Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
No capítulo de ontem, sábado, 21 de dezembro, na novela Amor à vida, Felix debochou da árvore de natal branca, "cafona", que Márcia estava montando, e nostálgico lembrou das árvores de natal que sua mãe montava em sua casa, pinheiros gigantes, verdinhos, hehehe. A cena foi ótima, os dois atores deram o show de sempre (Mateus Solano e Elisabeth Savalla, seus lindos, vcs estão salvando aquela novela pavorosa!), e me fez lembrar minha própria história com árvores de natal, ligadas à minha mãe Maria Lucia.

Minha mãe é fã do Natal. Sempre foi. Até hoje. Mexi com ela outro dia dizendo que Papai Noel tava mandando um abraço de agradecimento pra ela porque no decorrer do mês de dezembro ela era praticamente a única, no Facebook, a falar frequentemente do Natal e de suas mensagens positivas, hehe. Ela sempre fez com que em nossa vida familiar (e de muitos de nossos amigos, em especial em nossa infância em Conceição de Macabu) os natais fossem especiais. E não pelos presentes (embora também), e não pela comida (embora também), mas pelo clima de festa e alegria que nos ensinou a partilhar. E a árvore sempre foi parte desse clima.

Ela já fez uma árvore com moedas de chocolate (no ano do Plano Cruzado, hahaha). Outra só com bombom. Ano passado fez uma com corações de pano com nossos retratos costurados em cada coração (que depois ganhamos de presente, o meu tá em cima da prateleira do meu computador de mesa, só me lembrando esse amor maravilhoso). Claro que escondemos o coração com o retrato de nosso primo Lucio, no dia em que ele nos visitou, só pra ele achar que foi esquecido, hahaha, claro que a maldade durou só um pouco, depois mostramos que ele também tinha direito a um coração, implicância antiga entre primos-irmãos, hahahaha. Esse ano fez árvore com borboletas, como mostro na foto no fim desse post. Enfim, é uma inventadeira.

Mas tem um natal e uma árvore em especial, que quero lembrar aqui. E foi a árvore branca da Márcia da novela que me lembrou dela, hahaha. Foi num natal há muitos anos, em nossa casa em Macabu. Era uma árvore branca, e já tava bem estropiada, coitada! Mamãe teve uma ideia de ouro: resolveu enfeitar a árvore com doces, dos mais diversos tipos. Tinha bombom, batom, flumelo, caramelo de leite, jujuba, pirulito etc. Muitos. Cada galho tava lotado desses doces. Estávamos todos, meus irmãos e primos, na fase dos 8, 10, 12 anos, hahaha. Passamos os dias anteriores ao natal sondando a árvore, cachorro olhando frango de padaria, gulosos e sonhadores, mas ninguém buliu nadica na árvore, que tava proibido e o que mamãe falava era lei.

Aí chegou a noite do dia 25. Uma certa hora, no decorrer da ceia, mamãe gritou: "crianças, vamos pegar os doces na árvore. Façam fila, um por um, cada um pega um doce e vai pro fim da fila de novo, pra pegar mais". Isso umas vinte crianças. Tudo ia mais ou menos bem quando começou o empurra-purra, a confusão, as crianças tentando furar fila, minha mãe tentou organizar umas duas vezes, por fim, aquariana que só, falou: "ah, chega! Atacaaaaaaaaaaaaaaaaar". E liberou geral pra criançada dar na árvore.

A cena que se seguiu foi inesquecível. Vinte crianças escalpelaram em minutos uma árvore de natal, cada uma que conseguia pegava um galho cheio de doce pendurado e saía correndo pela casa, carregando o seu troféu de guerra, sendo perseguida por outras em disputa, hahahahahaha. Eu e meu primo Lucio (o mesmo do coração escondido lá de cima) corríamos berrando, cúmplices sempre: "mear, mear", o que significava: "pega qualquer coisa, não escolhe, depois a gente divide", hahahahaha. O ápice da loucura: entro no quarto e vejo minha avó se trocando com uma criança por um flumelo, os dois no puxa pra aqui, puxa pra lá, disputa dura, hahahahaha.

Foi uma noite inesquecível, aqueles vinte demoninhos correndo pela casa, a sensação ao final quando repartimos o butim, pra mim aquele foi um natal com gosto de flumelo, jamais esquecerei. :)

Mas pensa que acabou? Não. No dia seguinte a mãe aquariana, vendo aquele cadáver de árvore, com os galhos todos retorcidos, resolve que é hora de fazer o enterro da árvore, com uma fogueira da mesma no quintal. Com as crianças em volta dançando e cantando. Cantando música natalina, com certeza, mas também de festa junina e até o hino nacional, hahahahha. Ela só assistindo e rindo da janela da cozinha.

Até que resolvemos pular fogueira. O piso do quintal era de cimento, já meio com limo. Quando meu amigo Johnny foi pular, o pé dele escorregou no limo e e ele abriu um espaguete em cima da fogueira, e as crianças más (eu, irmão e primos), nós, num deixamos ele ir pra lado nenhum, segurando e puxando as mãos dele, de maneira que ele ficou com a perna aberta, em espaguete, em cima da fogueira, tentando pular e berrando: "ai, ana, tá queimando meu pinto, tá queimando meu pinto", hahahahhaha. Soltamos o pobre rapidinho, nada de grave aconteceu, mas rimos por horas nesse dia.

Esta é uma lembrança inesquecível de natal. Sinto falta de nossa casa de Conceição e daquele natal em família. Mas minha mãe aquariana fez com que aqueles natais ficassem gravados em nossas mentes e corações, e de algum modo ela os recria anualmente, em sua casa em Niterói ou em seu perfil no FB. Papai Noel te manda um abraço de gratidão, mãe. Nós, também.


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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hoje um ex-aluno querido comentou no FB sobre dor na sola do pé e dei umas dicas pra melhorar, pq fiquei PHD nisso depois que sofri meses, em 2008, com a tal da fascite plantar, uma inflamação pavorenta na sola do pé que deixa a gente bem biruta e irritado.

Daí lembrei que na época em que sofri com a fascite, me ajudava muito encontrar algumas infos na internet, era alentador ver q tinha alguma solução praquela dor chata infernal. Tava devendo fazer o mesmo, partilhando minhas descobertas e frustrações na busca pelo tratamento.



Assim, resolvi fazer esse post aqui relatando minha experiência e indicando o que de fato me fez melhorar e hoje saber como prevenir essa dor. Espero ajudar a alguém, como muitos me ajudaram com seus posts, blogs, comentários.

1 - sintomas: a fascite é uma dor que começa aguda na sola do pé e depois vira crônica se vc num cortar o processo inflamatório. Muitos ortopedistas diagnosticam primeiro esporão do calcâneo, o que atrapalha ainda mais pra vc começar a tratar. A dor piora muito depois que a fascia, que fica embaixo do nosso pé, relaxa, e isso acontece principalmente pela manhã, qdo a pessoa parece pisar em caco de vidro qdo acorda e pisa no chão. Gosto nem de lembrar.

2 - O que ajudou a suportar por algum tempo, mas não resolveu nada no final das contas: a) salmoura na água quente toda noite (botava até sais na água pra meus pés ficarem relaxados e gostosinhos, hehe); b) relaxante muscular qdo tinha que usar mais o pé (caminhar, dar muita aula etc.), em especial dolamin flex, um relaxante porreta (mas só use remédios mais fortes depois da consultar um médico, não se esqueça); c) injeção de cortisona dada por ortopedista na planta do pé (a aplicação doeu que nem uma praga, e depois de um mês voltou a fascite com os mesmos sintomas. Mas naquele mês, em que eu tinha uma viagem pro exterior e ia andar muito, me ajudou bastante. A ortopedista me avisou que era paliativo); d) tomar anti-inflamatório forte (tomava arcox, dado pela ortopedista, que depois foi proibido pela ANVISA), mas isso só resolveu por um tempo, depois voltou. Na verdade, o anti-inflamatório só serve pro início da doença; e) saber por vários depoimentos e tb por indicação de amigos que entendiam da doença (médicos, fisioterapeutas, professores de educação física), que ela tem uma curva de ascendência de 6 a 9 meses e depois começa a melhorar, isso me dava ânimo por saber q uma hora aquele martírio ia passar ou melhorar.

3 - O que me ajudou de verdade: a) acupuntura (foi essencial na fase aguda, pra tirar a dor mais constante); b) alongamentos na panturilha (veja o vídeo com a dica de alguns alongamentos, esse vídeo foi muito importante pra mim). Além desses dois alongamentos citados no vídeo, aprendi com um fisioterapeuta a fazer um terceiro tipo de alongamento, da seguinte forma: suba em um degrau de escada. Coloque um dos pés na borda do degrau, apoiando mais ou menos no meio da sola, de maneira que uma banda do pé fique no degrau e a outra pendurada. Aí coloque o peso todo sobre esse pé e alongue por 20 segundos. Faça o mesmo com o outro pé; c) alongamentos em geral, em especial na hidroginástica, que tem baixo impacto; d) não usar mais sapatos baixos, como sandálias sem salto, tênis all star e havaianas; e) usar uma bolinha daquelas de fisioterapia constantemente pra alongar a planta do pé, colocando a bola no chão e a sola do pé sobre a bola, rolando-a de forma a massagear e alongar a fáscia.

4 - O que faço pra prevenir e a dor não voltar: a) uso sempre tênis com amortecimento de impacto (o único que realmente acaba com minha dor é o Nike Pegasus, que tem tecnologia cushlon de amortecimento) e palmilha de gel para caminhar ou ficar em pé longamente. Também uso chinelo com amortecimento (havia um perfeito da Speedo, mas num fabrica mais; o NK5 da Kenner é ótimo); b) faço sempre os alongamentos que citei acima; c) sempre que o pé dá sinais de dor uso a bolinha pra alongar a fáscia (deixo perto do sofá da sala, pq faço vendo tv); d) uso vez por outra um produto pra massagear a sola do pé quando ela está dolorida, como Nocauteador ou Aliviador.

Curei a minha fascite com técnicas caseiras. Achei as técnicas médicas muito invasivas e dolorosas, além de ter lido muitos depoimentos dizendo que elas não adiantaram de nada.

Como disse antes, estou partilhando por solidariedade. É uma dor chata e incômoda, não desejo a ninguém. Por isso, se vc está sofrendo com a fascite, calma, vai passar. Alguns dos procedimentos que indiquei acima ajudam na cura e aliviam. Se vc está acima do peso, como eu, melhor ainda é emagrecer pra evitar de vez os sintomas. Mas essas medidas já ajudam bem. Boa sorte!
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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem, dia 14/11/2013, vivi a experiência de sete horas e meia de engarrafamento, das 13h até 20:30, no percurso Duque de Caxias até Icaraí/Niterói, que deveria ser feito em no máximo uma hora, em situações normais. Para não me estressar muito, ontem, no decorrer dessa maratona, aproveitando que estava em uma cia muito legal, ri, brinquei, postei no FB, ouvi música, comi pipoca do saco rosa, água da montanha sabe-se deus de onde, enfim, levei na esportiva.
Mas hoje, já fora do estresse, queria dizer que não podemos aceitar isso, não podemos naturalizar esse absurdo. O engarrafamento de ontem, véspera do feriado, não resulta só do excesso de carros saindo para viajar, mas da política inacreditável de transporte público, da especulação imobiliária, da falta de planejamento viário, de todo esse inferno a que estamos sendo submetidos por esses políticos que fazem do Estado parceiro de negócios do grande capital.
Tenho falado sobre o quanto a mobilidade urbana está sendo comprometida com a atual política de transportes e planejamento urbano. Isso tenderá a isolar muito, fisicamente, lugares mais periféricos de centros de concentração dos aparelhos culturais, políticos, sociais. Temos que nos mobilizar contra isso, denunciar, lutar. É uma forma de apartheid via trânsito, que irá cada vez mais dificultar e praticamente inviabilizar a circularidade na cidade, essencial para a democracia e para a diversidade cultural.
E olha que ontem estava de carro, que, mesmo sem ar condicionado, ainda me dá um conforto. Li relatos de pessoas que esperaram duas horas pelo ônibus e ainda encararam outras maís dentro do coletivo até chegar ao seu destino.
A pesquisa divulgada ontem nos principais jornais do país constata o que o carioca/fluminense percebe no seu dia-a-dia: "Rio tem o terceiro pior trânsito do mundo" (http://oglobo.globo.com/rio/rio-tem-terceiro-pior-transito-do-mundo-diz-pesquisa-10775611). Isso não é motivo de comemoração nem de orgulho. Isso deve nos indignar e nos fazer cobrar uma efetiva política pública para mitigar esse caos. Em nome de nossa saúde, em nome do meio ambiente, em nome da democracia, em nome da circularidade física e cultural. Na hora a gente ri pra num ter pico de pressão nem ficar doido. Mas num é coisa pra rir, não.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Santiago, capital do Chile, que conheci recentemente, tem várias características encantadoras. Os parques, em primeiro lugar. Belos, arborizados, limpos, agradáveis, aconchegantes aos passantes. Bancos pelas ruas, mobiliário urbano que nos convida a sentar e ocupar. Praças limpas, monumentos grandiosos e bem conservados. Um metrô limpo e muuuuito eficiente, uma beleza. Restaurantes e comida em geral excelentes.

Mas tem coisas bem contraditórias, também. Aquela poluição fazendo a cidade estar envolta em uma permanente nuvem que nos impede de ver o horizonte e a cordilheira. A evidente marca da distinção de classe, fazendo com que as pessoas de traços indígenas estejam praticamente destinadas aos empregos informais ou menos qualificados. Uma mistura de ar europeu na classe média com uma cafonice provinciana, fazendo com que muitas vezes os chilenos sejam discretos e indiscretos ao mesmo tempo, elegantes e rudes ao mesmo tempo, refinados e grosseiros ao mesmo tempo. E, principalmente, a ausência de cor. Fiquei pasma, realmente impressionada com a ausência das cores. Tudo muito cinza e marrom. As pessoas se vestindo basicamente de cores austeras, em especial o preto. Tudo muito preto, cinza, escuro. Aí vc chega nas lojas de comércio popular, de artesanato local, tudo colorido. Mas isso não está no dia-a-dia, na vida comum, na cara da cidade. Isso me impressionou e entristeceu muito. Imagino como deve ter sido lindo e rico em colores, misturas, culturas aquele Chile antes de ser tomado pela melancolia e pela tentativa de imitar a Europa no processo colonizador.

Durante meus dias em Santiago, reli Meu país inventado, livro de memórias da Isabel Allende (RJ, Bertrand Brasil, 2009) sobre sua terra que não é natal (nasceu em Lima), mas que é como se fosse, e de onde precisou partir após o golpe. Foi bom ter a cia da escritora nesse meu olhar sobre o Chile, ela me ajudou a decifrar algumas coisas. A busca do padrão europeu, por exemplo. Ela nos conta que a classe média/alta chilena tem obsessão pela Inglaterra, então, faz parte de um estilo apropriado parecer inglês. Isso explica muita coisa. Ao mesmo tempo, ela nos conta que a cordilheira criou um afastamento do mundo que faz do santiaguense um sujeito meio desconfiado, provinciano e muito fechado. Também fez sentido. E, principalmente, me fez bem a forma como a autora constrói suas memórias, como uma narrativa sem pretensão à verdade, a história de um "país inventado", como ela nos explica no trecho abaixo:

"Construí a ideia do meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente. Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, como múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra. Andrea, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: "Gosto da imaginação da minha avó". Perguntei-lhe a que se referia e ela explicou sem vacilar: "Você se lembra das coisas que nunca aconteceram". Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?" (ALLENDE, 2009:216).

Conhecer o Chile sempre foi um sonho, pela história que precede meu nascimento e que contei em outro post. Confesso que foi um pouco decepcionante o Chile com que me deparei, nesta experiência de uma semana em Santiago em outubro de 2013. Assim, vou seguir as dicas da Allende e inventar o meu Chile, com seus parques, as memórias de minha mãe, o Jardim de Mariscos do Mercado Central, todas as pessoas simpáticas do povo que me atenderam nos lugares mais populares, em especial o garçom Hernán, do Mercado, que declarou para meu amor, quando eu estava ausente, que queria me dizer uma coisa, me dizer que eu "tinha um coração muito grande, que era especial", depois de termos passado uma tarde de cantorias, provas gastronômicas e traduções de parte a parte. Esse é o Chile que imaginei, alegre, fraterno, aconchegante, cantante e generoso. E no meu Chile há de haver muitas cores, muitas.



Como diz a letra da linda canção "Latinoamérica", do grupo Calle 13, que meus queridos Kleber Mendonça  e Leonardo Nascimento me apresentaram na volta do Chile: "Tú no puedes comprar mis colores/ Tú no puedes comprar mi alegría/ Tu no puedes comprar mis dolores"... Quero te encontrar, Chile querido, América Latina querida, em outras vozes, que não de sua classe média europeizada, triste, com suas roupas escuras e sua ausência de cores e espontaneidade. Por isso, voltei a ler e ouvir Galeano, Neruda, Allende, Violeta Parra, Victor Jara e outros mais, para que sejam meus companheiros de imaginação. Viva meu Chile inventado e colorido!

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Meus pais viveram no Chile no ano anterior ao meu nascimento. Fui concebida em Santiago e eles foram para o Brasil alguns meses antes do dia em que nasci. Isso, evidentemente, me faz um pouco chilena. E ainda tenho esse cabelo de Zamorano e essa cara de Mercedes, portanto, algo muy fuerte me liga a este país. ;)
Estou aqui agora. Hospedada em um apart na Calle Merced, exatamente a rua em que meus pais moraram.
Quando fui escolher um hotel para vir para cá, aleatoriamente no site do Decolar, sem saber do endereço em que eles residiram e sem informações sobre bons lugares para hospedagem em Santiago, só escolhia hotéis nessa rua, pelas fotos, pelo preço, enfim, totalmente aleatório. Achei engraçado e num reservei logo, pra me informar melhor. Quando cheguei na casa de minha mãe, ela, sempre criativa e amorosa, tinha feito uma apostila com dicas de viagem para Santiago para que eu trouxesse comigo. No guia amoroso que ela criou, tinha um mapa indicando onde era o apartamento em que eles viveram e para meu espanto, era a Calle Merced. :) Ou seja, segue o mundo mágico me apontando os caminhos.
Ontem andei pela Calle Merced, me senti muito bem e feliz por estar aqui. Além de uma graça, ela é perto de tudo, dos monumentos, da casa de Neruda, do Cerro Santa Lucia, dos parques, do Mercado Central, dos museus, do metrô, enfim, espetáculo. Em seus arredores as ruas são charmosas com bares e cafés deliciosos. :) Conhecer Santiago é um pouco a realização de um percurso, uma volta a algo original ainda que inconsciente. Talvez isso explique o amor que sempre tive pela Latino América. Em todos os lugares em que ando pelos países da América Latina, me sinto meio em casa. O Chile pulsa em mim também, e me sinto bem-vinda nessa volta à casa. Gracias a la vda!
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No Globo Niterói de 15 de setembro de 2013, notícia pra desesperar o pobre niteroiense: na semana de "mobilidade urbana" (em Niterói? hahahahahahahhahaha), de 21 a 28 de setembro, será instalada uma ciclovia "temporária". hahahahahaha. Tão de mta sacanagem, né? Vai paraaaaaaar tudo! Essa gente é louca. Dou a maior força pra ter ciclovia, mas colocando cones nas vias já enlouquecidas de trânsito da cidade, quem acha q isso vai ser bom, gente??? Já num basta a ciclovia fake na Av. Roberto Silveira em que a faixa para os ciclistas ocupa o mesmo espaço que os pontos de ônibus, o que levaria, um ou outro, ciclistas ou ônibus, a ter q aprender a levitar pra isso dar certo??? Não, pelo visto num basta. Ou já num basta aquela ciclovia maluca em São Francisco e Charitas, que só funciona em alguns horários, no restante é estacionamento, o que faz com que nem ciclistas nem motoristas saibam bem quando podem fazer o quê? Não, pelo visto num basta. Já num basta aquela ciclovia assassina/suicida na Estrada Fróes (gente, fico pasma como tem gente que tem coragem de andar ali!)? Não, pelo visto não basta. Na matéria, alguém declarava que a ciclovia "temporária" seria um teste para ver como o trânsito reagiria. Olha, precisa fazer o teste não, pergunta pra qualquer motorista de Niter se colocar cones pra criar faixa de ciclovia nesse trecho aí do mapa abaixo vai dar certo. Eu já respondo: vai dar, não. O que daria certo era num ter incentivo pra carro zero, o que fez a taxa de veículos novos em niter subir assustadoramente nos últimos anos; o que daria certo seria não verticalizar a cidade como vem sendo feito nos últimos anos, na maior farra de especulação imobiliária irresponsável, com uma explosão de edifícios, pessoas e carros em bairros que não têm a menor condição de receber esse aumento; o que daria certo seria um projeto de reforma para o centro da cidade que não incluísse a previsão de prédios de 40 andares; o que daria certo era uma CPI pra valer nos transportes, revendo a vergonha que é a prestação do serviço de transporte coletivo na cidade; o que daria certo seria o MP de fato interpelando o poder público sobre os pontos acima; o que daria certo era um investimento pra valer em inteligência de engenharia de trânsito, e não ficar mudando mão de rua como quem tá brincando de montar cubo mágico... o resto, minha gente, é uma grande de uma palhaçada pra usar dinheiro público, fingir que tá fazendo discussão sobre mobilidade urbana, dar uma de ecologicamente correto às custas de uma cidade engarrafada e num resolver nada. Na semana da mobilidade urbana, minha dica: "Corrão pras montanhas!"


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:


episódio 1: tava passando pelo campo de são bento e um casal tava tentando se auto-fotografar no meio das árvores, ela grávida e ele todo bobo. Cheguei a passar, tava meio correndinha pra ir ao médico, mas resolvi voltar e me ofereci para fotografar os dois, pq achei a cena singela e bonita. Primeiro levaram um pouco de susto, depois agradeceram e sorriram para a foto e para mim quase que iluminando o dia. gentileza gera essa luz...

episódio 2: ainda no campo, vi passar três meninos, bem pequenos, com skate, fazendo manobras que nem os pinguins da bala halls, hehe, tudo feliz, de uniforme, na algazarra. Tinha visto os mesmos leleks no asfalto, na avenida roberto silveira, quando fui atravessar para pegar o campo de são bento, e eles estavam naquela faixa de ciclovia RIDÍCULA que a prefeitura de niterói inventou, que é cortada pelos pontos de ônibus e pelos carros que têm que virar à direita. Por várias vezes, os meninos quase foram atingidos pelos ônibus, que, com os motoristas estafados e mal preparados, são predadores urbanos. Quando os meninos passaram por mim novamente no campo, chamei: "ei, psiu, meninuuu, chega aqui". Pararam, meio desconfiados. Falei: "po, vcs estão andando super bem nesse skate, tão mandando mt bem, dá gosto de ver"! E eles: valeu, tia, valeu, tia, assim tímidos, mas gostando do elogio, e ainda desconfiados. Continuei: "po, mas num anda la no asfalto assim nao, pela pista, povo num respeita, e ai como é que fica? anda so aq no campo, fico preocupada c vcs, tao novinhos, mandando bem, mas correndo risco". Eles, ja sorrindo e relaxando: po deixa, tia, valeu, tia, manero, tia. e pronto, partiram riscando o chão com seus pés de sonho. adoro! Gentileza gera também essa leveza...

episódio 3: já saindo do campo (isso já tinha bicado o horário do médico, mas quem nunca?), fui abordada por um menino, uns 17 anos, afro-descendente, uniforme escolar, educadíssimo, me pedindo pra ajudar numa rifa pro colégio, "num se assusta não, num é assalto, só dois reais, senhora!, pra um evento da turma". Falei, beleza, pera. Catei no bolso de trás da calça, dois realzinho, dei pra ele, anotou meu nome na rifa, me deu o papel, sorriu bonito pra caramba pra me agradecer. Eu disse:" menino, como vc é bonito", e passei a mão de leve no rosto dele, mania que tenho de fazer com meus alunos de forma gera! Sorriu mais ainda e me abraçou meio sem jeito, aquele abraço meio de pai quando tá sem graça com filho, hehe, disse "obrigado, poxa!". e foi lá contar o din com os outros dois amigos q abordavam outras pessoas, olhando pra mim e sorrindo. Mais tarde, depois do médico, fui comprar uma bobagem pra comer e vi q tinha perdido dez reais que estavam no mesmo bolso.Torci pra ter perdido naquela hora e eles terem achado pra juntar na rifa. Gentileza gera um atraso no médico, uma nota perdida, um bando de caso bobo mas doce pra contar e uma penca de sorrisos iluminados... bem, essa foi uma pequena parte de meu dia doce e feliz. só partilhando.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Mais um instigante artigo no Prosa e Verso de ontem sobre a polêmica dos concursos para professores, que já vem sendo discutida no caderno de O Globo há três sábados. Nele, o autor, Claudio Gurgel, questiona, como muitos de nós, os critérios produtivistas que vêm sendo usados para mesurar a qualidade do trabalho do docente universitário. Reproduzo abaixo parágrafo com o qual concordo inteiramente:
"A universidade tem três finalidades: o ensino, a pesquisa e a extensão, devendo estas atividades ser associadas – o que significa que são ângulos de uma pirâmide, que a apoiam e se apoiam. Entretanto, o mais importante e determinante órgão público com “a tarefa de coordenar a avaliação da pós-graduação”, como se lê no seu site, a CAPES, pouca importância dá às aulas ministradas, às orientações dadas, às bancas feitas, aos projetos de extensão, às atividades dos grupos de pesquisa, aos debates, às entrevistas concedidas e até mesmo aos trabalhos apresentados em congresso pelos professores do ensino superior. Nada disto tem peso expressivo na pontuação de um professor, segundo a CAPES".
Por tudo que faço, pela professora que sou, pelo quanto me dedico ao ensino e à extensão, me sinto profundamente injustiçada com esses critérios. Não sou e nunca serei uma máquina de produzir textos, embora como jornalista de formação isso seria muito fácil para mim, na boa, mas muito fácil mesmo... Mas considero que escrever e publicar é somente uma parte de meu trabalho, que tem outros ângulos, alguns dos quais me tomam um tempo imenso (preparação das aulas, por exemplo) e, embora sejam fator fundamental para que minhas aulas sejam sempre cheias e eu seja reconhecida como uma professora de qualidade, nada contam para a CAPES. Assim como outros colegas, por tudo o que faço e pelo reconhecimento que meu trabalho tem nesses vinte anos de magistério, me sinto prova viva e testemunho de como esses critérios produtivistas são reducionistas e não conseguem dar conta do que se pretende em termos de análise. E seguirei praticando a docência na qual acredito, eu e muitos de nós, que não se curvaram à aplicação da lógica perversa do capital e seus índices produtivistas a esse fazer cotidiano, subjetivo, intenso e complexo que é dar aula.
Para quem quiser ler o artigo todo, o link é esse (o texto está abaixo, pq não estou conseguindo linkar só para o artigo, intitulado "Concursos na universidade: voltando ao ponto". Antes desse, tem um outro, com o nome "Silêncio ensurdecedor", do Angelo Segrillo, que também toca no ponto dos concursos, tendo sido, inclusive, autor do primeiro artigo que iniciou a polêmica)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem, dia 8 de agosto de 2013, tivemos a aula de encerramento do curso de Mídia e Mobilização Social, que tive a sorte e o azar, pelo mesmo motivo, de estar ministrando no curso de Estudos de Mídia justamente neste semestre em que eclodiram as manifestações todas nas ruas e nas redes sociais. Sorte e azar porque ficamos no olho do furacão, tivemos muito trabalho, eu e o querido Jader Moraes, meu orientando de mestrado e que dividiu essa disciplina comigo, para acompanharmos todos os acontecimentos, estarmos ligados, preparados para as discussões, que obviamente levaram os alunos também a ansiosamente se prepararem, lerem muito, participarem das manifestações, dos debates etc. Nunca aprendi tanto em um semestre como nesse, em tão pouco tempo. Evitei divulgar aqui que estava dando exatamente essa matéria, com esse nome, por que povo num ia me deixar em paz e por que as aulas, normalmente já muito cheias, ficariam impossíveis. Agora que acabou, posso falar sobre isso, sem estresse. Acho que estamos atravessando um momento fabuloso e que rende muita coisa para pensar, mas poucas vezes me senti tão weberianamente contemplada, por que como aprendi com esse amado pensador, a realidade como totalidade é inapreensível, e os recentes acontecimentos, nesse "mosaico de parcialidades", como disse o Capilé no "roda tonta", leia-se roda viva, mostraram isso de forma muito evidente. Apreendemos fragmentos, recortes, produções de sentido em mutação permanente. Isso é a vida e a ciência, como pretensão cartesiana, só pode se enganar e enganar aos demais. Acredito nessa ciência que curiosamente tenta compreender as ações sociais a partir de seus textos e contextos, seus atores e significados, suas lutas e processos, sem pretensão à verdade. Este foi um semestre maravilhoso para ensinar isso aos meus alunos. Mas também aprendi muito, com eles em sala, com tudo que li, ouvi, presenciei, discuti, com todos os maravilhosos convidados que aceitaram ir partilhar suas experiências generosamente conosco em sala de aula (o que inclui também o curso no PPCULT de Cultura e Práticas Sociais, que dividi com a amada Adriana Facina), também nos lembrando a vocação da universidade de ser um espaço plural, diverso, aberto para trocas e múltiplos sujeitos, o que ela historicamente se recusa a cumprir. Nossa luta política também passa por aí, por construir uma universidade menos torre de marfim, distinção, umbiguenta e preocupada com suas bestas lutas internas. Por fim, aprendi também coisas muito pessoais. A pedido do Jader e da Adriana, fiz um curso com mais gente falando, eu que tenho tendência a centralizar a sala quando estou dando aula. Foi dificil no começo, mas depois foi muito bacana e importante. Agora quero isso pra sempre. Em várias dessas trocas e conversas, a palavra "sonho" esteve muito presente. Muitos falaram sobre a necessidade de sonhar, do sonho não como fantasia mas como necessidade para continuar a viver mesmo em condições pouco generosas, do sonho como utopia possível. Ontem, na aula de encerramento, falamos sobre isso. E lembrei do meu sonho, no decorrer deste semestre, em que voltei a voar. Nunca mais tinha sonhado isso, e sonhei em meio a esses cursos, a essa experiência e momento de vida. Isso foi e está sendo maravilhoso. Viva a possibilidade de voltarmos a sonhar! Viva a possibilidade de conjugarmos o otimismo da  vontade com o otimismo do pensar. :) Obrigada a todos por esse semestre maravilhoso. E vamo q vamo!


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Conheci Córdoba, na Argentina, neste julho de 2013. Gostei muito da cidade, fácil de andar, plana, bonita, com pessoas receptivas e simpáticas. Mas passei um sufoco grande nos dois últimos dias, com uma infecção intestinal dos infernos, uma virose, sei lá, ainda to me recuperando com quatro dias de mal-estar, foi sinistro, muita diarréia, vômito, febre, calafrio, desidratação, desvario, foi brabo mesmo. Inverno tem dessas coisas, todo mundo muito junto, lugares fechados, aumenta a chance de contágio. Mas sofri, viu?

Mas mesmo tendo dado uma descidinha ao inferno, hehe, não foi suficiente para afastar as boas impressões da cidade, aliás, profundamente marcada pela memória religiosa. Os principais monumentos são igrejas e conventos, todos literalmente monumentais, de uma grandiosidade marcante. Deu, portanto, pra sentir o gostinho do céu antes da queda, hehe. ;)


A comilança também celestial, como sempre na Argentina. Carne e doces, ai, ai... mas observei que poucos são obesos, o que me indica que mesmo com alimentação mais pesada conseguem eliminar as gorduras extras. Caminham muito? Academia de ginástica num pode ser, quase não existem. É o mate que é digestivo? Viroses? hehe... Enfim, mistério... mas também fiquei feliz porque, ao contrário de quase todos os lugares no Brasil, minha obesidade (e lá claramente distintiva) era sumariamente ignorada. Ninguém me olhou de forma ambígua ou direta, como é comum aqui no Rio, especialmente quando comia feliz meu alfajor. Assim é o preconceito cotidiano, só realmente percebemos o quanto ele é presente quando nos surpreendemos com sua não existência em outros lugares.

Fui para Córdoba participar da RAM, congresso na área da antropologia que reúne povaréu do mercosul. O congresso é gigantesco e tava meio caótico. Mas meu GT, na área de Juventude, foi bom pra caramba, o que muito me alegrou. Aprendi e troquei muito. :)

Mais pontos positivos da viagem: táxi muito barato, não só para o visitante mas para o local; ruas limpas e bem sinalizadas; praças bonitas (um pouco mal cuidadas, praga de pombos!) e sempre ocupadas pelos moradores e turistas. Gostei das águas dançantes, no Paseo del Buen Pastor, e da igreja dos Capuchinhos, lindíssima.Não pude ir no Paseo de las Artes, na feira de artesanato e antiguidades que rola nos findes, nem no Parque Sarmiento, o principal da cidade, porque passei mal exatamente no dia livre para isso. Mas os amigos foram e adoraram, então, tá na recomendação.



No dia em que passei mal, fui conhecer o Museu da Memória dos desaparecidos de Córdoba. Tenho cá pra mim que foi parte do meu problema de saúde, porque saí de lá muito mal. Sei da importância de preservar a memória para não esquecermos, mas não tenho saúde para entrar no seio da maldade. Isso me dilacera. Mas, sim, é importante conhecer. Mas, não, nunca mais entro em um memorial dessa natureza. Aquilo sim era o inferno em meio ao paraíso. Tristíssimo.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
“Infelizmente, os vândalos não tinham youtube nem facebook...”

Tenho discutido em sala, com alunos, acerca da necessidade de se disputar os sentidos na luta pela hegemonia do significado. Por força das circunstâncias, parte da discussão acabou recaindo sobre o signo “vândalos”, muito em voga nesse contexto de mobilizações sociais. “Vândalos” foi o termo eleito pela grande mídia para classificar e, automaticamente, desclassificar a ação de parte dos manifestantes, em especial a que envolvia enfrentamento com a polícia, uso de pedras e força, destruição de patrimônio privado e público, saques etc. Mas, de forma geral, passou a ser sinônimo claro de toda ação envolvendo enfrentamento com a polícia, mesmo com as evidências indicando que a brutalidade, a violência, o atentado à vida e à ordem partiram, na maior parte das vezes, da própria polícia, o que levaria, no mínimo, a uma necessidade de relativizar-se quem, nestes casos, seriam os “verdadeiros” vândalos. Esta é uma forma de lutar pelo sentido e tem sido usada: o de associar o mesmo tom pejorativo e estigmatizante que a palavra carrega aos que ocupam o lugar da ordem e da civilização, colando o rótulo no comportamento policial e não no dos manifestantes.
Esta é a mesma estratégia que encontramos em cartazes e imagens que mostram descasos na área da saúde, educação, transportes, com hospitais e escolas deteriorados, serviços precarizados, mau uso do dinheiro público, ilustrados com frases do tipo: “quem são os verdadeiros vândalos?” e “Vandalismo é isso”. Também nesse caso, a disputa parte de um reconhecimento do significado vitorioso (“vândalos” são os que atentam contra a ordem pública e deterioram a cidade e a sociedade), e o que se desloca em termos de disputa é o sujeito em quem se colará o preconceito, e não o sentido da palavra em si.
Entendo que talvez seja importante, no entanto, lutar pela palavra em si, pelo signo enquanto significante deslizante, peça fundamental na arena de disputas pelo significado. Segundo a wikipedia, o primeiro a associar o termo com um “espírito de destruição” sabia perfeitamente disso, como podemos ver no trecho abaixo:
“O termo "vandalismo" como sinônimo de espírito de destruição foi cunhado no final do século XVIII, , em janeiro de 1794, por Henri Grégoire, bispo constitucional de Blois; ele cunhou o termo e o tornou comum através de uma série de relatórios para a Convenção, denunciando a destruição de artefatos culturais como monumentos, pinturas, livros que estavam sendo destruídos como símbolo de um ódio ao passado de “feudalismo”, "tirania da realeza" e "preconceito religioso", durante o Reino do Terror. Em seu livro Memoirs, ele escreveu: "Inventei a palavra para abolir o ato". “(linkaqui, o grifo obviamente é meu!)
“Inventei a palavra para abolir o ato”! Henri Grégoire estava por dentro: o discurso é ato, cria mundo, gera não só a interpretação da realidade, mas a própria realidade, que para além de existir materialmente, é sempre construção social. Então precisamos, penso eu, assim como Grégoire, re-inventar a palavra para instaurar o ato. Pois quem eram os tais dos vândalos? O que eles tinham, fizeram, criaram, para além da representação consagrada e hegemônica de terem sido o tal povo que saqueou Roma em 455, “destruindo muitas obras primas de arte que se perderam para sempre” (no mesmo verbete da Wikipedia que citei acima). Aliás, quem não saqueou Roma naquele contexto, não é, minha gente??? Vândalos ficaram com a fama, meio injustamente (esse argumento tá aqui nesse simpático trabalho escolar).
Mas nas duas fontes que citei até aqui, o verbete e o trabalho, não temos praticamente uma única linha sobre a cultura vândala (e nem em inúmeras outras fontes que encontramos quando digitamos no google as palavras-chave “cultura dos vândalos” e outras em torno destas). Só sobre sua suposta origem geográfica, que seria ali pela Noruega, segundo consta. Ponto engraçado esse, pois a Noruega num me parece um lugar muito atrasado hoje em dia, se quiséssemos usar os mesmos critérios do ocidente “civilizado” para desclassificar um povo/grupo/etnia como vândala, atrasada, bárbara, selvagem etc. Se fossemos por esse caminho, poderíamos perguntar: ué, então a herança vândala num seria tão perversa assim? Pois taí, mais um sentido pra disputar.... mas não é esse o caminho que escolheremos percorrer aqui.
Continuando, as fontes só falam deste aspecto e, principalmente, da invasão vândala na parte oeste da Europa, na França, Itália, Portugal, Espanha... e destruindo tudo, segundo as fontes e o senso comum e o discurso em ato do Grégoire e a mídia tradicional e as autoridades brasileiras. Ah, e parece que eles migraram para oeste forçadamente, porque foram atacados pelos hunos. Pera aí: então eles reagiram a uma agressão? Então os hunos seriam os “verdadeiros” vândalos??? Num parece semelhante com o que apontei acima, no caso recente brasileiro? Não faltam disputas significativas, pelo que podemos ver... mas também não seguiremos por essa vereda.
Pois, para concluir essa parte, quer dizer que as principais referências sobre os vândalos são construídas pelos povos que, supostamente, eles destruíram? Não se tem algo mais vândalo, por assim dizer, sobre o ser vândalo, só um olhar ocidentalizado sobre a identidade vândala? Aí fica complicado, né?  Não parece semanticamente muito justo que a representação sobre o outro seja construída na ausência do outro, só abarcando o outro visto pelos olhos do “um”, principalmente um “um” rancoroso e posteriormente vitorioso. Mais uma vez, não parece semelhante com o que faz a mídia no que tange às representações dos manifestantes como vândalos? Não fica faltando a representação que os “vândalos” teriam/têm deles mesmos?
Não sou uma especialista em História romana nem vândala etc. Tô aqui na humildade procurando referência sobre a cultura dos vândalos, no bom e velho google, por que fiquei curiosa sobre essa tal “cultura vândala”. Tá difícil. As referências são quase todas no naipe do que citei acima (origem nebulosa e saque de Roma etc.). Mas a gente pode fazer um exercício imaginativo, creio eu (claro que deve ter muito livro porreta sobre a cultura vândala, penso, mas num tá fácil de achar na internet, não. Então, vamos seguir com o que encontramos). Vamos pedir ajuda dessa fonte aqui. Nela, o autor descreve os povos “bárbaros” (vândalos dentre eles), assim:
“A maioria destes povos organizavam-se em aldeias rurais, compostas por habitações rústicas feitas de barro e galhos de árvores. Praticavam o cultivo de cereais como, por exemplo, o trigo, o feijão, a cevada e a ervilha. Criavam gado para obter o couro, a carne e o leite. Dedicavam-se também às guerras como forma de saquear riquezas e alimentos. Nos momentos de batalhas importantes, escolhiam um guerreiro valente e forte e faziam dele seu líder militar. Praticavam uma religião politeísta, pois adoravam deuses representantes das forças da natureza (...).”
Sei lá, posso imaginar um povo festeiro, com uma rica cultura rural, uma mitologia complexa e interessante, uma ética ligada a valores como honra e valentia, num sei, coisas assim. Devem ter sido muito interessantes, esses vândalos. E provavelmente deixaram uma contribuição rica para o caldeirão que formou a cultura ocidental no decorrer da Idade Média, depois que amalgaram com os povos do oeste. Nosso autor aí de cima concorda:
“A mistura da cultura germânica com a romana formou grande parte da cultura medieval, pois muitos hábitos e aspectos políticos, artísticos e econômicos permaneceram durante toda a Idade Média”.
Temos, então, um outro quadro, de difícil apreensão. Os vândalos teriam uma riqueza cultural que não conhecemos, porque a história que nos chega não foi escrita por eles. Contribuíram, assim como outros povos, para a cultura ocidental, mas seu registro na história é o de saqueadores e destruidores. Passaram a ser estigmatizados em um momento, segundo o wikipedia, de atribuição explícita de sentido, no século XVIII, pelo tal Grégoire. E é neste recorte de sentido, apresentado como verdadeiro, que a mídia hegemônica ancora a representação dos manifestantes brasileiros atuais como vândalos.

Minha proposta? Lutar pela positivação da palavra “vândalos”, e não negá-la e empurrá-la como uma praga semântica para o outro. Vamos nos apropriar do vandalismo como essa riqueza cultural que não foi contemplada e reconhecida, como essa voz que nunca foi ouvida, como esse povo que sob pressão teve que se mover e construir novos sentidos para sua vida... Vamos ser vândalos com orgulho, mas não por que quebramos tudo, mas por que somos aqueles que não puderam ter voz na história, que não tiveram sua cultura registrada e reconhecida, que são traduzidos pela hegemonia com a perversão do sentido único, fetichizados pelo olhar colonizador em um misto de desejo e repulsa. Vamos nos libertar do sentido dado, pronto, fechado, e recusar não só estigma de ser classificado como vândalo = baderneiro, mas recusar principalmente o estigma a que foram confinados os próprios vândalos, de quem sabemos tão pouco. Os vândalos também foram oprimidos pela história hegemônica e, de certa forma, também é nosso dever lutar por eles. Infelizmente, os vândalos não tinham nem youtube nem facebook e acabaram sendo relegados, pelo olhar dominante, a um lugar fixado: o da destruição e da ausência de história própria. Devemos, por eles e por nós, desconfiar disso e lutar pela flexibilidade dos sentidos. Somos todos vândalos, não somos todos vândalos, nem mesmo os vândalos, pelo visto, eram os vândalos... e é isso o que importa da cultura, como me ensinou Stuart Hall, que ela seja essa imensa “arena de disputas pelo direito de significar”.



"Enfim, ser "vândalo" é atrapalhar um projeto estabelecido de cidade, é romper com a ordem (raríssimos são os contextos onde consigo ouvir esta palavra sem sentir calafrios, se existem, no momento, eu não me recordo!), sair do lugar das exclusões e dos silêncios... Mas isso, todo bárbaro ("o outro") é, não é mesmo? Sem dúvida, mas o estigma histórico colocado aos "Vândalos" nos indica o peso, o grau da ameaça, da potência e das transformações que geraram pra "civilização"... Logo, carregar, na atualidade, os mesmos estigmas é imprimir aos manifestantes a mesma potência transformadora. Ameaçadora. E, só por sentir o medo na fala do opressor, qualquer estigma vale a pena" (este ótimo parágrafo final, escrito a partir da reflexão acima, é uma colaboração da Patricia Cormack, disputando os sentidos e propondo outras leituras. Show!)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Faço um prato muito simples, que fica gostoso, faz sucesso e todo mundo aplaude: o "pavê de galinha". Bora ensinar pra partilhar:

Ingredientes (para um pirex ou tabuleiro tamanho grande, para umas 6 pessoas comerem bem):
- 1 peito de frango cozido (cozinhe o peito num refogado de alho, cebola e sal, no capricho pra ficar saboroso e não deixar esturricar muito) e desfiado
- 200 g de presunto cortados em pedaços pequenos (quadradinhos)
- 200 g de mussarela cortada em pedaços pequenos (quadradinhos) - PS: vc vai precisar de mais 200 g de mussarela para finalizar o prato, como explico abaixo, portanto, compre 400 g
- 1 cenoura crua ralada
- 1/2 cebola cortada em pedacinhos
- 100 g de passas sem caroço
- 100 g de azeitonas cortadas em pedaços pequenos
- 1 tomate cortado em pedacinhos sem caroço
- 100 g de champignon
- 1 pacote pequeno de batata palha (deixe um pouquinho para a parte final do prato)

(OBS.: eu paro por aqui, mas vc pode improvisar com o que tem em casa e colocar, por exemplo, pimentão - mas bota pouco pq pega gosto, tipo 1/2 pimentão, e evita o verde pq ele dificulta a digestão -, milho, alcaparra - coloca pouco porque é salgada -, beterraba - coloca pouco pq pega o gosto-, ou o que mais sua imaginação inventar)

Modo de fazer:
- misture tudo em um recipiente grande, para poder misturar bem. Misture duas caixinhas de creme de leite. Coloque um pouco de azeite e de sal (POUCO). Use um pouco da água da conserva do champignon e/ou da azeitona para deixar a mistura menos seca (UM POUCO).
- Depois de misturar bem, coloque no tabuleiro/pirex. Cubra com mais 200 g de mussarela, procurando fazer uma manta sobre todo o conteúdo. Espalhe um pouco de batata palha sobre a mussarela para enfeitar.
- Leve ao forno alto. Assim q a mussarela tiver derretido, pode tirar e servir.

Aí é só correr pro abraço. Vai por mim.:)


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Quando mais jovem, sonhava muito que eu voava. Adorava sonhar isso. Quando comecei a terapia há quatro anos, voltei a sonhar coisas que tinham sumido dos meus sonos, como o vento batendo na minha cara andando de bicicleta, um passe perfeito jogando futebol, a sensação de correr... mas voar nunca mais tinha sonhado... tinha até me conformado, ainda que meio triste.

No entanto, ontem sonhei um sonho lindo e significativo. Eu estava em um carro, dentro de um contexto bem confuso, daqueles de sonho, e eu corria muito com o carro. De repente tinha um engarrafamento intenso na minha frente e eu não queria parar, aí eu não diminuía e o carro voava sobre aquele trânsito todo. Aí eu ficava maravilhada vendo tudo lá de cima e de repente via, ao lado da janela do carro, um passarinho azul brilhante, pequeno e lindo. Ele voava livre e eu olhei admirada. Ele pousou na minha mão e, puff, se desintegrou, juntamente com o carro. Aí quem voava era eu. Livre, feliz, como nos meus sonhos dos vinte anos. Aí eu ia voando até onde estava meu amor, que estava me esperando pra pegá-la de carro, e dizia: ó, eu posso voar, e vou te levar comigo. E aí voávamos juntas.

Acordei muito emocionada hoje com esse sonho. Voltei a voar nos sonhos e sei que isso tem muito a ver com os acontecimentos das últimas semanas.

Queria agradecer a todos os pássaros azuis que me ajudaram a voar de novo, com sua esperança, vontade de mudar o mundo, atitude e potência. Em especial, mesmo correndo o risco de esquecer alguns, queria agradecer a uns pássaros azuis em especial, porque nos últimos tempos eles têm estado muito presentes em minhas leituras de mundo em sala de aula e nas conversas cotidianas: meus queridos Dessa, Gyssele, Ioná, David, Clara, Bruno Rocha, Lia Ribeiro, Paulo, Mari Gomes, Bruno Thebaldi, Erica Sarmet, Alexandre Santos e outros que me fazem pensar, lutar e acreditar no sonho.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Sobre o pronunciamento da presidente Dilma, achei previsível. Se declarou favorável às manifestações democráticas e pacíficas. Prometeu reprimir o vandalismo para restabelecer a ordem. Se mostrou aberta ao diálogo. Prometeu pacto social. Sugeriu medidas para resolver alguns problemas. Lembrou da importância de realizarmos uma copa ordeira e sem incomodar os visitantes. Enfim, falou o que um chefe de Estado deveria falar para acalmar a nação em um momento complexo e perigoso. Nesse ponto, tudo bem, tudo certo. Era isso mesmo que precisava ser feito. Ponto para o governo.
Mas queria tecer algumas considerações:
a) Acho lamentável que o governo incorpore os termos “vândalos” e “baderneiros” constituídos estrategicamente pela mídia hegemônica sem prometer investigação sobre quem seriam esses sujeitos etc. Acho isso perigoso em termos de fechamento de sentido e vergonhoso para um Partido com a história política do PT;
b) Acho lamentável falar-se em democracia etc. e não se colocar uma só palavra sobre a ação das polícias. Isso é uma omissão calculada e imperdoável, aí não só para uma presidente e um partido com a história de ambos, mas para qualquer autoridade constituída. O que as polícias estão fazendo nas ruas, como demonstram MILHARES de depoimentos e centenas de imagens, é crime. E quando uma autoridade instituída se cala sobre uma ação criminosa perpetrada pelo Estado ela é tão criminosa quanto. Já tinha falado isso antes, em episódios como Pinheirinhos etc. Para mim, sinceramente, isso é imperdoável. Não sei vocês, mas eu nunca esquecerei esse silêncio;
c) Militei muito pelo PT. Votei nele continuamente. Inclusive em todas as eleições do Lula e na da Dilma, por quem inclusive fiz campanha aqui. Então me sinto totalmente livre para falar, porque não sou anti petista, anti lula etc. Também não sou simplificadora, sei que é incomparável o quanto o país avançou em alguns pontos em relação ao governo FHC, e não tenho dúvida que o PSDB é MUITO PIOR para o país. Vejo ganhos sociais óbvios para a democracia no bolsa família, na política de cotas,  na área das políticas culturais (embora mais nos governos lula), na ascensão econômica de alguns setores da população etc. Mas isso não me torna cega e impossibilitada de criticar o que vejo de problemas no governo do PT. Acho que se trata de um governo contraditório, com alianças políticas imperdoáveis principalmente por sua história e pelo quanto elas são perniciosas ao país (Cabral, Paes, Sarney, Collor, Renan etc.), com ações totalitárias disfarçadas de democráticas (vide o que aconteceu na greve dos professores no ano passado), que tem servido fortemente ao grande capital, que beneficia banqueiros, mega empresários, grande corporações midiáticas e econômicas, que abandonou sua juventude militante, que tem sido omissa em aspectos imperdoáveis, como a violência policial, a falta de políticas públicas para resolver de fato as questões de saúde e educação, combate à corrupção e outros pontos complexos, como o crescimento da influência de setores particularistas e sectários como bancada religiosa, bancada ruralista etc. nas decisões políticas. Sim, neste sentido vejo que o PT trouxe ganhos para o país, mas também retrocessos e permanências. E quero ter o direito de poder falar sobre isso, sem maniqueísmos. E quero ter o direito de dizer que como militante deste Partido me decepcionei profundamente com ele. Mas eu era mais jovem, agora sou mais cascuda e isso também tem ganhos e perdas, sou mais cética e cínica, o que me permite análises menos apaixonadas, mas para compensar mais tristes. É isso, entendo politicamente boa parte das ações do PT, por vezes até as defendo porque entendo melhor as regras do jogo, mas considero algumas imperdoáveis (a omissão quanto à violência policial é uma delas) e me dou o direito de expressar minha tristeza com essa desilusão. Me sinto muito triste porque no poder o PT não foi o partido que alimentou meus sonhos de juventude.
d) Por fim, mesmo com o parágrafo anterior, sei que política é isso mesmo. Tem movimentos, concessões e negociações complexas e escorregadias. Assim sendo, voltarei à fala da Dilma ontem. Acho que o PT, mestre histórico pela experiência acumulada nos movimentos sociais e nessa década de poder instituído, sabe como poucos partidos faturar em cima da pauta dos movimentos sociais. Acho que o pronunciamento de ontem mostra isso claramente. Questões como pacto social, plano de mobilidade urbana, projeto dos cem por cento do petróleo para educação, proposta de trazer médicos cubanos para o país, os gastos com a copa etc. já estavam em jogo, despertando polêmicas justas porque são contraditórios, mostram muitas vezes um empenho de agradar o capital, em outras se mostram de fato projetos para melhorar condições sociais. Enfim, projetos complexos, que precisariam de maior debate social. Só para citar um exemplo: os cem por cento para a educação. Que educação? A pública, que continua sucateada apesar de discursos e programas como o REUNI? Ou a privada, que tem sido muuuuuito privilegiada nos últimos tempos? E como ficam os municípios que sofrem diretamente o impacto da exploração do petróleo? Não serão indenizados para que possam tentar mitigar esse impacto?  Então, precisamos discutir isso, como muitos têm sinalizado. Agora, quando a presidente coloca esta fala em um discurso apaziguador, em meio a uma tensão social ansiosa e aparentemente explosiva, me parece uma clara estratégia de faturar em cima dos acontecimentos, forçando uma aprovação emocional à proposta a partir do clamor popular. PT é uma raposa velha no campo político, sabe como poucos faturar em cima de episódios de forte impacto midiático. Repito: assim como na greve dos docentes universitários do ano passado, o partido silenciou primeiro, depois deslocou a pauta, contou com a expressiva fala da grande mídia fechando os sentidos e conquistando a opinião pública, prometeu diálogo, fingiu dialogar e nunca dialogou e depois aprovou o que quis. Rolo compressor sim, às custas de luta nas ruas/universidades, mídia hegemônica a favor e artimanhas políticas e discursivas. Não considero isso uma novidade nem uma surpresa, acho que faz parte do jogo político e considero que o PT é um mestre nesse tipo de jogo. Por isso disse que era previsível. Sobre essa parte nem me decepcionei nem fiquei triste, acho que é isso mesmo, faz parte da luta política faturar em cima dos episódios. E temos de reconhecer: esses caras são bons nisso.
e) Além disso, é preciso também estar atento a artimanhas que poderiam favorecer ações golpistas. Isso, obviamente, não podemos tolerar. Neste sentido, fechamos com o PT, como fecharíamos, democraticamente, com partidos eleitos dentro do jogo democrático. Mas isso também não nos impede de perceber que esse tipo de ameaça e pressão também é ambígua, porque se por um lado nos obriga a rechaçar ações e atitudes golpistas, também permitem que o partido forcem uma aprovação temerosa a suas propostas, visando fortalecer o poder instituído. Neste sentido, o medo de golpe que ameaça também permite que se fature sobre ele.

f) Enfim, agora bora cobrar as promessas etc. Mas elas não são novas, né? Já eram de campanha etc. Mas nem por isso acho que as mobilizações não têm ganhos. Sobre isso, falei no post anterior, e tá tudo no meu blog pra quem quiser acompanhar meu argumento todo.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Estamos em meio a um processo complexo e deslizante, com muitos ângulos a serem considerados, por isso tenho distribuído, partilhado e sugerido que a gente veja, leia, ouça, experiencie muitas coisas e evite fechar conclusões. Muita coisa ainda vai acontecer, mas gostaria de tecer aqui alguns pontos sobre as mobilizações sociais das últimas semanas, fruto de algumas reflexões, sem maiores pretensões à verdade e disposta ao diálogo:
1) As mobilizações colocaram as questões políticas na agenda coletiva das conversações, em meio a uma copa de futebol, que normalmente mobiliza o imaginário geral. Isso, a meu ver, é um grande ganho;
2) Também considero um ganho, ainda que em suas múltiplas discursividades e ambiguidades, que as juventudes urbanas contemporâneas possam ter visibilidade e expressão. É importante para todos nós que esses agentes possam se colocar, e é justo com essa geração, muito oprimida pela sociedade de consumo, pela hedonização da vida, pelo fardo da história que cobra dela que seja ativa e militante, pela precarização das condições de vida e de trabalho, pelas ansiedades sintomáticas da sociedade pós-moderna.
3) Outro ganho, embora muito doloroso em todos os sentidos possíveis: explicitou publicamente a truculência dessa polícia repressora e excludente, fazendo com que parte considerável da população sentisse na pele o que sofrem historicamente as classes oprimidas economicamente, em especial os moradores de periferia, favelas, subúrbios e os jovens afro-descendentes, inclusive dando visibilidade em escala mundial a imagens dessa violência bruta e vândala das polícias brasileiras de forma geral. Talvez, nesse ponto, tenhamos, a partir de agora, um esforço mais coletivo de luta em torno dessas ações opressivas contra as quais temos que continuar permanentemente denunciando e nos manifestando, independentemente de quem seja vitimado por essa truculência totalitária e autorizada pelo Estado, a qual NÃO PODEMOS ACEITAR.
4) Mais um ganho, que em parte resulta de algumas perdas: ficou claro, a meu ver, que os movimentos sociais tradicionais precisam se recolocar, compreender esse processo histórico e repensarem suas formas de atuação, pois sua ausência num manifesto desse monte e repercussão é expressivo de um esvaziamento de seu lugar na agenda coletiva. Precisam aprender a falar com as múltiplas juventudes, suas formas de expressão, com as novas tecnologias, com a lógica das redes. Precisam, urgentemente, se recolocarem no processo histórico, porque não podemos abrir mão de sua experiência e habilidades, aprendendo com os jovens, reconhecendo a necessidade de novas abordagens, rompendo com lugares confortáveis de poder;
5)  Os novos movimentos sociais, especialmente de jovens de esquerda, também precisam aprender com os recentes acontecimentos. Sua potência é fabulosa, sabem usar as novas tecnologias muito bem, manejam de maneira impressionante as lógicas de redes, mas não podem prescindir da experiência dos movimentos sociais já instituídos, como sindicatos, partidos, associações e setores ainda combativos dentro da universidade, precisam dialogar e trocar mais intensamente com eles, para efetivarem a potência em mais poder. E para não ficarem tão atônitos e perdidos quando a lógica de redes se mostrar exatamente como é: descentrada, diversa, escorregadia, complexa. Parece fácil lidar com ela, mas não é. A rua não é como o facebook, infelizmente, onde basta excluir quem te oprime, irrita, contesta, atrapalha, violenta etc. Na rua, vai ser preciso lidar com a multiplicidade, com as apropriações físicas e simbólicas, com a força bruta que a multidão facilita, com a flexibilidade... lidar com a não rigidez das ruas num é tarefa fácil, e acho que este é outro ganho deste processo, a compreensão de que é preciso aprender a lidar de outras formas com isso;
6) Também considero um ganho que parte considerável da sociedade entenda mais claramente o poder das redes sociais virtuais. Isso ajuda na luta. Mas como nos lembra a canção, “é preciso estar atento e forte”, porque a compreensão cada vez mais evidente desse aspecto também passa a ser preocupação e estratégias dos múltiplos sujeitos em cena, incluindo as direitas conservadoras, a mídia gorda, o Estado etc. Ou seja, trata-se de ferramenta ambígua, que precisa ser discutida também.
7) Considero um ganho o recuo na questão do aumento das passagens em vários locais do país. As mobilizações não eram só por vinte centavos, mas também eram. E nesse sentido é interessante perceber que os poderes instituídos se mostraram dispostos a negociar em alguma medida. Mas é preciso ficar muito atento para que este recuo não se mostre uma grande armadilha, com o repasse deste custo para outros setores de investimento social e, principalmente, para que ele não esvazie as outras pautas.
8) Pois também sabemos que não se trata só de vinte centavos. Então, é preciso que as lutas não esmoreçam. Requer mais discussão, compreensão, articulação, análise conjuntural e estrutural, enfim, não se resolve nada, sabemos todos, em um dia, uma semana, um mês. Também não podemos deixar que as instituições hegemônicas se apropriem da pauta e faturem com ela. Temos de continuar as disputas. Inclusive cobrarmos, a partir dos posicionamentos discursivos das autoridades constituídas, como a presidência da República, que de fato se institua o diálogo prometido e a ação para atender às demandas, evitando que se trate somente de pirotecnia discursiva para legitimar posições anteriores e forçar a aprovação de medidas de interesses contraditórios e escusos às custas de pessoas apanhando em seu nome nas ruas (sobre isso, falarei em outro post).
9) Neste sentido, essas disputas precisam ser pensadas em múltiplos ambientes. Nas ruas, com certeza. E nas esferas discursivas, com certeza. Mais do que nunca, precisamos ocupar as redes sociais, presenciais e virtuais. Precisamos provocar a discussão e lutar pelos sentidos nas grandes e pequenas mídias, nas escolas e universidades, na internet e em todos os lugares em que o discurso polifônico e dialógico está em disputa, porque mais do que nunca isso ficou claro: a luta é também discursiva, eu diria que fundamentalmente. E a percepção disso é, a meu ver, o mais significativo dos ganhos, dentre os que listei (embora caibam muitos outros), dos recentes episódios de mobilização social;
10) Ainda estamos em processo, por isso arriscamos algumas interpretações, mas sabemos que estamos em meio a algo complexo, confuso, múltiplo e deslizante, por vezes incontrolável. Bem, bem-vindos à vida, meus amigos. Ela é isso mesmo. Essa torrente, essa espuma, essa multidão. O sonho iluminista acreditou um dia que seria possível fechar o sentido e ordená-lo, mas sabemos que isso só é possível em práticas totalitárias. Os sentidos estão abertos e em disputa, não é fácil lidar com isso, mas volto a dizer: eis a vida. Por isso, não vejo fracassos nem vitórias, vejo movimentos e deslocamentos do sentido, perdas e ganhos, alguns empates, disputas permanentes. Portanto, sigamos na luta. Isso não é exatamente uma escolha, é o viver mesmo. Viver é lutar. Paramos de lutar, morremos.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Algumas observações pós o histórico dia 17 de junho e a manifestação dos mais de cem mil no Rio de Janeiro na "revolta do vinagre" ou dos vinte centavos:




Hoje, com mais tranquilidade e com ajuda do teclado do computador, pois ontem estava postando do tablet e do celular, posso escrever com mais calma. 

Quando recomendo que as pessoas tenham calma e não tirem conclusões levianas a partir de imagens e informações divulgadas pela mídia tradicional, desde muito alinhada aos poderes do Estado opressor e do Capital soberano, não estou dizendo, EVIDENTEMENTE, que aquelas imagens não existiram. Quando digo que as pessoas devem ouvir e ver outras fontes, imagens, depoimentos etc. porque a mídia gorda, como a globo e outras grandes emissoras, mente, não estou dizendo EVIDENTEMENTE que tudo o que passa na tevê é mentira. 

Mas só estou chamando a atenção para alguns aspectos importantes: 

1) narrativa envolve enquadramento, posição de sentidos, escolhas de ângulos e de estratégias enunciativas. Pô, sabemos disso perfeitamente quando vamos contar pra um namorado/a algo que sabemos que pode provocar uma briga que não queremos. Escolhemos o ângulo, a ordem dos fatos, engolimos algumas partes, enaltecemos outras etc. São estratégias da produção discursiva. Sabemos disso perfeitamente em casos pessoais. POR QUE ENTÃO AS PESSOAS INSISTEM EM DESCONHECER QUE ISSO É CONSTITUTIVO DE TODA NARRATIVA? Por que diabos pessoas capazes e críticas da minha TL se transformam em obtusas e teimosas defendendo que as imagens que assistem na tevê são VERDADEIRAS? Pô, não entenderam ainda que é narrativa, que revela posições e interesses, que inclui trabalhos de construção de memória, projeto e identidade? Assim fica difícil um mínimo de diálogo porque parece que vc está conversando com um cientificista do século XIX que fica berrando "A VERDADE, A VERDADE", "A NEUTRALIDADE, A NEUTRALIDADE", "A OBJETIVIDADE, A OBJETIVIDADE"... AH, PARA!!!! isso no século XXI, com todas as teorias do discurso, desconstrução dessas ideias tendo bombado, redes múltiplas de discurso nos mostrando o quão frágil é a ideia de verdade... Na boa, pára! Fica feião ; 

2) todo sentido é construído e disputado. Quanto mais se tem posição e interesses definidos na luta, mais há um esforço pra fechar o sentido. É isso que a mídia tradicional faz, mais ainda. Ela fecha o sentido, pra ganhar a disputa e impedir a multivocalidade. Assim, ela apresenta um ângulo só, uma versão transformada em verdade, e não dá voz aos movimentos polifônicos e dialógicos que compõem o discurso. Exemplificando, pra todo mundo entender: tá lá o povo tacando fogo na ALERJ. Ok, vandalismo de patrimônio público, segundo a mídia. Mas deveriam caber uma série de perguntas antes de fechar o sentido, se é que dá pra fechar: Mas quem começou? Quem são aquelas pessoas tacando fogo? Qual o seu lugar na manifestação? Eram manifestantes? Eram infiltrados? Qual o papel da policia? Por que ela estava acuada? Onde estava a policia? Escondida? Como a mídia gorda, rede globo, por exemplo, pode ter chegado a tantas conclusões verdadeiras e definitivas de cima de um helicóptero? O q significa a globo tirar a identificação do seu microfone, equipamentos, repórteres? Vc falaria com a globo se soubesse que era ela? Vc falaria a mesma coisa q falou achando que era para uma mídia alternativa? Quem a grande mídia ouviu? Ouviu pessoas envolvidas, manifestantes, policiais, transeuntes? A quem interessa as imagens de vandalismo no fim de uma mega passeata com 100 mil pessoas? O q vale mais: o patrimônio ou a vida humana? O que significa vandalismo? Qual o sentido moral da palavra vândalos na história da conquista ocidental? Por que se optou por essa palavra para classificar as ações mais violentas nas passeatas? Quem foi baleado? Quem atirou? Eram balas de q tipo? Quem de fato quebrou as janelas do Paço, as pessoas ou as balas? Quem foi preso? Por que um fotografo e estudante de jornalismo foi preso e autuado por formação de quadrilha? Por que a mídia gorda parou de mostrar a multidão pacifica que ainda protestava na Cinelândia e só focou no tumulto? A quem interessa a imagem de uma passeata "pacifista"? A quem interessa a imagem de uma passeata de "vândalos"? Qual o contexto de opressões cotidianas que podem levar alguém a um ato violento? Qual o papel da violência? Quais os jogos e interesses políticos em torno de uma mobilização social como a de ontem? Não seria importante ver outras visões, ângulos, fontes, imagens, testemunhos antes de chegar a qualquer conclusão? Olha só quantas perguntas, dentre muitas outras que poderiam ser feitas, só listei as que me vieram mais imediatamente aqui. 

Pô, frente a essa multidão de perguntas, como alguém pode abraçar e se conformar com um ponto de vista só, construído a partir de interesses, sabendo que a narrativa é sempre uma disputa? Desculpe, vc se passa de indignado e dono da verdade, mas vc só é bobo e enganado. Abra sua cabeça, pense melhor, veja o mundo! Ele é complexo, num cabe em simplificações, ele requer que a gente escute, veja, pondere, sinta, reflita para balizar nossas posições críticas. E muitas vezes mudar de lado, relativizar, ter dúvidas. Assim crescemos todos.




Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Acompanho com ardor e admiração o empenho com que meus jovens e amados alunos e ex-alunos militam pelos sonhos, pelas causas justas, por um mundo melhor. Neste momento, eles, assim como milhares de outros jovens e também pessoas das mais diversas faixas etárias e sociais, nos mais diversos pontos do Brasil e do mundo, estão saindo às ruas para protestar contra o  aumento das passagens no transporte público (cada vez menos público e cada vez mais excludente, sectário, aviltante, fora de qualquer condição de humanidade e serviço público aceitável), e também por seus direitos e muitas outras causas, inclusive de se manifestar, vide que a polícia vem reprimindo de forma inconstitucional, violenta e INACEITÁVEL os protestos pacíficos e garantidos por lei, como demonstram os inúmeros vídeos que circularam pela internet nas últimas semanas, bem como depoimentos contundentes e emocionantes.

Gostaria muitíssimo de me juntar a eles, como já o fiz em diversas manifestações públicas quando era mais jovem. Mas, infelizmente, a vida me deu uma pernada e me premiou com problemas de hipertensão que me fogem ao controle. Não vem ao caso, e pensei muito antes de escrever sobre isso, pois trata-se de questão íntima, mas minha pressão, quando minha adrenalina sobe, dá picos de inacreditáveis 22 x 12, 24 x 13. Enfim, num posso mesmo, mesmo querendo muito, me segurando muito aqui, participar de qualquer ato ou manifestação pública que gere riscos de adrenalina em alta...

To explicando isso aqui porque achei importante me posicionar. Estaria na luta com todos nas ruas, SEM DÚVIDA ALGUMA, se eu pudesse. Mas num posso, infelizmente. Mas isso não me faz não apoiar nem acreditar na luta de todos nós, ao contrário. Agradeço muitas vezes, diariamente, por vocês me representarem nessa luta, peço que os deuses todos protejam a todos os corajosos e tenazes que vão para as ruas, protestam, portam cartazes, cantam, dançam, gritam, encaram a polícia, não se calam... e me sinto muito recompensada, particularmente, por conviver diariamente, em sala de aula, com pessoas lindas que não se conformaram com as regras convenientes e limitadoras do mercado e da mediocridade. Por vocês, minha mais profunda admiração e gratidão.

Mas também agradeço muito pela emergência, vias novas tecnologias, das novas ferramentas de redes e comunicação social. Porque através delas, de alguma forma, usando também as minhas armas, que é meu poder com as palavras, minha capacidade de articulá-las e me fazer ouvir, eu posso também participar da luta. Posso também me expressar, falar de minha indignação e dor, me comover e denunciar as dores que são impetradas aos outros. Através dessa outra forma de lutar, posso também participar, reconhecendo meus limites, aplaudindo os que botam a cara a tapa para lutar por mim nas ruas, mas dando aqui o meu apoio, minha contribuição, meu esforço por um mundo melhor.

É isso. Queria explicar e me colocar. Luta linda e justa, em frente. Tamo junto! Viva a voz das ruas, viva o movimento da vida, viva a juventude e seus sonhos!


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Sábado estava almoçando, com mi amore, no Varandão, restaurante que adoro no centro de Friburgo. Presenciamos uma cena deliciosa, que agora quero compartilhar com vcs. Na mesa atrás de nós, duas moças pediram um petit gateau. Quando a garçonete trouxe o prato, sucedeu o seguinte e maravilhoso diálogo:

Garçonete 1 (ao colocar a sobremesa para a cliente):  
- vem cá, você comeu um Petit Gateau outro dia, num foi?
Cliente (meio pasma):
- hum, acho q sim, ehhhh....
Garçonete 1:
- Comeu sim, eu vi a foto, você colocou no facebook.
Cliente (rindo, meio sem graça):
- Ah, foi mesmo, é mesmo...
Garçonete 1 (com ar inquisidor):
- Mas num foi aqui, não, foi no lugar Fulano de tal [não entendi o nome, hahahaha, tava ligada na fofoca mas   marquei bobeira], num foi?
Cliente (mais sem graça ainda):
- Foi, foi sim (voz sumindo).
Garçonete 1:
- O de lá num presta, não. É maçaroca. O daqui é calda mesmo. Olha a diferença, vc vai ver, outra coisa.
E sai feliz com a reprimenda.
Cliente (para a amiga):
- hahahahaha, que engraçado!
Nós na mesa do lado:
- hahahahaha (baixo, pra num perceberem que estávamos ligadas).

Passa um tempo. Garçonete 1 some. Vem a Garçonete 2. Vê a cliente comendo o bendito Petit Gateau. Pára e comenta:
- Tá gostoso? Já comeu o do Girafa's? Num presta, não. O daqui é bem melhor, o de lá é massudo.

hahahahahahaha. Adorei esse momento palpiteiro das garçonetes e, principalmente, adorei ver o risco que se corre ao se postar coisas no FB em uma cidade de menor densidade populacional, onde as pessoas tendem a se conhecer. ::)))
Fica a dica: petit gateau é no Varandão. O resto é maçaroca massuda. Eu, de qualquer forma, pedi um pudim de leite, achei menos polêmico.:)

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Zico completa 60 anos. Me emociono. Vi ao vivo e via tv, em jogos do Flamengo e do Brasil, alguns dos lances mais lindos da história do futebol saírem dos pés desse cara. Vi num jogo do Mengo no Caio Martins, em Niterói (sim, existiu!), Zico fazer um gol com o drible da vaca, aquele que Pelé tentou dar na copa de 70 (detalhe: ele fez seis gols nessa partida, contra o extinto ADN); vi esse cara destruindo tudo na final do Mundial de Clubes em que o Mengo foi campeão; fui no jogo da volta do Zico pro Fla, contra o Santa Cruz, em que o Leonardo ficou tão emocionado jogando ao lado do ídolo que num parava de chorar, e Zico fez um gol tão lindo que de vez em quando lembro e fico boba; vi num jogo bobo contra o Americano Zico dar um passe de letra/meio de puxada, com a bola ainda caindo, do meio do campo até a entrada da área, que acabou não virando gol mas fez o Maraca inteiro aplaudir de pé; vi e chorei quando o carniceiro do Marcio Nunes, do Bangu, quebrou o joelho do craque; vi gols de falta, dribles mágicos, passes lindos... jogador, pra mim, mais maravilhoso que vi, fez do meu Flamengo dos anos 80 um time dos sonhos, minha paixão.

Mas depois começou a palhaçada: secretário do governo Collor; posições políticas reacionárias e estranhas; participante daquele projeto ridículo de emancipação da Barra... é, o ídolo dos pés mágicos também tinha pés de barro...

Num me recuperei mt desses baques. Nunca mais olhei Zico da mesma forma. O desencantamento é triste. Sinto falta daquele olhar mágico que meus 15 anos tinham quando via o Zico jogar. Mas prefiro Sócrates como ídolo, pra ser sincera. Achava mais lindo ser gênio em campo e sujeito ético na vida. Sinto falta da minha pureza de fã do futebol do Galinho naqueles anos 80. Hoje, com o olhar que tenho, num posso só comemorar, lamento também sua conduta como homem público. Podia ter feito tanto...

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Ontem, quando terminei a aula de Sociologia lá no gragoatá, por volta das 18h, tava indo, como sempre, rumo ao meu carro pra ir pra casa. Eis que no caminho encontrei dois alunos queridíssimos, Lia Ribeiro e o Paulo Régis, e eis que nos pegamos num conversê sobre temas vários, vida, política, projetos. Foi ótimo. Ficamos nessa conversa-troca muito agradável e produtiva, meio do nada, até 19h.

E aí me lembrei que quando entrei na UFF, em 2003, como bolsista PRODOC, encontrei essa possibilidade. De conversar, trocar, ter tempo pra aprender e crescer junto. Lembro que no meu Laboratório (LAMI), muita gente passava pra conversar, alunos, orientandos meus ou não, da pós ou da graduação, professores, amigos, enfim, era um ponto de encontro recorrente. O grupo de estudos (GRECOS) tinha um lugar aconchegante, um "próprio", no sentido do Certeau, importante para constituir sua identidade. Perdíamos/ganhávamos tempo convivendo lá. As pessoas passavam porque sabiam que iam me encontrar. Então, pensei na época que universidade também era isso, um lugar pra se sentar, conversar, trocar... enfim, tenho certeza de que essa num é só uma memória minha, o LAMI, nesse período, foi importante pra muita gente. Pena que isso, por agora, acabou.

Pois o LAMI, com as formas de socialização que nele ocorriam, foi engolido pela burocracia. Sucessivas reformas no espaço acabaram fisicamente com o laboratório, por agora sem pouso. Pra implementá-lo, só com muito tempo e disputa. Cansaço.

No entanto, ele faz falta, não pelos equipamentos ou pelo aporte para material de pesquisa, isso pode ser virtual, ser na minha casa, em qq laptop. Mas faz falta esse ponto de sociabilidade que faz da universidade o lugar de trocas múltiplas, como a que tive ontem com Lia e Paulo. Senti falta. E lamentei.

Acho que isso é parte do extremo fosso entre visões de mundo acerca do que significa a universidade, a maneira com que se pensa o espaço e sua distribuição. Processo complexo, do qual esse lamento é apenas uma parte.