos na uff incluindo o período de bolsista PRODOC e os 22 anos de magistério. Cada vez que entro em sala ainda me sinto aquela menina que lá em 1994 começou sua carreira docente, sem ter noção do quanto se realizaria ali. Ainda uso a técnica louca das letras pra decorar os nomes, ainda apresento o programa aula-a-aula no primeiro dia, ainda mando notas com comentários individuais pros alunos, ainda dou gargalhada em sala com eles, ainda preparo cursos novos com o mesmo entusiasmo. Quero seguir assim até o dia em que me aposentar, feliz em aprender e conviver com eles, esses menines maravilhosos!



Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Esse ano, fui convidada pelo professor Leonardo Guelman, diretor do Centro de Artes da UFF, para realizar a curadoria do UFF Debate Brasil, projeto que acontece há mais de 30 anos no Teatro da UFF visando promover o debate de temáticas relevantes para a sociedade, a partir da universidade e seus aportes teóricos e reflexivos. Aceitei com prazer o desafio, principalmente por ser fã do projeto, ao qual compareci muitas vezes como plateia e como debatedora.


Nessa função, realizamos cinco debates inesquecíveis e planejamos outros dois que não chegaram a acontecer em função da greve dos três setores (professores, técnicos e alunos) na universidade em 2015, mas que com certeza também teriam sido lacradores. Agora, em razão de demandas outras que assoberbam a nossa vida enquanto docentes de universidade pública, me despeço da curadoria, e gostaria de expressar aqui meus agradecimentos a todos que me ajudaram nesse processo, fazer alguns comentários sobre os debates realizados e mais uma vez agradecer muito ao Guelman pelo convite, pela confiança e pela possibilidade aberta para desenvolvermos essa etapa do UFF Debate.

Assim, queria agradecer imensamente, em primeiro lugar, à Ohana Boy Oliveira, minha assistente de curadoria e mediadora em inúmeros debates, poucas parcerias na minha vida profissional são tão perfeitas quanto a que tenho com essa diva! :) Agradeço também à equipe de produção do UFF Debate Brasil, Tânia Perez, Ana Cristina Oliveira e Daisy Pinto, que há anos vem conduzindo o projeto e nos receberam cordialmente nessa parceria, e que agora seguem na coordenação do mesmo, como na produção do próximo UFF Debate Brasil de 8 de dezembro de 2015, com o tema "Faces do terror - entendendo a história". Estendo o agradecimento à toda a equipe do Centro de Artes e do
Teatro da UFF, que nos acolheram e ajudaram no que foi preciso para o pleno funcionamento dos eventos.

Queria também dizer muito obrigada a meus alunos e ex-alunos amigos, que voluntariamente me ajudaram na cobertura midiática dos debates, fazendo as postagens, fotografias, filmagens e edições: Lia Ribeiro, Clara Sacco, Ioná Ricobello, Luiza Gomes, Raphael Azevedo Silva, Rodrigo Freitas e Bruno Pacheco. O espírito colaborativo e republicano de vocês é comovente. E vão ganhar um churrasco de gratidão, aguardem!


Seguindo com os agradecimentos, meus mais sinceros a todos os convidados que toparam nossas propostas e realizaram debates inesquecíveis, de altíssima qualidade, que com certeza marcaram todos os presentes. Alguns momentos dos mesmos foram tão impactantes e emocionantes que até hoje reverberam em mim e em várias pessoas com quem falo sobre o que presenciamos (para quem quiser saber mais sobre os debates, sugiro seguir a página do Facebook do UFF Debate Brasil). Meu muito, muito obrigada a todos que listo abaixo, o mundo precisa de vocês!:

1) Debate de maio, "Infância para quem? Desigualidade social e penalização da vida", com Orlando Zaccone, Juliana Farias e Mônica Cunha, e mediação de Adriana Vianna.


2) Debate de agosto, "Novas tecnologias, velhas práticas? O poder do jornalismo sobre a opinião pública", com Paula Máiran, Octavio Guedes e Raull Santiago, e mediação de Ohana Boy.


3) Debate de setembro, "A vez e a voz dos coletivos urbanos: disputas pela cidade", com Dudu de Morro Agudo, Dani Francisco e Carlos Meijueiro, e mediação de Leonardo Guelman.


4) Debate de outubro, "AFROntando o racismo: Kbela e o protagonismo das mulheres negras em cena", com Janaína Damaceno, Silvana Bahia e Daiane Ramos, e mediação de Ohana Boy.


5) Debate de novembro, "A fantástica fábrica do preconceito: mídia, representação social e senso comum", com Marcelo Freixo, Kleber Mendonça e Dani Araújo, e mediação de Ohana Boy.


Queria aproveitar aqui também para agradecer aos convidados que aceitaram participar dos outros debates que planejamos para junho e julho, mas que não puderam ser realizados em função da greve (da mesma forma, o professor Márcio Castilho, do curso de Jornalismo da UFF, foi convidado a participar do UFF Debate sobre a questão do jornalismo, mas não pode aceitar em razão da greve):

- debate planejado para junho - tema "Vozes abertas da América Latina": processos de democratização política e midiática", convidados Dênis de Moraes, Gustavo Gindre e Paula Máiran, com mediação de Lívia Reis
- debate de julho - tema "Na Babilônia moderna: mídia e representatividade", convidados Jean Wyllys e Pedro Bial, com mediação de Marildo Nercolini.

Por fim, mas mais importante, queria agradecer ao público que compareceu aos debates, participou, ouviu, falou, perguntou, riu, chorou, se emocionou, xavecou, interagiu, aprendeu, ensinou, lotou aquele teatro. Foi maravilhoso participar dessa onda de afeto e conhecimento!






É isso. Foi uma experiência bacana e enriquecedora. Como disse acima, vivi momentos inesquecíveis nas edições que fizemos. E fico feliz por ter contribuído nesse momento com esse projeto tão importante para a universidade, que busca complexificar as discussões e colocar em pauta temas e objetos que impactam em nossa vida cotidianamente. Acredito que esta é a principal função da universidade pública e me alegro por ter participado desse processo. Sigamos complexificando, ampliando o diálogo, abrindo espaços para outras vozes e sujeitos sociais, visando democratizar a universidade para além de seus muros e títulos.


Vida longa ao UFF Debate Brasil! E muito sucesso aos que estão conduzindo o bastão agora. :)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Quando Hermann Hesse, escritor alemão, foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, ele escreveu ao seu amigo de longa data Thomas Mann dizendo: "E muitos velhos leitores meus alegraram-se porque agora fica claro que a fraqueza que tinham por mim não era apenas um pecado" (HESSE, Hermann e MANN, Thomas. Correspondência entre amigos. Rio de Janeiro: Record, 1975:87).

Pensei nisso quando recebemos, essa semana, a maravilhosa notícia de que a tese da minha querida Flora Daemon, já publicada em livro pela Garamond em 2015, Sob o Signo da Infâmia. Das violências em ambientes educacionais às estratégias midiáticas de jovens homicidas/suicidas, que tive o prazer de orientar, foi contemplada com Menção Honrosa no Prêmio Capes de Teses 2015. Flora (comigo a reboque, hehe) recebeu muitos parabéns, o que muito nos honrou. Mas o prêmio, a meu ver, só deixou claro o que eu já havia dito muito antes, desde que terminei de ler o material que ela havia me enviado: trata-se de uma tese excepcional, feito com coragem e talento.

Sobre a tese, digo de novo: é excepcional, é pra todo mundo ler! Quem quiser saber o que penso dela mais detalhadamente, pode ler, na íntegra, o doce e orgulhoso prefácio que tive a honra e o prazer de escrever para o livro: link aqui. Como explico por lá, na tese a autora "escolheu compreender o que leva jovens a optarem por gravar seu nome na história a partir de atos infames, praticando o que Flora Daemon tão bem conceituou como crimes que envolvem “estratégias comunicacionais de inscrição post mortem”. Trata-se, em geral, de ações praticadas em lugares públicos, como escolas, em que esse jovens atiram em várias pessoas, deixando um rastro de mortos e feridos, culminando sua performance com o suicídio. E que têm em comum, além dessas características, o fato de envolverem a produção do que a pesquisadora chamou de “pacotes midiáticos”, que são disponibilizados das mais diversas formas (...)". Como digo ao fim do prefácio (na verdade, um pósfácil, porque o livro fala por si), trata-se de"uma leitura imprescindível para todos, porque precisamos de mais humanidade, mais compromisso, mais complexidade, mais reflexão".

O prêmio, como brincou Hesse a respeito do seu Nobel, confirmou a todos que "a fraqueza que eu tive pela tese não era apenas um pecado". :) Trata-se de trabalho urgente e definitivo sobre o tema, que precisava ser encarado de frente. Flora Daemon deu show! Agora até a CAPES e o mundo sabem. ;) Eu já sabia.

Mas para além da alegria com essa premiação e a possibilidade de fazer o comentário jocoso aí em cima, hehe, as congratulações me fizeram pensar também sobre essa coisa de orientação. Não sou uma orientadora das mais mais. Não é falsa modéstia, não falo isso pra colher louros, sou ariana, preciso disso, não. Por exemplo, sou uma professora de excelência, sei disso, me dizem isso e sei disso. Mas como orientadora tenho lá meus percalços, não escondo de ninguém, não é das atividades acadêmicas que mais amo no mundo. Tenho dificuldade de me concentrar no tema dos outros (Flora Daemon sabe disso como ninguém, hahaha), não respondo prontamente a emails, não tenho paciência com dramas exagerados de orientandx, acho tudo meio chato, enfim, como disse, sou ariana antes de ser orientadora, hehe. Aí fiquei cá comigo se merecia mesmo esses parabéns que recebi a reboque do prêmio justíssimo de Flora, porque foi um trabalho tão autônomo, tão próprio, tão autoral...

Mas depois fiquei pensando que tenho três características como orientadora que talvez estejam aí merecendo uns aplausos mesmo: 1) sempre procuro garantir a autonomia dx orientandx pra que elx, de fato, desenvolva seu potencial no ritmo e do jeito que elx achar melhor. Na medida do possível (porque a mesma CAPES que premia é a que verga o chicote, né?), ou seja, dentro das cobranças e prazos cruéis, procuro entender as temporalidades do povo que cola comigo nessa viagem maluca de orientação, o jeito de escrever, as escolhas teóricas e metodológicas, as afinidades acadêmicas, mesmo as contradições e confusões. Tento, de todo meu coração, reconhecer e respeitar as idiossincrasias e não pressionar ninguém. E procuro lembrar que é só um TCC, só uma dissertação e só uma tese, não é a vida, que é bem maior do que isso e não cabe no Lattes. Em geral, dá certo! ;); 2) não me furto a encher orientandxs de afeto. Acho que afeto move o mundo, nos faz melhor, por isso não economizo. Algumas vezes quebro a cara, mas é da vida. Em geral, isso rende mais do que bons trabalhos, rende maravilhosas amizades para a vida toda; 3) por fim, sempre leio TUDO e ATENTAMENTE. Faço revisão, faço crítica, dou sugestão, elogio. Leio várias vezes. Oriento pra valer. Posso não ser a rainha da paciência nem da concentração em relação ao que o outro está me falando, mas meus orientandxs sabem que podem contar com minha leitura, comentários, dicas.

O resultado disso tem sido muito bom. Não é a coisa que mais amo fazer, tal de orientação, mas no geral os frutos são saborosos e belíssimos. Vide aí o prêmio justísimo da Flora. Quando a gente consegue encontrar nxs orientandxs um pouco disso tudo aí, autonomia, interesse pela pesquisa, espírito crítico, criatividade, investimento, vontade de mudar o mundo, junto com afeto, caráter e amizade, tiramos a sorte grande. Por vezes num rola e os sentimentos são de decepção, ingratidão e desilusão. Doem, mas acontecem pouco e passam rápido. No geral, pela soma de tudo, vale muito a pena. Mesmo pra uma ariana impaciente e desligada. Florite, te amo, esse prêmio é seu, você merece muito, eu já sabia, que bom que agora todo mundo sabe que essa fraqueza de elogiar sua tese num era apenas um pecadinho meu. ;))))
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Essa fase mágica tá bem poderosa mesmo. Depois do episódio do Hemingway, que narrei no post anterior, agora teve outro momento bem místico mesmo, na viagem pra Salvador/Bahia, nesse Enecult 2015.
Antes deixa eu explicar: amo Salvador, amo muito. Há anos vou pelo menos uma vez por ano pra lá. Me sinto em casa. Respiro bem. Acho linda. Esse ano fiquei meio triste, tá bem gentrificada, enquanto aquela gente não destruir a velha cidade amada não vai sossegar. Mas é sempre um lugar forte, que me marca e me dá sorte. E esse ano não foi diferente!
Começou assim: levei para a viagem meu mp3 velho de guerra. Sempre escuto as músicas na ordem em que coloquei nas pastas, meu ascendente em virgem é metódico e chatinho. Mas nessa viagem, como já tava meio enjoada das sequências, pois não mudo o repertório no mp3, em que cabem 200 músicas no máximo, desde abril, resolvi deixar no shuffle, no aleatório lá do mp3, pra pelo menos ter surpresa. Eis que, aleatoriamente, quando o avião começou a baixar, assim que o comandante avisou: "tripulação, pouso autorizado", começa a tocar aquela música linda dos Doces Bárbaros: "Com amor no coração / preparamos a invasão/ cheios de felicidade / entramos na cidade amada".
Isso na hora de pousar! Me senti muito poderosa! Adorei a coincidência, achei auspicioso. :) E como foi...
Os dias se passaram, tudo muito bom. Falei muito de antigas viagens para lá com os compas que me fizeram cia. Lembrei especialmente de uma amiga amada, que estava afastada de mim há alguns anos, de quem sentia imensa falta, mas com quem não estava conseguindo contato, e já não sabia mais como resolver esse afastamento.
Eis que no aeroporto para a volta, numa aleatória manhã de segunda-feira, estou lá na fila pra despachar a mala quando escuto a voz dessa minha amiga, que não mora em Salvador, era a mais forte e estranha coincidência possível. O arbitrário desse encontro, comigo exclamando: "mas eta que destino! Salve a Bahia! Obrigada, Salvador!", quebrou qualquer encantamento de mal-estar. E foi um reencontro tão lindo e esperado por mim, que jamais esquecerei. Obrigada, Bahia, orixás todos, obrigada cidade amada!
Entrei no avião ainda emocionada, parecia criança premiada. Coloquei o mp3, tomei o remedinho, tava lá no shuffle novamente, tocando as músicas aleatoriamente. E na hora exata em que o avião decolou, exatinha, começou a tocar novamente a música dos quatro baianos porretas, e eu fiquei tão pasma que coloquei no ouvido de Lid pra ter testemunha, porque era muito bom ter chegado e partido ouvindo, sem querer, por absoluta obra do destino, aquela música que homenageia a cidade velha e amada, a que me permitiu o reencontro e a leveza. Viva a Bahia! Viva Salvador! Cidade ainda mais amada.
Mas que essas coincidências estão demais, ah, estão... ;)


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Já tinha achado engraçado estar no Louvre vendo as pinturas holandesas do século XVII (Rembrandt, van Dick, van Goyen, Vermeer e essa turma toda) no mesmo momento em que estava terminando de ler "O Pintassilgo", de Danna Tartt, que eu havia começado semanas antes de viajar, cuja história se passa exatamente em torno de um quadro de um dos nomes desse período, Fabritius, fazendo com que vários dos nomes e quadros que agora eu via pessoalmente fossem citados e comentados. Mas fiquei emocionada com a coincidência, deu um sabor especial a minha visita ao Louvre e fim de papo, não achei nada a mais, só um acaso legal.
Mas aí veio a história do Hemingway. Antes de contar, queria agradecer à Flora por ter me enviado a linda crônica de Caio Fernando de Abreu em que ele explica como, em Paris, graças a uma coincidência cósmica, ele se conectou definitivamente à grande artista Camille Claudel (quer ler a crônica? Clique aqui). Pois bem, Flora me mandou essa crônica quando eu já estava meio abismada com algumas coisas estranhas em relação a Hemingway e Paris, e ler o texto do Caio acalmou meu coração, porque a vida tem mistérios que nossa vã filosofia jamais explicará, né?
Vamos ao meu mistério pessoal. Cheguei em Paris, cidade em que jamais havia pisado, e me deixei ser conduzida pela minha anfitriã Danic, que gentilmente estava nos hospedando. No primeiro dia ela nos levou em alguns pontos turísticos (catedral, Île Saint Louis etc.), mas o que amei mesmo foi o Jardim de Luxembourg, onde comemos um sanduba e uma tortinha deliciosa. Por mim passava o dia no jardim, ao qual prometi retornar outras vezes. Inclusive existe lá um busto do querido Baudelaire, que apadrinha esse blog, com quem aprendi muito sobre minha arte preferida que é a de flanar (isso também vai merecer outro post).




No segundo dia de viagem, ela nos levou até à rua Mouffetard, parte sul do Quartier Latin, rua muito interessante de comércio árabe, mansardas, passagem estreita e fora do circuito turistão consagrado. Rodamos por lá rapidinho, gostei bastante, e fomos almoçar na Mesquita e passear no Jardin des Plantes, tudo lindo e maravilhoso.







De lá, Dani e uma turma resolveram seguir para outro lugar, e eu e Lid resolvemos retornar para a Mouffetard, queria ver mais a rua, tinha simpatizado muito. Rodamos por lá com calma, paramos num bar pra tomar cerveja (ela) e mojito (eu), passamos por uma pracinha linda, Place de La Contrescarpe, que me deixou encantada, e seguimos por uma rua também estreita, rua Descartes, com uma série de bares e restaurantes dos mais diversos. Quando passei em frente de um deles, de cor predominante verde, simpatizei profundamente e decidi que em outro dia voltaria lá para almoçar. Comentei com Lid e ponto.




Para chegar no jardim de Luxembourg, onde tomaríamos o metrô, caminhamos aleatoriamente por algumas ruas, meio no sexto sentido, eu dizendo "vamos por aqui, agora dobra ali". Passamos por uma igreja muito bonita, Saint-Étienne-du-Mont, passamos por outra igreja menor, onde Woody Allen gravou cenas de "Meia-noite em Paris" e desembocamos na Praça do Pantheon, tudo meio por acaso, sem consultar mapa, seguindo a intuição.


 Quando chegamos no Boulevard Saint-Michel, cerca de 20h, ficamos procurando um café para ficarmos um pouco, mas nada nos agradou muito. Sugeri então pra Lid voltarmos à simpática pracinha, que não era exatamente pertinho, mas ela topou. Resolvi ir por outro caminho, também aleatório, confiando novamente numa intuição, e chegamos mais rapidamente à rua Descartes e a praça de Contrescarpe, onde ficamos até umas 22h nos deliciando. Retornamos andando para o Pantheon e me prometi que até o fim da viagem voltaria àquele lugar, com o qual havia simpatizado profundamente, e almoçaria no simpático restaurante verdinho.
Pois bem, a semana foi passando, Paris se apresentando, fui conhecendo lugares lindos, monumentos inesquecíveis, tudo maravilhoso. Mas seguia considerando aquele trecho Mouffetard/Place de Contraescarpe/Rua Descartes meu preferido até ali. Também ao cabo desta semana terminei enfim "O Pintassilgo" (sobre o qual farei um post caprichado depois) e fui escolher, em meios aos trinta livros que havia salvado no kindle para levar para as férias (exagerada e prevenida, quem nunca?), um para ler. O primeiro em que bati o olho foi "Paris é uma festa", de Ernest Hemingway, e falei: "taí, vai ser legal ler esse aqui, agora".
Num tenho muita intimidade com Hemingway. Li e amei "O sol também se levanta". Não li os outros consagrados. Sei que ele morou e escreveu em Paris nos anos 20 porque vi em filmes e em outros livros que havia lido, mas nada demais. Então, comecei a ler sem muitas expectativas.
Aí já no primeiro capítulo começo a ficar levemente impressionada. Hemingway morou exatamente nos arredores da Place de Contrescarpe, que amava. Tinha um quarto com a esposa na Cardinal Lemoine, bem na divisa com a Praça, e alugava outro só para escrever na rua Descartes. E amava a Mouffetard. Ele conta, numa passagem do livro, que conversando com Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company, que ficava na rue de l'Odéon, não muito longe de onde Hemingway morava, que ela não conhecia aquela parte de Paris, era uma zona mais pobre, boêmia e periférica de Paris (hoje já bem mais turística). Ele conta também que para ir de sua casa ao jardim de Luxembourg, seu outro lugar preferido (outra coincidência) ou para a casa de Gertrude Stein, que ficava na rua de Fleurus, bem próxima ao Jardim, ele optava por um caminho alternativo. E quando ele descreveu o caminho senti medo de novo, porque era o mesmo que eu, aleatoriamente, havia escolhido fazer naquele dia, sem mapa, sem noção alguma de Paris ainda. E que, para voltar do Jardim para a Praça, ele fazia um segundo caminho, menos charmoso mas mais rápido, novamente o que eu havia escolhido fazer.
Isso me impressionou, comentei com Lid e com algumas pessoas, Flora me mandou o texto do Caio, enfim, já tava bonito. Mas teve mais. No dia seguinte à leitura desse capítulo do livro, fomos para Montparnasse. Também adorei, e fui escolhendo lugares aleatórios para pararmos, para tirar fotos, para flanarmos. Pois bem, chego em casa de noite, retomo a leitura e tá lá, o homem e sua família, na sua segunda rodada em Paris, se mudaram para Montparnasse, moraram exatamente no trecho em que rodamos, ia nos restaurantes e cafés que me encantaram. Tava começando a achar estranho mesmo. Mas deixei quieto.


Nos dois últimos dias, eu e Lid resolvemos nos presentear com dias mais livres, voltando aos lugares que mais tínhamos gostado. E no último dia fomos novamente para a Mouffetard e para a Place de Contrescarpe, queria almoçar no restaurante verdinho simpático. Pra evitar muita contaminação com o livro, porque já estava meio impressionada, optei por irmos por um novo caminho, bem mais longo, mas que nos fez conhecer novas e agradáveis ruas. Quando chegamos na rua Descartes, já por volta das 16h, procurei o restaurante verdinho e vi que ele estava fechado, na hora da limpeza. Nos aproximamos pra ver melhor, pra ver que horas abria etc. E quando cheguei perto, vi uma placa na entrada, INDICANDO QUE ALI HAVIA MORADO HEMINGWAY. A minha cara na foto abaixo indica meu pavor.


Juro, fiquei com medo, era coincidência demais. Um pouco por conta disso, em parte pela grosseria do garçom que jogou água na gente para continuar lavando a calçada (hahahahaha, franceses!), optamos por almoçar em outro restaurante, na Place Contrescarpe, que, OBVIAMENTE, era colado ao prédio em que Hemingway morou na rua Cardinal.





Alguém me explica? Tô impressionada até agora. Depois, com calma, vou até ler os outros livros desse homem, porque parece que ele quis falar alguma coisa comigo.
Amei Paris, e amei especialmente os lugares que ele amava. Tamo junto, Hemingway! Jamais esquecerei essa experiência mística.