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Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Quando Hermann Hesse, escritor alemão, foi contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, ele escreveu ao seu amigo de longa data Thomas Mann dizendo: "E muitos velhos leitores meus alegraram-se porque agora fica claro que a fraqueza que tinham por mim não era apenas um pecado" (HESSE, Hermann e MANN, Thomas. Correspondência entre amigos. Rio de Janeiro: Record, 1975:87).

Pensei nisso quando recebemos, essa semana, a maravilhosa notícia de que a tese da minha querida Flora Daemon, já publicada em livro pela Garamond em 2015, Sob o Signo da Infâmia. Das violências em ambientes educacionais às estratégias midiáticas de jovens homicidas/suicidas, que tive o prazer de orientar, foi contemplada com Menção Honrosa no Prêmio Capes de Teses 2015. Flora (comigo a reboque, hehe) recebeu muitos parabéns, o que muito nos honrou. Mas o prêmio, a meu ver, só deixou claro o que eu já havia dito muito antes, desde que terminei de ler o material que ela havia me enviado: trata-se de uma tese excepcional, feito com coragem e talento.

Sobre a tese, digo de novo: é excepcional, é pra todo mundo ler! Quem quiser saber o que penso dela mais detalhadamente, pode ler, na íntegra, o doce e orgulhoso prefácio que tive a honra e o prazer de escrever para o livro: link aqui. Como explico por lá, na tese a autora "escolheu compreender o que leva jovens a optarem por gravar seu nome na história a partir de atos infames, praticando o que Flora Daemon tão bem conceituou como crimes que envolvem “estratégias comunicacionais de inscrição post mortem”. Trata-se, em geral, de ações praticadas em lugares públicos, como escolas, em que esse jovens atiram em várias pessoas, deixando um rastro de mortos e feridos, culminando sua performance com o suicídio. E que têm em comum, além dessas características, o fato de envolverem a produção do que a pesquisadora chamou de “pacotes midiáticos”, que são disponibilizados das mais diversas formas (...)". Como digo ao fim do prefácio (na verdade, um pósfácil, porque o livro fala por si), trata-se de"uma leitura imprescindível para todos, porque precisamos de mais humanidade, mais compromisso, mais complexidade, mais reflexão".

O prêmio, como brincou Hesse a respeito do seu Nobel, confirmou a todos que "a fraqueza que eu tive pela tese não era apenas um pecado". :) Trata-se de trabalho urgente e definitivo sobre o tema, que precisava ser encarado de frente. Flora Daemon deu show! Agora até a CAPES e o mundo sabem. ;) Eu já sabia.

Mas para além da alegria com essa premiação e a possibilidade de fazer o comentário jocoso aí em cima, hehe, as congratulações me fizeram pensar também sobre essa coisa de orientação. Não sou uma orientadora das mais mais. Não é falsa modéstia, não falo isso pra colher louros, sou ariana, preciso disso, não. Por exemplo, sou uma professora de excelência, sei disso, me dizem isso e sei disso. Mas como orientadora tenho lá meus percalços, não escondo de ninguém, não é das atividades acadêmicas que mais amo no mundo. Tenho dificuldade de me concentrar no tema dos outros (Flora Daemon sabe disso como ninguém, hahaha), não respondo prontamente a emails, não tenho paciência com dramas exagerados de orientandx, acho tudo meio chato, enfim, como disse, sou ariana antes de ser orientadora, hehe. Aí fiquei cá comigo se merecia mesmo esses parabéns que recebi a reboque do prêmio justíssimo de Flora, porque foi um trabalho tão autônomo, tão próprio, tão autoral...

Mas depois fiquei pensando que tenho três características como orientadora que talvez estejam aí merecendo uns aplausos mesmo: 1) sempre procuro garantir a autonomia dx orientandx pra que elx, de fato, desenvolva seu potencial no ritmo e do jeito que elx achar melhor. Na medida do possível (porque a mesma CAPES que premia é a que verga o chicote, né?), ou seja, dentro das cobranças e prazos cruéis, procuro entender as temporalidades do povo que cola comigo nessa viagem maluca de orientação, o jeito de escrever, as escolhas teóricas e metodológicas, as afinidades acadêmicas, mesmo as contradições e confusões. Tento, de todo meu coração, reconhecer e respeitar as idiossincrasias e não pressionar ninguém. E procuro lembrar que é só um TCC, só uma dissertação e só uma tese, não é a vida, que é bem maior do que isso e não cabe no Lattes. Em geral, dá certo! ;); 2) não me furto a encher orientandxs de afeto. Acho que afeto move o mundo, nos faz melhor, por isso não economizo. Algumas vezes quebro a cara, mas é da vida. Em geral, isso rende mais do que bons trabalhos, rende maravilhosas amizades para a vida toda; 3) por fim, sempre leio TUDO e ATENTAMENTE. Faço revisão, faço crítica, dou sugestão, elogio. Leio várias vezes. Oriento pra valer. Posso não ser a rainha da paciência nem da concentração em relação ao que o outro está me falando, mas meus orientandxs sabem que podem contar com minha leitura, comentários, dicas.

O resultado disso tem sido muito bom. Não é a coisa que mais amo fazer, tal de orientação, mas no geral os frutos são saborosos e belíssimos. Vide aí o prêmio justísimo da Flora. Quando a gente consegue encontrar nxs orientandxs um pouco disso tudo aí, autonomia, interesse pela pesquisa, espírito crítico, criatividade, investimento, vontade de mudar o mundo, junto com afeto, caráter e amizade, tiramos a sorte grande. Por vezes num rola e os sentimentos são de decepção, ingratidão e desilusão. Doem, mas acontecem pouco e passam rápido. No geral, pela soma de tudo, vale muito a pena. Mesmo pra uma ariana impaciente e desligada. Florite, te amo, esse prêmio é seu, você merece muito, eu já sabia, que bom que agora todo mundo sabe que essa fraqueza de elogiar sua tese num era apenas um pecadinho meu. ;))))
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Cena 1 - meados de 2014: mesa de bar em niter, com orientanda discutindo rumo da tese e coisas da vida. Cerveja e coca-cola rolando, mesa do lado de fora prum cigarrinho. Uma hora resolvo ir ao banheiro. Bar já estava fechando, porta de ferro abaixada, portinhola pra atravessar. Vou com um pouco de dificuldade, dou uma leve tropeçada, nada muito dramático, ok. Na volta, quando vou transpor a mesma portinhola, a pessoa rapidamente se levanta, sem falar nada, fica em pé ao lado da porta e me dá a mão pra me ajudar a atravessar. Não faz qualquer comentário, não pergunta se quero ou preciso, só se antecipa e me ajuda. Estava lá, de boa, bebendo, mas se levantou para me auxiliar. Agradeço. Sentemos e seguimos com a conversa.

Cena 2 - segundo semestre de 2014: passo o semestre com problema chato de dor no ombro, causado por uma artrose, que me impede vários movimentos. Por vezes me esqueço pela força do hábito e repito os mesmos, pego peso, sinto dor. No decorrer do semestre todo, um aluno e duas alunas, de períodos e turmas diferentes, individualmente e sem combinar, sempre ficam conversando comigo no fim da aula, muitas vezes com outros alunos em volta. E sempre, sempre, sem falarem nada, pegam minha pasta ou mochila ou bolsa e carregam pra mim, até a saída do prédio e até o carro. Não me perguntam se preciso, não se oferecem, não fazem qualquer comentário sobre o problema do meu ombro. Só se antecipam e me protegem. Podiam ir embora antes, não têm qualquer obrigação de fazer isso, mas ficam até o final. Agradeço. Mas sem muito estardalhaço.

Cena 3 - dezembro de 2014: banca de defesa de TCC em cinema. Não conheço muito a formanda, só de vista e de alguns encontros fortuitos, nunca foi minha aluna. Calor forte, ar condicionado ligado e também o ventilador. A aluna está apresentando seu tema, na sala estamos eu, o orientador e outro membro da banca. Enquanto ela fala, eu, que estou sentada embaixo do ventilador, por um momento sinto mais frio e discretamente me encolho, nada muito grave, portanto, faço um gesto contido. Não falo nada para não atrapalhar a apresentação. A aluna, então, sem interromper o que está falando, se levanta e desliga o ventilador. Não fala nada, não pergunta se estou com frio. Percebe o pequeno gesto e se antecipa. O ventilador estava longe dela, não a incomodava em nada, mas procurou o meu bem-estar. Não agradeço para não atrapalhar.

Cena 4 - fevereiro de 2015: churrasco vegetariano na casa de amigas. Noite divertida, todas rindo e conversando. Uma das anfitriãs, que conheci naquele dia, está sentada na mesa redonda do lado oposto ao meu. Muitas estão fumando. Eu, inclusive. O cinzeiro está do lado dela, longe de mim. Alguém está contando uma história divertida, não quero atrapalhar, me esforço um pouco pra bater a cinza, nada muito grave, dá pra fazer isso, só preciso me esticar um pouco, mas não falo nada. A anfitriã, assim como eu e as demais, está atenta ao que está sendo falado, mas discretamente, sem falar nada e sem me perguntar se gostaria ou preciso, chega o cinzeiro um pouco mais pro centro da mesa. A cena se repete mais uma vez, melhorou bem mas ainda está um pouco longe, não preciso me esticar tanto mas preciso me afastar do encosto da cadeira, mas o gesto é bem mais discreto. Mais uma vez, sem falar nada, ainda olhando para quem fala, a anfitriã move mais uma vez o cinzeiro, o coloca no centro, pra que todos possam usá-lo igualmente, eu e ela inclusive, embora para ela, que estava fumando também, seria muito mais cômodo manter o cinzeiro perto de si. Agradeço ao final.

Quatro casos. O que unifica essas pessoas e essas histórias? Em primeiro lugar, as gentilezas pequenas, mas que causaram um bem enorme; em segundo, a presteza no préstimo, sem necessidade de perguntar se era preciso ou esperar agradecimento; em terceiro lugar, o olhar para o outro, a percepção da demanda do outro, a preocupação em ajudar o outro, a atenção para com o gesto do outro; em quarto, o silêncio do ato, que se exprime só no gesto e não requer nem justificativas nem valorizações; e por fim, o fato dos autores das façanhas acima descritas não terem a mínima ideia que me marcaram tanto, que vira e mexe lembro desses pequenos flashes de afeto e o quanto me senti agradecida pelas suas ações. To agradecendo agora e pedindo: não percam esse olhar generoso e amoroso para o mundo. Ele cria atos simples de humanidade, como os que descrevi acima, que comovem como o diabo, como já dizia o poeta.


PS: se os heróis dessas proezas plenas de gentileza me autorizarem, coloco seus nomes neste texto. ;) Eles autorizaram, então lá vai: obrigada, Marina Dutra; Luiza Gomes; Raphael Azevedo; Tassiana Benamor; Juliana Bravo e Susana Amaral! 

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Bem, faz tempo que não escrevo sobre os livros que ando lendo por aqui. Mas recessos e férias são tempos de leituras não acadêmicas. Nesse fim de dezembro de 2013 e janeiro de 2014 tô lendo algumas coisas bem interessantes, outras menos um pouco. Vou partilhando minhas impressões.

Li "Adeus, China. O último bailarino de Mao", de Li Cunxin (SP, Editora Fundamento, 2008). Tem filme também, mas esse ainda não vi. Achei o livro bem interessante, embora, obviamente, super anti-comunista e americanófilo, incluindo elogios pro casal Bush, George e Barbara, que dão um nojinho bonito. Mas, no geral, achei bem escrito e a trajetória do personagem principal é bem interessante, em todos seus aspectos humanos, culturais e, vá lá, políticos. Antropologicamente, bom pra conhecer um pouco mais da fascinante lógica da polissêmica e difusa cultura chinesa. Destaque pra nos lembrar como a nossa relação com os odores é construída culturalmente. Citando a parte em que Li Cunxin volta à China e a sua vila natal depois de anos exilado: "Enquanto percorríamos a estrada poeirenta rumo à vila, pude sentir o cheiro característico do campo, que me era tão familiar: fezes humanas, ainda usadas como fertilizante. As memórias da infância voltaram imediatamente. Como eu gostava daquele cheiro! Assim, eu tinha certeza de estar em casa" (p. 376). Me lembrou o velho cheiro de vinhoto, que subia da cana colhida em Conceição de Macabu, que deixava enlouquecidos os visitantes, que não o suportavam, e que afetivamente amávamos, eu e meus companheiros de infância, por nos lembrar exatamente esse tempo feliz.


Outra leitura dessas férias foi o badalado "Fim", de Fernanda Torres, seu romance de estréia (SP, Companhia das Letras, 2013). Como já disse em post no FB, achei assim, assim. Me lembrou a pegada de "Leite Derramado", de Chico Buarque, que também achei assim, assim.
 O querido companheiro de FB Leonardo Nascimento me deu uma boa definição: faltou algo orgânico. Sim, acho que é isso, em parte, falta vida, falta mergulho, falta densidade. Mas também, fiquei pensando depois, em um longo engarrafamento, falta empatia (mesmo problema que senti com "Leite derramado"). Acho os personagens uns manés. Babacas. Não me sensibilizam por nenhum aspecto. Não torço por eles, nem a favor nem contra. Não me comovo. Não me envolvo. Acho um bando de chato. Sou indiferente a eles. É o tal do orgânico de que falou o Leonardo, ficou devendo mesmo.

E agora terminei "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra", do Mia Couto (São Paulo, Companhia das Letras, 2003), presente da querida Marilena, amiga de minha mãe, e um dos preferidos da minha amiga Maricota. Olha, é bonito pra caramba. Tem frases inesquecíveis. Meu amigo Marildo vai amar muito, tô doida pra emprestar pra ele (nós temos uma troca maravilhosa de livros, amo!). Mas num é um autor que fala comigo, incrível. Não me sensibiliza. É bonito, bem escrito e criativo pra caramba. Fundamental pra pensar sociedades pós-coloniais, tô dizendo, Marildo vai fazer a festa.Mas comigo não rola.
E tô feliz porque vou começar a ler "As confissões de Feliz Krull", de Thomas Mann. Porque esse aí, caramba, como fala comigo, amo plenamente. Tal do gosto, né? Cada um constrói suas afinidades eletivas, sabe-se lá o porquê. Mas para não ser injusta, duas frases belíssimas do livro do Mia Couto, para honrá-lo nesse post:

"Minha tia é mulher de mistério, com mal-contadas passagens no viver. Ela estivera fora, antes do meu nascimento. Não fora muita a distância mas era o além-margem, o outro lado do rio. E isso bastava para que nada soubéssemos dela. Que país é este que a pessoa se retira um meio-passo e já está no outro lado do mundo?" (p. 146).
"Como é que você encontrou este lugar? Mas ela negou. Os lugares não se encontram, constroem-se." (p.189).
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
“Infelizmente, os vândalos não tinham youtube nem facebook...”

Tenho discutido em sala, com alunos, acerca da necessidade de se disputar os sentidos na luta pela hegemonia do significado. Por força das circunstâncias, parte da discussão acabou recaindo sobre o signo “vândalos”, muito em voga nesse contexto de mobilizações sociais. “Vândalos” foi o termo eleito pela grande mídia para classificar e, automaticamente, desclassificar a ação de parte dos manifestantes, em especial a que envolvia enfrentamento com a polícia, uso de pedras e força, destruição de patrimônio privado e público, saques etc. Mas, de forma geral, passou a ser sinônimo claro de toda ação envolvendo enfrentamento com a polícia, mesmo com as evidências indicando que a brutalidade, a violência, o atentado à vida e à ordem partiram, na maior parte das vezes, da própria polícia, o que levaria, no mínimo, a uma necessidade de relativizar-se quem, nestes casos, seriam os “verdadeiros” vândalos. Esta é uma forma de lutar pelo sentido e tem sido usada: o de associar o mesmo tom pejorativo e estigmatizante que a palavra carrega aos que ocupam o lugar da ordem e da civilização, colando o rótulo no comportamento policial e não no dos manifestantes.
Esta é a mesma estratégia que encontramos em cartazes e imagens que mostram descasos na área da saúde, educação, transportes, com hospitais e escolas deteriorados, serviços precarizados, mau uso do dinheiro público, ilustrados com frases do tipo: “quem são os verdadeiros vândalos?” e “Vandalismo é isso”. Também nesse caso, a disputa parte de um reconhecimento do significado vitorioso (“vândalos” são os que atentam contra a ordem pública e deterioram a cidade e a sociedade), e o que se desloca em termos de disputa é o sujeito em quem se colará o preconceito, e não o sentido da palavra em si.
Entendo que talvez seja importante, no entanto, lutar pela palavra em si, pelo signo enquanto significante deslizante, peça fundamental na arena de disputas pelo significado. Segundo a wikipedia, o primeiro a associar o termo com um “espírito de destruição” sabia perfeitamente disso, como podemos ver no trecho abaixo:
“O termo "vandalismo" como sinônimo de espírito de destruição foi cunhado no final do século XVIII, , em janeiro de 1794, por Henri Grégoire, bispo constitucional de Blois; ele cunhou o termo e o tornou comum através de uma série de relatórios para a Convenção, denunciando a destruição de artefatos culturais como monumentos, pinturas, livros que estavam sendo destruídos como símbolo de um ódio ao passado de “feudalismo”, "tirania da realeza" e "preconceito religioso", durante o Reino do Terror. Em seu livro Memoirs, ele escreveu: "Inventei a palavra para abolir o ato". “(linkaqui, o grifo obviamente é meu!)
“Inventei a palavra para abolir o ato”! Henri Grégoire estava por dentro: o discurso é ato, cria mundo, gera não só a interpretação da realidade, mas a própria realidade, que para além de existir materialmente, é sempre construção social. Então precisamos, penso eu, assim como Grégoire, re-inventar a palavra para instaurar o ato. Pois quem eram os tais dos vândalos? O que eles tinham, fizeram, criaram, para além da representação consagrada e hegemônica de terem sido o tal povo que saqueou Roma em 455, “destruindo muitas obras primas de arte que se perderam para sempre” (no mesmo verbete da Wikipedia que citei acima). Aliás, quem não saqueou Roma naquele contexto, não é, minha gente??? Vândalos ficaram com a fama, meio injustamente (esse argumento tá aqui nesse simpático trabalho escolar).
Mas nas duas fontes que citei até aqui, o verbete e o trabalho, não temos praticamente uma única linha sobre a cultura vândala (e nem em inúmeras outras fontes que encontramos quando digitamos no google as palavras-chave “cultura dos vândalos” e outras em torno destas). Só sobre sua suposta origem geográfica, que seria ali pela Noruega, segundo consta. Ponto engraçado esse, pois a Noruega num me parece um lugar muito atrasado hoje em dia, se quiséssemos usar os mesmos critérios do ocidente “civilizado” para desclassificar um povo/grupo/etnia como vândala, atrasada, bárbara, selvagem etc. Se fossemos por esse caminho, poderíamos perguntar: ué, então a herança vândala num seria tão perversa assim? Pois taí, mais um sentido pra disputar.... mas não é esse o caminho que escolheremos percorrer aqui.
Continuando, as fontes só falam deste aspecto e, principalmente, da invasão vândala na parte oeste da Europa, na França, Itália, Portugal, Espanha... e destruindo tudo, segundo as fontes e o senso comum e o discurso em ato do Grégoire e a mídia tradicional e as autoridades brasileiras. Ah, e parece que eles migraram para oeste forçadamente, porque foram atacados pelos hunos. Pera aí: então eles reagiram a uma agressão? Então os hunos seriam os “verdadeiros” vândalos??? Num parece semelhante com o que apontei acima, no caso recente brasileiro? Não faltam disputas significativas, pelo que podemos ver... mas também não seguiremos por essa vereda.
Pois, para concluir essa parte, quer dizer que as principais referências sobre os vândalos são construídas pelos povos que, supostamente, eles destruíram? Não se tem algo mais vândalo, por assim dizer, sobre o ser vândalo, só um olhar ocidentalizado sobre a identidade vândala? Aí fica complicado, né?  Não parece semanticamente muito justo que a representação sobre o outro seja construída na ausência do outro, só abarcando o outro visto pelos olhos do “um”, principalmente um “um” rancoroso e posteriormente vitorioso. Mais uma vez, não parece semelhante com o que faz a mídia no que tange às representações dos manifestantes como vândalos? Não fica faltando a representação que os “vândalos” teriam/têm deles mesmos?
Não sou uma especialista em História romana nem vândala etc. Tô aqui na humildade procurando referência sobre a cultura dos vândalos, no bom e velho google, por que fiquei curiosa sobre essa tal “cultura vândala”. Tá difícil. As referências são quase todas no naipe do que citei acima (origem nebulosa e saque de Roma etc.). Mas a gente pode fazer um exercício imaginativo, creio eu (claro que deve ter muito livro porreta sobre a cultura vândala, penso, mas num tá fácil de achar na internet, não. Então, vamos seguir com o que encontramos). Vamos pedir ajuda dessa fonte aqui. Nela, o autor descreve os povos “bárbaros” (vândalos dentre eles), assim:
“A maioria destes povos organizavam-se em aldeias rurais, compostas por habitações rústicas feitas de barro e galhos de árvores. Praticavam o cultivo de cereais como, por exemplo, o trigo, o feijão, a cevada e a ervilha. Criavam gado para obter o couro, a carne e o leite. Dedicavam-se também às guerras como forma de saquear riquezas e alimentos. Nos momentos de batalhas importantes, escolhiam um guerreiro valente e forte e faziam dele seu líder militar. Praticavam uma religião politeísta, pois adoravam deuses representantes das forças da natureza (...).”
Sei lá, posso imaginar um povo festeiro, com uma rica cultura rural, uma mitologia complexa e interessante, uma ética ligada a valores como honra e valentia, num sei, coisas assim. Devem ter sido muito interessantes, esses vândalos. E provavelmente deixaram uma contribuição rica para o caldeirão que formou a cultura ocidental no decorrer da Idade Média, depois que amalgaram com os povos do oeste. Nosso autor aí de cima concorda:
“A mistura da cultura germânica com a romana formou grande parte da cultura medieval, pois muitos hábitos e aspectos políticos, artísticos e econômicos permaneceram durante toda a Idade Média”.
Temos, então, um outro quadro, de difícil apreensão. Os vândalos teriam uma riqueza cultural que não conhecemos, porque a história que nos chega não foi escrita por eles. Contribuíram, assim como outros povos, para a cultura ocidental, mas seu registro na história é o de saqueadores e destruidores. Passaram a ser estigmatizados em um momento, segundo o wikipedia, de atribuição explícita de sentido, no século XVIII, pelo tal Grégoire. E é neste recorte de sentido, apresentado como verdadeiro, que a mídia hegemônica ancora a representação dos manifestantes brasileiros atuais como vândalos.

Minha proposta? Lutar pela positivação da palavra “vândalos”, e não negá-la e empurrá-la como uma praga semântica para o outro. Vamos nos apropriar do vandalismo como essa riqueza cultural que não foi contemplada e reconhecida, como essa voz que nunca foi ouvida, como esse povo que sob pressão teve que se mover e construir novos sentidos para sua vida... Vamos ser vândalos com orgulho, mas não por que quebramos tudo, mas por que somos aqueles que não puderam ter voz na história, que não tiveram sua cultura registrada e reconhecida, que são traduzidos pela hegemonia com a perversão do sentido único, fetichizados pelo olhar colonizador em um misto de desejo e repulsa. Vamos nos libertar do sentido dado, pronto, fechado, e recusar não só estigma de ser classificado como vândalo = baderneiro, mas recusar principalmente o estigma a que foram confinados os próprios vândalos, de quem sabemos tão pouco. Os vândalos também foram oprimidos pela história hegemônica e, de certa forma, também é nosso dever lutar por eles. Infelizmente, os vândalos não tinham nem youtube nem facebook e acabaram sendo relegados, pelo olhar dominante, a um lugar fixado: o da destruição e da ausência de história própria. Devemos, por eles e por nós, desconfiar disso e lutar pela flexibilidade dos sentidos. Somos todos vândalos, não somos todos vândalos, nem mesmo os vândalos, pelo visto, eram os vândalos... e é isso o que importa da cultura, como me ensinou Stuart Hall, que ela seja essa imensa “arena de disputas pelo direito de significar”.



"Enfim, ser "vândalo" é atrapalhar um projeto estabelecido de cidade, é romper com a ordem (raríssimos são os contextos onde consigo ouvir esta palavra sem sentir calafrios, se existem, no momento, eu não me recordo!), sair do lugar das exclusões e dos silêncios... Mas isso, todo bárbaro ("o outro") é, não é mesmo? Sem dúvida, mas o estigma histórico colocado aos "Vândalos" nos indica o peso, o grau da ameaça, da potência e das transformações que geraram pra "civilização"... Logo, carregar, na atualidade, os mesmos estigmas é imprimir aos manifestantes a mesma potência transformadora. Ameaçadora. E, só por sentir o medo na fala do opressor, qualquer estigma vale a pena" (este ótimo parágrafo final, escrito a partir da reflexão acima, é uma colaboração da Patricia Cormack, disputando os sentidos e propondo outras leituras. Show!)
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Hj tive o desprazer de assistir ao inacreditável discurso da dep. estadual Myriam Rios (sim, ela foi eleita! Sim, me recuso a postar aq e ofender ao meu blog querido!) sobre suas posições acerca das leis anti-homofobia (ela está se opondo ao PEC 23/2007, que na surdina foi votado e derrubado no dia 21/06/2011. Saiba mais aqui e vejam no que dá ter tolerância com quem é intolerante. Mais uma regressão no campo legal, que lamentável!). Não deveria mais perder tempo com essa gente que não se sabe se age assim por má fé (que ironia, né?), ignorância, medo, obscurantismo, vontade de aparecer, ah, nem sei mais como classificar essa profusão de falas homofóbicas, preconceituosas e discriminatórias que são emitidas em público com um suposto aval da democracia, do livre pensamento religioso, do sei lá mais o quê. Para mim, são discursos ofensivos e empobrecedores do debate, mas, principalmente, extrapolam o campo dos argumentos e geram ações como a derrubada do PEC 23. Portanto, resolvi que num dá para me omitir e não comentar a surreal fala acima citada.

Vamos aos pontos:

1) ela afirma, no discurso, que se o PEC 23/2006 for aprovado ela ficará impedida de demitir um empregado se ele for pedófilo. Oi? gente, pelo amor de Deus, avisa pra essa senhora que pedofilia é crime, então ela pode sim não só demitir como principalmente denunciar um pedófilo! O que ela não pode é fingir que num sabe (porque num é possível, eu sei que ela sabe) que pedofilia não é sinônimo de ser gay, e que existem pedófilos homossexuais, infelizmente, mas também infelizmente pedófilos heterossexuais (e muitos, minha senhora, muitos!). Portanto, se seu empregado, hetero ou homossexual, for um pedófilo, a senhora deve mesmo demiti-lo, denunciá-lo, fazer de tudo para que ele não possa agir nem perto de seus filhos nem dos filhos de ninguém (estratégia melodramática muito usual e eficiente, a de chamar a comoção do público para seus argumentos usando da seguinte frase: "sou mãe de dois filhos", usada não só por Myriam Rios, mas por tantos outros "defensores da família" e, em nome disso, defensor dos preconceitos também, vide a fala de Leilane Neubarth que já comentei nesse post). Mas o que a senhora não deveria (e se tudo correr bem, se o mundo for justo, com aprovação posterior dessa Lei - ela ainda terá que ser objeto de apreciação mais uma vez - ou de outras, como a PL-122, o que a senhora NÃO PODERÁ) é imputar a uma pessoa um rótulo criminalizável, como associar a um homossexual a acusação de pedofilia, a priori, porque isso é discriminação e também calúnia e difamação.

2) Vamos entrar agora nesse surreal argumento "Quero dizer que não tenho preconceitos, que não estou discriminando ninguém", pra depois sair discriminando a torto e a direito, povoando o mundo de
preconceitos e estigmas aviltantes. Vou repetir: NÃO PODEMOS TOLERAR QUE OS DEFENSORES DO PRECONCEITO, ESSES ARAUTOS TOTALITÁRIOS QUE QUEREM IMPOR SUAS VISÕES DE MUNDO SOBRE OS DIREITOS DOS OUTROS, ADVOGUEM DIREITO DE IGUALDADE DE OPINIÃO, DIREITO DE EXPRESSAR SEU PRECONCEITO PORQUE ISSO É DEMOCRÁTICO. Não, não é. É totalitário, já escrevi sobre isso nesse post e não vou me repetir. Mas não aceitamos mais esse argumento. Bata no peito e assuma: sou totalitário, quero despedaçar você, por ser diferente de mim, não quero que você tenha o mesmo direito que eu, e aí a gente conversa. Fora isso, para mim você está se portando duplamente como um cínico e um preconceituoso.

3) Ela repete várias vezes: "imagina vc contratar um empregado para cuidar de seus filhos e depois descobrir que ele é homossexual". Essa dimensão do "descobrir" me lembra muito a sempre atual obra de E. Goffman, Estigma (senhora deputada, vença seu medo do conhecimento, procure ler esse livro, venha para a luz, Caroline!). Nele, Goffman distingue os desacreditados (aqueles que portam estigmas visíveis, marcas corporais, e serão discriminados por isso) e os desacreditáveis (aqueles cujos estigmas são passíveis de disfarce e manipulação, por não serem marcados pelo traço físico objetivo, mas que se forem descobertos serão discriminados). Para os primeiros, os estigmatizados/desacreditados, o problema está no contato, pois este é marcado sempre por uma situação tensa em que a materialidade do estigma evoca o preconceito e a discriminação. Para os segundos, os estigmatizáveis/desacreditáveis, o problema é a informação, o controle sobre ela, quem pode saber, quando, onde... trata-se de uma situação de absoluta tensão e neurose, já que sobre o desacreditável paira a sombra do medo de ser descoberto.
E a deputada Myriam Rios, que acha mesmo (será que acha?) que não está discriminando ninguém, quer perpetuar exatamente esse medo, essa tensão, essa neurose. Ela quer que seu empregado (olha, me recuso a comentar o quanto esse exemplo sobre contratar empregados como único meio de contato com homossexuais é chocante, nem o caráter classista dessa exemplificação) continue se escondendo, mentindo para se proteger, controlando as informações acerca de sua vida privada para não ser descoberto, porque se for, segundo o que sugere a deputada, o levaria a perder o emprego. E ELA VEM DIZER QUE ISSO NUM É DISCRIMINAÇÃO!!!! Ah, num tem como ter paciência com esses argumentos.

4) Podia falar aqui do estado laico, da necessidade de contermos, com urgência, esse avanço das posições religiosas sobre questões de direitos individuais, mas isso já vem sendo pauta de inúmeros artigos e falas (recomendo, por exemplo, essa entrevista com o deputado federal Jean Wyllys). Prefiro abordar aqui a importante questão levantada por H. Bhabha a respeito das relações ambíguas entre colonizadores e colonizados. Segundo ele, os colonizadores, buscando situações de controle e dominação, esmagavam os direitos dos colonizados, oprimindo-os. Para isso, deslegitimavam qualquer fala destes, acusando-os de uma não humanidade, de inferioridade, de representarem o perigo da anomia, o primitivismo. No entanto, mostra Bhabha, ao mesmo tempo que oprimem e desqualificam os colonizados, os colonizadores os fetichizam, transformando-os em objeto ambivalente, significante de um misto de temor/medo com fascínio/desejo. A ação de sujeitar o outro, antes de significar somente um atestado de poder, demonstra Bhabha, é uma alegoria de uma ambiguidade constitutiva da relação colonizado/colonizador: lugar de temor e também de desejo, o colonizado precisa não só ser domesticado, mas principalmente fetichizado, para que o opressor possa lidar com seus medos e seus desejos, como o medo/desejo de, de alguma forma, ser dominado por aquele a quem domina ou, em última instância, tornar-se um deles, e o pior, gostar de tornar-se, desejar tornar-se aquilo que em tese se abomina.

Acho essa uma excelente forma de pensarmos a relação da hegemonia heterossexual em relação ao homossexual. Claro que não estou propondo aqui uma aplicação colonizador e colonizado ao pé da letra, mas pegar por empréstimo o que Bhabha aponta existir, no jogo perverso do fetiche, de medo e desejo nas relações de dominação.

Porque venhamos e convenhamos, essa fixação de uma parcela de religiosos brasileiros com a questão dos direitos homossexuais pode ser pensada claramente nesses termos do fetiche. Aliás, frente aos últimos acontecimentos, já estamos no campo da obsessão.

Portanto, acho que esse bando de preconceituosos travestidos de bons samaritanos está precisando mesmo é de uma bela de uma ... terapia gigante! Ou, pelo menos, de dar uns bons beijos na boca. Talvez parassem com essa encheção.


Terminarei com um "Você dedide" particular. No filme "O grande debate", o orador negro, que vencerá ao final o desafio dos debates que perpassa o filme, termina seu consagrador discurso sobre a segregação racial norte-americana com a seguinte observação (não lembro ao pé da letra, então é mais ou menos isso): "frente ao que vocês nos fizeram, só nos restava escolher entre a desobediência civil e a violência. Vocês têm sorte por termos escolhido a desobediência civil". Ora, não precisamos chegar a tanto por aqui. Não precisamos nem de um nem de outro caminho. Escolhemos o de lutar no campo das leis.

Mas deixo aos discriminadores, esses falsos cristãos, que fingem que pregam o amor ao próximo mas só tem, como narciso, amor a si mesmo, o seguinte direito de escolha: abaixo endereço duas mensagens a vocês. Dependendo do seu comportamento em relação a mim, te ofertarei uma delas. Agora é com você!




Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Terminei de ler o belíssimo e comovente O arroz de Palma, romance de Francisco Azevedo sobre memórias familiares (Rio de Janeiro, Record, 2008). Chorei em vários trechos. Muito, muito sensível mesmo.

Como já disse antes, ando interessada em livros de memória, para o curso que eu e Marildo daremos na pós no segundo semestre de 2011. Tenho lido muitos, e cada um tem sua especificidade. Mas tenho me dedicado em especial a memórias familiares. Nesses, alguns eixos acabam tendo importância, me lembrando muito Michel de Certeau. São modos de falar, de cozinhar, de dispor dos objetos, de ocupar os espaços... fazendo uma certeira mistura de casos particulares com narrativas universalistas. Cada família é uma, mas ao mesmo tempo encerra arquetipicamente a todas.

Em Arroz de Palma, estão lá todos esses modos de fazer com... Em especial, maneiras de cozinhar, que funcionam como metáforas para o próprio viver. Totalmente atravessado por pistas culinárias, o livro indica que o guardião da arte de preparar os pratos tradicionais da família é também o guardião das memórias da mesma, o que tempera, o que deve buscar os sabores e preparar a família "a moda da casa".

O livro mexeu comigo não só pelas memórias familiares, mas exatamente por esse atravessamento da arte culinária. Tenho descoberto, nos últimos tempos, que gosto de cozinhar tanto quanto gosto de dar aulas. Ou seja, é misto de paixão e vocação. Tenho aprendido e me desafiado com coisas novas na cozinha, estou testando receitas, buscando novos pratos, aprendendo e me recriando. Adorando, sempre. Nem sinto o tempo passar. Mas no fim de tudo, o povo prova os pratos todos, elogia, incentiva, mas vibra mesmo, sempre, desde vinte anos atrás, com meu arroz. Sim, meu arroz, esse prato simplicíssimo, é o meu maior sucesso em termos culinários. Não tem quem não elogie, todo mundo baba por ele...

Sei não, mas me lembra muito minha relação com o ensinar. Posso variar as matérias, buscar coisas novas, estudar, aprender, me aprimorar. Mas o povo gosta mesmo é do meu arroz, qdo dou os clássicos, ensino o básico, vou lá na raiz, dou o melhor de mim no partilhar do aprendizado, dou a melhor de minhas aulas. Aí, num tem quem não elogie, todo mundo baba por ela... :)))))

Pra terminar, trecho muito legal do livro, que já me servia de mantra pra vida de forma instintiva, mesmo antes de ser verbalizado e sintetizado no parágrafo que se segue:

"Cedo descobri que o que mais queria na vida era o poder. O poder estar sempre com as pessoas que eu amo, o poder andar despreocupado pelas ruas, apreciar cenários, paisagens, bichos, gente que passa. O poder tomar outro caminho só porque naquela direção um verde me despertou a curiosidade. O poder trabalhar no que me alegra. O poder ser dono do meu tempo e fazer o que quiser sem precisar me aposentar. O poder estar disponível para quem está perto e precisa. O poder ter certeza de que o abraço recebido é de afeto e não de interesse. O poder ser eu mesmo e envelhecer saudável. Céus, como ambiciono todo esse poder" (p. 235).
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Nesse post aqui, contei a história do mito de origem desse blog: a vontade de resmungar sobre uma notinha surreal que tinha lido, há muitos anos, num jornal local de Niterói. Mas lamentavelmente, eu dizia no post, tinha perdido o jornal com a tal nota.

E eis que agora, arrumando meu escritório finalmente, achei o tal jornal perdido em uma gaveta. Trata-se de uma edição de março de 2004 do Correio Oceânico, que nem sei se existe mais.

Pois lá na penúltima página, esperando por mim, está a tal nota (num vou dizer quem assina porque já passou mt tempo e pode num ser justo). Mas vou reproduzir aqui, como uma homenagem a meu mito de origem fundador do Baiúca, isso lá nos idos de 2004. :)))

E vai a pérola (e vou até me abster de coments mais profundos, pq nem precisa. Mas só uma pequena dica: reparem no título):

"Reflexão.
A quem diga que não é certo o racismo, preconceitos e tentativas de subornos. Pois são os próprios que praticam tais atos é que os pregam em forma diferente. O pior é que essas pessoas andam coladinhas na gente, que vergonha!".

Só tenho uma coisa a dizer: hahahahahahahaahahahahahahahahaha!

Adorei ter achado essa relíquia. :) Agora sim, o Baiúca do Baudelaire está oficialmente fundado!
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Diz o velho Aristóteles em Ética a Nicômaco: "A vida de atividade é conforme à virtude aprazível por si mesma, pois o prazer é um estado da alma, e para cada homem é agradável aquilo que ele ama; e não apenas o cavalo dá prazer ao amigo de cavalos e um espetáculo ao amador de espetáculos, como também os atos justos aos amantes da justiça e, em geral, os atos virtuosos aos amantes da virtude".

Isso tudo pra falar da busca pela felicidade, fim finalíssimo, sumo bem, que se busca a partir de escolhas morais e das formas de vida que se escolhe. Para ele, a mais nobre seria a vida contemplativa, em que se buscam as virtudes. Mas, no entanto, d
iz Ari, por vezes, tópicas, a felicidade se encontra na resolução de conquistas mais mundanas, almejadas na vida vulgar. Riqueza, quando se é pobre; o ser amado, quando se está apaixonado; saúde, quando se está doente; etc.

Quero seguir nas lutas justas, ah, mas como entendo meu querido Aristóteles. Venho passando por tantos problemas chatos de saúde, que estão requerendo imensa paciência e cuidados dos que me amam, me levando a travar pequenas mas intensas lutas diárias, para me estabilizar novamente.
..

Concordo com Ari que a felicidade, a grande, só mesmo na vida política e na vida contemplativa, em que as conquistas são para todos e, como estão apoiadas nas virtudes, nada, nenhum revés ou intempérie do destino, pode retirá-las de você.

Mas, em algumas momentos da vida, sem dúvida, como sábio Ari já nos diz
ia, a felicidade está nesse pequeno bem, o cavalo para os que amam os cavalos, a saúde para quem está doente... sem esquecer que existem outros bens mais justos e nobres, que sejam para todos e nao para si. Mas também sonhando com esse momento de libertação daquilo que oprime, desanima, impede, cansa, aquela pequena mas tão grande conquista, ficar bem, sentir-se bem, respirar em paz.

Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Tá certo. Já são dois posts sobre o cara. Mas é q eu acho que ele escreve muito, mesmo. E tenho uma leve impressão que não devo parar por aqui. :)

Acabei de ler o novo do Nick Hornby, Juliet, nua e crua (Rocco, 2010). Gostei muito. A trama gira em torno de um casal inglês na faixa dos 40 em crise no seu relacionamento há 15 anos. Em torno dessa relação, a obcessão por um cantor de relativo sucesso nos anos 80, que estaria condenado ao ostracismo absoluto se não fosse a internet e as possibilidades de comunicação que as redes sociais digitais permitem. E aí o livro fica duplamente genial: de um lado, uma abordagem sensível e irônica das relações amorosas e cotidianas, o que aproxima o livro de outros de Hornby e de muitos outros autores; de outro, uma leitura original, irônica e muito analítica do mundo contemporâneo e de sua interseção com as Novas Tecnologias de Comunicação e Informação, o que faz do livro um pioneiro. Eis a receita para um livro perfeito, na minha opinião, é claro: de um lado um mais do mesmo (conflitos em torno do amor), de outro algo bem original e ainda pouco explorado (a abordagem sb música e novas tecnologias), ao menos em romances. Bem, gostei muito e recomendo pra valer pros que estudam e se interessam por novas tecnologias, música digital, redes sociais e pessoas de um modo geral.

De brinde, uma daquelas frases de Hornby q marcam a gente pra sempre. Nessa, ele está refletindo sobre a escolha de Annie, a personagem feminina principal, que deixa de ser professora para ser diretora de um pequeno museu. Apesar de satisfeita com a escolha (mezzo satisfeita, como podemos ver na história), pois ela não gostava de dar aula, ainda assim ela sente saudades de alguns momentos. E aí Hornby nos presenteia com a mais precisa definição do que seja dar aula, pelo menos para mim, que tô há 17 anos nesse rolo (tá lá na pag. 41):

"Certo, havia algumas coisas de que ela sentia falta: aquele sentimento que tinha quando uma aula ia bem, quando tudo eram olhos brilhantes e uma concentração tão densa que parece quase úmida, alguma coisa que parece grudar na roupa".

Tem como não amar esse homem?
Karina Limeira Brandão, mais conhecida como anaenne:
Quando tive a idéia de criar o Baiúca, e isso foi muuuito antes do post do "agora vai" lá de 2004, pensei em criar um blog principalmente pra poder falar das coisas absurdas que cotidianamente lemos, vemos, recebemos midiaticamente ou não.

A inspiração foi uma nota surreal em um jornal desses de bairros, que são distribuídos gratuitamente na padaria, aqui de Niterói, que peguei e li na praia. Numa coluna, a autora, cujo nome não me lembro, compôs uma nota que era uma pérola de ponta a ponta, algo sobre discriminação. Infelizmente, não achei mais o recorte com a tal nota (sim, havia um recorte, pois havia o desejo de começar o blog comentando essa fatídica nota), mas gostaria de prestar uma singela homenagem ao seu texto, ao menos à sua frase inicial, que era mais ou menos assim:

"Há quem diga que o preconceito não é uma coisa boa."

Essa frase impressionante nunca me abandonou. Infelizmente, como já disse, não tenho o restante, era do mesmo naipe, mas um brinquinho em termos de falta de noção.

Assim, o sonho do blog era esse, o de gongar falas e falantes, imagens e aparecentes. Nunca tive tempo e talvez talento pra fazer isso direito. Agora tô aqui dando umas peruadas, mas timidamente.

No entanto, tive o prazer de descobrir que tem gente com tempo e talento de sobra pra gongar essa gente tudo. Vou elencar abaixo os meus três blogs favoritíssimos. Leio todo dia. Queria ser essa gente debochada. São meus ídolos. Sem eles, minha vida - e a de muita gente - seria muito, mas muito pior. Obrigada, meus reis!

- Te dou um dado? - o melhor de todos, disparado, sou doida por essa gente, em especial Tia Lelê e Tia Polly.

- Kibeloco - adoro! Principalmente os vídeos. (http://twitter.com/kibeloco)

- Katylene - quando acerta a mão, me faz rir por muito tempo. Sinto falta do velho e inesquecível, o campeão dos campeões, papelpobre. Mas esse tb me dá muitas alegrias. (http://www.twitter.com/katylene)

Esses três num é só questão de recomendação, é de salvação mesmo!