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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Como já comentei em outros lugares, "Pai Herói", a minha novela preferida, está sendo reprisada no canal Viva. Dela veio o pseudônimo Karina Limeira Brandão, personagem de La Savalla, lindíssima como a bailarina problemática, com que assino esse blog e que já me serviu de pseudônimo em festivais de poesia, trotes, cartas para jornais e outros momentos alteregóicos múltiplos... André Cajarana e Ana Preta, tipos inesqueciveis de Tony Ramos e Gloria Menezes, foram por muito tempo meus personagens preferidos, símbolos de justiça, pureza, força, luta, coragem. Na reprise, assisto embevecida e emocionada o quanto essa percepção permanece. E que maga essa Janete Clair! Essa semana um aluno amado, o querido Abrahão, apaixonado por novela que nem eu, me escreveu pra falar o quanto estava comovido com Pai Herói. E sobre Janete afirmou: "Janete escrevia muito bem, sabia escrever pro povo". Exatamente! Que talento, minha gente! Tanto que quase quarenta anos depois (a novela é de 1979) a novela segue emocionando e falando com um jovem estudante de midia, na faixa dos seus 20 anos. Não é formidável? Gênio, "usineira de sonhos", a maior, imbatível, viva Janete!!!

Anos depois, muitos, li e me emocionei com "As ilusões perdidas", clássico de Balzac. E quando li tive a sensação de que já tinha tido o impacto de acompanhar as desilusões de Lucien de Rubempré, personagem principal do romance, chegando na cidade grande cheio de sonhos e inocência, e aos poucos sendo devorado pela maldade e perversidade daquele mundo, perdendo suas ilusões. Agora, revendo a novela, sei de onde veio minha sensação de deja vu quando li o livro. André Cajarana era o nosso Lucien de Rubempré! E com um show de interpretação de Tony Ramos, que conseguiu encenar essa passagem dura da vida entre o olhar inocente e a aquele depois das lambadas do mundo.

Mas com uma diferença: nossa maga num ia deixar a gente sem esperança, não. Nosso André Cajarana amadurece, sofre, se endurece, mas não perde sua bondade e vontade de justiça. As ilusões perdem força, mas não desaparecem. Novelas e suas redenções no final... Balzac que me desculpe, mas prefiro assim... ;)

PS: e "Alouette", canção com Denise Emmer, é linda. Na época o povo reclamou, dizia que era nepotismo pq ela era filha do Dias Gomes, que a música era chata, que ela cantava mal... olha, gente chata. Música linda e casa perfeitamente com a personagem Karina e seus dramas.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Noutro dia, eu estava dando aula de Cultura Popular e, ao comentar sobre diversidade cultural, fiz um comentário-piada sobre pastelarias e chineses. Na hora quase todo mundo riu, mas alguns alunos ficaram sérios, embora não tenham feito qualquer comentário. Isso me alertou sobre algo dissonante e ficou retumbando na minha cabeça. Pensei sobre isso com calma e na aula seguinte pedi desculpas, aproveitando o acontecido para conversar com a turma sobre o lugar do preconceito no discurso, como "ao falarmos, somos falados", segundo afirma Michel Foucault, e reproduzimos preconceitos e estigmas que nos atravessam no fluxo das ordens discursivas.
Começo meu texto por aqui para dizer que sim, todos nós podemos incorrer em erros e deslizes preconceituosos, pois os imperativos das representações hegemônicas nos perpassam. E todos podemos e devemos pedir desculpas quando nos pegamos nestes processos. Dito isso, gostaria de tecer algumas ponderações sobre o comentário preconceituoso, estereotipante e estigmatizador de William Bonner, editor e âncora do Jornal Nacional, da Globo, na edição de ontem, dia 18 de maio de 2015, sobre um personagem estadunidense (pois se trata de um personagem, uma criação noticiosa, que, por um acaso, tem uma correspondência no "real", que é o próprio sujeito que ali está sendo representado, mas em última instância estamos diante de uma representação, e das mais breves e cerceadoras da diversidade, visto se tratar de uma imagem descontextualizada que é mostrada enquanto a voz do repórter narra a acusação) de uma reportagem sobre uma tentativa de hackear aviões e mexer em seus planos de voo. Bonner comenta, após ver a imagem do suspeito: "O mundo parece que tá ficando muito complicado, né... A gente vê até pelo rosto do sujeito que não tá fácil (...)". A seguir, completa o absurdo: "Cara de maluco ele tem, né? Cá pra nós...".
Minutos depois, na passagem da previsão do tempo, Bonner aproveitou o gancho para se desculpar, dizendo que nas redes sociais foram muitos os comentários desaprovando sua fala. Mas o pedido de desculpas, a meu ver, também precisa ser problematizado: "Teve gente que me censurou porque eu disse que aquele rapaz que entra no avião com um cabo no computador do avião tinha cara de maluco. Na verdade eu fiquei pensando: "que mau humor dessas pessoas"; mas não, elas estão certas. Porque depois eu fiquei fazendo uma reflexão. Eu conheço uma porção de gente com aquele cavanhaque, com o olho meio esbugalhado, mas eles não ficam entrando em avião, não. Não tem nada a ver o rosto do rapaz com o que ele fez ou disse que fez".
Em seu pedido de desculpas tangencial, em que a palavra "Desculpe" jamais aparece, dois pontos merecem destaque: primeiro, a maneira matreira pela qual Bonner reafirma que fez uma brincadeira, tanto que estranhou a falta de humor dos espectadores; depois, a admissão do erro porque não seria justo associar o rosto do rapaz à acusação de ser "maluco" (vou pular aqui os comentários sobre a definição estética do rosto do rapaz feita por Bonner, só isso a meu ver merecia nosso repúdio, mas vamos ao mais grave).
Bem, no meu ponto de vista, aí está parte do problema, do que me incomodou profundamente ontem. Em primeiro lugar, a utilização de um sistema classificatório perverso, instância fundamental de poder (novamente Foucault nos lembra que nas interdições discursivas estão a palavra mentirosa, a palavra proibida e a palavra louca), cuja rotulação causa imenso sofrimento e desconforto a todos por esse sistema classificados como "loucos", independentemente do critério. Ou seja, há uma intensa luta no campo discursivo e político para não se classificar ninguém como "maluco", não só por critérios físicos, mas por qualquer critério. É também sobre isso que fala a importante e sempre urgente Luta Antimanicomial.
Aí vem o segundo problema do infeliz episódio de ontem. Era  dia 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Caramba, isso era pra ser pauta do Jornal Nacional! Pra isso serve a mídia em concessão pública, pra abarcar as diversas demandas sociais. Não, no jornal total silêncio sobre isso. Ao contrário, seu âncora principal, porta-voz oficial, faz piada sobre "maluco". Isso ultrapassa e muito um simples episódio de piada sem noção, dentro de novo padrão de jornalismo/entretenimento, e se revela um escárnio, uma afronta, um indício revelador do quanto precisamos avançar na luta pela democratização dos meios de comunicação no Brasil.
Mas vamos voltar um pouco mais a Foucault. Ainda sobre as interdições do discurso, ele fala sobre uma estratégia importante das sociedades discursivas para impor seus limites: a autoridade e legitimidade de quem fala. Weber já havia nos alertado para isso, quando abordou as formas de dominação. Lugares simbólicos instituídos são decisivos, em termos de autoridade e legitimidade, para fixar o sentido discursivo, constituir seu caráter performativo, palavra que cria mundo, faz acontecer, vira realidade.
Por isso um professor precisa ter responsabilidade com o que fala em sala para seus 50 alunos. Por isso um apresentador de telejornal de maior audiência do país tem que ter cuidado com o que fala para milhares de receptores. E por isso o pedido de desculpas não pode ser tangencial, tem que ser pra valer, tem que problematizar a questão, tem que sair do reducionismo e da simplificação. Fora isso, é performance pra plateia, é show pra manter audiência, é manutenção do preconceito com outros condicionamentos.
Não, nao é a mesma coisa fazer uma piada sobre "ser maluco" com alguém na mesa do bar ou dizer isso enquanto editor do Jornal Nacional ao vivo. Não, não é a mesma coisa pedir desculpas complexificando a questão ou dando a entender que é uma bobagem com a qual os espectadores resolveram implicar. Sim, a autoridade de quem fala faz acontecer, é discurso fundador, mito original. E sim, a classificação "maluco" (e todas afins) precisa ser banida, por qualquer critério, porque é um rótulo perverso, perigoso, aprisionador e estigmatizante, causa sofrimento e é instrumento de poder e cerceamento da diferença.
E não se importar com isso, porque não te atinge diretamente, é ser cúmplice disso. Lembrando: a roda gira, qualquer hora a boa fortuna também pode te abandonar e o estigma virar pra você. Fica a dica.


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler o ótimo A Ilha sob o mar, romance de Isabel Allende que ganhei de minha amada Lu-colegamãe Ribeiro (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010). Bem escrito como de hábito, só que dessa vez, em vez de tematizar a história chilena como costuma fazer, a autora ambientou a trama no Haiti no período da revolta dos escravos em fins do século XVIII, com a parte final narrando a vida dos que fugiram da ilha e foram para Cuba e para Nova Orleans. A narrativa histórica é bem interessante, a trama está centrada na figura de uma escrava, Zarité, e na questão da miscigenação, em especial na caracterização que Allende faz dos "mulatos", no livro abordados mais fortemente nos personagens dos filhos de escravas com os homens brancos.
Essa trama me fez lembrar de outra, que também andei relendo, e sobre a qual pretendia escrever aqui no blog mas ainda não havia encontrado tempo. Trata-se de A Escrava Isaura, clássico brasileiro de Bernardo Guimarães. Li o livro ainda na adolescência, por volta dos 15 anos, e resolvi reler agora. E fiquei impressionada ao ver que a memória que eu tinha da trama era toda a da Globo e sua novela, adaptada por Gilberto Braga, e não a descrita na obra de Bernardo Guimarães.
E o que havia na minha memória? A história de uma escrava branca, propriedade de um grande senhor de engenho provavelmente no Nordeste, que lutava por sua liberdade e contra as tiranias do sistema e desse senhor déspota e cruel. Lembrava também que Gilberto Braga tinha enfrentado problemas com a censura do governo militar, que havia proibido o uso de palavras como escravo e escravidão, porque poderiam funcionar como metáfora da situação de opressão vivenciada politicamente no período. E também lembrava de ter lido em alguns artigos que a novela era campeã de exportação entre os produtos televisivos da Rede Globo, já tendo sido vista em não sei quantos, mas mais de uma centena, de países, nos quais Lucélia Santos (que protagonizava a escrava branca) era adorada, e que especialmente em países onde havia "restrições à liberdade", como Cuba e China, o sucesso da novela era impressionante, pois sua temática universal era a da luta por liberdade e combate à opressão.
Tudo isso fazia a novela "Escrava Isaura" crescer na minha cotação. Mas tinha uma coisa que me incomodava: por que Bernardo Guimarães havia escolhido exatamente uma branca para tematizar a luta pela liberdade? Também havia lido que ele era um abolicionista aguerrido e que sua obra, escrita em 1875, tinha sido importante na configuração do imaginário pró-abolição. Mas eu pensava: como, se ele usava como referência uma escrava branca? Isso me incomodava sempre que falava da novela.
Eis que por um acaso resolvi reler o romance. E olha só as surpresas que a vida traz!: logo no primeiro parágrafo, descobri que a trama não se passa no Nordeste, nem se trata de um graaaande engenho, mas se passa em um engenho mais modesto em Campos de Goitacazes. Já mexeu no meu imaginário, porque conheço bem a região de Campos e em termos paisagísticos não dava pra encaixar muito naquela representação da Rede Globo. Mas segui adiante com o livro. E eis que de repente, quando ainda no primeiro capítulo, ao falar da relação que a mulher do Comendador (o dono original do Engenho, pai de Leôncio, o grande vilão) estabeleceu com Isaura, a escrava filha de seu marido com uma mulata, o narrador diz: "O comendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para com a mulatinha, capricho que qualificava de caduquice". 
Eu: mulatinha? que mulatinha???? Ela num era branca, a Isaura?
Segui adiante, já encafifada. E eis que chego na seguinte cena:
" Por fim Henrique, afoito, e estouvado como era, lembrando-se que Isaura, a despeito de toda a sua formosura, não passava de uma escrava, entendeu que fazia um ridículo papel, deixando-se ali ficar diante dela em muda e extática contemplação, e chegando-se a ela com todo o desembaraço e petulância travou-lhe da mão, e...
- Mulatinha, disse, - tu não fazes idéia de quanto és feiticeira".
E segue por aí, com outras referências à cor da pele de Isaura no livro classificando-a como "mulata" ou "mulatinha". Sério, fiquei chocada. Quer dizer que ela era mulata na narrativa original???? Aí fazia sentido no discurso pró abolicionista de Bernardo Guimarães, porque nesse caso o que a diferenciava das outras escravas era a educação recebida, o que a aproximava das "sinhás" brancas. Po, aí sim tem discurso abolicionista, claro que datado e problemático etc. e tal, mas sim, aí tem lógica. 
Fiquei boquiaberta com a cara de pau da Globo, gente! E a cara de pau de usarem a novela no discurso "Olha como resistimos à ditadura militar" simplesmente apagando outras lutas e resistências às formas de opressão.
Na edição que estou lendo, da editora Globo, ao final do romance existem algumas perguntas para ajudar o professor em atividades didáticas pós leitura do livro. E as fotos que ilustram essa parte são todas da novela, com sua escrava branca, alterando totalmente o sentido do livro e ajudando, mais uma vez, a fixar a hegemonia do sentido, o qual envolve embranquecimento e apagamento de lutas, como a do autor pela causa da abolição.
Sério, fiquei muito chocada. Sei que é mais do mesmo quando falamos de grande parte da indústria cultural brasileira, mas sempre bom narrar e desconstruir os sentidos fixados, e tô aqui fazendo minha parte e colocando água nesse chope da vitória. Não passarão.
Para ilustrar melhor essa disputa por sentidos, vou postar abaixo algumas capas de inúmeras edições do livro, que nos permitem perceber as disputas em termos de representação. Valia a pena um estudo sobre essas capas, procurando saber quais eram as representações que predominavam antes e depois da novela ser exibida, em 1977. Fica a dica de um bom trabalho de análise de discurso.;)
















Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Tá rolando no BBB 14 uma história entre duas mulheres, Clara e Vanessa (apesar de homônima, num to falando daquela Clara ridícula que Manoel Carlos resolveu transformar na gay da novela das 8, essa só rende risadas). Não importa, para o que pretendo falar aqui, se é fake, forçado, só pra ganhar um milhão. Tanto faz. A questão é que em um reality show que já está na sua décima quarta edição e que, em várias, casas heteros fizeram sucesso e comoveram os fãs, pela primeira vez um casal gay está formado na casa e sensibilizando parte dos espectadores.
Não estava prestando muita atenção nesse BBB, porque a situação na vida "real" está tão tensa nesse verão de 2014 (somando o pico de calor com as loucuras, omissões e crimes de nossos governantes picaretas, com apoio de um jornalismo de dar vergonha, mais a violência, a pobreza, a desigualdade, os conflitos, olha, tá tenso!), mas outro dia meio sem querer reparei numa cena aleatória, que não era de pegação, e vi que a forma com que as duas se tratavam era meio de namoro. Fiquei surpresa e aí resolvi dar uma investigada. E o que fui descobrindo me colocou pra pensar.
Clara e Vanessa fazem enorme sucesso nas redes sociais, em especial nas comunidades GLBTS. As pessoas se comovem em parte com a coragem das duas em performatizarem cenas calientes entres duas mulheres para as câmeras e o público em geral, mas principalmente com a cumplicidade, os olhares, os carinhos, uma certa intimidade e principalmente essa cara de namoro que a relação das duas foi tomando, e que a edição mais curta, sem ser pay-per-view, não privilegia, destacando, evidentemente, só a pegação. Mas são muitos os vídeos (vou anexar dois nesse artigo) com montagens com as inúmeras cenas de carinho e intimidade entre as duas, algumas extremamente simples, mas que comovem como o diabo. E comovem principalmente porque é tão raro, quase invisível, essa representação do amor cotidiano entre pessoas do mesmo sexo na grande mídia, que quando aparece num tem como não emocionar. É a rotina de milhares de nós, que amamos cotidianamente, vivemos vidas comuns, com nossos amores/parceirXs/companheirXs/namoradXs... e que somos cotidianamente suprimidos do imaginário porque não somos representados, ou quando somos, somos de forma caricata, ridícula, irreal, surreal, preconceituosa, simplificadora etc.
Veja, não estou dizendo que BBB é um show de complexificação, evidentemente. Mas naquela rotina de 24h numa casa, em que as pessoas estão representando um self, que bom, mas que bom mesmo ver uma representação amorosa rotineira que não seja hetero, que abra espaço para que outros se vejam, se identifiquem, se sintam representados. As pessoas que vivem uma vida heteronormativa em geral, mesmo as mais bem intencionadas, NÃO TÊM ideia do que isso significa. E acabam não entendendo porque toca tanto, sensibiliza tanto, emociona tanto aos que vivem uma vida não representada midiaticamente naquilo de mais simples e fundamental para um ser humano, que é amar e ser amado.
Também não estou dizendo que não tem problemas na representação. Tem ideologia pra caramba. Só rola quando uma emissora poderosa quer, ou permite (como no caso Felix e Nico); a emissora edita para o público em geral somente o que "vende", então omite as cenas mais amorosas espontâneas e rotineiras, que são fundamentais para a construção da representação cotidiana do self; as representações que causam mais comoção repetem modelo de amor romântico ocidental e e família burguesa; BBB e outros produtos que se colocam como realidade são ficcionais e editados ideologicamente (o que não é, né, minha gente? porque só com muita cegueira, estupidez ou cinismo pra acreditar em objetividade, neutralidade e discurso que retrata a "verdade" nessa altura do campeonato); enfim, os problemas não sumiram.
Mas volto a insistir na importância da luta por representação. Volto a insistir que parte muito bem intencionada da militância política não tem ideia do que isso significa. Como é importante. Sugiro uma netnografia entre as muitas páginas e comunidades de apoio ao casal Clanessa pra entender o impacto que isso tem entre quem não se sente representado. Talvez isso indique que são muitas as frentes de luta, num dá pra abandonar nenhuma, muito menos a que envolve representações e ideologias acerca das subjetividades. E entender que para combater a crescente violência contra os gays em nossa sociedade é preciso atuar em muitos fronts, sem desprezar nenhum, incluindo o campo do direito, as manifestações, o ativismo político no sentido estrito e o campo comunicacional e suas múltiplas janelas, disputando o direito de significar, de falar, de se representar e se sentir representado, de não ser invisível, de ser mais do mesmo ainda que diferente. Um viva para Clanessa!



Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:

Não, não vai acabar diretamente com a homofobia no Brasil.
Sim, mas foi um passo importante na discussão que está sendo travada sobre o tema, porque a emissora de maior visibilidade do país bancou essa cena polêmica.
Sim, a Globo quer faturar audiência.
Não, não redime a Globo de todos os seus crimes ideológicos.
Sim, a Globo conseguiu a proeza de ser mais pra frente do que o governo Dilma, essa vergonha em políticas de combate à homofobia.
Não, não foi o primeiro beijo gay em novelas brasileiras.
Sim, mas foi a primeira vez que o beijo final, destinado ao casal principal, foi um beijo entre dois homens.
Sim, é super conservador esse negócio de só existir felicidade via casamento/família etc.
Sim, mas no momento atual é muito importante e pertinente mostrar, como cena final de uma novela, uma família de dois homens e seus filhos, principalmente com as discussões que têm sido travadas na sociedade brasileira sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Não, não foi um beijo caliente.
Sim, foi um beijo amoroso entre duas pessoas que se amam.
Não, não apaga tudo o que o personagem fez de maldade durante a trama toda.
Sim, W. Carrasco acertou a mão neste final e os atores (Solano, Fragoso e Fagundes) deram um show.
Não, não redime a canastrice da novela e as cenas ridículas que Carrasco nos obrigou a aturar.
Sim, foi o coroamento de uma atuação magistral, a de Matheus Solano como Felix.
Sim, o amor muitas vezes redime e promove o perdão. O amor muitas vezes cura.
Sim, foi uma cena referência ao final de Morte em Veneza.
Sim, terminou sem o tradicional "fim" após a cena final. Vida que segue...
Não, não gerou uma aceitação unânime.
Sim, mexeu com o imaginário nacional, colocou o tema na pauta do fim de semana, gerou reações de torcida como se fosse final de copa do mundo.
Sim, foi um #chupafeliciano e #chupabolsonaro e #chupamiriamrios e #chupamalafaia que deu gosto de ver.
Sim, era só uma novela.
Não, não era só uma novela. Era um importante lugar de representação, de disputa cultural, discursiva, a cena final de uma novela das oito, em que tradicionalmente o último beijo cabe ao casal principal da trama, e dessa vez esse casal foi REPRESENTADO por dois homens.
Não, uma novela das oito da rede Globo não é, no Brasil, só uma novela. E tem que ser muito cínico pra fingir que não se sabe disso.
Sim, ainda há muito para ser feito na "vida real".
Mas, sim, sim, foi muuuuuito legal ver parte significativa da minha TL no Facebook e no twitter emocionada, comemorando, festejando. Porque todo mundo sabe o que tava em jogo ali. Quem finge não saber se faz de besta, por ignorância, conveniência ou cinismo.
Sim, a cena foi linda pra caramba, a luta por representação foi linda, mas bonito mesmo, de emocionar, foi ver a alegria de todos os que são diariamente massacrados pela ausência de representação ao lado da ausência de princípios básicos de igualdade que, pelo menos por alguns breves segundos, se sentiram minimamente representados.
Se as pessoas não conseguem ver o passo que essa cena significou para a auto-estima e para a luta em torno da representação, com todos os problemas que isso obviamente ainda carrega, sinto muitíssimo, mas talvez esteja faltando um pôr-do-sol e a mão de um ente amado para ajudar a curar a cegueira...


Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
tinha esquecido desse vídeo, mas meu querido aluno Alexandre me lembrou. Uma das maiores vergonhas alheias do mundo. A cara de espanto e constrangimento dos índios; a roupa dela imitando uma veste índigena norte-americana; a hora em que ela solta a cabeleira loura; a dança final... que vergonha alheia!!!!

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
vira e mexe me deparo com essa interpretação magistral da Gal Costa, perdida em meu mp3. Sempre me emociono e aumento o som. Lindão!
De quebra, vídeo divertido do Fantástico e mais os figurinos da época. !977. hehe.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
LOST acabou semana passada. Sei que muita gente já falou sobre isso, mas quero pitacar um pouco também (blog é pra isso, né mermo?). Afinal, foram longos seis anos acompanhando uma série genial, na minha concepção, da qual sentirei muita, mas muita saudade mesmo.

Primeiro quero falar da série em si. Nem preciso me referir aprofundadamente às quebras narrativas. Todo mundo já falou disso, e achei muuuuito genial, pioneiro, original etc. Amei o clima de mistério, a construção das personagens na ilha e fora dela, os sustos, as explicações, as teorias, as horas que passei navegando lendo e me informando sobre LOST, minha ansiedade esperando para baixar os episódios, sua capacidade transmidiática, o show de atuação de seu elenco (com as exceções etc., tipo fiasco Santoro) e, principalmente, as histórias de amor, amizade, superação, heroísmo, ambiguidades, maniqueísmos e quebras dos mesmos, enfim, eu amei o caráter humaníssimo da série. Me identifiquei, sofri, chorei, fiquei pasmada algumas vezes, num entendi nada tantas outras, fiquei em êxtase quando as tramas faziam sentido, achei alguns episódios perfeitos, enfim, mais uma vez tive que berrar, ai que delícia é a cultura de massa! :)

Sobre o final, quero falar especialmente. Muita gente odiou. AMEI, AMEI, AMEI. Cada um tem o direito a achar o que quiser, é claro. Mas tem gente que num gostou meio pq num entendeu a estrutura narrativa. Não, não estavam todos mortos na ilha. O último a morrer na ilha, pelo menos aos nossos olhos de espectadores, foi Jack (cena linda!). Outros escaparam. Não sabemos o que aconteceu com eles depois, não nos foi mostrado. A história da ilha de LOST e seus estranhos mistérios (em sua maioria, ao menos) foram fechados com a morte de Jack. Finito.

Mas os roteiristas resolveram nos dar um presente. E nos deixaram assistir, de forma paralela ao que estava se desenrolando na Ilha, o que aconteceria, de forma mística, numa vida pós-morte. A gente assistiu paralelamente, algumas coisas se cruzaram paralelamente (se não, num seria LOST, né?), mas mesmo conectada com a história da ilha, aquela que víamos como paralela era, na verdade, uma história posterior à morte de todos os personagens, mas que só poderia ser vivida e percebida por eles quando o herói da série cumprisse sua missão, se sacrificasse e finalmente percebesse que a fé superava a ciência. Quando isso acontecesse, aqueles sujeitos, que eram os perdidos no mundo antes de se perderem na ilha, teriam chance de encontrarem, se reconhecerem e viverem finalmente uma vida de amor e redenção (a porta estava aberta e o Pastor Cristão - Christian Shepard - estava mostrando o caminho). Antes disso, porém, enquanto esperavam o momento do reencontro, todos teriam tido a chance, ao menos os que estavam prontos (não é a isso que se refere Hurley quando fala que Ana Lucia ainda não poderia saber do que estava acontecendo?), de ter reescrito um pouco suas vidas, de forma a ajeitar algumas pendências da vida anterior. Quase uma limpeza de karma. :) Mais ainda, para além da metáfora da vida, uma forma de nos dizer, eles, roteiristas, que aqueles personagens não morreram também para nós, que suas histórias os transformaram e nos transformaram e que não seríamos brindados de forma acachapante com uma cena final de morte trágica do grande herói, tantas vezes chato, tantos vezes cético, mas tão retrato de nós todos, sem um abrandamento deste baque através de uma cena com todos se encontrando, se reconhecendo, se abraçando.

Místico? Cristão demais? Cafona? Pode ser tudo isso. Mas confesso que me tocou. Talvez pela minha fase de transformação, fico grata pelas metáforas ficcionais que falam de possibilidade de superação e recomeço, pela idéia de que as coisas não morrem mas se recriam, que nos lembram que é do encontro que nasce a mudança, de que as coisas idas não precisam ser findas e de que o amor é a tal da fonte de luz, o que faz de uma ilha perdida uma analogia com a vida da gente, suas perdas, mistérios, recuos, mortes e desrazões, mas sempre uma história que valeu a pena ser contada e ser vivida.

Para quem quiser mais coments, inclusive mais aprofundados sb a série e sb o final, recomendo as análise do Dude, we are Lost e as análises perfeitas do Leonardo "Jerry" em todos os tópicos de análise de episódios do fórum da comunidade Lost Brasil, no orkut.
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Minha mãe e meus irmãos sempre debocharam de minha euforia com Friends. Me achavam nerd e meio idiota pq eu ria muito com aqueles seis (meus irmãos me acham muuuito otaku, hehe). Mal sabiam eles que em casa eu era comedida pra caramba, eles precisavam ver como que eu assistia Friends quando estava no laboratório de jornalismo que coordenava lá na Castelo... eu e meus amados estagiários ríamos de gargalhar, muito, e era de praxe parar a aula às 20:00 pra assistirmos o episódio inédito da terça-feira. Ai, ai, aquilo era uma tradição maravilhosa.


Friends foi a primeira e mais amada série que acompanhei. Até hoje choro de rir qdo vejo episódios esparsos. E qdo deprimi feio em fevereiro último com as então sombrias perspectivas sobre minha saúde, foi a eles, meus amiguinhos, que recorri para gargalhar e esquecer, vendo compulsivamente um episódio atrás do outro.

Depois tive outras paixões: Lost, Dexter e The L Word. Claro que vi tb partes de uma penca de outras séries, desde Felicity (a piranha com o gravador, hahahaha) até Will and Gracie, passando por The 70's show até Weeds, por aí vai... Mas gostar mesmo, gostei dessas quatro que listei acima, com Friends em primeiríssima.

Ontem, num fôlego só, vi/revi toda a terceira temporada de The L Word. E chorei pacas com a morte de Dana, minha personagem preferida. Essa coisa de série é estranha mesmo. A gente se apega de uma forma que o troço fica na cabeça, a gente se envolve, é meio tipo novela mas num é, sei lá, parece amigo da gente. Bem, difícil de explicar. Acho que só os otakus me entendem. ;)